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Mulheres na Ciência: um olhar sobre as dificuldades a partir de Simone de Beauvoir

Karol Isabelle Pereira, Marcia Tiemi Saito, Carla Renata Garcia Xavier Da Silva

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XIX
Ano
2022
Data
17/08/2022
Linha de pesquisa
11 - Equidade, Inclusão, Diversidade E Estudos Culturais E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## MULHERES NA CIÊNCIA: UM OLHAR SOBRE AS DIFICULDADES A PARTIR DE SIMONE DE BEAUVOIR

## WOMEN IN SCIENCE: THEIR DIFFICULTIES FROM SIMONE DE BEAUVOIR'S PERSPECTIVE

Karol Isabelle Pereira , Marcia Tiemi Saito , Carla Renata Garcia Xavier da 1 2 Silva 3 .

- 1 Instituto Federal do Paraná - Campus Foz do Iguaçu, karolisabellep@gmail.com
- 2 Instituto Federal do Paraná - Campus Foz do Iguaçu, marcia.saito@ifpr.edu.br
- 3 Instituto Federal do Paraná - Campus Foz do Iguaçu, carla.silva@ifpr.edu.br

## Resumo

O problema da baixa participação das mulheres nas áreas científicas, especialmente nas ciências exatas, é histórico e se deve principalmente às dificuldades que as mulheres enfrentam nestas áreas como: o assédio sexual; conciliação entre trabalho e maternidade; enfrentar esteriótipos; microagressões; falta de reconhecimento profissional, entre outras. O presente trabalho visa identificar algumas das razões históricas, sociais e culturais desta problemática, analisando as principais destas dificuldades à luz da filosofia existencialista de Simone de Beauvoir. Para isso, foram desenvolvidas categorias de análise com base no estudo da sua obra O Segundo Sexo . A análise revelou que as principais dificuldades das mulheres nestas áreas estão relacionadas com os papéis e espaços sociais impostos às mulheres, aos estereótipos de gênero e à hierarquia existente entre homens e mulheres na sociedade patriarcal.

Palavras-chave : Gênero na ciência, patriarcado, existencialismo, carreira científica, reconhecimento profissional.

## Abstract

The problem of low participation of women in scientific areas, specially in the exact sciences, is historical and it is mainly due to the difficulties that women face in these areas such as: sexual harassment; conciliation between work and maternity; facing stereotypes; microaggressions; lack of professional recognition, and others. The aim of the present work is to analyze the historical, social and cultural sources of these difficulties from the perspective of Simone de Beauvoir's existentialist philosophy. Based on her work The Second Sex , categories of analysis were developed. The analysis revealed that the main difficulties women face in scientific areas are related to: the social roles and spaces imposed on women, gender stereotypes, and the hierarchy existing between men and women in patriarchal society.

Keywords : Gender in science, patriarchy, existentialism, scientific career, professional recognition.

## Introdução

O problema da baixa participação das mulheres nas áreas científicas, especialmente nas ciências exatas, é histórico. Boa parte deste problema se deve às dificuldades que as mulheres enfrentam nestas áreas, as quais, por sua vez, estão relacionadas à hierarquia entre homens e mulheres imposta socialmente (SILVA, 2012). Na pesquisa de De Kleijn et al (2020), que analisa a influência do sexo dos pesquisadores no desenvolvimento de pesquisas científicas a nível mundial, nota-se que, apesar de ter havido um aumento na participação das mulheres na autoria de trabalhos nos últimos anos, a disparidade em relação aos homens ainda é marcante. A pesquisa ainda mostra que, especificamente nas áreas de Física e Astronomia, em países desenvolvidos, essa disparidade se agrava (De Kleijn et al., 2020).

