EPISTEMOLOGIAS DO NORTE E EPISTEMOLOGIAS DO SUL O DOMINADOR E O DOMINADO.
Anderson Gomes De Paula, Adriana Maria Melo, Stefannie Dusek
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVIII
- Ano
- 2020
- Data
- 11/11/2020
- Linha de pesquisa
- Formação E Prática Profissional Do Professor De Física/ Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## EPISTEMOLOGIAS DO NORTE E EPISTEMOLOGIAS DO SUL O DOMINADOR E O DOMINADO
## EPISTEMOLOGIES OF THE NORTH AND EPISTEMOLOGIES OF THE SOUTH THE DOMINATOR AND THE DOMINATED
Anderson Gomes de Paula 1 , Adriana Maria Melo 2 , Stefannie Dusek 3
1 IFRJ, prof.agp@gmail.com 2 IFRJ, brickamelo@yahoo.com.br
3 IFRJ, professorastefannie@gmail.com
## Resumo
O presente trabalho tem por objetivo apresentar uma revisão narrativa das Epistemologias do Norte e as Epistemologias do Sul, referente à autoria da descoberta da pilha elétrica, pautada nas propostas apresentadas pelo sociólogo português Boaventura de Sousa Santos em seu texto intitulado ' Um discurso sobre as ciências na transição para uma ciência pós-moderna ' (SANTOS, 1988) e em seu discurso em vídeo postado no site do YouTube (SANTOS, 2016). Como ponto de partida deste texto e vídeo, de Santos, é percebido que a Epistemologia do Norte dominante, não permite que Epistemologia do Sul possa se destacar e concretizar. Para corroborar com esta afirmativa apresentamos trabalhos acadêmicos e científicos, nacionais, em que valorizam apenas a Epistemologia do Norte, negando a existência da Epistemologia do Sul, assim como trabalhos que apresentam a existência da Epistemologia do Sul sem dar seu real valor e ainda um trabalho que apresenta a Epistemologia do Sul como algo concretizado e com evidências científicas. A revisão verificou que a reflexão e discussão de conhecimentos existentes nas Epistemologias do Sul podem contribuir para um Ensino de Ciências que foque na formação de cidadãos mais reflexivos, com posturas mais atuantes na sociedade, e contribuir de forma ativa na transformação social, para que as Epistemologias do Sul sejam protagonizadas nas práticas de ensino, em especial nas de Física, executadas das salas de aulas brasileiras.
Palavras-chave : Epistemologias do Norte; Epistemologias do Sul; Pilha elétrica; Ensino de Física. Educação crítica.
## Abstract
The present work aims to present a narrative review of the Epistemologies of the North and the Epistemologies of the South, referring to the authorship of the discovery of the electric cell, based on the proposals presented by the Portuguese sociologist Boaventura de Sousa Santos in his text entitled 'A discourse on the sciences in the transition to a postmodern science '(SANTOS, 1988) and in his video discourse posted on the YouTube website (SANTOS, 2016). As a starting point for this text and video by Santos, it is perceived that the dominant Northern Epistemology does not allow Southern Epistemology to stand out and materialize. To corroborate this statement, we present academic and scientific works, national, in which they only value Northern Epistemology, denying the existence of Southern Epistemology, as well as works that present the existence of Southern Epistemology without giving its real value and yet a work which presents the Epistemology of the South as something concretized and with scientific evidence. The review found that
the reflection and discussion of existing knowledge in Southern Epistemologies can contribute to Science Education that focuses on the formation of more reflective citizens, with more active attitudes in society, and actively contribute to social transformation, so that Epistemologies of the South are featured in teaching practices, especially in Physics, performed in Brazilian classrooms.
Keywords: Northern epistemologies; Southern epistemologies; Electric battery; Physics teaching. Critical education.
## 1. Introdução
Para apresentar contrapontos entre os estudos pós-coloniais e da obra de Sousa Santos sobre as Epistemologias do Sul e do Norte, buscamos evidenciar a presença desses estudos em artigos científicos, trabalhos de conclusão de curso e dissertações, nacionais, nos sites de buscas acadêmicas.
