FÍSICA POR SEARS E ZEMANSKY: UM LIVRO DIDÁTICO DE FÍSICA PARA O ENSINO SUPERIOR
Fernanda Fonseca, Nilson Marcos Garcia Dias
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIX
- Ano
- 2022
- Data
- 18/08/2022
- Linha de pesquisa
- 06 - Didática, Currículo E Inovação Educacional No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## FÍSICA POR SEARS E ZEMANSKY: UM LIVRO DIDÁTICO DE FÍSICA PARA O ENSINO SUPERIOR
## PHYSICS BY SEARS AND ZEMANSKY: A PHYSICS TEACHING BOOK FOR UNIVERSITY EDUCATION
Fernanda Fonseca 1 , Nilson Marcos Dias Garcia 2
1 UFPR-PPGE, UNINTER-ESPU, fernanda.fisica@hotmail.com
2 UTFPR-PPGTE/GEPEF/GETET,UFPR-PPGE/NPPD, nilsondg@gmail.com
## Resumo
Nesse trabalho foi realizada a análise da quarta edição do livro Física Eletricidade, Magnetismo e Física Moderna, de Sears e Zemansky, publicado no Brasil em 1973. Buscando compreender como o contexto cultural, político e econômico do período direcionou a composição da obra, a partir da delimitação de conteúdos, abordagens e métodos de ensino adotados, a análise foi realizada por meio de Análise de Conteúdo de Bardin. As categorias emergentes indicaram que o movimento de renovação da educação científica nos Estados Unidos, impulsionado principalmente pela Guerra Fria e a busca por superioridade técnico-científica, expôs a necessidade de produção de materiais didáticos mais adequados aos conhecimentos prévios do público discente, priorizando o ensino dos conceitos e princípios físicos e reduzindo a sofisticação matemática adotada nas explanações. A ênfase no uso do método de indução a partir de descrições experimentais, é predominante como método para o desenvolvimento da perspectiva científica dos estudantes nesse período. A investigação permitiu compreender as múltiplas funções do livro didático na formação do profissional e do conhecimento cultural de uma sociedade historicamente localizada.
Palavras-chave : Livro Didático; Física; Ensino Superior; Ensino de Física.
## Abstract
In this work, the analysis of the fourth edition of the book Física Eletricidade, Magnetismo e Física Moderna , by Sears and Zemansky and published in Brazil in 1973, was conducted. Seeking to understand how the cultural, political and economic context of the period guided the composition of the work, from the delimitation of contents, approaches and teaching methods adopted, the analysis was conducted through Bardin's content analysis. The emerging categories indicated that the movement to renew scientific education in the United States, driven mainly by the Cold War and the search for technical-scientific superiority, exposed the need to produce didactic materials more suited to the prior knowledge of the student public, prioritizing teaching. of physical concepts and principles and reducing the mathematical sophistication adopted in the explanations. The emphasis on the use of the method of induction from experimental descriptions is predominant as a method for the development of the scientific perspective of students in this period. The investigation allowed us to understand the multiple functions of the textbook in the training of professionals and cultural knowledge of a historically located society.
Keywords : Textbook; Physics; University education; Physics Teaching.
## Introdução
Com a primeira edição publicada em 1949, o livro University Physics, de Francis Weston Sears e Mark Waldo Zemansky, foi amplamente utilizado para o ensino da Física nos cursos universitários voltados para a formação de cientistas e engenheiros nos Estados Unidos. Enfatizando os princípios físicos, conforme os autores, as informações históricas e aplicações práticas são secundárias no livro (SEARS; ZEMANSKY, 1969).
Francis Weston Sears nasceu em 1898 e faleceu em novembro de 1975, onze dias após o seu aniversário de 77 anos. Foi um professor de Física e autor de livros didáticos, atuando como docente e pesquisador no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e no Colégio de Dartmouth. Preocupado com o ensino da Física, atuou ativamente na American Association of Physics Teacher (AAPT), recebendo a Medalha Oersted em 1962 pelas suas grandes contribuições para o ensino de Física (ZEMANSKY, 1976).
