"Então as Luzes se Curvaram": uma Narrativa Histórica para Debater a Ascensão da Relatividade Geral
Fernando Domingos, Alexandre Bagdonas, João Zanetic
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVIII
- Ano
- 2020
- Data
- 11/11/2020
- Linha de pesquisa
- Formação E Prática Profissional Do Professor De Física/ Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do EPEF 2020
Texto completo
## 'ENTÃO AS LUZES SE CURVARAM': UMA NARRATIVA HISTÓRICA PARA DEBATER A ASCENSÃO DA RELATIVIDADE GERAL
## ' SO THE LIGHTS HAVE BENT': A HISTORICAL NARRATIVE TO DEBATE THE ASCENT OF GENERAL RELATIVITY
## Fernando Domingos 1 , Alexandre Bagdonas 2 , João Zanetic 3
1 Universidade de São Paulo, PIEC, fernandodomingos@usp.br 2 Universidade Federal de Lavras - UFLA, alebagdonas@gmail.com 3 Universidade de São Paulo, zanetic@ifusp.br
## Resumo
Apresentamos no presente trabalho elementos que embasarão a construção de uma narrativa histórica que tem por objetivo debater sobre ciências e a relação entre Ciência, Tecnologia e Sociedade no início do séc. XX. Basicamente, uma narrativa histórica é uma estrutura comunicativa que busca descrever a relação de causa-efeito entre eventos que se passam em um contexto particular e também seus impactos sobre as personagens que a compõem. O argumento em favor das narrativas históricas se dá por conta de sua constância no desenvolvimento humano, bem como suas diversas potencialidades voltadas ao ensino, dentre as quais salientamos o envolvimento emocional do leitor ou ouvinte, criação de empatia e identificação, estímulo da imaginação, dentre outros. Tratamos aqui, em forma de narrativa, do episódio da expedição do eclipse de 1919, dando especial atenção à figura de Arthur Stanley Eddington. A escolha do episódio e da personagem se justificam uma vez que por meio deles podemos discutir diversos aspectos relacionados à Natureza da Ciência, tais como: a influência de valores pessoais, aspectos políticos-ideológicos e religiosos, além da influência da mídia no trabalho científico.
Palavras-chave : História da Física; Narrativas Históricas; Ensino de Física; Natureza da Ciência; CTS.
## Abstract
This paper presents elements that will support the construction of a historical narrative that aims to debate about sciences and the relationship between Science, Technology and Society at the beginning of the 20th century. Basically, a historical narrative is a communicative structure that seeks to describe the cause-effect relationship between events that take place in a particular context. The argument in favor of historical narratives is due to their constancy in human development, as well as their potentialities on science teaching among which we emphasize the emotional , involvement of the reader / listener, promotes empathy and identification, stimulation of the imagination, among others. We approach here, in narrative form, on the episode of the 1919 eclipse expedition, giving special attention to the figure of Arthur Eddington. The choice of episode and character is justified since through them we
can discuss various aspects related to the Nature of Science, such as: the influence of personal values, political-ideological and religious aspects, as well as the influence of the media on scientific work.
Keywords : History of Physics; Historical Narratives; Physics Teaching; Nature of Science; STS.
## Introdução
Narrativas, histórias, anedotas, mitos, causos e ficções são parte da vida humana desde que os nossos mais rudimentares ancestrais deram seus primeiros passos neste planeta. Estudos sugerem que nossa sociedade só se mantém coesa e organizada graças à crença dos indivíduos em certos mitos e narrativas. O primatólogo Frans de Waal , analisando chimpanzés, notou que esses animais se 1 reúnem em grupos de no máximo 50 indivíduos, sendo que em número superior a este, a ordem social do grupo tende a se desestabilizar ocorrendo rupturas e formação de novos grupos. Evolutivamente, temos ancestrais em comum com os chimpanzés, e muito provavelmente, comportamentos semelhantes faziam parte da vida dos seres humanos arcaicos.