Para ponderar um tema, presente nas Epistemologias, e assim analisar como elas são percebidas no mundo acadêmico, em particular no ramo científico, escolhemos traçar uma relação com o momento histórico de surgimento da primeira pilha eletroquímica. A escolha se deu pelo fato de que Alessandro Volta (1745-1827) e Luigi Galvani (1737-1798) são reconhecidos como descobridores deste artefato tecnológico (TOLENTINO; COSTA FILHO, 2000). Porém, estudos arqueológicos feitos na cidade de Bagdá (capital do Iraque), indicam que esse material, para possível geração de energia, já era conhecido em épocas antes de Cristo. Desta forma, exaltam-se os italianos Volta e Galvani, pela descoberta da pilha elétrica, valorizando assim, a Epistemologia do Norte, entretanto, os egípcios, autênticos descobridores dessa tecnologia, ficam incógnitos, por representarem a Epistemologia do Sul.
Tal abordagem pode contribuir para um enfoque no ensino de ciências que considere aspectos histórico-filosófico-sociológico como possibilidade para discussões sobre ciência, em sala de aula, que oportunize aos aprendentes argumentos para solução de controvérsias, bem como questões socioculturais ou questões científicas negligenciadas ao longo da história (JARDIM e GUERRA, 2018)
Após a análise, são apresentadas nossas considerações e a conclusão de que as Epistemologias do Sul, de fato, ainda não têm espaço em nossa sociedade e que precisamos reconhecer e valorizar os conhecimentos produzidos pelas mesmas, principalmente quando nos preocupamos com um Ensino de Ciências mais crítico, e que as suas relações históricas de fato tenha mais significado para nossos estudantes, não sendo apenas foco de análises meramente 'impressionistas' e por vezes anacrônicas de livros e/ou materiais didáticos.
Desta forma, neste trabalho apresentaremos como o professor/autor Boaventura de Sousa Santos discute as Epistemologias do Norte e do Sul, baseados em trabalhos de conclusão de curso, artigos e uma dissertação que conversam com o tema da descoberta da pilha elétrica.
Dividimos este ensaio em três partes, onde na primeira as Epistemologias do Norte e do Sul são apontadas, segundo Boaventura Santos, na segunda parte, apresentamos as discussões acadêmicas sobre o surgimento da pilha e por último, concluímos, com nossas ponderações sobre o tema.
## 2. As Epistemologias, por Boaventura Santos
## Discurso sobre as ciências: uma reflexão textual
Boaventura, em um dos seus textos, inicia com a história dos cientistas que contribuíram para os avanços científicos:
[...] mas, se fecharmos os olhos e os voltarmos a abrir, verificamos com surpresa que os grandes cientistas que estabeleceram e mapearam o campo teórico em que hoje nos movemos viveram ou trabalharam entre o século XVII e os primeiros vinte anos do século XX, de Adam Smith e Ricardo a Lavoisier e Darwin, de Marx e Durkheim a Max e Weber e Pareto, Humboldt e Planck e Poincaré e Einstein (SANTOS, 1988, p.46).
Em seguida, o autor aponta que o mundo científico está em colapso, passando
por questionamentos, avaliações, reflexões e, principalmente, tendo a necessidade de se adaptar e atender o que a sociedade valoriza como sendo importante. Este aparente colapso ou esgotamento do saber científico, que ele se refere, pode ser compreendido ao entendermos que esta Ciência, também a responsável por estabelecer os limites de rigores necessários para que um algo seja considerado 'cientifico', de uma forma autoritária e imperial, afastando assim, qualquer outro tipo de conhecimento.
O autor aponta que a ordem científica hegemônica necessita dar espaço para as ciências sociais, que surgiram junto ao positivismo, pois permitiram que as ciências naturais pudessem se beneficiar das sociais, mas que parecem considerar ser possível uma emancipação completa e abissal das ciências sociais. Nota-se que, em última análise é impossível não haver uma correlação entre elas, uma vez que a Ciência é feita por pessoas, e estas são necessariamente sociais.
Boaventura encaminha o texto para o paradigma dominante, que é 'o modelo de racionalidade que preside à ciência moderna constituída a partir da revolução científica do século XVI e foi desenvolvido nos séculos seguintes' (SANTOS, 1988, p.48), sendo um modelo totalitário, tendo como domínio as ciências naturais.