Mark Waldo Zemansky nasceu em maio de 1900 e faleceu em dezembro de 1981. Assim como Sears, Zemansky também foi professor de Física e autor de livros didáticos. Atuou como docente e pesquisador no City College of New York (CCNY), sendo membro do Nacional Research Council , por meio do qual desenvolveu pesquisas na Princeton University e no Kaiser Wilhelm Institute . Junto com Sears, publicou os livros College Physics (em 1947) e University Physics (cujas edições a partir de 1973 foram publicadas também com Hugh D. Young) (HOFSTADTER; LUSTING; SEMAT, 1982). Mark Zemansky recebeu a Medalha Oersted em 1956 pelas suas significativas contribuições para o ensino da Física nos Estados Unidos.
- O livro University Physics foi originalmente organizado em dois formatos, volume único e dois volumes, sendo traduzido para o português e utilizado no ensino superior brasileiro com o título Física - dividido em três volumes: o primeiro, sobre Mecânica; o segundo, sobre Calor, Acústica e Ótica, e o terceiro, sobre Eletricidade, Magnetismo e Física Moderna.
Com o objetivo de compreender como o contexto cultural, político e econômico do período direcionou a composição da obra, a partir da delimitação de conteúdos, abordagens e métodos de ensino adotados, nesse trabalho será realizada a análise da quarta edição do terceiro volume do livro Física - Eletricidade, Magnetismo e Física Moderna, publicado nos em 1970 nos Estados Unidos e em 1973 no Brasil, traduzido por Jose de Lima Accioli.
## O ensino de Física nos Estados Unidos e no Brasil
Uma vez que o livro em análise se trata de uma tradução de uma obra americana produzida no final da década de 1940 (primeira edição), é preciso compreender as perspectivas sobre o ensino de Física nos Estados Unidos no período.
No final do século XIX, o foco do ensino de Física nos Estados Unidos visava à utilidade prática e a vida cotidiana. O livro didático era, de maneira geral, utilizado para práticas de leitura, sem nenhuma atividade experimental, baseado na recitação, demonstrações ocasionais, mas voltado principalmente para os hábitos de
memorização. O ensino apresentava uma matemática limitada, uma vez que era concentrado em prover informações factuais, ou seja, palpáveis e observáveis nos fatos cotidianos. Em contraste com esses objetivos formativos, ao final dos capítulos, os livros apresentavam uma série de problemas quantitativos para resolução (MELTZER; OTERO, 2015).
Já no início do século XX, ainda segundo Meltzer e Otero (2015), com o estabelecimento de critérios para admissão no ensino superior, a educação científica sofreu uma grande influência da lista de critérios definidos pela Universidade de Harvard, que passou a direcionar tanto o discurso quanto às políticas de ensino e aos livros didáticos. Os cursos tornaram-se muito formais e os livros didáticos muito matemáticos e descontextualizados. A busca pelo desenvolvimento do 'espírito científico' por meio do método indutivo e de práticas de laboratório acabou assemelhando os livros didáticos aos livros de receitas, resultando em memorização e pouca compreensão dos conceitos físicos e dos métodos de investigação científica.
Com o aumento do número de estudantes no ensino secundário e o baixo interesse pelos cursos de Física, o desempenho nos exames de admissão na universidade caiu, levando a uma discussão sobre a necessidade de revisar e reestruturar o currículo de Ciências do ensino secundário. Entretanto, Meltzer e Otero (2015) afirmam que a necessidade de preparação dos cidadãos em uma sociedade industrializada direcionou o foco de ensino não mais para os conceitos físicos, mas para os processos tecnológicos e objetos cotidianos.
Com o final da Segunda Guerra Mundial e início da Guerra Fria, a educação científica ganhou importância na busca por formar físicos e outros cientistas e técnicos. Os físicos dos departamentos de Física das universidades, antes pouco envolvidos na discussão e pesquisa em ensino de Ciências, passaram a se envolver na tentativa de melhoria da formação cientifica do país (MELTZER; OTERO, 2015). Passaram assim a dar grande atenção aos conteúdos da Física, integrando a perspectiva histórica ao currículo e reduzindo a atenção aos equipamentos tecnológicos e às aplicações do dia a dia. É nesse período que foi criado o Physical Science Study Committee (PSSC) e o Project Physics, que se concentraram no uso de textos tradicionais.
Entretanto, somente no final da década de 1960 que o ensino de Física se consolidou como campo de pesquisa nos departamentos das universidades americanas (MELTZER; OTERO, 2015). Esse período (até 1991) é marcado pela movimentação das universidades pela criação e oferta de cursos de formação de professores de ciências tanto para a escola elementar quanto para o ensino secundário nos Estados Unidos.
