KALIMBA, UM INSTRUMENTO AFRICANO PARA CONTEMPLAR A ALEGRIA NA SALA DE AULA
Fernanda Luiza De Souza Farias, Emerson Ferreira Gomes
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIX
- Ano
- 2022
- Data
- 16/08/2022
- Linha de pesquisa
- 11 - Equidade, Inclusão, Diversidade E Estudos Culturais E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## KALIMBA, UM INSTRUMENTO AFRICANO PARA CONTEMPLAR A ALEGRIA NA SALA DE AULA
## KALIMBA, AN AFRICAN INSTRUMENT FOR CONTEMPLATING JOY IN THE CLASSROOM
## Profa. Mestranda Fernanda Luiza de Souza Farias 1 , Prof. Doutor Emerson Ferreira Gomes 2
Instituto Federal (IFSP)/Campus São Paulo/fernanda.luiza@aluno.ifsp.edu.br 1 Instituto Federal (IFSP)/ Campus Boituva/ emersonfg@ifsp.edu.br 2
## Resumo
O presente trabalho tem o intuito de refletir sobre o ensino de física com instrumentos africanos, mais precisamente a kalimba. A kalimba é um instrumento gracioso capaz de trazer alegria através de sua musicalidade e, a partir da apresentação desse instrumento, podemos indagar aos alunos sobre os motivos que nos levam conhecer determinado instrumento e não outros, refletindo sobre o apagamento da cultura afrodescendente. Esse instrumento pode ser encontrado em diversos países do continente africano. No âmbito da disciplina de física no ensino médio, o intuito é contemplar a Lei 10.639/2003, e, portanto, os conteúdos de história e cultura africana e afro-brasileira, nos currículos escolares. Além disso, a pesquisa desenvolvida nesse trabalho pretende também superar os desafios encontrados e enfrentados no interior do sistema educacional a fim de tornar possível, aos estudantes do ensino médio, o conhecimento das contribuições que as sociedades africanas deram para a ciência, já que os recortes que trazemos para sala de aula são geralmente europeus.
Palavras-chave : Instrumento africano, educação antirracista, ondas sonoras
## Abstract
This work aims to reflect on the teaching of physics with African instruments, more precisely kalimba. Kalimba is a graceful instrument capable of bringing joy through its musicality and from the presentation of this instrument we can question students about the reasons that lead us to know a certain instrument and not others, reflecting on the erasure of the afro descendant culture. This instrument can be found in several countries of the African continent. Within the discipline of physics in high school, the intention is to contemplate Law 10,639/2003, and, therefore, the contents of African and Afro-Brazilian history and culture in school curricula. In addition, the research carried out in this work also aims to overcome the challenges faced within the educational system to make it possible for high school students, knowledge of the
contributions that African societies have made to science, since the topics we bring to the classroom are generally European.
Keywords : African instrument, anti-racist education, sound waves
## Introdução
Durante a pandemia, ensinar mostrou-se desafiador e a volta para a escola também. Com o intuito de trazer alegria aos alunos e recepcioná-los de maneira mais agradável, foi proposto para eles que trouxessem seus instrumentos musicais para escola, para que iniciássemos as aulas de física tocando um instrumento. Para minha surpresa, não apareceu nenhum instrumento de matriz africana, mesmo os alunos sendo na sua maioria afrodescendentes. Por isso, foi realizada uma pesquisa a partir da lei 10639/03, que 'determinou que os estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares estão [...] obrigados a ofertar o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira' (PINHEIRO; ROSA, 2018) e, então, elaborada uma sequência didática para apresentar aos alunos a kalimba, instrumento musical de matriz africana.
- O referencial pedagógico para propor a atividade vem do livro 'Alegria na escola', escrito por Georges Snyders, que descreve que uma reforma na formação dos professores seria que pudéssemos atingir um entusiasmo cultural, confiar que a cultura que ensinamos pode dar satisfação aos alunos. Na escola, pode-se conhecer alegrias diferentes que as da vida diária, coisas que sacodem, interpelam, fazendo com que os alunos mudem algo em sua vida (SNYDERS, 1988, p.14), portanto a proposta de apresentar a kalimba.
