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O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DOCENTE: NARRATIVAS DE UM PROFESSOR DE FÍSICA

Fernanda Rodrigues Alves Costa, , Geide Rosa Coelho

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XVIII
Ano
2020
Data
11/11/2020
Linha de pesquisa
Formação E Prática Profissional Do Professor De Física
Tipo
Pôster

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Texto completo

## O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DOCENTE: NARRATIVAS DE UM PROFESSOR DE FÍSICA

## THE TEACHING IDENTITY CONSTRUCTION PROCESS: NARRATIVES OF A PHYSICS TEACHER

## Fernanda Rodrigues Alves Costa 1 , Geide Rosa Coelho 2

1

Instituto Federal Minas Gerais/Campus Betim, fernandaracosta@gmail.com

2 Universidade Federal do Espírito Santo/Centro de Educação, geidecoelho@gmail.com

## Resumo

Este trabalho busca compreender aspectos envolvidos no processo de constituição da identidade e do desenvolvimento profissional docente a partir do relato de um professor de física sobre sua trajetória de vida e carreira. À luz dos estudos de Antônio Nóvoa, concebemos a constituição identitária docente enquanto processo contínuo, ao qual relacionam-se questões pessoais e profissionais, bem como os contextos de vida do professor. O procedimento metodológico desta pesquisa define-se como de natureza (auto)biográfica, no qual utiliza-se a narrativa oral para produção de dados. A análise do relato é constituída pelo destaque de três momentos assim nomeados: O professor leigo, Formando-se professor de física e O professor formando-se. As reflexões apresentadas apontam que o processo de constituição da identidade do professor e de desenvolvimento profissional é um processo longo, dinâmico, contínuo e complexo, que articula múltiplos fatores e perpassa diversas questões que vão desde a sua experiência anterior à docência, seguindo para a formação em licenciatura, até tornar-se professor e estabelecer um processo contínuo de formação.

Palavras-chave : Formação do professor de física, Identidade profissional docente, narrativa autobiográfica.

## Abstract

This work seeks to understand aspects involved in the process of constituting the identity and the professional development of teachers based on the report of a physics teacher about his life and career trajectory. In the light of Antônio Nóvoa's studies, we conceived the teaching identity constitution as a continuous process, to which personal and professional issues are related, as well as the teacher's life contexts. The methodological procedure of this research is defined as (auto) biographical in nature, in which the oral narrative is used for data production. The analysis of the report consists of the highlight of three moments named as follows: The lay teacher, Forming physics teacher and The forming teacher. The reflections presented point out that the process of constituting the teacher's identity and professional development is a long, dynamic, continuous and complex process, which articulates multiple factors and goes through several issues that range from their previous experience to teaching, going on to training in degree, until becoming a teacher and establishing a continuous training process.

Keywords : Physics teacher training, teaching professional identity, autobiographical narrative.

## Introdução

Neste estudo analisamos a história narrada por Antônio , professor de um 1 instituto federal, ao relatar sobre o seu caminho na educação e o processo pelo qual vem se tornando professor de física. Nosso objetivo é compreender aspectos do processo de constituição identitária docente e do desenvolvimento profissional que emergem do relato (auto)biográfico do professor participante desta pesquisa.

Como ponto de partida teórico, esta reflexão entende o professor enquanto sujeito histórico, social, dinâmico, em constante processo de constituição. Enquanto profissional, exige-se deste sujeito saberes formais e saberes da experiência, envolvendo-o num processo contínuo e participado de autoformação por meio da reflexão sobre a ação. Nesse sentido, compreendemos que é na escola, no exercício da profissão e na relação com os outros professores que se aprende a ser professor. 'Ninguém nasce educador ou marcado para ser educador. A gente se faz educador, a gente se forma, como educador, permanentemente, na prática e na reflexão da prática" (FREIRE, 1991, p. 58).

Compreender o professor nesta perspectiva traz implícito que aspectos pessoais e profissionais, tal qual sua história de vida, repercutem na maneira de conceber e viver a profissão. Assim, apoiados em Nóvoa (1992, 1995, 2009, 2013, 2017, 2019), entendemos que a identidade profissional docente está fortemente relacionada com a cultura da profissão, o contexto institucional e a interação com os outros sujeitos, estando em constante processo de transformação.