Este paradigma entra em crise e é apontado por Boaventura como:
[...] identificação dos limites, das insuficiências estruturais do paradigma científico moderno é o resultado do grande avanço no conhecimento que ele propiciou. O aprofundamento do conhecimento permitiu ver a fragilidade dos pilares em que se afunda. (1988, p. 54).
Essa crise é um caminho sem volta, pois os novos conhecimentos científicos construídos só avançam a cada dia, por conta das novas tecnologias. Além disso, as ciências sociais se mostram cada vez mais presentes, junto às ciências naturais. A crise do 'paradigma dominante' traz, de forma intrínseca, o surgimento do 'paradigma emergente'. Santos (1988) aponta que todo o conhecimento 'científiconatural é científico-social', estabelecendo que a relação entre as ciências, é 'local e total', pois aquela está dentro de um espaço mas abrange a totalidade do outro espaço, também estabelecendo o 'autoconhecimento', já que para se tornar conhecimento, parte-se do próprio conhecimento. Continua seu texto, inferindo ainda que 'todo o conhecimento científico visa constituir-se num novo senso comum', que estando a serviço da sociedade em que está inserida. E finaliza, apontando que estamos em uma fase de transição, e que esta contribui para a solidificação do nosso presente, influenciando nosso futuro (SANTOS, 1988).
## Epistemologias do Sul: desafios teóricos e metodológicos
Filosoficamente, e politicamente, as Epistemologias do Sul retratam a realidade que a sociedade dominante impunha aos menos desfavorecidos. O conhecimento produzido por quem está à margem da sociedade não é valorizado, e é isso o que caracteriza as Epistemologias do Sul. Esta sociedade que está à margem é composta pelos menos favorecidos economicamente, cognitivamente, socialmente, pelos indígenas, pelos negros, enfim, por todos que não fazem parte da classe dominante. Em entrevista, o autor relaciona como fonte de cultura,
- [...] os movimentos indígenas e afro quilombola produzem conhecimentos preciosos, quando enfrentamos, por exemplo, situações de crise. Ressalta ainda a importância das pesquisas em universidades do Brasil na área de física e a importância dos indígenas na constituição do Equador de 2008. (SANTOS, 2019, p. 2)
Importante salientar que o autor defende que as concepções das Epistemologias do Sul, são pautadas nas do Norte, pois é impossível que os
dominados construam novos saberes sem levar em consideração toda a influência que sempre sofreram das Epistemologias do Norte. Estas estão marcadas nos dominados e será a partir delas que as Epistemologias do Sul serão construídas.
Elas vêm apresentar um tempo presente que possa nos apontar um novo caminho em que a questão ambiental seja levada em consideração, que os menos favorecidos sejam beneficiados e que a sociedade capitalista repense suas ações (SANTOS, 2016).
A partir deste fragmento Boaventura traça a construção das Epistemologias do Sul. Dando valor aos menos favorecidos e aos excluídos e aos que são dominados. Pois, as Epistemologias do Norte não permitem que cada sociedade construa sua própria epistemologia.
É preciso que as Epistemologias do Sul surjam, se construam para que assim os dominados possam fazer valer seus conhecimentos. Mas, para tal será preciso que os dominados avancem a linha abissal que os separa dos dominantes. Essa linha abissal é algo muito tênue, pois ao mesmo tempo que se está de um lado da linha, em uma outra situação, é possível estar no lado oposto dela.
Outra forte característica das Epistemologias do Sul é que estes conhecimentos devem estar conectados as lutas sociais, a atos sociais em que os dominados são os atores principais.
Boaventura defende que o pensamento moderno ocidental é dotado de falhas, ou seja, um pensamento em que sua hegemonia acaba suprimindo outras versões epistemológicas.
A constituição mútua do norte e do sul e a natureza das relações hierárquicas entre norte e sul se relacionam de forma imperialista. As relações coloniais e de exploração permanecem até os dias de hoje. Uma das relações mais claras da colonialidade, ocorre na colonização epistêmica (relações de poder entre colonizador e colonizado).