Além disso, no contexto nacional, Marques (2020) revela que, apesar das mulheres serem maioria no ingresso e na conclusão dos cursos de graduação, isso não se reflete, quando lançamos um olhar apenas para os cursos nas áreas de exatas e para os postos mais altos dessas carreiras, pois as mulheres acabam colidindo com o chamado 'teto de vidro" (SILVA, 2012), o que as impede de avançar na mesma proporção que os homens. De fato, Marques (2020) relata que, enquanto as mulheres costumam ficar com os cargos de menor prestígio e remuneração, os homens avançam na carreira mais facilmente. Essa disparidade também pode ser notada na produção científica de acordo com o sexo do pesquisador. Nas ciências exatas, essa relação corresponde a 0,4 produções de mulheres para cada 1 de homens (MARQUES, 2020). A diferença também é observada na proporção de títulos de doutorados concedidos a mulheres em 2017, na área de Ciências Exatas e da Terra, que correspondiam a apenas 34% (MARQUES, 2020), assim como na concessão de bolsas de produtividade para mulheres, que, entre os anos de 2010 e 2021, correspondiam a apenas 35% das bolsas, considerando-se todas as áreas, e a 22,1%, considerando apenas as áreas de Ciência Exatas e da Terra (ANDRADE, 2022).

Além destes fatores, diversas pesquisas apontam que as mulheres enfrentam outras inúmeras dificuldades nas áreas científicas, como: assédio sexual, que pode apresentar desde um caráter mais sutil até um mais hostil, além do envolvimento de palavras ofensivas e discriminatórias (LIMA, 2008); dificuldade em conciliar trabalho e maternidade (LIMA, 2008; SILVA, 2012; BACKES, 2014); enfrentar esteriótipos que consideram que a ciência seria um espaço masculino (SILVA, 2012; BACKES, 2014); além de outros estereótipos relacionados a imagem de como um cientista deveria ser (CRUZ, 2007); micro agressões, como comentários e piadas sexistas realizadas de forma explícita ou implícita (BACKES, 2014); brincadeiras discriminatórias (SILVA, 2012); necessidade de políticas afirmativas, devido a ausência de mulheres nas áreas científicas (MOTTA, et al.,2006; CRUZ, 2007); e falta de reconhecimento profissional (LIMA, 2008; SILVA, 2012; BACKES, 2014).

Assim, diante deste quadro preocupante de desigualdade e dificuldades, nota-se a importância de compreender com maior profundidade as causas históricas, culturais e sociais desta problemática. Deste modo, o objetivo deste trabalho é identificar algumas destas causas, analisando as principais dificuldades enfrentadas pelas mulheres na ciência, especialmente nas ciências exatas, à luz da

filosofia existencialista de Simone de Beauvoir. A análise será baseada no estudo da sua obra O Segundo Sexo (BEAUVOIR, 2019).

## Fundamentação Teórica .

Importante escritora e filósofa francesa, além de um marco para o movimento feminista, Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir (1908-1986) graduou-se na Universidade de Sorbonne, em Literatura e Filosofia, em 1927 (SOUZA, 2010).

Em meados da década de 1940, Beauvoir passou a se questionar sobre o significado de ser mulher. Seus estudos e reflexões culminaram na sua obra O Segundo Sexo, de 1949, que se dividide em dois volumes: no primeiro, Beauvoir analisa os mitos geradores do feminino como um 'outro', subordinado ao homem, no segundo, marcado pela célebre frase 'Ninguém nasce mulher torna-se mulher', a autora destrói o essencialismo que pretendia que as mulheres fossem criaturas simplesmente definidas por seu sexo, construindo uma crítica ao ideal do 'eterno feminino' e evidenciando que o gênero, para a mulher, é uma imposição. O volume também discute que as mulheres são, desde seu nascimento, socializadas para serem submissas, passivas e alienadas (GOLDENBERG et al., 2019).

Na obra de Beauvoir, o gênero é pensado a partir de uma perspectiva existencialista, fortemente influenciada pela filosofia de Sartre (PASSOS, 2000), consistindo em uma crítica a como a mulher foi retratada e subordinada ao longo da história. Segundo Goldenberg et al. (2019), Simone explora a situação da mulher colocando-a no centro da discussão e conduzindo a um 'projeto de emancipação', no qual o feminismo passa a ser entendido como um projeto de auto afirmação da mulher para além do gênero que busca defini-la (GOLDENBERG et al., 2019).