Tais considerações possibilitam entender que o processo de construção da identidade profissional do professor está correlacionado ao seu desenvolvimento profissional e perpassa por sua história de vida, desde momentos anteriores à formação inicial até os momentos de aprendizado no interior da profissão. Assim, o processo de constituir-se professor demanda tempo, tempo para refletir, atribuir sentido às experiências e promover mudanças na prática. Nóvoa (2013, p. 16) realça o caráter dinâmico e complexo que caracteriza a identidade profissional docente ao afirmar que "(...) a identidade não é um dado adquirido, não é uma propriedade, não é um produto. A identidade é um lugar de lutas e conflitos, é um espaço de construção de maneiras de ser e estar na profissão".

Entendemos, portanto, o desenvolvimento profissional dos professores enquadrando-o na procura da identidade profissional, numa conotação de evolução e de continuidade. Visto desta forma, o desenvolvimento profissional assume uma perspectiva de aprendizagem ao longo da vida e supera a justaposição entre formação inicial e formação contínua dos professores (GARCÍA, 2009).

## Aspectos Metodológicos

Para compreender esse processo permanente de constituir-se professor, incluindo os seus aspectos pessoais e profissionais, utilizamos como diretriz metodológica a pesquisa (auto)biográfica. Essa abordagem tem se consolidado na área de educação como perspectiva de pesquisa e como prática de formação (SOUZA, 2014). Em relação à produção de dados, recorremos às narrativas orais.

Esta opção alicerça-se no pressuposto de que, ao narrar suas experiências, o professor compõe sua história, atribuindo sentidos ao que lhe acontece, ampliando a compreensão sobre si mesmo, os contextos nos quais atua e as relações que estabelece. Consideramos que, ao contar sua história, o professor nos apresenta como ele está vivendo a profissão, percebendo e interpretando a si próprio, os outros e a escola. Tal como Moita (2013, p.116), entendemos que:

Só uma história de vida permite captar o modo como cada pessoa, permanecendo ela própria, se transforma. Só uma história de vida põe em evidência o modo como cada pessoa mobiliza os seus conhecimentos, os seus valores, as suas energias, para ir dando forma à sua identidade, num diálogo com os seus contextos.

Dessa forma, a opção por utilizar narrativas orais como método de produção de dados nos possibilita incluir a subjetividade em nossas reflexões, captar os detalhes, as motivações e os sentimentos presentes nos modos de como se aprende a ser professor. Bolívar (2002) destaca a relevância da narratividade na pesquisa educacional como meio para construir conhecimento. O autor defende que a pesquisa biográfica, especialmente a narrativa, envolve uma abordagem específica e 'exige, portanto, um modo distinto do paradigma qualitativo convencional, sem se limitar a uma metodologia de coleta e análise de dados.' (BOLÍVAR, 2002, p. 3).

Neste sentido, nossa investigação centra-se na escuta ativa do relato do professor de física, Antônio, ao narrar sua história na educação, desde estudante do ensino básico até o momento atual, como professor de um instituto federal. A entrevista de 1h06min foi gravada na forma de áudio e posteriormente transcrita. O relato de Antônio desenrola-se numa mescla entre a pessoa e o professor que ele foi e que ele busca ser. Desta forma, concordamos com o que diz Nóvoa (2017) sobre a impossibilidade de dissociar as dimensões pessoais e as dimensões profissionais ao refletir sobre a docência. Na mesma direção Arroyo (2000, p. 129) afirma que 'a vida toda se mistura com a condição de ser professor(a)', os aspectos profissionais agregam-se ao modo de vida, imagens sociais e autoimagens que tencionam todas as dimensões, tempos, vivências e lembranças.

Assim, para realizar as reflexões propostas, o texto está estruturado em três tópicos, a saber: O professor leigo , revela as recordações de Antônio enquanto aluno da educação básica; Formando-se professor de física, apresenta as memórias e reflexões de Antônio sobre sua graduação em licenciatura em física e O professor formando-se, trata das experiências profissionais, de formação continuada, do seu desenvolvimento e projeções futuras na carreira. Estes três momentos da narrativa de Antônio nos possibilita perceber as transformações, pessoais e profissionais, vivenciadas por Antônio ao longo de quase 20 anos de carreira. Também evidenciam o que nos diz Nóvoa (1992) sobre a distinção entre formar e formar-se com referência ao desenvolvimento profissional de professores.

