REPRESENTATIVIDADE FEMININA NA CIÊNCIA EM LIVROS DIDÁTICOS DE FÍSICA
Amanda Do Rêgo Moura, Gustavo Isaac Killner
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIX
- Ano
- 2022
- Data
- 17/08/2022
- Linha de pesquisa
- 11 - Equidade, Inclusão, Diversidade E Estudos Culturais E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## REPRESENTATIVIDADE FEMININA NA CIÊNCIA EM LIVROS DIDÁTICOS DE FÍSICA
## FEMALE REPRESENTATION IN SCIENCE IN PHYSICS TEXTBOOKS
Amanda do Rêgo Moura 1 , Gustavo Isaac Killner 2
1 Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo, amandiesy@gmail.com
2 Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo, gustavoik@ifsp.edu.br
## Resumo
Os livros didáticos são recursos utilizados em diversas salas de aula, que junto ao texto escrito trazem elementos visuais, como figuras e imagens que ilustram o material e ajudam a construir significados e dar enfoque a determinados elementos. Como são construções sociais, os livros didáticos tendem a trazer marcas da cultura na qual estão inseridos. Nesse sentido, a pesquisa buscou identificar como as mulheres são representadas em três volumes de uma coleção de livros didáticos de física para o Ensino Médio. Para tal, partindo de uma concepção binária, realizou-se inicialmente uma análise quantitativa das imagens femininas em comparação com as masculinas, identificando também quantas mulheres representadas eram negras. Em seguida, realizou-se uma análise qualitativa das imagens, que foram separadas em seis categorias, a fim de observar como se deu a construção dessas representações. Os resultados indicaram que nos livros didáticos analisados as mulheres possuem pouca representatividade, sugerindo que esses materiais podem naturalizar concepções geradas no patriarcado e contribuir para o afastamento feminino na produção de conhecimento científico.
Palavras-chave : Livros didáticos de física; Representatividade feminina; Ensino de física; Mulheres na Ciência.
## Abstract
Textbooks are resources used in several classrooms, which together with the written text bring visual elements, such as figures and images that illustrate the material and help to build meanings and focus on certain elements. As they are social constructions, textbooks tend to bring marks of the culture in which they are inserted. In this sense, the research sought to identify how women are represented in three volumes of a collection of physics textbooks for high school. To this end, starting from a binary conception, a quantitative analysis was initially carried out of the female images in comparison with the male ones, also identifying how many women represented were black. Then, a qualitative analysis of the images was carried out, which were separated into six categories, in order to observe how the construction of these representations took place. The results indicated that in the analyzed textbooks, women have little representation, suggesting that these materials can naturalize conceptions generated in the patriarchy and contribute to the separation of women in the production of scientific knowledge.
Keywords : Physics textbooks; Female representation; Physics teaching; Women in Science.
## Introdução
Os livros didáticos são caracterizados por serem obras escritas utilizadas no ensino formal (MINGANTI, J.R, et al. 2005 apud. SPIASSI, SILVA, 2008), sendo recursos pedagógicos auxiliares e complementares à prática pedagógica. Uma característica importante desses livros é sua onipresença - real ou bastante desejável - pelo mundo e, portanto, o peso considerável que o setor escolar assume na economia editorial nesses dois últimos séculos (CHOPPIN, 2004). No Brasil, sua importância se torna evidente devido à existência do Plano Nacional do Livro Didático (PNLD), um programa que reúne ações com a finalidade de distribuir gratuitamente livros didáticos para estudantes da rede pública de ensino básico (SCHIVANI; SOUZA; LIRA, 2020) executado e financiado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Para que um livro seja aprovado como parte do programa, deve estar de acordo com uma série de critérios pedagógicos estipulados via editais anuais pelo FNDE (SPIASSI, SILVA, 2008). Segundo os dados estatísticos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE, 2020), entre o final do ano de 2019 e início de 2020 foram distribuídos mais de 172 milhões de livros didáticos que totalizavam 1.390.201.035,55 reais de investimento. Durante a pandemia da COVID-19, com a implementação do ensino remoto emergencial, a utilização e o destaque dos livros didáticos se intensificou, por ser um recurso de acessibilidade gratuita para boa parte dos estudantes, e uma alternativa à utilização de recursos tecnológicos (MARTINS; KLEIN, 2020). Desta forma, os livros didáticos podem ser considerados um dos meios de socialização de conhecimentos mais relevantes (SANTOS; LOPES, 2017). Por serem materiais elaborados por pessoas imersas em uma cultura, podem carregar marcas desta ao longo de seu conteúdo, tornando os livros didáticos elementos capazes de contribuir para a transformação ou reprodução de estereótipos (ANDRADE, 2018), pois, ao se fazer um recorte do que é relevante ser apresentado e suprimido, está também estruturando uma concepção de como a Ciência é construída (FORATO; PIETROCOLA; MARTINS, 2019).