No vídeo, Boaventura (2016) aponta como que as Epistemologias do Norte dominam os saberes da sociedade capitalista em que estamos inseridos; que é nesta sociedade, formada pelos dominados e dominadores, que devem surgir as Epistemologias do Sul, construída a partir dos conhecimentos dos dominados para assim imprimir a cultura deles.
Diante dos textos e vídeo de Boaventura de Sousa Santos, apresentamos os conceitos de Epistemologias do Sul e Epistemologias do Norte, ambas relacionadas com a construção dos conhecimentos e suas relações entre dominado e dominador. Utilizamos este autor como base para apresentarmos o tema do surgimento das pilhas, estabelecendo uma analogia com as Epistemologias e como elas se fazem ou não presentes no mundo acadêmico e científico.
## 3. O que há de verdadeiro nessa história?
Foi realizada uma revisão narrativa, onde as fontes de informação usadas, a metodologia de procura das referências nos repositórios virtuais, os critérios utilizados na avaliação e seleção dos trabalhos consultados não seguem métodos sistemáticos de buscas (BERNARDO; NOBRE; JATENE, 2004). Os textos foram escolhidos de forma arbitrária, procurando-se produções acadêmicas que pudessem indicar informações sobre origens históricas das pilhas elétricas, com isso, as orientações que se depreendem dos textos analisados foram sujeitas ao viés de seleção, com interpretações e análises críticas subjetivas dos autores desse ensaio.
Foram selecionados sete trabalhos científicos relacionados ao tema da
descoberta da pilha elétrica: quatro Artigos Científicos (Quadro 1), dois Trabalhos de Conclusão de Curso (Quadro 2) e uma Dissertação (Quadro 3).
## Quadro 1 - Artigos pesquisados (Fonte: própria)
## Quadro 2 - Trabalhos de Conclusão de Curso pesquisados (Fonte: própria)
## Quadro 3 - Dissertação de Mestrado pesquisada (Fonte: própria)
Iremos conduzir nossa análise 'bibliográfica' com o objetivo de buscar informações históricas que estejam em consonância com a proposta da Epistemologia do Sul trazida por Boaventura em 1988, buscando dentro da história da invenção e evolução das pilhas o reconhecimento das contribuições de civilizações antigas e regiões não muito exploradas e expostas pela dita 'sociedade científica' trazida pelas Epistemologias do Norte.
Jardim e Guerra (2017), trazem no ART 1 a importância do contexto históricofilósofico-sociológico para o ensino de ciências; de fato uma abordagem que considere tais aspectos, tende ser aberta à reflexão, contextualização e à crítica construtiva; estes aspectos são adequados em uma educação que proponha a validação ou ab-rogarção de teorias, bem como na decifração de controvérsias.
Os autores reconhecem o quanto a experimentação científica é imbricada com o processo de composição das ciências bem como o meio sociocultural, incluindo neste processo camponeses e nativos, por exemplo; apesar disto, toma o século XVIII como ponto de partida, pois nele ocorrem as academias e sociedades científicas, que é o local nato das Epstemologias do Norte; seguem indicando a construção da piha por Volta (1745-1827), mas considerando todo o contexto sociocultural que ele estava imerso, indicando estudos relacionados à eletricidade, a sua natureza, os fenômenos na atmosfera, raios, e em animais como rãs e peixes elétricos.
No ART 2, os autores já na introdução, trazem um percurso histórico da invenção e evolução da pilha, trazendo os físicos italianos Alessandro Volta (17451827) e Luigi Galvani(1737-1798), atribuindo-os grande parte do mérito de tal invenção 'A pilha de Volta teve papel central no desenvolvimento experimental e teórico da física e da química modernas, principalmente no campo da eletroquímica' (SILVA et al., 2011, p. 812).
- O artigo traz ainda uma preocupação com o desenvolvimento tecnológico acelerado e suas consequências no meio ambiente, e um estudo experimental detalhado sobre os teores de chumbo, cádmio e mercúrio em cada pilha analisada. Os autores consideram a pilha como uma invenção de pouco mais de 200 anos, desconsiderando toda contribuição pressuposta a este período 'A evolução da pilha desde seus primeiros modelos até a situação atual se deu em um período de 200 anos' (SILVA et al., 2011, p. 812).
