Pular para o conteúdo
Buscador da Pesquisa em Ensino de Física Busca em texto completo · v0.3.0

INTERESSE PELA DOCÊNCIA: UM OLHAR ATRAVÉS DE RETRATOS SOCIOLÓGICOS

Jailton Correia Fraga Junior, Vanessa Carvalho De Andrade, Paulo Lima Junior

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XVIII
Ano
2020
Data
11/11/2020
Linha de pesquisa
Formação E Prática Profissional Do Professor De Física
Tipo
Comunicação

Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do EPEF 2020

Texto completo

## INTERESSE PELA DOCÊNCIA: UM OLHAR ATRAVÉS DE RETRATOS SOCIOLÓGICOS

## INTEREST IN TEACHING: A LOOK THROUGH SOCIOLOGICAL PORTRAITS

## Jailton Correia Fraga Junior 1 , Vanessa Carvalho de Andrade 2 , Paulo Lima Junior 3

1 Universidade de Brasília/Instituto de Física, jailtoncfjr@gmail.com

2 Universidade de Brasília/Instituto de Física, andrade@fis.unb.br

3 Universidade de Brasília/Instituto de Física, paulolimajr@unb.br

## Resumo

A falta de interesse pelo ingresso na carreira (FERREIRA JR.; BITTAR, 2006; CONTRERAS, 2012) e o alto índice de evasão dos cursos (SILVA FILHO et al., 2007) são os principais fatores pela falta de professores de Física no Brasil. Este trabalho buscou estudar o perfil de alguns estudantes que estão cursando Licenciatura em Física em uma universidade federal (Universidade X) com o objetivo de, através de retratos sociológicos (LAHIRE, 2004), analisar as histórias de vida desses estudantes buscando fatos que puderam contribuir para sua decisão de ser professor. Além disso, procuramos também olhar para a vontade de ser professor sob um olhar de vocação docente (LIMA JUNIOR, 2018). Baseado na análise realizada, foi possível perceber que o prazer por ensinar foi mais importante na decisão de seguir uma carreira na licenciatura, decisão essa que não sofreu muita influência da origem social. Outro ponto observado foi que as experiências acadêmicas não pesaram negativamente no interesse pela docência dos entrevistados.

Palavras-chave: Interesse pela docência; Retratos sociológicos; Vocação.

## Abstract

The lack of interest in entering the career (FERREIRA JR.; BITTAR, 2006; CONTRERAS, 2012) and the high dropout rate of the courses (SILVA FILHO et al., 2007) are the main factors of the lack of Physics teachers in Brazil. This work sought to study the profile of some students who are taking a Degree in Physics at a federal university (University X) in order to, through sociological portraits (LAHIRE, 2004), analyze the life stories of these students looking for facts that could contribute to the decision of being a teacher. In addition, we also look at the desire to be a teacher from a perspective of teaching vocation (LIMA JUNIOR, 2018). Based on the analysis, it was possible to realize that the pleasure of teaching was more important in the decision to pursue a career in teaching, a decision that did not suffer much influence from social origins. Another point observed was that academic experiences did not influence negatively on the students' interest in teaching.

Keywords: Interest in teaching; Sociological portraits; Vocation.

## Introdução

O curso de Física possui, no Brasil, as maiores taxas de evasão quando comparado aos demais cursos de nível superior (SILVA FILHO et al., 2007). Silva e Pereira (2019) fizeram uma pesquisa na literatura sobre trabalhos na área de Ensino de Ciências referentes ao fracasso escolar (que pode posteriormente culminar na evasão do aluno). Em sua busca, encontraram trabalhos que apresentam visões diferentes para esse fracasso. Essas visões foram agrupadas em três categorias: pessoal, institucional e social (SILVA; PEREIRA, 2019).

Dentre os motivos que levam o aluno a não ter um bom desempenho escolar, a não adaptação (ARRUDA et al., 2006), o baixo desempenho (COSTA; COSTA, 2013) e a falta do hábito de estudo (MICHA et al., 2018) são apontados como fatores pessoais que pesam e podem levar o aluno a evadir. Além disso, a não identificação com o curso e as diferenças sociais (DAITX; LOGUERCIO; STRACK, 2016; MENEZES et al., 2018) fazem com que os alunos passem a buscar outros caminhos com os quais se identificam, levando assim à evasão.

