IDENTIDADE CIENTÍFICA DE MULHERES: POSSIBILIDADES PARA O USO DA HISTÓRIA DE SONJA ASHAUER NA EDUCAÇÃO
Barbra Miguele De Sá, Ivã Gurgel
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVIII
- Ano
- 2020
- Data
- 11/11/2020
- Linha de pesquisa
- Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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## IDENTIDADE CIENTÍFICA DE MULHERES: POSSIBILIDADES PARA O USO DA HISTÓRIA DE SONJA ASHAUER NA EDUCAÇÃO
## WOMEN'S SCIENTIFIC IDENTITY: POSSIBILITIES FOR THE USE OF THE SONJA ASHAUER'S HISTORY IN EDUCATION
Barbra Miguele de Sá 1 , Ivã Gurgel 2
- 1 Mestrado em Ensino de Física pelo Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências da Universidade de São Paulo, barbra.sa@usp.br
- 2 Instituto de Física da Universidade de São Paulo / Departamento de Física Experimental, gurgel@usp.br
## Resumo
A física é conhecida como uma área pouco atrativa às mulheres. Uma das causas recentemente apontadas na literatura para isso se encontra nos estudos sobre a identidade como construção histórico-cultural. Neste sentido, a baixo motivação de meninas nas disciplinas científicas pode estar vinculada à percepção de uma incompatibilidade cultural entre elas e uma ideia estereotipada de ciência. Uma das possibilidades para o enfrentamento deste problema se dá a partir do uso da história da ciência como ferramenta para transformação dos estereótipos disseminados sobre as características necessárias de um ou uma cientista. Tendo isto em consideração, e sabendo que uma das principais barreiras para o uso de história da ciência no ensino é a falta de materiais adequados, neste trabalho apresentamos a trajetória científica da física Sonja Ashauer (1923-1948), conhecida por ser a primeira mulher brasileira a obter um PhD em física. Através dela, analisase diferentes aspectos da natureza da ciência que podem ser explorados por meio deste episódio, buscando assim dar destaque às suas potencialidades educacionais. Sua história não apenas serviria como motivadora para meninas brasileiras se engajarem na ciência, mas também permite explorar uma série de práticas e dinâmicas da pesquisa em física no Brasil na década de 1940.
Palavras-chave : Mulheres na física, física brasileira, identidade, Sonja Ashauer
## Abstract
Physics is known as an unattractive area for women. One of the causes pointed out by literature recently can be found in studies on identity as a historicalcultural construction. In this sense, the lack of motivation in girls may come from the perceived incompatibility between them and a stereotyped idea of science. A possibility to face this problem comes from the use of history of science to transform the transmitted stereotypes about what is need to be a scientists. Taking this into account, and and remembering that one of the main barriers for the use of the history of science in teaching is the lack of materials, in this work we present the scientific trajectory of Sonja Ashauer (1923-1948), known for being the first Brazilian woman with a PhD in physics. From it, we analyze different aspects of the nature of science that can be explored through this episode, thus seeking to highlight its educational
potential. Her history would not only serve as a motivator for Brazilian girls to engage in science, but it's also a possibility to explore a series of research practices and dynamics undertaken by Brazilian physicists during the 1940s.
Keywords : Women in physics, Brazilian physics, identity, Sonja Ashauer.
## 1. Introdução: o baixo interesse de mulheres pela física
Uma série de estudos dedicados à discussão e sistematização sobre a presença e o papel das mulheres na ciência têm sido desenvolvidos desde a década de 70, como resultado de intensa transformação cultural impulsionada pelo movimento de libertação das mulheres (Schiebinger, 1999). Esta época marcou também o momento de intensificação do acesso de mulheres aos níveis superiores de educação no Brasil (Guedes, 2010) e no mundo (Schiebinger, 1999; 2003) assim como o aumento de sua inserção no mercado de trabalho (Guedes, 2010).