No Brasil, com a retomada do protagonismo das instituições federais no ensino superior após a década de 1930, que se acentuou entre as décadas de 1940 e 1960, prevaleceu o modelo napoleônico de universidade na organização do ensino no Brasil, que se assenta no Estado, tendo como segundo plano a sociedade e a autonomia da comunidade interna da instituição (SAVIANI, 2010). Por sua vez, o Estatuto das Universidades não garantiu identidade à universidade porque não explicitou suas funções de formação, promovendo ainda a elitização da Educação Superior brasileira, induzida pela reforma de 1931 (SILVA; REAL, 2011). Na década de 1950, o movimento pela reformulação de todo o sistema educacional começa a sofrer influências da organização das universidades americanas, baseado na crítica
sobre à estrutura universitária vigente que instituía as cátedras, à elitização do ensino superior e ao isolamento dos cursos especializados de escolas distintas (SAMPAIO, 1991).
Um marco importante para o início das discussões sobre o ensino de Ciências no Brasil foi a constituição do Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura (IBECC), responsável por desenvolver projetos de ensino no país. Segundo Nardi (2005), a constituição da Fundação para o Desenvolvimento do Ensino de Ciências (FUNBEC), e do Projeto Nacional para a Melhoria de Ensino de Ciências (PREMEN) também se mostram como referências importantes no desenvolvimento do movimento curricular ocorrido entre os anos de 1950 e 1980 no Brasil.
Desde 1838 até o período anterior a 1950, os livros didáticos adotados para o ensino de ciências eram traduções ou adaptações dos mais populares manuais europeus. Esses livros que estabeleciam os conteúdos e direcionavam os métodos de ensino que permeavam as aulas de Física (NARDI, 2005).
A partir da década de 1950, o esforço nacional na produção de livros didáticos para as ciências seria complementado por um movimento curricular, cujas origens se deve aos Estados Unidos (LORENZ, 1995, p. 78). Com a composição do IBECC, as instituições nacionais ficaram à frente da coordenação da produção de materiais didáticos na área de ensino de ciências. Materiais como kits de Química, Física e Biologia foram produzidos para o ensino primário e secundário, assim como o desenvolvimento de feiras, museus e clubes de ciências (BARRA; LORENZ, 1986; NARDI, 2005). Contudo, com raras exceções, os livros didáticos mais adotados nas escolas 'foram aqueles que buscavam atender aos programas dos exames vestibulares' (GARCIA, 2012, p. 148).
Após a década de 1960, os acontecimentos internacionais afetaram as atividades do IBECC. O lançamento do Sputnik acelerou o processo de reformas educacionais do ensino de Ciências nos Estados Unidos (GARCIA, 2012). E, uma vez que os países ocidentais sofriam forte influência norte-americana, da mesma forma que os países da América Latina, educadores desses países questionaram o ensino desenvolvido em suas escolas e o currículo do ensino secundário foi tido como o motivo da falta de qualidade da educação científica, causa atribuída ao enfoque no preparo do aluno para a vida (BARRA; LORENZ, 1986; LORENZ, 2008). Toda a conjuntura do período desencadeou uma reforma do ensino das ciências. Nesse período, a implantação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) - em 1961 - oportunizou a introdução de materiais já adotados em outros países nas instituições de ensino brasileiras. Segundo Nardi (2005) e Lorenz (2008), o IBECC foi responsável pela tradução e adaptação dos novos projetos americanos, com auxílio da Fundação Ford. Mas somente em 1967 que foi criada a FUNBEC, com o objetivo de industrialização da produção de materiais didáticos e oferta de cursos de formação docente. Essa instituição foi responsável pelo desenvolvimento de programas específicos para o ensino superior.
A conjuntura histórica, política e social de todo esse período, desencadeou uma busca pelo aperfeiçoamento e melhoria da formação técnico-científica nos países ocidentais, unida com a definição de padrões de seleção para ingresso no ensino superior. Esse movimento levou a uma nova perspectiva de educação científica que redefiniu conteúdos, abordagens e métodos de ensino fomentados por projetos, associações e comitês, pesquisas e ação de docentes da área de Ensino de Física (MELTZER; OTERO, 2015; NARDI, 2005). Da mesma forma, houve um
grande esforço para aprimoramento da formação dos profissionais do campo científico e tecnológico de nível superior. Foi essa cinestesia que fomentou a produção e revisão dos livros didáticos tanto do ensino básico como para a educação superior.