Tinto (1987) apresenta um sistema que busca explicar a evasão de alunos no ensino superior. Em seu modelo, é possível observar que os alunos chegam à universidade com expectativas (motivações iniciais) que durante a vida acadêmica, através de experiências de integração social (com os demais estudantes, professores e funcionários) e acadêmica (com a instituição), sofrem alterações e resultam em novas aspirações e perspectivas para seu futuro profissional.

A proletarização da profissão contribuiu para que pessoas começassem a rejeitar a possibilidade de seguir uma carreira como professor (DAITX; LOGUERCIO; STRACK, 2016; MENEZES et al., 2018; MICHA et al., 2018), fazendo com que a profissão tenha menos prestígio e deixe de ser cobiçada por pessoas de origem social mais abastada (LIMA JUNIOR, 2018). Como uma consequência dos fenômenos citados anteriormente, a formação de professores de Física também está comprometida (BRASIL, 2007).

Os motivos pelos quais os alunos ingressantes no ensino superior optam pela Licenciatura em Física são diversos. Em um trabalho realizado por Lima Junior et al. (2020), foi possível identificar que os alunos que ingressaram na Licenciatura em Física possuíam algumas motivações iniciais, tais como a busca pela satisfação profissional, o interesse em ser professor e a empregabilidade da profissão. Em seu trabalho, Hirota et al. (2018) faz um estudo sobre o perfil motivacional de ingressantes no curso de Física da USP, obtendo que as motivações mais comuns são a busca pelo conhecimento e a realização de seus objetivos por ir à uma universidade. Esses estudos foram realizados quantitativamente, através de análises de questionários. Contudo, faz-se necessário uma análise qualitativa dessas motivações iniciais dos alunos de Física.

Essa pesquisa visa compreender a gênese do interesse pela docência dos estudantes de Licenciatura em Física da Universidade X (uma universidade federal) analisando suas histórias de vida dentro e fora da universidade. Para isso, foram realizadas entrevistas, de forma voluntária, com alguns dos estudantes deste curso, com o objetivo de realizar um estudo de caso. Além disso, esta pesquisa também está orientada por algumas questões, como: o interesse pela docência dos alunos sofreu alterações durante suas vidas acadêmicas? Essas alterações poderiam reafirmar ou levar à desistência da docência? Qual o perfil dos estudantes que optam por seguir

uma carreira de docente? Espera-se, com essa pesquisa, entender alguns fatores que contribuem para que alunos egressos do Ensino Médio optem cursar uma Licenciatura em Física.

## Referencial teórico

Em seu livro intitulado 'A distinção - crítica social do julgamento', Bourdieu (2006) analisa a estrutura das relações de classe, introduzindo o habitus como princípio gerador de práticas capaz de explicar a correspondência entre ações individuais e posições sociais. Esse princípio orientaria, de forma flexível e préconsciente, as ações individuais de tal maneira que algumas delas pareceriam ser resultado de cálculos racionais. É verdade que algumas frações da sociedade dependem mais da escola que outras para manter seus privilégios relativos. Por exemplo, as frações mais escolarizadas da classe média geralmente exercem profissões cuja prática legítima depende de certificados escolares (médico, engenheiro, advogado). Segundo Bourdieu (2006), a necessidade feita virtude traduzida no habitus contribui para que essas famílias realizem altos investimentos na vida escolar de seus filhos não somente por um cálculo racional, mas por acreditarem que trajetórias escolares prestigiadas são também as mais virtuosas. Assim, suas ações corresponderiam a um projeto de ascensão social que pode não ter sido jamais pensado e calculado pela razão individual (BOURDIEU, 2006).

Orientados por um princípio gerador de práticas correspondente à sua origem social, cada indivíduo tenderia a realizar uma trajetória escolar mais ou menos previsível (BOURDIEU, 2006). Esse esquema teórico mais macro-sociológico explica muito bem o sucesso escolar das frações mais privilegiadas da sociedade, mas precisaria passar por adaptações para explicar os casos de contratendência, o sucesso escolar em meios populares. Caminhando nessa direção, Lahire (2004) apresenta um novo olhar para um estudo sociológico da sociedade, um olhar centrado no indivíduo. Segundo ele, cada indivíduo carregaria um conjunto de disposições incorporadas que são resultado dos processos de socialização pelos quais passou e que não correspondem necessariamente à posição do indivíduo na estrutura das relações de classe. Essa correspondência, segundo Lahire, precisaria ser decidida empiricamente e caso a caso.