Ao propor aos alunos a interação entre seus instrumentos, estamos proporcionando conforto, bem-estar, prestígio; em seguida, vitalidade, o dinamismo e a coragem das atuações, pelo que o indivíduo se sente bem na sua pele. O espaço escolar é um ambiente onde a 'cultura primeira' trazida pelo estudante, aquela que é decorrente da 'experiência direta da vida' ou da recepção dos produtos da cultura de massa, cultura que tranquiliza e procura acalmar as angústias, deve ser incorporada ao processo educacional, no sentido que traz a satisfação ao educando (SNYDERS, 1988, p. 36).
Contudo, os alunos não apresentaram instrumentos de matriz africana, em suma isso ocorre pelo apagamento dos saberes construídos pelos povos africanos. Nos últimos anos, a problemática das relações entre educação e diferenças culturais tem sido objeto de inúmeros debates, reflexões e pesquisas, no Brasil e em todo o continente latino-americano. As questões e os desafios se multiplicam. As buscas de construção de processos educativos culturalmente referenciados se intensificam (OLIVEIRA, CANDAU, 2010, p.16).
- O eurocentrismo contido em nosso currículo impacta de maneira negativa a construção da identidade das crianças afro-brasileiras (GOMES, 2018), o currículo que apresentamos ao educando silencia e produção científica dos povos de matriz africana. O apagamento da cultura desses povos está vinculado ao epistemicídio que trata do apagamento cultural e epistemológico produzido por povos de outros lugares do mundo.
Para pesquisadora Sueli Carneiro (2005), o conceito de epistemicídio é útil para debatermos sobre as desqualificações constantes atribuídas aos sujeitas/os afrobrasileiras/os e seus conhecimentos,
- O Não ser construído afirma o Ser. Ou seja, o ser constrói o Não Ser, subtraindo-lhe aquele conjunto definidoras do Ser pleno: autocontrole, cultura, desenvolvimento, progresso e civilização no contexto da relação de dominação e reificação do outro, instalada pelo processo colonial, o estatuto do Outro é o de 'coisa que fala' (CARNEIRO, 2005, p.99).
A consequência desse ato é o desconhecimento de outros instrumentos pelos alunos.
Apresentar características físicas da kalimba em sala de aula contribui para a mostrar a diversidade de instrumentos construídos pela humanidade. Sabemos que os instrumentos apresentam características comuns, mas os apresentados em sala são aqueles que constituem o movimento harmônico. Os instrumentos que constituem as séries harmônicas são importantes, mas poderíamos apresentar também aqueles que não possuem a série harmônica, ampliando a quantidades de instrumentos que podem ser abordados no ensino de física.
Para sequência didática, foi elaborado um questionário escrito (diagnóstico) sobre ondas mecânicas, com enfoque em instrumentos musicais, envolvendo, particularmente, instrumentos relacionados ao conhecimento de africanidades. Nesse sentido, o material em questão buscou auxiliar os estudantes proporcionando a eles uma reflexão com o intuito de contribuir no processo de ensino-aprendizagem da história e da ciência, tendo como foco a aplicação da lei 10.639/03, contemplando aspectos de ondas mecânicas.
A atividade de pesquisa foi desenvolvida com a kalimba, instrumento musical de matriz africana, com alunos da 2° série do ensino médio, em uma escola pública em que atuo como professora efetiva.
## Objetivo
Este trabalho tem como objetivo principal introduzir conceitos de ondulatória a partir do instrumento musical chamado Kalimba na disciplina de física, no ensino médio regular para proporcionar um ambiente que contemple a alegria, a diversidade trazendo a kalimba para contemplar a lei 10639/2003 e o conhecimento das contribuições que as sociedades africanas deram para a ciência.
Para realização desse trabalho, foi necessário estabelecer os seguintes objetivos específicos:
- 1.Apresentar e desenvolver um diálogo sobre os instrumentos musicais, a importância da música no cotidiano e as características que envolvem os instrumentos musicais em geral, com atenção especial ao instrumento africano chamado kalimba.
- 2.Identificar as formas de apagamento epistemológico existentes para combater o racismo e a discriminação em sala de aula, apresentando a diversidade de instrumentos africanos existentes, instrumentos que não são retratados nos livros didáticos.
- 3.Propor temas, relacionando o ensino de física, para contemplar a lei 10639/03, colocando em práticas ações que visibilizem a construção epistêmica e cultural dos povos de matriz africana.
