VALORES PARA O CULTIVO DE COMUNIDADES DE PRÁTICA DE PROFESSORES NA INTERFACE ESCOLA-UNIVERSIDADE
Douglas Grando De Souza, Ives Solano Araujo, Eliane Angela Veit
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIX
- Ano
- 2022
- Data
- 19/08/2022
- Linha de pesquisa
- 02 - Formação E Prática Profissional Do Professor De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## VALORES PARA O CULTIVO DE COMUNIDADES DE PRÁTICA DE
## PROFESSORES NA INTERFACE ESCOLA-UNIVERSIDADE VALUES FOR CULTIVATION OF TEACHERS COMMUNITIES OF PRACTICE AT THE INTERFACE SCHOOL-UNIVERSITY
Douglas Grando de Souza 1 , Ives Solano Araujo , Eliane Angela Veit 2 3
1 Universidade Federal do Rio Grande do Sul, douglas.grando@ufrgs.br
2 Instituto de Física, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ives@if.ufrgs.br 3 Instituto de Física, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, eav@if.ufrgs.br
## Resumo
Comunidades de Prática (CoP) oferecem grande potencial para amparar processos de Formação Continuada de Professores (FCP), permitindo que profissionais atuantes em ambientes escolares e universitários possam se engajar em uma aprendizagem compartilhada. Cultivar CoP é trabalhoso, mas pode ser facilitado pela promoção de valores comuns aos seus participantes. Nesta pesquisa se investigam valores relacionados à importância da participação em uma CoP de professores atuando na interface entre Escola e Universidade que podem servir de base para o cultivo de novas relações comunitárias. Recorrendo às experiências de participantes do Núcleo de Pesquisas em Inovação Curricular da USP, entre os anos de 2003 e 2013, foi possível determinar 13 conjuntos de valores que podem estimular o desenvolvimento de um compromisso entre sujeitos participantes desse tipo de CoP. Consideramos que, a partir dos elementos identificados, o estabelecimento de relações comunitárias voltadas à FCP de Ciências passa necessariamente por uma dimensão valorativa da sua participação.
Palavras-chave : Formação de Professores; Comunidades de Prática.
## Abstract
Communities of Practice (CoP) offer great potential to support processes of In-Service Teachers Education (FCP), allowing professionals working in schools and universities to engage in shared learning. Cultivating CoP is laborious, but it can be facilitated by promoting common values among its participants. This research investigates values related to the importance of participating in a CoP of teachers at the interface between School and University that can base cultivating new community relationships. Using the experiences of participants in the Núcleo de Pesquisas em Inovação Curricular from USP, between 2003 and 2013, we determine 13 sets of values that can stimulate the development of a commitment among subjects participating in this type of CoP. We consider that, based on the identified elements, the establishment of community relations aimed at the In-Service Teachers Education of Sciences necessarily goes through the value dimension of its participation.
Keywords :Teachers Education; Communities of Practice.
## Introdução
Os vínculos de colaboração entre Escola e Universidade têm sido reconhecidos como parte fundamental da promoção de Formação Continuada de Professores (FCP). Entretanto, os modelos formativos correntes tendem a distanciar docentes atuantes nesses dois espaços, muitas vezes restringindo-se a cursos de curta duração voltados à transmissão de recursos e atividades pedagógicas aos professores atuantes na Educação Básica (EB), especialmente nas disciplinas de Ciências da Natureza (BARCELLOS; VILLANI, 2006; EL-HANI; GRECA, 2011; MEGA et al. , 2020). Não promovem, por isso, a legitimidade do conhecimento constituído em sala de aula e o protagonismo na atuação conjunta entre professores atuantes na Escola e na Universidade. Não raro, a parceria de aprendizagem estabelecida cessa ao final do tempo determinado para a FCP (BARCELLOS; VILLANI, 2006; MORICONI et al ., 2017).