Não obstante, fomos observando com o passar das eras que nossos antepassados começaram a se reunir em grupos cada vez maiores, fundando vilas, cidades, reinos e nações com centenas, milhões de habitantes. Noah Yuval Harari, em seu livro ' Sapiens: Uma Breve História da Humanidade', comenta que isto só se tornou possível graças à criação da ficção, isto é, um grande número de estranhos podem cooperar entre si de maneira efetiva uma vez que acreditem nas mesmas narrativas. Isto vale para Estados, crenças religiosas, conjunto de leis, etc. Ou seja, toda colaboração humana em grande escala está centrada em narrativas que subjazem a imaginação coletiva (HARARI, 2015). As narrativas têm, portanto, a capacidade de despertar empatia e identificação naqueles que por meio do contar, do ler ou do ouvir, compartilham delas.
Desta forma, tendo observado a constância e importância das narrativas ao longo do desenvolvimento humano, temos utilizado delas - mais especificamente, das narrativas históricas - de maneira pedagógica, levando seu potencial para as salas de aula e buscando discutir aspectos da relação entre Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS). Dentre as diversas vertentes da educação CTS nos debruçamos sobre a chamada Corrente Histórica, ou seja, aquela cujo foco está na ampliação da compreensão dos estudantes de que, o trabalho, o conhecimento e as ideias científicas são construções exclusivamente humanas e estão imersas num contexto histórico e sociocultural bastante específico. Para o cumprimento deste objetivo a História e a Filosofia da Ciência (HFC) têm papel fundamental (PEDRETTI e NAZIR, 2011).
As razões para a introdução da HFC no ensino são as mais diversas e inúmeros autores têm convergido nesta direção, defendendo sua presença nos mais diversos níveis de ensino. Desde Zanetic (1989) vemos diversos autores concordando que o estudo apropriado de episódios históricos nos permitem: i) conceber o conhecimento científico como uma construção humana gradativa,
coletiva e contextualizada sócio-historicamente; ii) compreender que a ciência não se reduz à aplicação de um dito 'método científico'; iii) entender o papel do experimento e da observação na construção do conhecimento; iv) perceber a relação CTS; v) a construção de uma visão não deturpada da prática científica.
Uma das principais tendências em pesquisas que buscam levar a HFC para o ensino de física tem sido o estudo de episódios históricos para discutir sobre a chamada 'natureza da ciência', campo que trás consigo alguns aspectos consensuais e outros controversos sobre o que se pode aprender sobre a ciência a partir de estudos de história, filosofia e sociologia da ciência (CARDOSO et al., 2015).
Uma concepção bastante comum e ingênua sobre a ciência é a empírico-indutivista. Essa visão, muitas vezes reforçada por obras de divulgação científica, indica, por exemplo, que a ciência busca uma verdade pré-existente a ela mesma e costuma chegar a uma resposta final (CARDOSO et al., 2015). Um exemplo de reforço desta visão equivocada está no filme Einstein e Eddington (BBC/HBO) , que apresenta uma imagem bastante distorcida e distante tanto do trabalho científico, quanto dos fatos históricos. Em sua cena final, Eddington é mostrado na reunião de 6 de novembro de 1919 da Joint Permanent Eclipse Committee (JPEC) analisando os dados obtidos após a observação do eclipse de maio daquele ano. Na cena, o cientista analisa os dados e dá o veredicto em favor da Teoria da Relatividade Geral de Einstein diante de uma platéia , dando a entender que não houve trabalho algum antes daquela reunião de apresentação. O filme enfatiza, na figura de Eddington, a imagem estereotipada do cientista neutro, imparcial, rígido e detido ao dito método científico.
Visando combater visões equivocadas e apresentar uma visão de uma ciência real (ZANETIC, 1989), damos neste trabalho especial atenção ao episódio histórico do eclipse de 1919 e ao astrônomo Arthur Eddington, um quaker e membro da expedição que naquele ano confirmou as predições de Albert Einstein sobre a existência de um desvio na trajetória dos raios luminosos quando se propagam por campos gravitacionais. Portanto, apresentamos neste trabalho, os elementos nos quais se embasa a narrativa histórica em produção e que nos permitirá debater como questões sociais, políticas, religiosas e extra-científicas em geral, afetaram a produção do conhecimento científico no início do século XX, mais especificamente, a ascensão e estabelecimento da Teoria da Relatividade Geral de Albert Einstein.