Para que os alunos reflitam sobre os saberes que constituem sua aprendizagem, e visto que a escola é o ambiente natural a pesquisa desenvolvida é de caráter qualitativo (CRESWELL, 2014). Essa abordagem pretende fazer
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questionamentos sobre o processo de ensino aprendizagem que sempre é pautado em saberes eurocentrados no ensino de ciências. Por isso, o estudo qualitativo se mostra mais adequado pois visa dar poder aos educandos para compartilhar suas histórias e conhecer instrumentos musicais de povos africanos.
## Metodologia
## Coleta e análise de dados
A coleta de dados da pesquisa foi feita com questionários, entrevista e observação descritos por Bogdan e Bicklen (1994).
As observações chamadas de notas de campo consistem em dois tipos de materiais. O primeiro é descritivo, em que a preocupação é a de captar uma imagem por palavras do local, pessoas, ações e conversas observadas. O outro é reflexivo - a parte que apreende mais o ponto de vista do observador, as suas ideias e preocupações (BOGDAN, BICKLEN 1994).
- O questionário, também chamado de survey (pesquisa ampla), é um dos procedimentos mais utilizados para obter informações. Já a entrevista é um método flexível de obtenção de informações qualitativas sobre a pesquisa.
Para análise de dados, foi utilizada análise do discurso com o intuito de perceber o que não foi dito, considerar fatores externos a eles, como ideológicos e sociais (GOMES, 2016). Orlandi (2005) fala dos processos de esquecimento, o primeiro de enunciação, esse que nos leva a falar de uma maneira e não de outra. Nesse caso, nossa memória discursiva não contempla a produção afrodescendente. Outro aspecto relevante é o da ilusão de controle do discurso, porque não nos damos conta que o determinante dos sentidos desse discurso é a própria história (ADINOLFI, 2007, p.3). Outro esquecimento é ideológico, já que quando nascemos esse processo já está pronto, ele não se inicia em nós. Orlandi (2005) afirma ainda que o esquecimento é estruturante, o sujeito esquece o que já foi dito e tal processo não é involuntário, portanto, através do discurso e do esquecimento vamos apagando a produção científica, artística e cultural de outros povos. O sujeito pertence a diversas formações discursivas e cada sociedade acaba por acolher determinados discursos (ADINOLFI, 2007, p.4). Como levamos para a sala de aula recortes de produções científicas produzidas pelos europeus, conclui-se que esse é o discurso que escolhemos, contribuindo para o apagamento da produção afrodescendente.
## Música na sala de aula
Ao iniciar a aula de física, perguntei se entre eles havia alunos que tocavam instrumentos musicais. Expliquei que poderíamos fazer a introdução de ondas mecânicas a partir das apresentações das músicas trazidas por eles. Foram dois os alunos que toparam o desafio, portanto, na aula seguinte tivemos duas apresentações, uma de violão e a outra de violino. Os outros alunos, tomados pela timidez, não fizeram apresentações, mesmo aqueles que sabiam tocar um instrumento musical. Feitas as apresentações, aplaudimos os alunos e conversamos sobre o repertório escolhido. Posteriormente, indaguei se conheciam outros instrumentos além daqueles trazidos por eles. As questões elaboradas para nortear nossos diálogos foram:
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XIX Encontro de Pesquisa em Ensino de Física - 2022
- · É provável que você conheça algum instrumento musical, escreva pelo menos três nomes desses instrumentos em seu caderno.
- · Qual o país de origem dos instrumentos que foram elencados por você?
Nas respostas dos alunos apareceram além do violão e violino, a flauta, saxofone, piano, trombone, flautas, gaitas, baixo e trompete. Nesse primeiro momento, nenhum aluno citou o nome de algum instrumento de matriz africana. Portanto, seguiu-se com as perguntas.
- · Você ouviu falar em um instrumento chamado kalimba? Qual o país de origem desse instrumento?
Aqui inicia-se um silêncio, nenhum dos alunos conheciam a kalimba ou haviam ouvido falar dela, continuei:
- · Quais características sociais e culturais existentes fazem com que conheçamos violinos, violões, entre outros instrumentos, mas não conheçamos a kalimba?
Em seguida, apresentei-lhes o instrumento que estava em minhas mãos. Nenhum dos alunos a conhecia, dialogamos sobre as características históricas e físicas do instrumento, sobre quais aspectos culturais, ideológico e sociais fazem com que conheçamos os instrumentos elencados por eles, mas nem sequer havíamos ouvido falar daquele instrumento. Durante as aulas de física, fiz a contextualização sobre ondas mecânicas e sonoras a partir das características físicas dos instrumentos musicais trazidos pelos alunos e do instrumento africano apresentado por mim. Como as características do violão e violino são apresentadas de forma ampla em outros artigos, optei por trazer as características da kalimba.