Apesar das transformações conquistadas e de sua maior inserção nas universidades nos últimos 40 anos - mais de 56,9% das matrículas em cursos de graduação no Brasil e mais de 46% das docentes universitárias (INEP, 2018) -, ainda existem áreas em que a ocupação feminina continua a ser muito baixa.
De acordo com o relatório Gender in the Global Research Landscape (Elsevier, 2015), o número de pesquisadoras mulheres no Brasil já é proporcional ao de homens (49%). Porém, na física e em outras ciências exatas, o mesmo cenário não é observado -elas são apenas 33% em Física e Astronomia (Ibid.). Este problema não é exclusividade brasileira, visto que o mesmo relatório apresenta resultados semelhantes nesta área em todos os países analisados (Ibid.).
Além de poucas mulheres entrarem para a carreira de pesquisa em física, outros estudos mostraram que jovens meninas na idade escolar não possuem interesse por esta disciplina. O projeto ROSE ( the Relevance Of Science Education ), que reuniu e analisou informações sobre como jovens estudantes de 15 anos em todo o mundo se relacionam com ciência e tecnologia, evidencia este problema (Sjøberg e Schreiner, 2010). De acordo ele, meninas possuem menos interesse por ciência e tecnologia do que meninos em quase todo o mundo (Ibid.).
Boa parte das pesquisas dedicadas a compreender os fatores causadores de tais disparidades tem apontado para fatores socioculturais - como o problema do acesso às instituições científicas, a dificuldade em balancear a pesquisa e a maternidade etc. -como algumas das principais causas para a ausência de mulheres na física (Lewis et al., 2016). Na seguinte seção, discutiremos como um desses fatores, a saber a construção de identidade, segundo a perspectiva da psicologia social, tem sido investigada nos últimos anos como relevante para o afastamento de meninas e de outros grupos minoritários da ciência.
## 2. Identidade científica e pertencimento: gênero como fator relevante
Uma das possíveis causas recentemente apontadas na literatura para a ausência de mulheres nas ciências exatas, especialmente na física, pode ser encontrada em estudos que exploram o papel da construção de identidades culturais
junto ao ensino de ciências (Brickhouse e Potter, 2001; Lewis et al., 2016; Steinke, 2017).
A identidade pode ser compreendida de diversas maneiras. De acordo com Brickhouse e Potter (2001), ela seria o entendimento de si próprio em relação tanto às experiências passadas quanto a um potencial futuro, ou seja, às expectativas criadas sobre si. Identidade também é definida como o sentimento de semelhanças e diferenças percebidas entre alguém e determinados grupos (Lewis et al., op. cit.).
Não se trata de algo adquirido de forma solitária, apesar de ser construída seguindo um processo que, em certa medida, é individual (Deschamps e Moliner, 2009). Ao elencar alguns dos principais processos utilizados na formação das identidades, Deschamps e Moliner (op. cit.), estudiosos na área de psicologia social, afirmam que sua construção e evolução dependem fortemente das interações sociais. Os autores apontam para a criação de categorias e grupos de pessoas, assim como a associação desses grupos a estereótipos sobre eles, como fatores relevantes na construção da identidade.
Segundo eles, a categorização social seria o processo em que pessoas são agrupadas, e ao mesmo tempo se agrupam, de acordo com características comuns percebidas entre elas. Neste processo, características que indicam semelhança entre membros de um mesmo grupo são reforçadas em lugar das diferenças, e o oposto acontece entre membros de grupos distintos (neste caso, diferenças precisam sobressair às semelhanças). No seio deste processo, surge um importante efeito da construção de identidades: a criação de estereótipos (Ibid.).
Deschamps e Moliner definem os estereótipos como sendo 'conjuntos de crenças relativas às características de um grupo' (Ibid., p. 33). Tais crenças, como apontam Cheryan e colaboradores (2015), mesmo que não digam respeito a todos, ou sequer da maioria dos membros de um mesmo grupo, ainda assim, possuem um grande poder para determinar atitudes sobre e entre eles.