Como alternativa à insistente descontinuidade da FCP, as chamadas Comunidades de Prática (CoP) têm se projetado como forma de sustentar a participação e colaboração de profissionais da área de Educação em Ciências interessados em aprender coletivamente (MEGA et al. , 2020). Elementos centrais na Teoria Social da Aprendizagem de Etienne Wenger (WENGER, 2001), essas configurações sociais permitem aos sujeitos construir uma história compartilhada de aprendizagem em torno de uma prática social. Apesar de serem importantes e ampliarem as possibilidades para a FCP, planejar o tipo de relações estabelecidas entre seus membros ainda é um desafio.
Quando Wenger, McDermott e Snyder (2002) propõem indicações ao cultivo de CoP, sob uma perspectiva geral, reconhecem a importância dos valores compartilhados pelos sujeitos em sua participação. Como valores imediatos, conforme denominam Wenger, Trayner e Laat (2011), relacionam-se a legitimidade e importância da participação na prática social. Cultivar uma CoP de professores de Ciências e profissionais da Educação é, em parte, cultivar valores comuns.
Dessa forma, a fim de cultivar CoP na FCP, reconhecer valores que possam sustentar um compromisso comum é um passo importante a ser dado. Para isso, partimos da investigação das experiências de um grupo de pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), que durante uma década promoveu ações ligando professores de Física da EB, professores universitários e estudantes de pósgraduação. Neste trabalho, direcionando nosso olhar para a dimensão valorativa de suas experiências, buscamos responder à questão de pesquisa: Quais os principais valores imediatos demonstrados por participantes de uma iniciativa de FCP na interface entre Escola e Universidade podem ser sugeridos para o cultivo de novas CoP de professores?
## Referencial Teórico
O conceito de Comunidade de Prática surge como uma forma de compreender a aprendizagem como dimensão intrínseca da prática social (WENGER, 2001). Em uma CoP, membros progressivamente se inserem em um fazer conjunto, aprendendo através das significativas trocas, observações e ações colaborativas em sua participação. Por conta do caráter voluntário da imersão nas práticas sociais das CoP, o valor percebido nesta participação é chave e parte
fundamental desse processo de aprendizagem (WENGER; McDERMOTT; SNYDER, 2002).
Na Teoria Social da Aprendizagem de Wenger e seus colaboradores, os valores não se referem a aspirações transcendentais sobre a existência, mas sim ao legitimado nas relações comunitárias. O conceito de valor surge pela primeira vez na frente a necessidade de propor orientações teóricas para o cultivo das CoP, uma vez que a popularização do conceito levou rapidamente a reflexões sobre o cultivo dessas estruturas em escolas, organizações e outras instituições. Wenger, McDermott e Snyder (2002) consideram fundamental 'encorajar os membros da comunidade a explicitarem o valor de sua comunidade' (ibid., p. 60), estabelecendo eventos e atividades que permitam negociar o que é, de fato, importante em suas relações comunitárias e sua parceria de aprendizagem.
Em vista da dificuldade em avaliar os valores, Wenger, Trayner e Laat (2011) desenvolvem uma topografia de valores em torno de cinco ciclos de criação de valor: (1) valor imediato , associado à percepção sobre o que é valioso na própria participação na CoP e na forma como participa; (2) valor potencial , proveniente de ganhos em potencial com essa participação; (3) valor apli c ado , que envolve o valor da condução de uma mudança específica na prática; (4) valor percebido , relacionado à percepção da aplicação efetivamente conduzida; e (5) reenquadramento de valor , a alteração no valor das relações comunitárias advinda de uma mudança específica na prática da CoP. Não há, porém, hierarquia ou linearidade entre os ciclos.
Enquanto os dois primeiros ciclos de criação de valor se referem à participação geral nas CoP, os três últimos dependem de transformações particulares. Assim, esses elementos estabelecem uma forma de distinguir tipos de valores em meio às experiências pessoais de participantes de CoP. Neste trabalho, de modo a contribuir com possíveis valores a serem cultivados em CoP de professores de ciências, enfatizamos a dimensão de valor imediato.