## O professor leigo

Antônio viveu sua infância nos anos 1980, na zona rural mineira. De origem humilde, precisava conciliar a lida na roça e os estudos em uma escola pública, distante nove quilômetros de onde morava. A caminhada diária até a escola tinha a companhia dos irmãos e às vezes era aliviada por uma carona do pai, quando este tinha algum trabalho na cidade.

Um episódio ocorrido na 7ª série, durante uma aula de geografia, foi o ponto destacado por Antônio como o momento no qual decidiu ser professor. Ele conta que a professora deixou como tarefa para a turma desenhar um mapa. Ele fez dois, por julgar que sua primeira tentativa não estava adequada. Um colega de classe ao observar que Antônio tinha dois mapas, propôs comprar o outro. Antônio vendeu o mapa e a partir daí vendeu vários outros trabalhos para esse aluno. Em pouco tempo, a professora percebeu a situação e ao intervir sugere a Antônio estudar com o menino e o ajudar nas tarefas escolares. Antônio passou a estudar semanalmente com o garoto e acredita que essa ação o ajudou a concluir o ensino fundamental. Perceber sua contribuição para a formação daquele menino bem como o reconhecimento e incentivo da professora, pode ter influenciado Antônio a continuar seus estudos e desejar ser professor.

Em 1991, Antônio e sua família se mudam para uma cidade da região metropolitana de Belo Horizonte. Ele inicia o ensino médio em uma escola recéminaugurada, em um prédio de estrutura precária alugado pela prefeitura. Nesta escola, Antônio, que já mantinha o desejo por continuar seus estudos em um curso de licenciatura, tem aulas com um professor de física que o influencia nesta decisão. Nas palavras de Antônio:

Terminando o ensino médio fui fazer o vestibular, eu já sabia que queria fazer licenciatura, eu já sabia que queria ser professor, eu só não sabia ainda de que (...) tomei a decisão praticamente na hora da inscrição, e com base no professor de física que eu tive, com base no que ele era pra mim. (Narrativa de Antônio, 2019)

No relato de Antônio é possível perceber a influência de seus professores e das experiências vividas na escola no processo de construção de sua identidade tanto pessoal quanto profissional. Seus primeiros professores são apresentados na narrativa como referência de formação de condutas, de valores e de orientação na profissão, estando presentes no professor que Antônio se constitui. Assim, concordamos com Dominicé (1985, p. 56) que 'aquilo em que cada um se torna é atravessado pela presença de todos aqueles de que se recorda. Assim, na narrativa biográfica, todos os que são citados fazem parte do processo de formação'.

Neste ponto, é importante destacar que embora a escolha pela profissão de professor tenha ocorrido precocemente para Antônio, em sua narrativa fica evidente que o magistério não é visto por ele como uma vocação, e sim, o oposto. Antônio destaca que para exercer o ofício de ensinar é necessário se profissionalizar e se comprometer com a aprendizagem de seus alunos e dele próprio.

- É pertinente ressaltar, em consonância com Nóvoa (1992), que a profissionalidade docente não se encerra numa qualificação especializada, não cabe apenas numa matriz técnica ou científica.

A formação não se constrói por acumulação (de cursos, de conhecimentos ou de técnicas), mas sim através de um trabalho de reflexividade crítica sobre as práticas e de (re)construção permanente de uma identidade

pessoal. Por isso é tão importante investir a pessoa e dar um estatuto ao saber da experiência. (NÓVOA, 1992, p. 25)

Portanto, é no exercício da profissão, no diálogo com os outros colegas, nas rotinas da escola, na reflexão sobre o trabalho que se aprende o ser professor . Assim, é fundamental fortalecer a pessoa-professor e o professor-pessoa (Nóvoa, 2009).

## Formando-se professor de Física

Antônio inicia o curso de licenciatura em física em 1994, na primeira turma do curso implantado no período noturno de uma universidade pública federal mineira. A matrícula em um curso noturno permitiria conciliar os estudos e o trabalho, sendo uma solução à necessidade de contribuir com as despesas da família, embora ainda não estivesse empregado. Uma oportunidade neste sentido foi o alistamento militar, como ingressou na universidade no ano que completaria 18 anos, ao se apresentar para o serviço militar se voluntariou e foi aprovado para o Centro de Preparação de Oficiais da Reserva. Antônio obteve um bom resultado no curso de preparação de oficiais e continuou a servir o exército por mais dois anos, como oficial temporário, conciliando os estudos e o serviço militar.