As relações sociais que estruturam nossa sociedade estão baseadas em um sistema patriarcal, caracterizado pela presença masculina nas estruturas de poder da sociedade, propiciando que os homens consigam oprimir seus pares, principalmente as mulheres (BARRETO; ARAÚJO; PEREIRA, 2009). A cultura do patriarcado resultante desse sistema pré-estabelece papéis sociais para as mulheres, que estão em torno das necessidades masculinas, como cozinhar e cuidar do lar, enquanto o papel social do homem estará associado a ser objetivo e se emancipar financeiramente. Além do sistema patriarcal, há outros sistemas de opressão que estruturam as relações de poder. O conceito de interseccionalidade aponta que essas diversas opressões atuam em conjunto para produzir desigualdades sociais, pois ' [...] trata especificamente da forma pela qual o racismo, o patriarcalismo, a opressão de classe e outros sistemas discriminatórios criam desigualdades básicas que estruturam as posições relativas de mulheres, raças, etnias, classes e outras ' (CRENSHAW, 2002, p. 177). As mulheres negras, dentro desse sistema, sofrem ainda mais com discriminações e desafios na sociedade por vivenciarem a intersecção entre gênero e raça (ROSA, 2015). A cultura patriarcal se expressa e se perpetua em diversas instâncias sociais, como a família e a escola, naturalizando padrões discriminatórios (GOMES; REIS et al, 2009). Na área da Física, essa cultura patriarcal pode se expressar por meio da invisibilização da participação das mulheres na Ciência (PANDINI; BARTELMEBS e TEGON, 2021).
A representação, segundo Hall (2016), é composta de signos organizados em diversas formas de linguagem que produzem sentidos e significados que são interpretados de acordo com a cultura em que a pessoa está inserida. Nesse sentido, além dos conteúdos serem trabalhados de forma escrita, os livros didáticos também apresentam elementos visuais, como imagens e figuras que mais do que somente ilustrar, são um importante elemento de comunicação visual e não verbal (SANTOS; LOPES, 2017; ROSA; SILVA, 2016), trazendo conceitos e ideias atreladas a elas, produzindo significados para um grande número de pessoas que possuem acesso a estes materiais diariamente, evidenciando a importância de compreender criticamente as informações apresentadas nesses materiais (ROSA; SILVA, 2016), pois a utilização de livros didáticos auxilia na construção de valores e estereótipos sobre diversos grupos sociais (SOUSA, 2020).
Por serem desenvolvidos por pessoas que cresceram imersas no sistema patriarcal, os livros didáticos, principalmente das áreas de ciências e matemática, podem apresentar visões estereotipadas sobre a Ciência, na medida em que trazem pouca ou nenhuma representatividade feminina na produção, uso ou consumo da Ciência (ALMEIDA, 2017; SILVEIRA, 2019). Isso reforça que o papel social da mulher não está relacionado com carreiras científicas e reproduz concepções geradas no patriarcado. Segundo Forato, Pietrocola e Martins (2019), os livros didáticos tendem a trazer uma visão ingênua sobre a História da Ciência, o que implica na valorização das mesmas personalidades científicas (em geral homens brancos) em detrimento de muitas outras que são invisibilizadas, construindo um padrão sobre quem colabora para a construção do conhecimento científico. Desta forma, o livro didático tende a expressar o projeto de sociedade patriarcal esperado pelas pessoas que estão no poder (SILVEIRA, 2019) e que, portanto, deve ser problematizado já que não é explícito, pois é naturalizado socialmente (HEERDT; BATISTA, 2017 apud SILVEIRA, 2019).