## Metodologia
Por meio de uma pesquisa educacional de caráter histórico, na acepção de Johnson e Christensen (2008), investigamos as experiências de colaboração entre Escola e Universidade vividas no Núcleo de Pesquisas em Inovação Curricular (Nupic) da USP. Professores de Física da EB, professores universitários e estudantes de pós-graduação foram integrantes das atividades em torno de dois projetos de pesquisa financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (FAPESP) na modalidade Ensino Público, entre os anos de 2003 e 2013. Uma narrativa histórica desenvolvida pode ser encontrada no trabalho de Souza, Araujo e Veit (2021), onde é apresentada a razoabilidade de tratar-se de uma Comunidade de Prática.
As fontes históricas de pesquisa escolhidas foram relatos de sujeitos que, no período citado, participaram de atividades do grupo de pesquisa envolvendo os projetos Ensino Público. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com oito participantes que, no período indicado, atuaram como professores de Física da EB (Celeste, Davi e Teresa), professores universitários (Augusto e Aurora) ou estudantes de pós-graduação (Clara, Sofia e Tomás). Os participantes assinaram
um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, e seus nomes foram ocultados sob pseudônimos.
Totalizando cerca de 7h20min, as entrevistas foram transcritas integralmente e analisadas com o auxílio do software NVivo 1 . Utilizamos as orientações de Bardin (2011) para conduzir uma análise de conteúdo das transcrições. Em um momento de pré-análise, após a leitura flutuante das entrevistas, elaboramos indicadores para a realização da codificação e categorização tendo como base a topografia de valores de Wenger, Trayner e Laat (2011). Os indicadores de valor imediato construídos foram: (1) Forma como o participante percebeu sua participação nas atividades ; e (2) Forma como interagiu socialmente nas práticas em que se engajou .
- O processo de codificação foi realizado através da criação de nós no software NVivo, estruturas que permitem organizar trechos de textos, imagens, áudios e vídeos. Como exemplo do procedimento adotado, apresentamos a criação do que chamamos valor específico codificado como Agregação de novas pessoas e abertura do grupo ao externo. Dois trechos da entrevista com Augusto, inseridos em um contexto de afirmação de características positivas do Nupic, indicam sua existência:
'A gente agregou, depois, a gente começou a agregar muito voluntário, então tinha aluno de... graduação que queria começar a se inteirar e vinha, tinha outro professor da rede, que não eram bolsistas, também vinham... uns ficavam mais tempo, outros chegavam e iam embora' (conforme Augusto).
'E… outras pessoas que faziam mestrado e doutorado com outros orientadores às vezes foram tirar dado lá, a gente que trabalhava com argumentação, um monte de coisa que envolveu argumentação, mas não era pesquisa da gente... então a Rebecca mandou alunos lá mas às vezes para tomar dado junto com o nosso grupo, então sempre foi um local ali bem movimentado' (conforme Augusto).
A ideia de que algo importante na participação no Nupic era a abertura de seu espaço social permite a criação do valor específico mencionado. Foram formados 83 valores específicos a partir de trechos codificados com auxílio dos indicadores de valor imediato. Por outro lado, esse valor específico pôde ser ligado a outros, formando o que chamamos de conjunto de valores . O conjunto formado utilizando os trechos mencionados foi intitulado de Abertura do grupo . Ao todo, foram constituídos 13 conjuntos de valores, que serão apresentados e discutidos a seguir.
## Resultados
Apresentamos os valores imediatos como aqueles que revelaram a forma pela qual os sujeitos perceberam a prática em que se engajaram e como reconheceram seu próprio engajamento naquilo que realizavam no Nupic. Ao apresentar os conjuntos de valores identificados, trazemos, a título de ilustração, apenas alguns dos trechos que auxiliaram na sua classificação.
## (1) Abertura do grupo
Como indicado anteriormente, a importância do valor atribuído à transparência e permeabilidade das práticas do grupo era reconhecida pelos entrevistados. Parte essencial da participação no Nupic se dava em torno de novos
- 1 Software de análise qualitativa. Mais informações em: <https://www.qsrinternational.com/nvivoqualitative-data-analysis-software>.
participantes se engajando e a difusão dos conhecimentos produzidos no seu interior.