Ao dar baixa no exército Antônio inicia sua carreira profissional como professor designado em uma escola estadual. A rotina de trabalho e estudo era 2 árdua, principalmente em função das grandes distâncias percorridas de ônibus diariamente, já que residia em um município, trabalhava em outro e estudava em um terceiro. Ao fim de seis meses ele consegue transferência, ainda como professor designado, para uma escola localizada na mesma região da universidade.

Em seu relato sobre essa primeira experiência em sala de aula, Antônio diz que não se sentia preparado, que não se sentia professor, sendo a grande marca desse período, segundo ele, a relação de afetividade e de respeito estabelecida com os alunos. Ele também conta sobre a autonomia no planejamento e desenvolvimento de suas aulas, no uso dos espaços da escola para além da sala de aula e na realização de práticas de observação e experimentação para tratar conceitos de física. Ao refletir sobre estes seis meses, Antônio diz entender o envolvimento e o bom desempenho dos alunos em suas aulas como resultado da atenção despendida por ele à turma e reconhece: 'eles só precisavam de alguém que estivesse com eles na escola, olhasse para eles e entendesse o que eles estavam vivendo, que lugar era aquele'.

Antônio traz elementos importantes ao relatar sobre sua iniciação à docência. Podemos dizer que a fragilidade presente neste momento, ao destacar sua insegurança e não fazer menção a sua relação com outros professores da escola, não o impede de exercer com autonomia o seu trabalho, de buscar integrar teoria e prática para ensinar conceitos de física e de investir nas potencialidades de seus alunos. De fato, o que ele ressalta de sua primeira experiência como docente é a relação positiva com seus alunos. Havia, em sua fala, o entendimento de que aquele era um grupo de alunos em situação de vulnerabilidade social e econômica,

com dificuldades de aprendizagem, e a consciência de que aquela experiência foi significativa para que pudesse compreender a complexidade que envolve o contexto escolar e a dimensão do humano que perpassa a profissão.

Assim, embora Antônio afirme que não se sentia professor, sua primeira experiência como docente subjaz o professor que ele se tornou. Os primeiros anos como professores são os mais decisivos na vida profissional docente, pois marcam, de muitas maneiras, a nossa relação com os alunos, com os colegas e com a profissão. É o tempo mais importante na nossa constituição como professores, na construção da nossa identidade profissional (NÓVOA, 2019).

## O professor formando-se

Em 2001, Antônio, já licenciado, é aprovado em concurso público da rede estadual e começa a lecionar física para o ensino médio em uma escola localizada na região metropolitana de Belo Horizonte. Simultaneamente, ingressa na carreira docente em uma escola particular, na mesma cidade, também atuando no ensino médio regular. Sobre seus primeiros anos de carreira, Antônio afirma que foi neste período que se formou docente, 'me formei na sala de aula, sendo professor'.

Em seu relato, Antônio destaca a relevância do saber da experiência e do tempo no seu processo de constituição identitária. Suas reflexões dialogam com o que nos diz Nóvoa (2019), não podemos desvalorizar o conhecimento das disciplinas científicas, nem tampouco o conhecimento pedagógico e das ciências da educação. No entanto, o conhecimento profissional docente é decisivo para formarse professor.

Formar-se como professor é compreender a importância deste conhecimento terceiro, deste conhecimento profissional docente, que faz parte do património da profissão e que necessita de ser devidamente reconhecido, trabalhado, escrito e transmitido de geração em geração. (NÓVOA, 2019, p. 205)

Como professor na rede pública estadual Antônio vivencia um longo período de arrocho salarial e várias mobilizações organizadas pelo movimento sindical reivindicando: plano de carreira, concurso público para provimento de cargos, melhor condição docente e aumento salarial, politizando sua condição docente. Na rede privada, ele se desenvolve sob outra perspectiva, por trabalhar em uma escola de abordagem montessoriana, aprende sobre a organização de práticas escolares que objetivam o desenvolvimento da autonomia, liberdade e autoconfiança dos estudantes, com destaque para o papel de mediador do professor no processo de ensino-aprendizagem. Essa realidade contraditória, própria de sua condição docente, não o leva a apresentar uma posição negativa frente a sua profissão.