## O livro didático
No decorrer na história, é possível observar como a perspectiva de educação científica muda, sofrendo desvios na sua trajetória decorrente da cultura, do desenvolvimento político e econômico, das lutas de poder e das vivências daqueles que estão envolvidos no processo de educação. Da mesma forma, o livro didático assume diversas finalidades, transmitindo valores, ideologias e culturas que vão além do conteúdo técnico-científico, e sofre mudanças no decorrer do tempo.
A sociedade é dinâmica, cujas concepções e valores culturais se transformam nos diferentes períodos históricos. Diante disso, o livro didático atua como um depósito de conhecimentos e técnicas julgados serem oportunas para os jovens para a manutenção dos seus valores. Revisões e reformas curriculares demonstram que se entende que há uma necessidade de reformular a estrutura de ensino e o programa de conteúdos, uma vez que os conteúdos resultam de uma seleção cultural decorrente de uma herança cultural, assim como também resultam de imperativos didáticos e da própria visão da cultura escolar (CHOPIN, 2000).
Segundo Batista (1999), um dos fatores que interpelam a produção dos livros didáticos está relacionado às condições educacionais e pedagógicas, associada às formas de uso desses materiais. Outra condição que orienta e modela os manuais didáticos está sujeita à conjuntura social e política. O livro didático apresenta-se não apenas como um recurso educacional, mas como uma forma de veiculação de valores, ideologias e cultura das classes dominantes (CHOPIN, 2000). Muito longe de ser considerado um objeto banal, a complexidade do livro didático decorre da multiplicidade de suas funções em conjunto com a coexistência de outros recursos e materiais educativos e a diversidade de agentes que direcionam seu uso e constituição. As instituições de ensino e os livros didáticos por elas utilizados encaminham a constituição de conhecimentos, saberes que são incorporados tanto pela sociedade como um todo, como pela comunidade científica e erudita (BATISTA, 1999). Segundo Chopin (2004, p. 552), 'o estudo histórico mostra que os livros didáticos exercem quatro funções essenciais': (a) Função referencial, na qual o livro assume o papel de suporte de conteúdos educativos; (b) Função instrumental, em que o livro didático apresenta-se como um instrumento de concretização de métodos de aprendizagem; (c) Função ideológica e cultural, na qual o livro didático é portador e transmissor da linguagem, da cultura e dos valores das classes hegemônicas, sendo instrumento de construção de identidade; (d) Função documental, quando o livro didático é tido como como fonte de materiais para o desenvolvimento do espírito crítico do aluno.
## Uma análise do livro Física do Sears e Zemansky
Nesse trabalho apresentam-se resultados da análise do Prefácio e do capítulo 31 - A Lei de Coulomb - da quarta edição do terceiro volume do livro Física, publicado no Brasil por Francis W. Sears e Mark W. Zemansky e traduzido por José L. Accioli em 1973, que trata sobre Eletricidade, Magnetismo e Tópicos de Física
Moderna. Foi realizada a Análise de Conteúdo de Bardin (1977), partindo dos dados e construindo a partir deles as categorias e, em decorrência, as inferências.
A partir da leitura dos textos do livro, foram identificados trechos que caracterizaram unidades de registro e contexto para análise. Uma descrição do texto também foi elaborada e fragmentada em unidades de análise. Todas essas unidades, por sua vez, foram classificadas em seis categorias de análise: (i) Públicoalvo; (ii) Contexto da educação americana; (iii) Objetivos formativos; (iv) Métodos pedagógicos; (v) Abordagens históricas; e (vi) Abordagens tecnológicas.
A categoria Público-alvo descreve para quem o livro foi concebido, calouros dos cursos das áreas de ciências e engenharia cuja base matemática e física não é muito profunda, considerando que o aluno possa (ou não) estar cursando concomitantemente as disciplinas de cálculo.
Já na categoria Contexto da educação americana descrevem-se alguns acontecimentos contemporâneos à publicação da obra. Registra o crescimento do número de alunos nos cursos de Física na década de 1960, um período em que projetos e ações implementadas por organizações - como a Commission on College Physics e o Physical Science Study Committee , entre outras -, organizavam materiais didáticos voltados para a educação científica, direcionados pelo desejo (e necessidade) do aprimoramento da formação científica e matemática da sociedade.