## Um Panorama sobre Narrativas Históricas e seu Potencial Pedagógico
Resultados de trabalhos acadêmicos recentes têm indicado, conforme apontam Schiffer e Guerra (2018, p.260), que o uso de textos literários narrativos (as narrativas) se apresentam como um bom artifício em favor do ensino de e sobre ciências, sob o argumento de que eles têm 'potencial de atrair o interesse dos alunos e aumentar a empatia deles com o conhecimento científico.' Os citados autores têm se valido desta estratégia para discussão de diversos temas e conceitos, que vão da mecânica clássica ao eletromagnetismo.
Ainda que seja complexo determinar de forma cabal o que é uma narrativa, Herman (2011) a define como uma sequência de eventos no tempo na qual se observa um cenário de estabilidade; segue-se a este cenário alguma circunstância
que o desestabiliza criando uma reviravolta, levando-o assim, a uma nova situação de estabilidade. O autor chama nossa atenção ao fato de que tal sequenciamento de eventos não necessariamente precisa ser cronológico, mas deve sim apresentar (i) uma situação inicial de equilíbrio, (ii) um sequenciamento de eventos, (iii) uma ruptura e (iv) um novo equilíbrio. Além destas características, deve haver também um elemento causador ou intencional e a presença de agentes humanos ou humanizados que são os responsáveis pela reviravolta e mudanças de estado.
Os argumentos em favor da utilização de narrativas como estratégia didática são os mais diversos, uma vez que: i) estimulam o envolvimento emocional do leitor/ouvinte com o objeto de estudo; ii) impõem coerência a um conjunto de eventos, o que as tornam veículos adequados para a integração da história da ciência na educação científica; iii) auxiliam o professor, de acordo com a escolha do episódio histórico a ser estudado, a incrementar e tornar mais produtivas as discussões em sala de aula, dando especial atenção às práticas científicas do período em questão; iv) contribuem no balizamento de objetivos didáticos, o que também depende da escolha do recorte histórico de interesse; v) estimulam a imaginação do leitor / ouvinte, característica importante no trabalho científico e na construção de conceitos (EAGAN, 1989; SCHIFFER e GUERRA, 2018).
Na história do século XX a ciência talvez tenha sido um dos seus aspectos mais notáveis, para o bem e, infelizmente, também para o mal. Fomos dos antibióticos à internet passando pelos aviões, viagens espaciais, bomba atômica, smartphones, dentre outros. O período entreguerras jogou luz sobre a Teoria da Relatividade e sobre a Mecânica Quântica. Conforme aponta Bagdonas (2019), para que possamos compreender a história 'é essencial entender como a ciência influenciou e foi influenciada por episódios marcantes, como a Primeira e a Segunda Guerra Mundial.' Para tanto, nos valendo dos argumentos apresentados acima, estamos construindo uma narrativa histórica que trate da história da Teoria da Relatividade Geral, buscando apresentar e compreender como fatores extra-científicos influenciaram no seu estabelecimento.
Em ambiente de ensino a intervenção didática deverá se desenvolver de acordo com o 'Think', metodologia proposta por Allchin (2013). Nesta proposta, diante de dilemas éticos e morais, reflexões e decisões a serem tomadas, o autor sugere que a narrativa seja interrompida e os alunos chamados a pensar e se posicionarem diante de tais questões. As 'situações-problema' serão apresentadas aos estudantes na forma de questões abertas, buscando fazer com que estes se coloquem no lugar do cientista em questão, atuando como tal, e se envolvendo com o processo de tomada de decisões. Espera-se que diante de tais situações, os alunos possam perceber os caminhos tortuosos, bem como os diversos aspectos que fogem ao escopo da ciência, mas que certamente exercem grande influência na construção do conhecimento científico.