Diversas são as razões pelas quais os alunos ingressam em um curso de Licenciatura em Física. Alguns seguem essa vida por interesse estritamente financeiro (por acreditarem ter uma garantia de emprego ao concluírem o curso) ou por sentirem prazer, satisfação em exercer a docência (LIMA JUNIOR et al., 2020). Com relação a essa satisfação e paixão por exercer a docência, Lahire (2004) comenta que 'os hábitos que foram interiorizados precocemente, em condições favoráveis à sua boa interiorização [...] e que encontram condições positivas (socialmente gratificantes) de concretização, podem dar lugar àquilo que é comummente denominado por paixão'. Além disso, essa precoce internalização de certas práticas pode levar também o indivíduo a crer em uma determinada vocação para a docência (LIMA JUNIOR, 2018).

A partir desses referenciais, buscamos olhar para a vida dos alunos entrevistados, que possuem diferentes origens sociais e tiveram assim uma trajetória escolar muito diferente, a fim de encontrar experiências em suas vidas que possam ter internalizado essa prática de docência e se, em caso afirmativo, essa prática é tida como uma paixão ou uma vocação. Além disso, tivemos por objetivo conhecer os motivos pelos quais esses diferentes alunos, de trajetórias sociais distintas, convergiram para um mesmo ponto: a Licenciatura em Física.

## Metodologia

Nossa metodologia foi inspirada nos retratos sociológicos propostos por Lahire (2004). Ela consiste na realização de vários encontros com cada entrevistado, com distância temporal de alguns dias. Além disso, cada encontro tinha uma matriz de entrevistas própria, abordando os temas como escola, trabalho e família. Como orienta em seu livro, 'o fato de ter de falar de si mesmo durante tanto tempo excluía, quase por completo, dois tipos de pesquisados, do ponto de vista da relação com os pesquisadores: os muito próximos e os totalmente desconhecidos' (LAHIRE, 2004, p.33). Portanto, os alunos convidados a participar dessa pesquisa são pessoas que são conhecidos dos pesquisadores, porém não são muito íntimos.

Durante as entrevistas, foram abordados os seguintes tópicos: Apresentação, Família, Lazer, Sociabilidade, Trabalho, Religião, Escola e Interesse pela ciência/interesse pela docência. Esses tópicos foram divididos em três entrevistas que duraram em média uma hora cada, totalizando três horas em média por entrevistado. Os entrevistados assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, autorizando a gravação e o uso de suas entrevistas em trabalhos acadêmicos, desde que de forma anônima.

No tópico de apresentação e família, buscou-se localizar os alunos no espaço social descrito por Bourdieu (2006). Ou seja, buscamos saber a origem social de cada entrevistado e de suas famílias. Ao falar sobre a família, buscou-se também entender a relação do entrevistado com sua família durante sua vida. Ao abordar os tópicos de escola e interesse pela ciência e interesse pela docência, buscou-se entender como eram os entrevistados durante sua vida escolar e sua relação com as disciplinas de ciências, em especial a Física. Os demais tópicos estiveram presentes na entrevista para entender como o entrevistado se portava em diferentes contextos e espaços de socialização.

Os retratos sociológicos foram escolhidos como inspiração por ser uma metodologia que busca 'captar os efeitos causados nos entrevistados pelas grandes matrizes socializadoras que são, acima de tudo, a família [...], a escola e o universo de trabalho, assim como as instituições culturais, esportivas, religiosas, políticas, movimentos de jovens' (LAHIRE, 2004, p.38). Ou seja, por buscar as influências desses diferentes contextos na vida das pessoas, optou-se por realizar entrevistas inspiradas nos retratos sociológicos para a investigação dos objetivos desta pesquisa.

## Resultados

Serão apresentadas a seguir um resumo das histórias de vida dos entrevistados, que serão identificados por Entrevistada A e Entrevistado B. As histórias de vida retratadas abaixo são um recorte das informações que estão focalizados nas experiências de vida que os entrevistados tiveram com a ciência e a docência, a fim de fazer um levantamento sobre motivos pela escolha do curso de Licenciatura em Física.

## Entrevistada A

Entrevistada A é uma mulher de 21 anos, está em seu terceiro ano de graduação, mas fora do fluxo. Ela mora em uma cidade afastada do centro, de caráter rural. Sua origem social é de classe popular, vindo de uma família composta por 16 pessoas (os pais e mais 14 filhos). Seu pai possui Ensino Médio completo e sua mãe Ensino Fundamental completo. Sua mãe é dona de casa e seu pai é aposentado (ex-

público). Seus dois irmãos mais velhos fizeram cursos técnicos e sua irmã mais velha é licenciada em Química em uma universidade particular.