A partir da percepção da pertença ou não a um grupo, o indivíduo se vê induzido (consciente ou inconscientemente) a assumir e reforçar determinados comportamentos estereotipados, esperados dele, como mecanismo para se ajustar e permanecer junto de seus semelhantes (Deschamps e Moliner, op. cit.). Em contrapartida, o mesmo indivíduo acaba negando outros comportamentos e habilidades que, mesmo não sendo contraditórios com suas características já assumidas, dizem respeito a outros grupos diferentes de seu grupo de pertença.
Neste sentido, muitos trabalhos têm argumentado que o desinteresse de jovens meninas pelas ciências exatas, assim como a baixa inserção de mulheres nessas carreiras, podem estar relacionados à percepção de uma incompatibilidade cultural entre a imagem de ciência e de seus participantes que chega até elas e os grupos aos quais elas se vêem pertencentes (Gurgel, Pietrocola e Watanabe, 2016), em geral definidos por seu gênero. O mesmo processo ocorreria com estudantes de outros grupos minoritários, de acordo com sua etnia, nacionalidade etc.
Em um estudo de 1957, Margaret Mead e Rhoda Métraux mostraram que a imagem de cientista compartilhada entre estudantes estadunidenses era a de um homem, idoso ou de meia-idade, excêntrico, muito inteligente e sempre usando jaleco branco e óculos. Além disso, ele trabalha sozinho e passa dias dentro do laboratório realizando experimentos perigosos (Mead e Métraux, 1957). Tal imagem estereotipada não é exclusividade da década de 50 ou dos EUA; estudos mais
recentes têm mostrado como ela ainda é disseminada entre jovens no Brasil (Reznik et al., 2017).
A partir disso, é possível compreender porque, em geral, meninas não criam interesse, ou não se vêem como capazes de aprender e produzir conhecimento em física e em outras ciências exatas. Além de entenderem a ciência como um espaço onde encontrarão poucos modelos e colegas do mesmo sexo com quem compartilhar semelhanças (Lewis et al., op. cit.), a ideia sobre o trabalho científico que elas têm é incompatível com uma série de expectativas socialmente impostas às mulheres, como o casamento e a maternidade, visto que tais papéis são dificultados com um trabalho de isolamento e dedicação integral (Cheryan, Master e Meltzoff, op. cit.).
Neste sentido, alguns estudos tem sugerido a transformação dos estereótipos sobre a ciência como necessário para atrair pessoas de grupos diversificados para esta atividade (Cheryan, Master e Meltzoff, op. cit.; Steinke, 2017).
## 3. História da mulheres físicas na educação científica
Um caminho possível para a transformação dos estereótipos sobre a ciência, seus métodos e seus produtores, se dá através da apresentação e discussão de alguns aspectos da natureza da ciência em sala de aula (Moura e Guerra, 2016), como o entendimento da ciência como prática humana condicionada por seu contexto histórico, social e cultural, e dos cientistas como seres humanos imersos neste contexto.
Neste sentido, a literatura especializada tem apontado para a história da ciência como recurso a ser considerado para o uso de tais abordagens dentro da educação científica (Silva et al., 2008; Moura e Guerra, 2016). Assim, na busca por compreender a ciência de forma contextualizada e humanizada, a abordagem histórica só se reveste de sentido ao descartar a tradição da história da ciência linear, dos 'vencedores' ou dos 'grandes gênios' (Silva et al., 2008; Moura e Guerra, 2016), que reforça os estereótipos mencionados acima. Tal tradição também teria contribuído para a perpetuação da ideia de que, no passado, mulheres não teriam participado da ciência.