## 'Então as luzes se curvaram': uma narrativa histórica para debater sobre ciência no período pós I Guerra Mundial
A proposta aqui descrita parte da criação de uma narrativa histórica que dá conta de um período que se inicia em março de 1917 e termina em novembro de 1919, isto é, do momento em que Frank Dyson, então Astrônomo Real Britânico, inicia preparativos para a expedição, até a divulgação de seus resultados pelo Joint
Permanent Eclipse Committee (JPEC), em novembro de 1919. Esta narrativa se divide em quatro momentos, que descrevemos de forma resumida a seguir. A narrativa buscou ser fiel aos fatos ocorridos, tendo sua construção se baseado em fontes primárias - cartas escritas pelos membros da expedição e jornais da época; e 2 fontes secundárias - trabalhos escritos por historiadores que se debruçaram sobre o mesmo período histórico. A escolha deste recorte histórico foi feita de forma intencional buscando atender os objetivos da narrativa aqui apresentada, uma vez que outras expedições (Cristina - MG, em 1912 e Crimeia - Rússia, em 1914), com o mesmo propósito, foram realizadas e frustradas por motivos que vão do mau tempo à I Guerra Mundial.
## A Grande Guerra e os preparativos para a expedição: 1º momento
O primeiro momento desta narrativa tem por objetivo apresentar e discutir o pano de fundo da expedição, isto é, os acontecimentos que se deram antes da saída dos cientistas da Inglaterra. As observações aconteceram somente em maio de 1919, mas sua preparação e organização começaram bem antes, quando, em março de 1917, ainda durante a guerra, o então astrônomo real Frank Dyson começou a fazer declarações públicas em favor da expedição. A partir de então o JPEC foi criado, um grupo constituído por membros da Royal Society e da Royal Astronomical Society, para prover os recursos intelectuais e logísticos para a expedição (STANLEY, 2003).
Entretanto, o momento era de guerra e Alemanha - país onde se originara a Teoria da Relatividade Geral - e Inglaterra estavam em lados opostos. Surgiu durante a guerra um forte sentimento anti-germânico no qual diversos setores da sociedade inglesa pediam por um corte completo de relações com a nação inimiga, inclusive no internacionalismo das cooperações científicas.
O objetivo desta primeira parte é discutir de que maneira a I Guerra Mundial influiu e impôs uma série de dificuldades à Teoria da Relatividade Geral e à expedição em si. Tal situação se evidencia, por exemplo, no corte das linhas de telégrafo que interligavam os grandes centros científicos, o que impedia a disseminação de conhecimento na época. Neste momento há espaço para discutir questões relacionadas ao financiamento de pesquisas científicas, uma vez que dinheiro em tempo foi um problema imediato enfrentado pelos organizadores da expedição (STANLEY, 2003), além da influência de questões de cunho político e ideológico no trabalho científico.
## Um Quaker aventureiro: 2º momento
Vencidas as dificuldades iniciais da guerra, este segundo momento segue os passos de Arthur Eddington que, junto a Frank Dyson, chefiou as expedições. Por se tratar de um quaker, portanto um objetor de consciência e pacifista, Eddington, um afamado cientista que carregava para sua ciência diversos aspectos de sua crença religiosa, via na ciência e na expedição um espaço para a contestação moral da guerra e do preconceito contra o povo 'inimigo'. Em Eddington percebemos que a relação entre sua religião e sua ciência era, ao mesmo tempo, bastante sutil e
penetrante, de forma que não se pode abordar uma deixando de lado a outra. Suas ações, particularmente em relação à expedição de 1919, compartilhavam a motivação dos Amigos que organizaram campos de refugiados para alimentar 3 crianças alemãs afligidas pela guerra. Ademais, para Eddington, a expedição para 'pesar a luz' era tanto um chamado religioso quanto aqueles programas de alimentação de refugiados encabeçados por seus companheiros quakers (STANLEY, 2003).
Neste segundo momento, buscamos entender como crenças e valores pessoais influenciam e motivam o trabalho científico. Nosso objetivo é desfazer o estereótipo de cientista neutro, que se despe de suas crenças e valores quando diante de seus problemas científicos. Nesta parte da narrativa nos embasamos em uma série de cartas que Eddington enviou à sua mãe e irmã relatando toda a sua viagem; a saída da Inglaterra, a viagem a bordo do vapor S.S. Anselm, a chegada e estadia na Ilha do Príncipe, além dos preparativos e a observação em si.