Sua trajetória escolar foi realizada em escolas públicas, em sua maioria em uma escola rural de sua cidade. Ela comenta que as escolas por onde passou tinham uma boa infraestrutura, chegando até a estudar numa das melhores escolas da região. Ela se considera como uma aluna que tirava nota suficiente para passar, mas também não eram notas altas. Relata que suas dificuldades nas matérias de ciências eram devidas à falta de correlação entre o conteúdo ensinado e o seu cotidiano, mostrando ter muitas dificuldades de aprender a partir de exemplos abstratos.

Ela se considera curiosa e observadora. Comenta que de tanto observar o pai mexer nas instalações elétricas de casa, aprendeu a arrumar a tomada de seu quarto, sem precisar pedir ajuda para resolver essa questão. Essa curiosidade despertou nela um interesse pelos tópicos de ciências e, em especial de Física, pois ela queria saber o que estava por trás dos fenômenos estudados, quem era o responsável pelo que ela estudava.

O cuidado e ajuda sempre estiveram presentes em sua vida. Por ter muitos irmãos mais novos, ajudava sua mãe a cuidar da casa e de seus irmãos. Além disso, sua mãe também a ensinava e dava dicas sobre alguns cuidados que ela deveria ter com os irmãos e com alguma pessoa que ela fosse cuidar. A questão do cuidado com o próximo esteve tão presente e é tão marcante em sua vida que ela pensou em seguir uma carreira na área da saúde. Por gostar de animais, pensou inicialmente em Medicina Veterinária, mas, por questões de saúde, sua mãe a convenceu a desistir dessa ideia e, caso ela quisesse ir para algum curso da saúde, que fosse Enfermagem.

Durante sua vida escolar, afirma que gostava mais das disciplinas de exatas e de gramática, porque possuem regras e são uma sequência, como uma 'receita de bolo'. Essa questão, aliada à sua curiosidade, fizeram com que ela tivesse bastante interesse pela Física, ainda mais após ter contato com uma professora de Física no segundo ano do Ensino Médio. Apesar disso, quando a Entrevistada A foi perguntada sobre a razão pela qual decidiu ir para a Física, ela diz que não sabe, que foi uma paixão da juventude.

Sua opção pela escolha da Licenciatura está ligada à vontade de ajudar o próximo. Por haver passado por experiências ruins com professores de Física, ela busca outras metodologias já que, da própria experiência enquanto estudante, reconhece que teve apenas aulas cansativas, com frequente exposição de conteúdo no quadro

Em sua entrevista, ela comenta que decidiu entrar no Ensino Superior por acreditar que isso fosse trazer benefícios futuros. Ela diz que despencou na universidade, pois foi aprovada em sexta chamada, um mês após o começo das aulas. Por ser um ambiente novo para ela (é a primeira na família a estudar nessa universidade), sofreu bastante com questões de entender como a universidade funciona e o seu papel dentro dela. Essas dificuldades a fizeram repensar inúmeras vezes qual era seu lugar na universidade e se estava realmente fazendo o que queria.

## Entrevistado B

Entrevistado B é um homem de 21 anos e está em seu quarto ano no curso. Mora em uma cidade bem próxima do centro, um bairro de poder aquisitivo razoavelmente alto. Sua origem social é de classe média alta, vindo de uma família

composta por seus pais e seu irmão mais novo. Seus pais possuem pós-graduação e são dentistas.

Sua trajetória escolar foi realizada em escolas particulares, em sua maioria em uma mesma escola localizada também em um bairro de poder aquisitivo razoavelmente alto. Desde o seu Ensino Fundamental, teve contato com aulas experimentais em laboratórios da escola. Ainda nessa época, ele afirma que houve um período em que abdicava de seus horários de recreio para ir à biblioteca fazer a leitura de livros de anatomia humana. Foi também nesse período que ele começou a ter um fascínio maior por ciências, a partir das aulas sobre Astronomia. Ele afirma que sempre teve uma curiosidade por aprender mais e que, por fazer esses estudos extras, adquiriu uma boa bagagem que o ajudou a obter boas notas nas disciplinas de ciências.

Ele afirma que sua relação com as disciplinas de ciências sempre foi muito boa desde cedo e que tinha um interesse por essa área. Seu pai, um homem aficionado por ciência e ficção científica, instigou em seu filho o interesse pelas ciências. O Entrevistado B relata que, quando menor, um dos seus castigos era não poder assistir televisão, mas, se ainda assim quisesse assistir algo, seu pai impunha que deveria ser o documentário Cosmos, de Carl Sagan.