Diversos trabalhos historiográficos já tem mostrado como, apesar da verdadeira baixa representatividade de mulheres na ciência e dos mecanismos políticos e institucionais que as impediram de adentrar este ambiente, houve mais mulheres cientistas ao longo da história no que nos diz a crença popular (Rossiter, 1982; Schiebinger, 2003). Contudo, tais trabalhos revelaram como, no passado, os principais espaços de atuação ocupados por mulheres não foram os de maior prestígio e reconhecimento (Rossiter, op. cit.; Schiebinger, 2003, op. cit.), o que, em certa medida, explica porque elas demoraram a se tornar alvos dos historiadores da ciência. Muitas delas atuaram como ajudantes de pesquisa, técnicas de laboratório, integrantes de equipes responsáveis por medições, coletas e cálculos de dados, divulgadoras ou mesmo simples aprendizes - estudantes e público de palestras científicas (Rossiter, op. cit.).
Desta maneira, a história da ciência, especialmente aquela que considera a participação de mulheres cientistas, além de servir à recuperação de personagens ocultados pela antiga tradição, não deixaria de abranger a questão sobre como a
ciência é praticada e como se dão as dinâmicas entre diferentes participantes deste empreendimento.
Diante disso e dos problemas de construção da identidade apresentados acima, trabalhos anteriores (Gurgel, Pietrocola e Watanabe, 2016) indicam como o contato, através da história, com praticantes da ciência com quem os estudantes compartilhem semelhanças (como gênero, etnia, nacionalidade etc.) serviria como condição motivadora para alterar suas atitudes quanto à ciência. Entretanto, tal contato depende da existência de materiais, o que ainda hoje é uma das principais demandas apontadas pelos defensores da história da ciência no ensino.
## 4. Sonja Ashauer
Considerando que a história da ciência pode ser utilizada como ferramenta significativa para desmistificar ideias estereotipadas sobre a ciência e seus produtores, neste trabalho apresentamos uma proposta de uso da trajetória científica de uma pesquisadora em particular: a física Sonja Ashauer, conhecida por ser a primeira mulher brasileira a conquistar um título de PhD em Física no exterior.
A escolha por explorar sua trajetória não abrange apenas demandas por mais exemplos de mulheres cientistas, mas lida também com outra dimensão da identidade: a nacionalidade, outro elemento fundamental da identidade cultural do indivíduo e, no caso brasileiro, frequentemente visto como conflitante com a ideia popular sobre a ciência, já que geralmente associamos a produção científica às grandes potências (Gurgel, Pietrocola e Watanabe, 2016).
Sonja Ashauer se formou em física pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP (FFCL), tendo sido parte de uma das primeiras gerações de físicos brasileiros com graduação em curso superior de Física sem vínculo com as graduações em engenharia (Dantes e Chassot, 2015). O curso, assim como o Departamento de Física da FFCL, eram liderados pelo físico teórico ítalo ucraniano Gleb Wataghin, uma figura importante por ter sido o proponente das primeiras linhas de pesquisa do país, em geral voltadas para a assuntos de fronteira como raios cósmicos, eletrodinâmica quântica e astrofísica.
Wataghin foi professor de Ashauer e também seu supervisor desde o início de sua carreira acadêmica. Depois de formada, em 1944, ela passou a trabalhar como sua assistente na Cadeira de Física Teórica e Física Matemática. Muitos dos físicos formados na FFCL passavam por cargos de assistente, que era parte fundamental da carreira. Também sob a orientação de Wataghin, muitos deles, incluindo Sonja Ashauer, foram para o exterior com o objetivo de se integrar à comunidade científica mundial.
Entre 1945 e 1948, ela realizou doutorado em Cambridge, no Reino Unido, sob supervisão do físico britânico Paul A. M. Dirac, onde pesquisou alguns problemas teóricos da eletrodinâmica quântica. Em meio ao final da SegundaGuerra e início do período pós-Guerra, havia poucas pessoas realizando pesquisas em física teórica nas universidades britânicas. Ainda assim, foi a partir deste período que Dirac, que dificilmente aceitava supervisionar pesquisas de pós graduação, começou a assumir um maior número de PhDs (Dalitz e Peierls, 1986), dentre eles Sonja Ashauer, Christie Eliezer, Subrahmaniyan Shanmugadhasan (ambos do Ceilão, atual Sri Lanka) e Harish-Chandra (da Índia).