No ART 3, é evidenciado o processo de construção dos fundamentos da Engenharia Elétrica e traz todo o percurso histórico, desde suas aplicações elementares nas civilizações antigas, como se desenvolvia o conhecimento e as diversas formas de eletricidade encontrada na natureza. Os autores apontam a ideia de eletricidade, pilha e bateria construída 200 anos antes de Cristo, mesmo que ainda de forma elementar, conforme a 'Bateria de Bagdá' (Figura 1). Os sumérios e os partas tiveram as suas contribuições no processo de construção Bateria de Bagdá, descoberta em um sítio em sítio arqueológico em Bagdá, capital do Iraque (BATTAGLIN; BARRETO, 2011, p. 50).
Rincon e Tamanini (2013) reforçam as informações cientificas sobre as descobertas da Pilha de Bagdá
Na década de 30, o arqueólogo alemão Wilhelm Konig descobriu em um vilarejo próximo a Bagdá, no Iraque, um misterioso vaso de argila de 13 centímetros de altura, contendo um cilindro de cobre que encerrava uma
barra de ferro. O artefato mostrava sinais de corrosão, e testes realizados na peça revelaram a presença de alguma substância ácida, possivelmente vinagre ou vinho. Em outras palavras, o arqueólogo havia encontrado uma antiga pilha.
Mesmo assim, a invenção da bateria elétrica é atribuída a Alessandro Volta (em 1801), deixando evidente a 'exclusão' do reconhecimento de tal invenção a essas civilizações antigas, predominando a Epistemologia do Norte, dominadora, imperialista e excludente.
Figura 1 - Bateria de BagdáFonte: BATTAGLIN, BARRETO, 2011, p. 50
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No ART 4 os autores já indicam, no título, qual a epistemologia dominante ao serem categóricos quanto ao tempo de existência da pilha elétrica, ou seja, 200 anos. Ele inicia apontando para a época da invenção, que ocorre no período de 1700-1800 depois de cristo; atribui desta maneira a invenção da pilha fundamentalmente a Alessandro Volta, sem sequer indicar a existência da tecnologia da pilha de povos anteriores, que evidentemente são os do sul.
No TCC 1, os autores tratam do monitoramento de baterias que contem chumbo, para tanto fazem um breve levantamento histórico acerca da história da bateria. Indicam a existência de células antigas, que pelo termo referem-se justamente às baterias, como sendo as primeiras evidencias da existência deste tipo de tecnologia, devido às descobertas arqueológicas, em Bagdá, que datam de aproximadamente 250 anos antes de cristo.
Entretanto, ao exibir a cronologia das baterias, põe a existência da bateria descoberta em Bagdá à parte; apresentando uma cronologia que inicia no ano de 1748, com Benjamin Franklin; 1780 com Luigi Galvani; 1800 com Napoleão e segue em sua cronologia imperialista, da ciência estabelecia pelo Norte, renegando claramente o conhecimento existente em Bagdá milênios antes.
No TCC 2, os autores apontam para a importância da transformação de energia para sobretudo proporcionar mais conforto. Ele cita algumas tecnologias que possibilitaram isto, sobretudo a partir da revolução industrial. Evidencia a eletricidade como 'combustível' para impulsionar a mesma, indicando a existência de indícios de que a eletricidade já era estudada desde o ano 2750 antes de cristo, com o peixe elétrico, no antigo Egito.
Em seguida ele aponta para uma descoberta, por arqueólogos, de células eletrolíticas que foi denominado bateria de Bagdá. O autor afirma que a eletricidade era apenas uma 'simples curiosidade' que perdurara por milênios, até que muitos anos após, em 1600 depois de cristo, foi devidamente publicado um estudo pelo cientista inglês William Gilbert, que tratava o magnetismo e a eletricidade. Ele ainda aponta que somente em 1800 foi criado um objeto confiável, capaz de criar eletricidade, a pilha de Alessandro Volta.
Neste trabalho é possível identificar a negligencia e até, em certa medida, um preconceito com os conhecimentos Epistemológicos do Sul, taxando os estudos do peixe elétrico e da pilha de Bagdá, apenas como curiosidade, sem entretanto reconhecer a complexidade tecnológica da pilha, e que somente cerca de 4550 anos após a constatação da existência de uma pilha, em Bagdá, é que a ciência europeia consegue criar tal artefato tecnológico.