Essa relação desde pequeno com a Astronomia lhe trouxe frutos mais a frente: foi medalhista da Olimpíada Brasileira de Astronomia e, durante seu Ensino Médio, após ser requisitado por sua professora de Física, deu uma aula de Astronomia e Gravitação para alunos do Ensino Fundamental de sua escola. Essa professora de Física inclusive cumpriu um papel importante na vida do Entrevistado B, pois a mesma afirmava que ele seria um bom professor de Física, após ver como ele tinha facilidade para ensinar aos seus colegas de classe.

Em sua entrevista, vemos que o mesmo considera desde cedo fazer um Doutorado. Por estar presente em um contexto onde os pais possuem pós-graduação, o mesmo vê o Ensino Superior como o caminho a ser seguido. Além disso, ele também afirma que parte da influência por querer dar prosseguimento nos estudos após o Ensino Médio deve-se ao fato de ter estudado em uma escola particular, local onde ele também fora instruído a fazer uma faculdade.

Quando perguntado sobre sua relação com o ensino, o Entrevistado B afirma que, durante o Ensino Médio, quando já sabia o conteúdo de Física, ele costumava prestar atenção na relação professor-aluno e tirar conclusões sobre as formas de abordagem do conteúdo de sua professora de Física. Além disso, ele afirma que era gratificante ensinar seus colegas e ver que os mesmos tiravam boas notas nas provas.

Desde que chegou à Brasília, sua família possui como vizinhos um casal de físicos médicos e ele comenta que, por sua mãe ver esse casal viajando bastante ao exterior, teria comentado e dado sua permissão para que ele fosse para a Física, pois era uma profissão que dava dinheiro. Porém, ao saber que ele decidira por seguir a carreira de professor, surgiu o pensamento de que seu filho seria pobre.

Para o Entrevistado B, ser professor sempre esteve em seus planos, porém o mesmo não deseja exercer apenas uma profissão. É recorrente em sua fala que o mesmo sempre teve dúvidas entre qual profissão seguir: professor de Física ou desenhista, e que ainda hoje essa dúvida permanece. Contudo, ele afirma que exercerá sim a profissão de docente ao concluir seu curso, apesar de suas incertezas.

## Análise das histórias de vida

Como podemos observar, os dois entrevistados são sujeitos que tiveram uma formação e experiências de socialização diferentes, porém suas trajetórias de vida convergiram para um mesmo ponto: ambos são alunos de Licenciatura em Física. Levantaremos a seguir alguns pontos interessantes que aconteceram em suas vidas e que podem ter sido influências para suas escolhas de carreira.

- O Entrevistado B, por estar inserido em uma família que possui Ensino Superior, teve um contato maior com aspectos que estão presentes nesse ambiente (como podemos ver em seu desejo de fazer doutorado desde criança). Já a Entrevistada A, por não ter tido esse contato e não conhecer o ambiente acadêmico, sofreu ao ingressar na universidade, pensando diversas vezes em desistir do curso.

Ambos tiveram em suas trajetórias escolares uma experiência de ensinar outros alunos, tanto colegas de classe, quanto alunos mais novos do Ensino Fundamental. Essas experiências trouxeram satisfação e prazer ao ajudar seus colegas, criando um ambiente favorável para que eles reconheçam que possuem uma vocação para a docência (LIMA JUNIOR, 2018).

- O Entrevistado B reconhece em sua vida que seu pai teve fortes influências pelo seu gosto e interesse pela ciência, porém, em sua fala há trechos recorrentes do tipo 'sempre gostei de ciências', 'escolhi Física porque gosto'. Assim, percebe-se que ele não associa diretamente o incentivo do pai pela ciência ao seu gosto supostamente "nato" por ela. Algo similar acontece com a Entrevistada A que, por observar seu pai desde pequena a mexer com questões de eletricidade e despertar um interesse por essa área, responde que escolher Física foi por uma paixão da época de escola, não reconhecendo a influência de suas observações no despertar de seu interesse pela Física.

## Considerações finais

A partir das entrevistas desses alunos, pudemos ver como o papel da família na infância e adolescência das pessoas é bastante influenciadora, pois é nessa faixa etária que definimos nossos gostos, preferências e modos de agir e pensar, que são herdados de distintas maneiras (LAHIRE, 2004).