## Características físicas da kalimba
A kalimba é um instrumento de matriz africana, classificado como um lamelofone, encontrado em vários países do continente africano. O instrumento foi trazido pelos afrodescendentes escravizados ao Brasil. Não existe um padrão fixo para a produção do instrumento. O que foi apresentado aos alunos é constituído de uma base de coco que funciona como a caixa de ressonância e sete lamelas (lâminas de metais). As lâminas metálicas podem ser pressionadas na extremidade livre, enquanto o lado oposto está engastado no cavalete de um tampo de uma caixa de ressonância. A vibração da tecla é descrita a partir da equação de vibração de uma barra longa, fina e perfeitamente elástica.
A equação geral para as ondas de flexão em barras elásticas é descrita a seguir:
y = cos(t + ) [A cosh kx + B sinh kx + C cos kx + D sin kx]. (eq. 1.1)
em que A, B, C e D são quatro constantes arbitrárias que podem ser determinadas após a escolha de quatro condições de contorno, duas para cada extremidade da barra.
Para o caso de uma barra de comprimento L, engastada em x = 0 e
livre em x = L, as condições de contorno implicam que:
A + C = B + D = 0
e a solução para a equação transcendental derivada de quarta ordem 1.1 produz as seguintes frequências resultantes
Para uma dada barra de comprimento L, construída com uma determinada geometria, com um material que tenha as constantes K (constante de mola), E (módulo de Young) e pp (densidade), as variáveis da equação 1.2 se tornam fixas e podemos calcular as relações entre as frequências naturais da barra:
Diferente do comportamento das cordas vibratórias ou do ar que vibra em tubos longos, as frequências geradas por barras engastadas em um só lado não apresenta relação direta com os harmônicos naturais (SOUZA, 2011, p.91). Abaixo é possível observar a foto da kalimba apresentada aos alunos.
Figura 1- Foto da kalimba utilizada na pesquisa (produção fotográfica da autora)
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## Resultados e discussões
Os alunos se mostraram entusiasmados com a oportunidade de apresentar seus instrumentos na aula de física aos colegas e nos diálogos, expressaram alegria e contentamento. Contudo, outros alunos apresentaram timidez e não se sentiram à vontade para tocar seus instrumentos.
Sobre os diálogos e a pergunta do questionário, sobre quais aspectos culturais e sociais fazem com que conheçamos instrumentos musicais de origem europeia, como o violino e o violão, mas, não conheçamos instrumentos de matriz
africana, nas respostas apareceu a incidência do racismo, como mecanismo de apagamento de saberes construídos por afrodescendentes. A seguir, são descritos alguns dos relatos do aluno participante da pesquisa.
Na nossa sociedade há um estigma relacionado a cultura africana, no passado existiu uma discriminação contra o povo africano, e por causa disso sua cultura ficou muito excluída nos dias de hoje. Enquanto isso a Europa sempre teve sua cultura valorizada por ser um continente muito rico (Relato descrito pelo aluno)
Outros alunos disseram que os instrumentos africanos não chegam com facilidade ao Brasil pela falta de pesquisa ou porque simplesmente não são mencionados.
Nós não conhecemos instrumentos africanos, não são falados e nem pesquisados e os músicos usam mais instrumentos europeus (Relato descrito pelo aluno)
Uma outra questão apresentada foi: - Após a aula de física quais instrumentos africanos você conheceu? Nas respostas, além da kalimba, apareceu a Kora e o Balafont, mostrando o interesse dos alunos em conhecer outros instrumentos além do apresentado.
Finalmente, os alunos tiveram a oportunidade de fazer apresentações musicais dos instrumentos trazidos por eles de maneira alegre e festiva, de conhecer a Kalimba, a partir da apresentação do instrumento, contribuindo para uma reflexão sobre contextos e ambientes nos quais estão inseridos, discutindo o racismo estrutural e o epistemicídio a partir do apagamento cultural e científico de outros povos.
## Referências
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BOGDAN, R. C.; BIKLEN, S. K. Investigação qualitativa em educação: uma introdução à teoria e aos métodos . Portugal: Porto Editora, 1994.
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SOUZA, Rodolfo Coelho. Um Modelo de Kalimba em Csound Usado em O Livro dos Sons. Revista Música Hodie , v. 11, n. 1, 2011.
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