Baseando-se no conceito de representação e sentido enunciado por Hall (2016) é possível apontar que, dentro de um sistema patriarcal, uma representação da Ciência atrelada somente a figuras masculinas pode indicar aos estudantes que as mulheres não fazem parte da construção do conhecimento científico, já que o papel social das mulheres dentro desse sistema não está associado à Ciência, fortalecendo uma visão androcêntrica da mesma. Assim, o conceito de representatividade torna-se essencial para a identificação do estudante como parte de um grupo social (SOUSA, 2020), para que vislumbre, assim, um futuro participando das Ciências se for de sua vontade.
## Metodologia
A pesquisa teve como objetivo geral identificar como as mulheres são representadas em uma coleção de livros didáticos de física, sendo caracterizada como um estudo de caso, segundo Meirinhos e Osório (2010), pois é um estudo que gera uma interpretação mais aprofundada e específica de um fenômeno, mas que pode ser extrapolada para situações mais gerais.
Em decorrência do distanciamento social resultante da pandemia mundial da COVID-19, alinhado ao período de ensino remoto emergencial, priorizou-se para esta pesquisa selecionar livros didáticos de fácil acesso e dos quais tivessem sido distribuídos grande quantidade para escolas públicas. Desta forma, a coleção 'Ser protagonista Física, 3 ed. (2016)', volumes 1, 2 e 3 correspondentes respectivamente ao 1°, 2° e 3° ano do ensino médio, organizados pela editora SM,
foi selecionada, tendo sido distribuída pelo Plano Nacional do Livro Didático em 2016. Para identificar como as mulheres são representadas na coleção de livros didáticos escolhida, o estudo dos mesmos foi dividido em três etapas. Inicialmente, foi realizada uma análise quantitativa dos três volumes buscando comparar a quantidade de figuras femininas no material em relação às figuras masculinas. Para a contagem foram consideradas imagens fotográficas, ilustrações e representações de pessoas. Nesta etapa, foi utilizada uma concepção binária de gênero, com base em características que são historicamente atribuídas pelo patriarcado aos homens e mulheres para identificar as imagens como femininas ou masculinas. Em seguida, foi realizado um recorte racial, buscando identificar quantas destas representações femininas identificadas eram de mulheres negras.
Após a análise quantitativa, foi realizada a categorização das imagens femininas e masculinas classificando-as em atividade física/esporte; atividades de caráter científico; outras profissões; dirigindo veículos; história da ciência e atividade indefinida. Na categoria 'Atividade de Caráter Científico' foram selecionadas imagens nas quais haviam representações de pessoas realizando experimentos, enquanto para 'história da ciência' foram escolhidas fotografias e representações de personalidades da Ciência que colaboraram para a construção do conhecimento científico. As categorias foram escolhidas com base em adaptações da metodologia utilizada por Katemari Rosa e Maria Ruthe Gomes da Silva em 'Feminismos e ensino de Ciências: Análise de imagens de livros didáticos de física' (2016), em que utilizam as categorias 'quadrinhos, atividade física/esporte, atividade de caráter científico, profissões e história da ciência', adaptadas da metodologia de análise de figuras em livros didáticos sugerida por Taufer (2009 apud. ROSA; SILVA, 2016).
## Resultados e análise
Após realizar a contagem das figuras femininas e masculinas da coleção de livros didáticos escolhida, obtiveram-se os dados apresentados na Tabela 1.
Tabela 1 - Porcentagem de imagens de homens e mulheres nos volumes 1, 2 e 3 da coleção 'Ser protagonista Física'', 3 ed. (2016)'.
Os dados apresentados na Tabela 1 mostram que todos os volumes da coleção analisada possuem um número de representações femininas inferior quantitativamente às masculinas. Assim, os homens possuem uma representatividade muito maior ao longo dos livros estudados, sendo que no volume 3 a representação somente masculina chega a 71% do total de figuras de pessoas.
Ao constatar o baixo número de representações femininas ao longo dos livros didáticos, optou-se por realizar um recorte racial, a fim de identificar quantas figuras analisadas representavam mulheres negras. Os resultados obtidos estão representados na tabela 2.
Tabela 2 - Porcentagem de imagens de mulheres brancas e negras no volume 1, 2 e 3 da coleção 'Ser protagonista Física, 3 ed. (2016)'.