Beauvoir caracteriza o ser "mulher'' como uma imposição cultural e social, que caracteriza a figura feminina como secundária, pois somente a biologia não destina a mulher como inferior ao homem, afirmando que, nessa hierarquia, 'o homem é o sujeito, ela é o Outro: o segundo sexo' (GOLDENBERG et al., p. 6, 2019). Como consequência das discussões suscitadas por sua obra, Beauvoir foi considerada, dentro do feminismo, a partir dos anos 1960, como a precursora da chamada segunda onda feminista (SOUZA, 2010).

## Metodologia

Para identificar as causas históricas, sociais e culturais das dificuldades enfrentadas pelas mulheres nas carreiras científicas, foram elaboradas categorias de análise, a partir da filosofia de Simone de Beauvoir presente na obra 'O Segundo Sexo ' (2019), que discute e explica várias situações que as mulheres passam desde a infância até a velhice. Assim, as categorias de análise consistem em esferas que nos ajudam a sistematizar o que as mulheres passam em suas vidas, sendo construídas a partir do estudo da vivência de mulheres cientistas e as dificuldades encaradas por elas, com base no referencial teórico de Beauvoir.

Categoria de análise: Papel Social

É o papel que a sociedade normalmente impõe, através de diferentes mecanismos, que as mulheres desempenhem, sendo eles:

Papel social 1- Maternidade: Beauvoir afirma que a sociedade designa esse papel às mulheres com a seguinte justificativa: 'É pela maternidade que a mulher realiza integralmente seu destino fisiológico; é a maternidade sua vocação 'natural', porquanto todo o seu organismo se acha voltado para a perpetuação da espécie' (BEAUVOIR, 2019, p. 279). Por conta disso, diferentes mecanismos sociais, implícitos ou explícitos (como pressão social, criminalização do aborto, etc.), são mobilizados para que as mulheres se tornem mães e que essa seja uma das principais funções de sua vida.

Papel Social 2 Casamento: De acordo com Beauvoir, 'o destino que a sociedade propõe tradicionalmente à mulher é o casamento' (BEAUVOIR, 2019, p.185) . As mulheres, desde de pequenas, são socializadas para desejarem e buscarem um marido. Assim, o casamento consiste em outro papel social que lhes é imposto. Desde sua concepção, trata-se de uma relação desigual, na qual a esposa é subordinada ao marido, ainda que desempenhe outras funções. '(O homem) é um cidadão, um produtor, antes de ser um marido; ela é antes de tudo - e muitas vezes exclusivamente -uma esposa, seu trabalho não a arranca de sua posição' (BEAUVOIR, 2019, p.235) .

Papel Social 3 - Satisfação e servidão aos homens: Beauvoir afirma que as mulheres são obrigadas a submeter-se completamente aos desejos dos homens, em busca de sua satisfação. 'Seu corpo não lhe pertence mais; o produtor decide a cor dos cabelos [...] Regime, ginástica, provas, maquiagem são uma aborrecida tarefa diária' (BEAUVOIR, 2019, p.380). Isso ocorre através da submissão do seu corpo, suas ideias e seu comportamento aos padrões por eles definidos. Deste modo, a mulher é obrigada a aceitar a submissão e a servidão aos homens como um papel social a ser desempenhado: '[...] (tanto no) 'serviço' da cama e (n)o 'serviço' da casa [...] a mulher só encontra sua dignidade aceitando sua vassalidade' (BEAUVOIR, 2019, p.235).

## Categoria de análise: Espaço Social

A sociedade patriarcal reserva à mulher o espaço privado do lar, enquanto que o homem tem a liberdade de ocupar qualquer espaço. [...] Da administração de sua residência, tira sua justificação social; sua tarefa é (como mulher) também atentar para a alimentação, as roupas, e de uma maneira geral para a manutenção da sociedade familiar (BEAUVOIR, 2019. p. 220-221). Como o lar acaba se tornando sua 'única verdade' (BEAUVOIR, 2019. p. 220) , ela não consegue ter acesso a espaços, cargos e funções com destaque público tão livremente como os homens, a não ser com o consentimento e o apoio deles.