## (2) Amparo institucional
'O fato de ter o espaço físico e o espaço social era fundamental, porque a interação com os colegas foi muito importante para mim, principalmente por que eu vinha de outra área.' (Sofia)
'Que todos eram bolsistas - essa que é a vantagem, né? […] todo mundo me pergunta 'mas como que a gente conseguia que os professores [de Física da Educação Básica] viessem?' porque eles recebiam uma bolsa [...] para poder, tá, na terça-feira de manhã.' (Augusto)
Os elementos que permitiam, em nível institucional, a existência e continuidade do grupo e sua ação eram constantemente mencionados nas experiências de participação dos entrevistados. Destacam-se o financiamento na forma de bolsas e o espaço físico proporcionado pelo Laboratório de Pesquisa e Ensino de Física (LaPEF), capaz de amparar as relações de trabalho conjunto estabelecidas e fornecer parte dos recursos dessas interações.
## (3) Apreciação pessoal
Esse é o elemento de valor mais abrangente categorizado, referindo-se a uma miríade de percepções pessoais sobre o grupo, suas práticas e sua participação nele. Em geral, os participantes sustentam ter apreciado o grupo, gostando de estar no ambiente do LaPEF, de como interagiam e do que realizavam. Consideram ter participado de uma experiência ' fantástica ' (conforme Teresa), ' interessante ' (conforme Davi e Tomás), ' marcante ' (conforme Celeste), ' rica ' (conforme Sofia) e enriquecedora, que contribuiu para definir a própria vida (conforme Augusto).
## (4) Colaboração
Este centro de valores indica a importância da solidariedade no trabalho conjunto realizado segundo as percepções dos participantes. Os entrevistados demonstraram considerar importante a ' parceria ' (conforme Sofia e Augusto), em que se ' estava ali como pares tentando conseguir alguns objetivos ' (conforme Celeste) concretos e com quem se pode contribuir na aprendizagem mútua. De modo especial, destacamos que ' o interessante da proposta do curso… dessa melhoria na Escola Pública, é que ela também levava em consideração a participação dos professores ' (conforme Davi) permitindo protagonismo aos docentes ao longo da FCP.
## (5) Confiança e respeito mútuos
'[…] não tive qualquer rejeição - muito pelo contrário, fui sempre muito aceito dentro do grupo, né?' (Davi).
'[...] era um ambiente muito agradável, era um ambiente muito sem ruído assim, afetivos ali…' (Tomás).
Houve uma percepção de que as interações no Nupic formavam um ambiente agradável e respeitoso que, mesmo na legitimação das discordâncias, permitia aos participantes não ter medo de se expressar, de tentar e de errar. Era, por isso, um ambiente de aceitação e de possibilidade de contribuição, especialmente relevante por estimular a participação dos professores da EB.
## (6) Continuidade
Uma característica do trabalho no grupo que foi levantada como importante para os entrevistados foi a continuidade que se estabelecia. Valorizavam as rotinas de trabalho, sobretudo considerando como ' proveitosas ' (conforme Davi) as reuniões semanais, e havia um grande desejo dos participantes em dar continuidade aos seus trabalhos.
## (7) Desafio da inovação didática e curricular
Pesquisador: 'E qual era, na sua opinião, o objetivo do Nupic, né? O objetivo maior do Nupic?'
Tomás: 'Ah, cara… Que era justamente a, a… ideia de Inovação, né? [...] buscar práticas que levassem a Física Moderna, principalmente, para a sala de aula'.
A ideia de inovação didática e curricular expressa na transposição de tópicos de Física Moderna e Contemporânea para as aulas de Ensino Médio foi considerada, em nossa análise, como parte fundamental das práticas da CoP investigada (SOUZA; ARAUJO; VEIT, 2021). Ele é ligado ao valor do desafio e da urgência que representava, e permitiu a interpretação de que as práticas realizadas no Nupic assumiam um papel de oportunidades de mudança nas insatisfações dos participantes. Por conta disso, orientava e dava forma às ações dos sujeitos no trabalho coletivo.