## Os Resultados sob Suspeita: 3º momento
Na ocasião das expedições, Eddington já havia se tornado um cientista relativamente conhecido por conta de seus trabalhos em astrofísica estelar. Entretanto, seu nome é largamente associado ao seu trabalho frente à expedição de 1919 e a seu esforço na popularização da Teoria da Relatividade no mundo anglófono (STANLEY, 2003). Eddington, uma vez que tomou conhecimento das ideias de Einstein, nunca escondeu sua admiração por elas. Esta simpatia por Einstein sempre foi vista com certa suspeita e Eddington, ainda que na companhia de Dyson, que era moderadamente cético às ideias de Einstein (KENNEFICK, 2009), é frequentemente acusado de ter feito uma análise enviesada, ou mesmo, fraudado os resultados das observações para que Einstein fosse favorecido.
Hoje é sabido que as análises realizadas pelo grupo de Eddington estavam de acordo com o padrão científico da época e, apesar das acusações de favorecimento, os resultados das observações de 1919 foram corroborados por observações posteriores. Ainda assim podemos refletir sobre algumas questões como: i) quais seriam os impactos de uma análise enviesada por parte de Eddington?; ii) pode, de uma análise enviesada, surgir boa ciência?; iii) as suspeitas de favorecimento invalidam o resultado científico? (KENNEFICK, 2018).
## A Mídia e a ascensão de Einstein: 4º momento
No dia 6 de novembro de 1919, o JPEC se reúne na Royal Society para uma exposição pública dos resultados das observações feitas em Sobral e na Ilha do Príncipe. Nos dias que se seguiram àquela audiência os jornais da Inglaterra ( The Times ) e dos Estados Unidos ( The New York Times ), em suas manchetes, anunciaram em polvorosa, uma verdadeira revolução na ciência (MOREIRA, 2019). Revolução esta que fez de Albert Einstein, um nome relativamente conhecido até
então por conta de seus trabalhos do annus mirabilis , se tornasse o cientista mais 4 famoso da história. Entretanto, apesar da aparente surpresa em suas manchetes, o jornal The Times já cobria o evento desde o início de sua organização (SPONSEL, 2002). Curiosamente, conforme aponta o físico e historiador Ildeu de Castro Moreira, os resultados apresentados em Londres, com 'pompa e circunstância', gerou pouca repercussão no Brasil.
Desta maneira, nosso objetivo neste momento, é discutir o papel e a influência da mídia na ascensão da Teoria da Relatividade e de Albert Einstein, tendo em vista a massiva propaganda que Eddington fez tanto da criatura, quanto de seu criador (STANLEY, 2003).
## Considerações Finais
Concordando com Bagdonas (2019), os professores esperam, partindo de uma visão mais ingênua sobre a ciência, que os alunos vejam os cientistas como seres humanos, que zelam pela imparcialidade, rigor lógico e apuração experimental de suas hipóteses. Esperam também que os cientistas se dispam de questões pessoais, visões de mundo, orientações políticas e religiosas, ou seja, que estes aspectos não entrem em ação durante a prática científica. Entretanto, a ciência real não é feita desta maneira, e é nosso dever mostrar os aspectos humanos, a política, as controvérsias e os erros que subjazem à ciência para que os estudantes desenvolvam uma visão mais adequada do trabalho científico.
A utilização das narrativas históricas juntamente com o recorte histórico em questão tem grande potencial para a apresentação aos estudantes de uma ciência mais real. Neste episódio podemos perceber o quanto fatores alheios à esfera científica, tais como a religião, o contexto sócio-histórico e político, são importantes e influenciam na compreensão e na prática científica, nos mostrando que o desenvolvimento do conhecimento científico não está, de forma alguma, desatrelado do contexto no qual se insere.