## Categoria de análise: Estereótipos de gênero

O conceito de gênero estabelece uma hierarquia entre homens e mulheres e lhes impõe padrões de comportamento, baseados em estereótipos, desde a infância. Segundo Beauvoir, ' [...] na mulher há, no início, um conflito entre sua existência autônoma e seu 'ser-outro' (o segundo sexo); ensinam-lhe que para agradar é preciso procurar agradar, fazer-se objeto; ela deve, portanto, renunciar à sua

autonomia' (BEAUVOIR, 2019, p.24-25). Deste modo, associa-se às mulheres as características de emotividade, docilidade e subjetividade e, em contrapartida, aos homens associa-se às características de um ser racional, dominante e independente, isto porque, desde a infância ' [...] Ele faz o aprendizado de sua existência como livre [...] para o mundo; rivaliza-se em rudeza e em independência [...], despreza as meninas. [...] (aprendeu que seu) corpo (é) um meio de dominar a natureza' (BEAUVOIR, 2019, p.24-25). Porém, esses padrões não são determinados biologicamente, mas impostos social e culturalmente.

## Categoria de análise: Reconhecimento profissional

Segundo Beauvoir, 'foi pelo trabalho que a mulher cobriu em grande parte a distância que a separava do homem' (BEAUVOIR, 2019, p. 503). Contudo, a mulher geralmente não é reconhecida como uma trabalhadora da mesma forma que o homem, tanto do ponto de vista financeiro, quanto de valorização do seu trabalho. Isto porque "[...]quando inicia sua vida de adulto, ela não tem atrás de si o mesmo passado de um rapaz; não é considerada de maneira idêntica pela sociedade' (BEAUVOIR, 2019, p.505-506). Deste modo, '[...] a mulher que se liberta economicamente do homem nem por isso alcança uma situação moral, social e psicológica idêntica à do homem' (BEAUVOIR, 2019, p. 505-506). Assim, o trabalho feminino é visto como algo secundário e a mulher tende a receber menos reconhecimento profissional, a fim de diminuir a sua autonomia em relação aos homens.

## Análise e Resultados

## Conciliação da carreira com a maternidade e a vida familiar

As pesquisas de Lima (2008), Silva (2012) e Backes (2014) trazem as vivências e as barreiras enfrentadas por mulheres nas ciências exatas para conciliar as demandas da carreira com a vida familiar. Silva (2012) observou que uma carreira científica bem-sucedida exige uma extensa produção acadêmica, o que faz com que muitas mulheres adaptem suas escolhas de vida em função disto.

Existem diversas expectativas e pressões sociais dirigidas para as mulheres, que dificultam a sua inserção em uma carreira profissional. Em primeiro lugar, espera-se que os homens trabalhem remuneradamente a fim de sustentar a família, enquanto que da mulher 'esperam-se o espaço privado, o casamento, as obrigações para com as atividades domésticas e o cuidado dos filhos' (SILVA, 2012, p. 93) . Algumas acreditam, de fato, que o destino da mulher é arranjar um bom companheiro (LIMA, 2008), outras sofrem a pressão para se tornarem mães (BACKES, 2014), se sentem culpadas por se dedicarem mais à carreira do que aos filhos, optam por não ter filhos ou adiam a maternidade, ou ainda optam por jornadas parciais de trabalho ou até mesmo por interromper a carreira para poder ter filhos (SILVA, 2012), enfrentam de dupla a múltiplas jornadas de trabalho, para cuidar das tarefas do lar, que ficam sob sua responsabilidade, mesmo quando seus maridos também são cientistas (LIMA, 2008) e recusam cargos de maior prestígio ou deixam de ir a eventos e viagens profissionais, por não conseguirem conciliar essas atividades com as tarefas do lar ou da família (BACKES, 2014).

Essas dificuldades relacionam-se principalmente com a categoria de análise Papel Social, que evidencia que os papéis tradicionalmente impostos pela sociedade patriarcal à mulher são: a maternidade, o casamento e a satisfação e servidão aos homens. No caso dos relatos das cientistas, nota-se que a sociedade espera que elas cumpram em primeiro lugar esses papéis. As dificuldades que elas enfrentam em conciliar essas atividades com a sua carreira profissional se deve ao fato de que a possibilidade de seguir com uma carreira profissional somente é permitida às mulheres, caso elas não deixem de cumprir primeiramente o papel social que lhe é imposto. Sobre essas dificuldades, Beauvoir constata:

'há mulheres que encontram em sua profissão uma independência verdadeira; mas são numerosas aquelas para quem o trabalho 'fora de casa' não representa no quadro do casamento senão uma fadiga a mais. Aliás, [...] é atualmente muito difícil conciliar trabalho com maternidade' (BEAUVOIR, 2019, 276-277) .