Cabe ressaltar que a não aceitação de que povos do sul, não poderiam pensar e produzir tecnologias complexas, como no caso da pilha, é considerar o conhecimento científico exclusivo aos povos do norte, negligenciando evidencias arqueológicas e históricas, contribuindo para que os povos do sul continuem oprimidos e sujeitos às imposições histórico-cientificas do norte; entretanto muitos estudos estão em andamento, por exemplo o que envolve a Máquina de Anticítera, ou a função da grande Pirâmide do Egito, contribuindo para que o domínio excludente das ciências do norte possam ser revisitados.
Na DM 1 o autor aponta para descobertas arqueológicas na Mesopotâmia, de artefatos datados de 500 anos antes de Cristo, que poderiam ser caracterizados como pilhas. O texto se mostra interessante, uma vez que o autor indica que se a veracidade da compreensão acerca do que são de fato tais artefatos for comprovada, será necessário indicar que Luigi Galvani (1737-1798) não deverá ser mais o descobridor da pilha, mas sim, o redescobridor da pilha. Recentemente, em uma postagem num blog científico do Museu WEG de Ciência e Tecnologia (2019), 1 verifica-se a importância de nos atermos às origens das tecnologias, além dos conhecimentos Epistemológicos do Norte, pois no exemplo escolhido para este ensaio
- O mistério da finalidade das baterias de Bagdá continua e, embora longe de ser completamente resolvida, a polêmica exalta o imaginário popular. Se a descoberta estiver correta, os artefatos antecedem em pelo menos 1800 anos a invenção da célula eletroquímica de Alessandro Volta, que deu origem ao que conhecemos atualmente como pilha elétrica (MUSEU WEG, 2019).
A dissertação (DM1), dentro da faixa temporal de busca realizada na pesquisa, é o único documento em que foi possível evidenciar a consciência do autor acerca da necessidade de se confrontar a Ciência totalitária do Norte, que reconhece o saber científico apenas pelos critérios que ela mesma criou, e que logo não considera outros saberes, que neste caso é evidente o avanço científico e tecnológico que permeavam os povos do sul.
Para uma melhor visualização das análises feitas no presente ensaio, apresentamos uma lista (Quadro 4) dos resultados dos documentos analisados e suas características acerca do reconhecimento da contribuição das civilizações antigas no processo de invenção da pilha e da bateria.
Quadro 4 - Resumo dos resultados obtidos (Fonte: própria)
## 4. Considerações Finais
Partindo dos artigos, Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC) e dissertação analisados, foi possível perceber o quanto as Epistemologias do Norte, dominantes, são transmitidas, mantidas e validadas como as referências reconhecidas no meio acadêmico e científico. O conhecimento de aproximadamente 2200 anos, das pilhas de Bagdá, por serem provenientes das Epistemologias, não dominantes, do Sul não são aceitas como um conhecimento de valor científico, portanto, acadêmico, e que por esta razão não foram consideradas como conhecimentos científicos de um povo já existente muito antes do ano de 1801.
Apenas na dissertação analisada é que se verificou uma colocação mais adequada do real período de surgimento da pilha, na Mesopotâmia, apontando para a necessidade de se considerar uma reavaliação da descoberta atribuída a Alessandro Volta, para na verdade uma redescoberta. Em princípio, tal crítica pode parecer insuficiente, porém, dada a importância de se tratar as Epistemologias do Sul, como fonte de conhecimento científico válido, o trabalho possui fundamental importância.
Sendo assim, cabe a nós, professores atuantes em salas de aulas, discutir com os nossos alunos sobre as referidas Epistemologias, e assim, despertar o sentido de pesquisar e reaprender sobre os conhecimentos intrínsecos que os dominados possuem, para que possamos valorizá-los e reconhecê-los também como conhecimento científico. Além disso, tal reflexão e discussão de conhecimentos existentes nas Epistemologias do Sul podem contribuir para formar cidadãos pensantes e reflexivos, que possam atuar na sociedade em que estão inseridos, e contribuir de forma ativa na transformação da mesma, para que além das Epistemologias do Norte, as Epistemologias do Sul possam também ter o 'seu lugar ao sol'.
## Referências
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