## (8) Formação profissional
'Mas era uma vontade minha mesmo, era uma inquietude, era uma insatisfação minha… de estar buscando sempre uma melhor formação minha… aí entra no aspecto de Formação Continuada… uma questão mesmo de continuar melhorando minha formação' (Davi).
'O Nupic tinha um papel importante também… de fazer a ligação entre a Escola e a Universidade [..] Que essa ligação ela não é muito simples de ser feita...' (Clara).
A FCP foi considerada, de igual modo, como um segundo elemento central na prática que caracterizava as relações comunitárias no Nupic (SOUZA; ARAUJO; VEIT, 2021). Eram consideradas importantes tanto a formação para a pesquisa quanto a FCP. Os professores da EB, de modo especial, legitimavam o Nupic como oportunidade de retorno à Universidade e de manutenção de relações nesse espaço de saber.
## (9) Interações sociais horizontais
Há relatos de boas interações sociais em um convívio intenso entre os participantes, especialmente nos primeiros anos do grupo, que formavam um clima de união e garantiam decisões relevantes do grupo em ' colegialidade ' (conforme Augusto). Mesmo em meio às instituições, os participantes destacam a relevância da informalidade no grupo, tornando as relações descontraídas e espontâneas, uma ' grata surpresa ' (conforme Sofia) para muitos dos membros do Nupic.
## (10) Ligação Escola-Universidade
'[…] a diferença do Nupic é que o Nupic começa a se constituir como um grupo de pesquisa que vai tentar trabalhar na interface entre Escola e Universidade' (Augusto).
Também este valor foi considerado, na narrativa apresentada por Souza, Araujo e Veit (2021), como o terceiro elemento do empreendimento conjunto que orientou e delineou os caminhos dos participantes. Os participantes consideravam
fundamental o trabalho entre ambientes do saber que era experimentado no Nupic. Todos os membros partilhavam preocupações com os estudantes do Ensino Médio e suas aprendizagens; e mediavam os interesses dos diferentes participantes desses espaços acadêmicos, de modo a poder sustentar seu objetivo coletivo de atuar entre Escola e Universidade.
## (11) Reflexividade
'[…] toda a semana eu tinha a oportunidade de repensar minha prática em sala de aula a partir do que meus colegas traziam e compartilhavam comigo' (Davi).
Os participantes entrevistados consideravam muito importante o espaço de escuta, diálogo, discussão e reflexão estabelecido no Nupic. Por conta disso, consideramos a reflexividade como um valor que compreende essas percepções dos entrevistados.
## (12) Responsabilidade
'[...] que todo mundo comprou a ideia do projeto… aí a coisa flui, né? Lógico que o levar isso para a sala de aula foi muito pessoal, cada um aplicou de um jeito, levou de um jeito, teve um compromisso maior ou menor de levar para a sala de aula...' (Celeste)
As entrevistas realizadas também permitiram considerar a importância da responsabilidade como valor no Nupic. O grupo existiu como um regime compartilhado de responsabilidades, no qual cada um podia se comprometer e se apropriar pessoalmente do trabalho realizado. Isso permitia ' criar um compromisso ' (conforme Augusto) fosse incentivada e valorizada naquela comunidade social, principalmente com aqueles que se consideravam pioneiros do grupo.
## (13) Trabalhos nos projetos
'Mas acho que isso era [...] não sei como continuaram os grupos depois, não sei se esse tipo de trabalho continua, mas eu acho que foi bastante relevante… o duro sempre é fazer isso chegar a mais gente, e fazer mais gente comprar a ideia, né?' (Celeste)
Por fim, o próprio trabalho nos projetos Ensino Público era visto como um valor. O projeto era considerado pelos participantes como importante e eles demonstravam satisfação ao desempenhar aquele fazer conjunto. Além disso, valorizavam a mudança de posição na realização das práticas do Nupic, sobretudo relacionando-a às novas posições de construção e reflexão ativa dos professores.