Consciente da necessidade de formação permanente para seu desenvolvimento na carreira, em 2003, iniciou o curso de Especialização em Ensino de Ciências por Investigação, oferecido aos professores da rede estadual. Em seu relato, Antônio ressalta que o curso oportunizou refletir sobre o ensino de física e discutir com outros professores sobre aspectos relacionados à natureza da ciência, 'mais do que física, química e biologia, a ciência é uma forma de entender o universo, de entender como é que as coisas acontecem, porque que elas acontecem'.

Em 2006, Antônio é aprovado em concurso público de uma rede municipal na região metropolitana de Belo Horizonte. A decisão por exonerar o cargo da rede estadual foi baseada em questões relacionadas à condição de trabalho e salariais. Nesta época, Antônio acumulava os cargos de docente na rede estadual e privada, além de lecionar em um curso pré-vestibular, acumulando mais de 60 horas de trabalho semanal. O excessivo número de aulas e a necessidade de desdobrar-se diariamente em três escolas impedem Antônio de dedicar-se com tranquilidade e segurança à sua profissão, o que evidentemente prejudica a qualidade de seu trabalho. Essa situação de baixos salários e consequente diminuição de poder aquisitivo leva a intensificação do trabalho docente e contribui para a perda da identidade profissional do professor. Para Nóvoa (1995) as consequências dessa situação são desmotivação pessoal, altos índices de absenteísmo e de abandono, insatisfação e indisposição.

Nessa pluralidade em que vem se tornando professor de física e se desenvolvendo na carreira, Antônio almeja novas possibilidades no contexto de trabalho. Embora ciente dos dilemas da profissão, reafirma a convicção de querer prosseguir sendo professor. Com disposição para aprender e se desenvolver, ele participa de diferentes atividades de formação desenvolvidas pela rede municipal. Interessa-se pela temática da escola integral e retoma as discussões sobre o ensino de física e a ciência na escola. Em 2014, ainda em espaços de formação possibilitados pelo trabalho na rede municipal, ele participa de um curso sobre cinema e educação. As discussões, pesquisas e possibilidades de trabalho vislumbradas por Antônio a partir deste curso ainda repercutem em suas aulas.

Em 2016, Antônio é aprovado em concurso público da rede federal de ensino. Como professor da carreira de magistério do Ensino Básico Técnico e Tecnológico (EBTT), em regime de dedicação exclusiva, passa a lecionar física para estudantes de cursos técnicos integrados, subsequentes e superiores, além de desenvolver atividades de pesquisa e extensão. Diante deste novo desafio e buscando evoluir na carreira profissional, ele retorna a universidade, agora para o mestrado em educação e docência. A experiência do mestrado é descrita por ele como de muito aprendizado, autoconhecimento, reflexão e ressignificação de sua prática.

Antônio conclui a narrativa, afirmando o desejo por continuar seus estudos em nível de doutorado, por ampliar sua participação em atividades de pesquisa e em grupos de discussão sobre a docência e os processos educativos na instituição que leciona. Esse desejo por estabelecer parcerias com outros professores, o sentimento de pertença e de identidade com a profissão é tido por Nóvoa (2009) como essencial para que os professores se apropriem dos processos de mudança e os transformem em práticas concretas de intervenção.

## Considerações finais

A análise das narrativas apresentadas, aida que de forma preliminar, evidencia que tornar-se professor é um processo longo, dinâmico, contínuo e complexo, que articula fatores cognitivos, afetivos, éticos, crenças, valores e à própria atuação, entre outros aspectos que influenciam o processo identitário e o desenvolvimento ao longo da carreira profissional.

Outro ponto importante presente na narrativa é a disposição de Antônio em participar de programas de formação continuada ofertados pelas redes de ensino em

que lecionou. Embora sinalize que o que o constitui professor é o trabalho docente e a relação com os alunos, sua participação em atividades de formação foram descritas como possibilidade para a interação com outros professores, reflexão sobre a sua prática em sala de aula, inovação e compreensão sobre o que mudar e como mudar. Neste ponto, impõe-se o que nos diz Nóvoa (2009) sobre a formação de professores ser dominada mais por referências externas do que por referências internas ao trabalho docente, sendo necessário romper com essa tradição e instituir as práticas profissionais como lugar de reflexão e de formação.

As compreensões construídas nesse estudo podem contribuir com os modos de se pensar a formação e atuação docente, colocando o foco na ligação entre as dimensões pessoais e profissionais, no processo de construir uma cultura docente que impulsione a profissão.

## Referências

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