## Ciência ser considerada um espaço masculino

A ciência possui uma cultura específica, a qual é adquirida por seus membros através de um processo educativo de aquisição de condutas primordialmente centrada em valores considerados masculinos, que se apresentam, em certa medida, como obstáculos para a efetiva participação das mulheres na ciência.

De fato, Silva (2012) mostra que a carreira científica é baseada no 'modelo masculino de carreira'. Assim, espera-se que as mulheres se adaptem a esse modelo para serem consideradas cientistas bem-sucedidas. Espera-se que as cientistas estejam à disposição integral para o trabalho, sejam produtivas, academicamente, competitivas, etc. Essa característica da cultura científica está relacionada com a categoria de análise Espaço Social, a qual revela que, na sociedade patriarcal, espera-se que a mulher se restrinja ao espaço privado do lar. Assim, alguns espaços são restritos às mulheres e seu acesso a eles é dificultado.

As mulheres [...] estão integradas na coletividade governada pelos homens e na qual ocupam um lugar de subordinadas. [...] A própria mulher reconhece que o universo em seu conjunto é masculino; os homens modelaram-no, dirigiram-no e ainda hoje o dominam; ela não se considera responsável; está entendido que é inferior, dependente (BEAUVOIR, 2019, p. 407-408).

Além disso, esse 'modelo masculino de carreira' também se relaciona com a categoria de análise Estereótipos de gênero, a qual destaca que, na sociedade patriarcal, alguns comportamentos são esperados e impostos a mulheres e homens, de acordo com seu sexo. Através destes comportamentos, também se estabelece uma hierarquia, na qual os homens são colocados em uma posição superior. De fato, Backes (2014) mostra que as mulheres cientistas convivem com piadas que ressaltam as diferenças biológicas entre os sexos para justificar a existência de uma suposta superioridade intelectual nos homens. Silva (2012) também destaca que há um imaginário de que os homens seriam, de forma 'natural', dotados de habilidades e características requeridas pelas chamadas 'ciência duras', por supostamente serem mais racionais do que as mulheres, as quais teriam mais habilidades para as chamadas 'ciências moles'.

Inclusive, Lima (2008) relata que, ao longo de sua carreira, muitas cientistas tiveram que adaptar suas vestimentas para uma forma considerada mais 'masculinizada' para serem mais respeitadas.

## Falta de Reconhecimento Profissional

Lima (2008) destaca que um dos principais avanços que as mulheres têm na ciência é quando são reconhecidas, no entanto, uma barreira frequentemente enfrentada é a indiferença quanto às suas presenças e o não reconhecimento do seu trabalho. Geralmente, quando uma mulher é reconhecida é pela desvalorização do seu trabalho, isto é, quando a mesma comete algum erro. Lima (2008) também traz o relato de um colega de uma cientista que dizia que, para ele, não era normal ver uma mulher em posição de poder e que isso era inaceitável.

A autora também relata as experiências de mulheres que foram impedidas de assumirem posições de poder e liderança, sob justificativas que atribuíam a elas características de sua personalidade, como 'encrenqueira' e 'complicada'. Lima (2008) também traz relatos de mulheres que conquistaram um cargo importante e ouviram que seu sucesso não foi por mérito, mas por uso de atributos 'femininos' como a sedução, charme e beleza.