## Considerações finais
Ao relatar suas experiências de colaboração no Nupic, pudemos inferir alguns dos valores que conduziram sua passagem pelo grupo. Os valores que identificamos destacam a importância atribuída: às relações sociais, horizontais, baseadas na confiança mútua e em continuidade; às condições institucionais e materiais do trabalho realizados; aos objetivos que dirigiam o trabalho, explicitados na temática de investigação e na atitude frente a FCP na interface entre Escola e Universidade; e à atitude geral partilhada, de abertura do grupo, voltada a reflexividade e convidando a um compromisso pessoal de cada membro.
É possível considerar que a experiência de FCP vivida naquela CoP foi profunda e pessoalmente carregada de valores. Desse modo, ao pensar em uma
formação docente ao longo da carreira sob o modelo das CoP, não é possível centrar-se apenas em uma dimensão cognitivo-intelectual - é preciso permitir que professores possam criar e partilhar valores comuns em seu processo formativo. A dimensão valorativa da participação no Nupic não apenas possibilitou a existência primeira do grupo de pesquisa, mas pode-se considerar que sustentou sua atuação por uma década (SOUZA; ARAUJO; VEIT, 2021).
Os valores apresentados podem, portanto, servir de inspiração para o cultivo de CoP de professores de Ciências. Ainda que não se espere sua reprodução total dos valores característicos do Nupic, os conjuntos de valores identificados apontam para possibilidades de valores que possam ser reconhecidos, promovidos e legitimados em futuras relações comunitárias entre professores da EB e da Universidade.
## Referências
BARCELOS, Nora Ney Santos; VILLANI, Alberto. Troca entre Universidade e Escola na Formação Docente: uma experiência de Formação Inicial e Continuada. Ciência & Educação (Bauru) , v. 12, n. 1, p. 73-97, 2006.
BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo . Trad. Luís Antero Reto e Augusto Pinheiro. São Paulo: Edições 70, 2011. 281 p.
EL-HANI, Charbel Niño; GRECA, Ileana María. Participação em uma comunidade virtual de prática desenhada como meio de diminuir a lacuna pesquisa-prática na educação em biologia. Ciência & Educação (Bauru) , v. 17, n. 3, p. 579-601, 2011.
JOHNSON, R. Burke; CHRISTENSEN, Larry. Educational Research : Quantitative, Qualitative and Mixed Approaches. 5 ed. London: SAGE Publications Inc., 2014. a
MEGA, Daniel Freitas; SOUZA, Douglas Grando de; VERA REY, Elkin Adolfo; VEIT, Eliane Angela. Comunidades de Prática no Ensino de Ciências: uma revisão da literatura de 1991 a 2018. Revista Brasileira de Ensino de Física , v. 42, s.p., 2020.
MORICONI, Gabriela Miranda (coord.); DAVIS, Claudia Leme Ferreira; TARTUCE, Gisela Lobo B. P.; NUNES, Marina Muniz Rossa; ESPOSITO; Yara Lúcia; SIMIELLI, Lara Elena Ramos; TELES, Nayana Cristina Gomes. Formação continuada de professores : contribuições da literatura baseada em evidências. São Paulo: Fundação Carlos Chagas, 2017.
SOUZA, Douglas Grando de; ARAUJO, Ives Solano; VEIT, Eliane Angela. Formação Continuada de Professores viabilizada pela aproximação entre Escola e Universidade: uma narrativa histórica das experiências da iniciativa Nupic (USP). Revista Investigações em Ensino de Ciências (IENCI) , v. 26, n. 3, p. 102-133, 2021.
WENGER, Etienne. Communities of Practice and Social Learning Systems. Organization , v. 7, n. 2, p. 225-246, 2000.
WENGER, Etienne. Comunidades de Práctica: aprendizaje, significado e identidad. Buenos Aires: Paidós, 2001.
WENGER, Etienne; MCDERMOTT, Richard; SNYDER, William M. Cultivating Communities of Practice . Boston, Massachusetts: Harvard Business School Press, 2002.
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