Com relação ao perfil dos ingressantes na Licenciatura em Física, pudemos ver que, no caso retratado acima, a origem social não foi tão determinante para a escolha de um curso de nível superior. Mas vale ressaltar que a origem social pode tornar a realização do curso mais suave ou traumática e contribuir de alguma forma na questão da evasão.

No que diz respeito à influência das experiências durante a vida acadêmica no interesse pela docência, ambos entrevistados tiveram experiências acadêmicas distintas. Entrevistada A mostrou-se desmotivada com seu desempenho no curso, porém, ainda assim gostaria de ensinar, mesmo que outra disciplina. Já Entrevistado B, que teve experiências de docência durante sua vida acadêmica (o mesmo já realizou os estágios obrigatórios), continua convicto sobre ser professor de Física após concluir o curso. Vemos então que a vida universitária não afetou diretamente no interesse pela docência, porém, no caso da Entrevistada A, há uma certa desmotivação e incerteza quanto a seguir no curso de Física.

A partir dos estudos das trajetórias de vida dos alunos de Licenciatura em Física, podemos entender melhor como se dá o processo de gênese do interesse pela

docência e quais socializações são favoráveis ou inibidoras à essa gênese, sendo uma grande ferramenta para o estudo de formação de professores de Física no Brasil.

## Referências

ARRUDA, S. de M. et al . Dados comparativos sobre a evasão em Física, Matemática, Química e Biologia da Universidade Estadual de Londrina: 1996 a 2004. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , v. 23, n. 3, p. 418-438, 2006.

BOURDIEU, P. A distinção : crítica social do julgamento. Porto Alegre: Zouk, 2006.

BRASIL. Escassez de professores no ensino médio : propostas estruturais e emergenciais. Brasília: Ministério da Educação, 2007.

CONTRERAS, J. A autonomia dos professores . São Paulo: Cortez Editora, 2012.

COSTA, C. L. A.; COSTA, C. V. B. Desempenho e atitudes em relação à matemática de alunos do 6o ano do ensino fundamental. Revista Brasileira de Ensino de Ciência e Tecnologia , v. 6, n. 3, p. 1-11, 2013.

DAITX, A. C.; LOGUERCIO, R. D. Q.; STRACK, R. Evasão E Retenção Escolar No Curso De Licenciatura Em Química Do Instituto De Química Da Ufrgs. Investigações em Ensino de Ciências , v. 21, n. 2, p. 153-178, 2016.

FERREIRA JR., A.; BITTAR, M. A ditadura militar e a proletarização dos professores. Educação e Sociedade , v. 27, n. 97, p. 1159-1179, 2006.

HIROTA, L. C. B et al . Perfil motivacional dos alunos dos cursos de graduação em Física. In: XVII Encontro de Pesquisa em Ensino de Física, 17., 2018, Campos do Jordão. Atas [...]. Campos do Jordão: SBF, 2018.

LAHIRE, B. Retratos sociológicos : disposições e variações individuais. Porto Alegre: Artmed, 2004.

LIMA JUNIOR, P. Trajetórias dos professores de ciências em tempos de proletarização: família e vocação docente. In : L. MASSI; P. LIMA JUNIOR; E. BAROLI (Org.). Retratos da docência: contextos, saberes e trajetórias. Araraquara: Letraria, 2018, p. 435-459.

LIMA JUNIOR, P. et al . A integração dos estudantes de periferia no curso de Física: razões institucionais da evasão segundo a origem social. CIÊNCIA & EDUCAÇÃO (ONLINE) , 2020 (artigo aceito para publicação).

MENEZES, D. P. et al . A Física da UFRGS em números: evasão e gênero. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , v. 35, n. 1, p. 324-336, 2018.

MICHA, D. N. et al . O novo currículo do Curso de Licenciatura em Física do CEFET/RJ, Campus Petrópolis. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , v. 35, n. 2, p. 478-517, 2018.

SILVA, F. P., PEREIRA, A. P. de. Uma revisão sobre fracasso escolar no ensino de ciências. In : XII Encontro Nacional de Pesquisa Em Educação em Ciências, 12., 2019, Natal. Atas [...]. Natal: ABRAPEC, 2019.

SILVA FILHO, R.L.R. et al . A evasão no ensino superior brasileiro. Cadernos de Pesquisa , v.37, n.132, p. 641-659, 2007.

TINTO, V. Leaving college : rethinking the causes and cures of student attrition. Chicago: University Press, 1987.

Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.