Stephen Brush (1974) afirma que a ressalva em apresentar os aspectos externos à ciência serve apenas àqueles professores que tenham interesses escusos, como um ensino doutrinário acerca do 'papel tradicional do cientista como um investigador neutro'. Assim, o que buscamos, em suma, é uma ruptura com o ensino tradicional. É construir novas estratégias curriculares que, além de salientar as relações CTS e todos os aspectos humanos e controversos envolvidos no trabalho científico, oportunizem também uma formação crítico-reflexiva dos estudantes.
Em tempos de 'renovações' curriculares, é preciso ensinar História, Filosofia e Sociologia da Ciência (HFSC) para além dos 'famosos' argumentos (MARTINS, 2019). Num momento em que diversos movimentos de cunho político, ideológico e anti-científicos tecem severas críticas às ciências e tentam calar os professores, apresentar a ciência em toda a sua pluralidade, de maneira crítica e reflexiva, está para além de uma 'simples' prática docente, é um ato de resistência.
## Referências
ALLCHIN, Douglas. Teaching the nature of science: Perspectives and Resources. St. Paul, MN: SHiPS Education Press, 2013.
BAGDONAS, Alexandre. História da Física para o Ensino de Física como Cultura: Debates sobre a Neutralidade da Ciência no Período Entreguerras. In: MARTINS, André Ferrer Pinto. Física, Cultura e Ensino de Ciências . São Paulo: Livraria da Física, 2019. Cap. 8. p. 195-214 .
BRUSH, Stephen G. Should the History of Science Be Rated X?: The way scientists behave (according to historians) might not be a good model for students. Science , v. 183, n. 4130, p. 1164-1172, 1974.
CARDOSO, Danilo et al. Texto jornalístico sobre ciência: uma análise do discurso sobre a natureza da ciência. Alexandria: Revista de Educação em Ciência e Tecnologia , Florianópolis, v. 8, n. 3, p. 229-251, nov. 2015. ISSN 1982-5153.
EGAN, Kieran. Memory, imagination, and learning: Connected by the story. Phi Delta Kappan , v. 70, n. 6, p. 455-459, 1989.
HARARI, Yuval Noah. Sapiens: uma breve história da humanidade . L&PM, 2015.
HERMAN, David. Basic elements of narrative . John Wiley & Sons, 2011.
KENNEFICK, Daniel. Testing relativity from the 1919 eclipse-a question of bias. Physics Today , v. 62, n. 3, p. 37-42, 2009.
KENNEFICK, Daniel. No Shadow of a Doubt: The 1919 Eclipse that Confirmed Einstein's Theory of Relativity . Princeton University Press, 2018.
MARTINS, André Ferrer P.. História, Filosofia e Sociologia da Ciência: mais do que nunca!. In: MARTINS, André Ferrer P.. Física, Cultura e Ensino de Ciências. São Paulo: Livraria da Física, 2019. Cap. 10. p. 247-271.
MOREIRA, Ildeu de Castro. O eclipse solar de 1919, Einstein e a mídia brasileira. Ciência e Cultura , v. 71, n. 3, p. 32-38, 2019.
PEDRETTI, Erminia; NAZIR, Joanne. Currents in STSE education: Mapping a complex field, 40 years on. Science education , v. 95, n. 4, p. 601-626, 2011.
SCHIFFER, Hermann; GUERRA, Andreia. Narrativas no Ensino de Ciências: caminhos para discussões sobre as ciências em sala de aula. In: SILVA, Ana Paula Bispo da; SILVEIRA, Alessandro Frederico da. História da Ciência e Ensino: Propostas para a sala de aula. São Paulo: Livraria da Física, 2018. Cap. 7. p. 259-289.
SPONSEL, A. Constructing a 'revolution in science': the campaign to promote a favourable reception for the 1919 solar eclipse experiments. The British journal for the history of science , v. 35, n. 4, p. 439-467, 2002.
STANLEY, Matthew. 'An Expedition to Heal the Wounds of War' The 1919 Eclipse and Eddington as Quaker Adventurer. Isis , v. 94, n. 1, p. 57-89, 2003.
ZANETIC, J. Física também é Cultura. 1989. Tese (Doutorado em Educação) Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo.
Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.