No geral, as mulheres são pouco representadas em todos os volumes dos livros didáticos que foram analisados, porém, a representatividade feminina se torna ainda mais restrita quando se trata de mulheres negras, e parece avançar indo de 12% a 0% ao longo das séries conforme indicado na Tabela 2, em que no volume 3 da coleção nenhuma mulher negra é representada.
Essa falta de representatividade feminina negra, pode ser interpretada como um afastamento na Ciência da cultura negra, que segundo Sousa e Barros (2020), pode trazer consequências à vida do estudante, como inseguranças e autocensura, que podem afastar essas meninas da Ciência por não se identificarem com a área.
Em seguida, as imagens femininas e masculinas foram classificadas em: atividade física/esporte; atividades de caráter científico; outras profissões; dirigindo veículos; história da ciência e atividade indefinida. A categorização está presente na Tabela 3 e foi feita com as figuras femininas e masculinas para que fosse possível comparar a forma como ambos são representados ao longo dos materiais didáticos.
Tabela 3 - Quantidade de figuras identificadas como femininas (F) e masculinas (M) nos volumes 1, 2 e 3 da coleção 'Ser protagonista Física'', 3 ed. (2016) separadas em categorias.
É possível identificar por meio da Tabela 3 que os homens são muito mais representados em todas as categorias do que as mulheres devido a representação masculina ser maior em todos os livros analisados, conforme a Tabela 1. Além disso, os homens aparecem representados em uma gama variada de profissões e atividades, que incluíam piloto, astronauta, pedreiro, tenista, jogador de futebol, tenor, professor, detetive, mecânico e eletricista, entre outros, enquanto as mulheres foram menos representadas e em atividades que majoritariamente iam de acordo com suas performances sociais estruturadas pelo patriarcado (BUTLER, 2013)
aparecendo em profissões como patinadora; ginasta; artista circense e bailarina, entre outras.
Ao realizar a comparação entre as classificações apresentadas na Tabela 3 com ênfase nas categorias 'história da ciência' em que foram selecionadas ilustrações de figuras biográficas e 'atividade de caráter científico", é possível indicar que a representação masculina foi construída com uma forte associação à Ciência. Os livros didáticos citaram diversos cientistas homens como Galileu, Newton, Kepler, Ptolomeu, Pascal, Foucault, Faraday, Maxwell, Planck, Bohr e Ohm, entre outros, sendo a maioria homens brancos e europeus. Em contrapartida, só há uma menção nos três volumes da coleção a uma mulher cientista, sendo ela Marie Curie, possuindo as mulheres também pouca representação fazendo atividades associadas à Ciência e sendo assim, mulheres cientistas negras não foram sequer citadas e representadas em nenhum dos três volumes analisados.
## Considerações finais
Os resultados da pesquisa indicaram que em todos os livros didáticos analisados as mulheres possuem uma quantidade inferior de representações se comparadas com as figuras masculinas. Além disso, os homens tiveram uma representação construída fortemente atrelada à produção e consumo da Ciência e foram apresentados em posições de destaque na mesma, enquanto as mulheres tiveram a sua imagem distanciada da construção do conhecimento científico, o que pode reforçar concepções errôneas em estudantes de que as mulheres são menos capazes de realizarem pesquisas científicas. Essa falta de representatividade nos livros didáticos analisados indicou que esses materiais reproduzem concepções construídas no patriarcado, já que neste sistema o papel social da mulher não está atrelado ao fazer Ciência.
A falta de representatividade feminina mostrou se intensificar quando se trata das mulheres negras, que foram apresentadas com pouco ou nenhum destaque ao longo dos materiais, indicando que os livros analisados possivelmente produziram concepções geradas no patriarcado associado a outros sistemas de opressão, como o racismo, que devido a interseccionalidade entre gênero e raça tornaram as mulheres negras ainda mais sub-representadas. Desta forma, espera-se que a pesquisa tenha contribuído para reflexões sobre a forma como as mulheres são representadas em livros didáticos de física, considerando que os elementos visuais possuem ideias e significados que naturalizam a opressão e que a problematização pode contribuir para uma prática pedagógica multicultural, antirracista e antisexista, visando uma educação livre de estereótipos. Ressalta-se também por meio desta pesquisa a necessidade de uma reformulação nos critérios de avaliação pedagógica dos materiais que são disponibilizados pelo PNLD para que também levem em conta critérios de diversidade e representatividade.
## Referências
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