Essas dificuldades podem ser classificadas na categoria de análise Reconhecimento profissional, que destaca que, na sociedade patriarcal, as mulheres não são consideradas trabalhadoras profissionais, capazes de realizar feitos importantes. Assim, são desencorajadas em suas realizações, conforme Beauvoir explica:

[...] A mulher tem medo de malograr indo adiante. Cumpre dizer que se sente embaraçada, com razão, à ideia de que não confiam nela. De maneira geral, a casta superior é hostil aos arrivistas da classe inferior: brancos não irão consultar um médico negro, nem os homens uma doutora; [...] Nem homens nem mulheres gostam de se achar sob as ordens de uma mulher. (BEAUVOIR, 2019, p.399)

## Considerações Finais

A filosofia existencialista de Simone de Beauvoir se mostrou frutífera na compreensão das causas histórico-sociais das principais dificuldades enfrentadas pelas mulheres nas ciências, especialmente nas exatas, como: conciliar a carreira com a vida familiar e a maternidade; a ciência ser considerada um espaço masculino e a falta de reconhecimento profissional. Para analisá-las, foram construídas categorias de análise, que buscaram sistematizar o que as mulheres passam em suas vidas, com base no referencial teórico de Beauvoir. A análise revelou que as causas dessas dificuldades estão relacionadas aos papéis e espaços sociais impostos às mulheres, aos estereótipos de gênero e à hierarquia existente entre homens e mulheres na sociedade patriarcal. Espera-se que, em pesquisas futuras, seja possível analisar outras dificuldades enfrentadas pelas mulheres na ciência.

## Referências

ANDRADE, Rodrigo de Oliveira. Desequilíbrio no Sistema. Revista Pesquisa Fapesp. São Paulo, ed. 311, p. 42-45., jan. 2022. Disponível em:

<https://revistapesquisa.fapesp.br/revista/ver-edicao-editorias/?e=311>. Acesso em: 04/01/2022.

BACKES, Vanessa Ferreira. Mulheres na licenciatura : um olhar para as docentes da universidade federal do pampa. 2014. 41 f. TCC (Graduação) - Curso de Ciências da Natureza, Universidade Federal do Pampa, Uruguaiana, 2014.

BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo : a experiência vivida. 5. ed. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 2019. 557 p. Tradução de: Sérgio Milliet.

CRUZ, Joliane Olschowsky da. Mulher na ciência : representação ou ficção. 2007. 242 f. Tese (Doutorado). Departamento de Cinema, Televisão e Rádio da Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007.

De KLEIJN, M.; JAYABALASINGHAM, B.; FALK-KRZESINSKI, HJ.; COLLINS, T.; KUIPER-HOYNG, L.; CINGOLANI, I.; et al: The Researcher Journey Through a Gender Lens: An Examination of Research Participation, Career Progression and Perceptions Across the Globe , Elsevier, mar. 2020. Disponível em:<www.elsevier.com/gender-report>. Acesso em: 04/03/2022.

GOLDENBERG, Mirian; PRIORE, Mary del; RIBEIRO, Djamila; TIBURI, Marcia; SANTOS, Magda Guadalupe dos. O segundo sexo 70 anos depois: Caderno especial - edição comemorativa [S.I]: Nova Fronteira, 2019. 32 p.

MARQUES, Fabrício.; A desigualdade escondida no equilíbrio. Revista Pesquisa Fapesp. São Paulo, ed. 289, p. 26-61, mar. 2020. Disponível em: <https://revistapesquisa.fapesp.br/revista/ver-edicao-editorias/?e=289>. Acesso em: 04/01/2022.

LIMA, Betina Stefanello. Teto de vidro ou labirinto de cristal? as margens femininas das ciências . 2008. 133 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de História, Instituto de Ciências Humanas - Departamento de História, Universidade de Brasília, Brasília, 2008.

PASSOS, E. O existencialismo e a condição feminina. In: MOTTA, Alda Britto da; SARDENBERG, Cecilia; GOMES, Márcia (org.). Um diálogo com Simone de Beauvoir e outras falas . Salvador: NEIM/UFBA, 2000. 338 p .

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SOUZA, Vanessa Bezerra de. 60 Anos D'O Segundo Sexo: a (in)visibilidade de beauvoir no debate sobre as relações de gênero. 2010. 472 f. Tese (Doutorado) Curso de Serviço Social, Centro de Filosofia e Ciências Humanas - Escola de Serviço Social - Programa de Pós Graduação em Serviço Social. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, 2010.

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