A categoria Objetivos formativos mostra que o livro apresenta um viés formativo que busca o treinamento e o desenvolvimento do raciocínio por meio de métodos indutivos e desenvolvimento de problemas. Entretanto, diante da busca pela melhoria da educação científica e das formas como as organizações atuam para tal fim, o que os autores classificam como um objetivo 'demasiado ambicioso', o livro procura se adequar ao nível de conhecimento preexistente do aluno.
Os métodos adotados para atingir esse propósito educacional são descritos pela categoria Métodos pedagógicos, que mostra que os autores priorizam o ensino dos conceitos e princípios físicos e reduzem a sofisticação matemática. Conhecimentos históricos e aplicações são saberes complementares, mas não são foco principal do ensino. As explicações são acompanhadas de ilustrações (em preto e branco) e exemplos resolvidos após a explanação de cada tópico. A predominância no texto é de descrições experimentais, que suscitam análises e conclusões a partir do uso do método da indução. As experiências históricas são explanadas de forma sintética, apenas para uma rápida percepção do raciocínio do cientista.
O enfoque na História da Física, assim como outras abordagens, permeia o texto de forma breve. Na categoria Abordagens históricas, a apresentação de informações históricas é inserida para contextualização dos conteúdos e denotar brevemente as associações entre diferentes cientistas. Semelhantemente, como descreve a categoria Abordagens tecnológicas, fica em segundo plano no texto.
## Conclusões
Os livros didáticos de ensino superior produzidos e amplamente utilizados na década de 1960 abordavam principalmente os conteúdos padrões da Física, com delimitações conceituais e sofisticadas discussões matemáticas (MELTZER; OTERO, 2015). Nesse período, a perspectiva histórica é integrada ao currículo e a atenção aos equipamentos tecnológicos e as aplicações do dia a dia é reduzida.
Esse movimento foi provocado pela necessidade de mudanças na educação científica nos Estados Unidos, estimulada pela corrida tecnológica pós-guerra que caracterizou a Guerra Fria, estimulada pelo lançamento de Sputnik pela União Soviética (MELTZER; OTERO, 2015). Esse período é marcado por um crescimento rápido do número de alunos nos cursos de Física, o que tornou necessário rever os métodos de ensino. Contudo, o desejo de uma educação científica de excelência dificultou ainda mais os processo de aprendizagem, uma vez que os materiais produzidos não atendiam à demanda formativa dos estudantes, que ingressava no ensino superior sem bases profundas de matemática e física. Diante disso, Francis W. Sears e Mark W. Zemansky propuseram uma edição do livro University Physics na qual a sofisticação matemática é reduzida, visando uma aproximação da realidade dos conhecimentos prévios dos estudantes iniciantes dos cursos das ciências e das engenharias, mantendo o foco nos princípios físicos e nos métodos indutivos que permeavam a educação desse período, explorando uma abordagem experimental em suas descrições e explicações.
A perspectiva pedagógica demonstra que o livro analisado se apresenta como um conjunto de conhecimentos organizados, mas de aprofundamento relativo, com função conjunta de 'caderno de exercícios' que tanto direciona a metodologia e os conteúdos a serem ministrados, como também é subordinado à abordagem dada pelo professor em sala de aula. Dessa forma, segundo Chopin (2004), o livro analisado demonstra assumir uma função referencial, por servir como suporte de conteúdos educativos, transmitindo os conhecimentos que a comunidade científica julgou como necessários para o desenvolvimento do 'espírito científico', e uma função instrumental, na qual assume o papel de direcionador de métodos de aprendizagem - como o treinamento objetivado com a proposta de exercícios e/ou atividades ao final do capítulo e o método indutivo para análise e compreensão dos conceitos e princípios físicos. Pode-se ainda nele perceber a função ideológica e cultural, uma vez que se mostra como um compêndio dos conteúdos delimitados e selecionados pela comunidade científica -físicos dos departamentos das universidades - assumindo a função de transmissão de valores, ideologias e cultura dessa classe, fundando e modelando a identidade daqueles que serão formados sob sua utilização. Por fim, da mesma forma que o livro permite a continuidade de tradições também desencadeia resistências ao seguir na contramão dos livros didáticos utilizados anteriormente, que buscavam a aproximação do material ao conhecimento do estudante. Em um contínuo movimento concomitante, o livro didático, a cultura e a sociedade como um todo se interpelam, se moldam e se transformam.
## Referências
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