Enquanto esteve em Cambridge, ela não deixou de manter comunicação com Wataghin através de troca de cartas onde relatava os andamentos de suas pesquisas, algumas experiências de convivência com Dirac e com outros professores que acabaram por substituí-lo na supervisão, como Nicholas Kemmer, e trazia algumas atualizações sobre os temas recentes de pesquisa em física teórica e matemática com os quais ela tinha contato na Europa, através de palestras, colóquios etc. Além disso, ela também cumpriu importante papel na tentativa de disseminar os trabalhos publicados por seus colegas da USP pelas universidades por onde passou - um exemplo disso é o fato de ela ter deixado exemplares de atas do primeiro Simpósio brasileiro sobre raios cósmicos nas bibliotecas da Universidade de Cambridge e também no Instituto de Estudos Avançados de Dublin.
A atuação de Ashauer como pesquisadora, porém, durou pouco tempo, pois em 1948, depois de defender sua tese e voltar para o Brasil, ela faleceu, com apenas 25 anos de idade. Apesar disso e também de não haver uma vasta obra científica sua, para além da tese de PhD e de alguns poucos artigos publicados durante o tempo passado em Cambridge, o estudo da trajetória científica de Sonja Ashauer revela uma série de mecanismos sobre como se deu a inserção de brasileiros (e cientistas de outras nacionalidades não europeias, como era o caso geral dos estudantes de Dirac durante os anos 40) em pesquisas em física teórica, em meio a um período extraordinário da história (a saber, o final da Segunda-Guerra e início do período pós-Guerra).
## 5. Discussões possíveis a partir da trajetória de Sonja Ashauer
Agora, nos resta perguntar: quais os possíveis caminhos a se seguir para uma utilização significativa da trajetória de Sonja Ashauer dentro da educação científica? Ainda, como tais caminhos justificam a necessidade de mais pesquisa historiográfica sobre ela e seus trabalhos?
Nos últimos anos, Sonja Ashauer tem ficado mais conhecida, ou ao menos, tem-se falado mais sobre ela, especialmente depois das publicações dos livros 'Pioneiras da ciência no Brasil' (Melo e Rodrigues, 2006) e 'Mulheres na Física: casos históricos, panoramas e perspectivas' (Saitovitch et al. (Org.), 2015), obras dedicadas a divulgar e tornar conhecidos os nomes de cientistas mulheres e ambas contendo uma biografia de Sonja Ashauer. Buscando por seu nome no Google , encontramos 6 resultados de datas anteriores a 2006, 53 publicados entre 2006 e 2015 e 169 publicados a partir de 2015, o que mostra o impacto dessas obras em seu reconhecimento. Ainda assim, grande parte das menções sobre ela se referem apenas ao seu pioneirismo como primeira brasileira doutora em física e à sua morte prematura, fato que é facilmente utilizado para transformá-la em heroína.
Os usos de sua história, porém, podem e devem abranger muito mais do que a simples exaltação de seu pioneirismo, retratando a personagem de forma mais complexa e humanizada. Se as mulheres na ciência brasileira continuarem a ser vistas apenas como figuras extraordinárias e inalcançáveis, então, falar sobre elas não serve nem à aproximação de meninas com a ciência nem à valorização da história da ciência nacional.
Como mostrado anteriormente, a trajetória científica de Sonja Ashauer coincide com a história dos primeiros envolvimentos de físicos brasileiros em pesquisas de colaboração internacional em mecânica quântica e física nuclear, além da história das primeiras pesquisas em física teórica de fronteira no Brasil. Neste
sentido, o trabalho historiográfico sobre esta personagem permite, além da criação de uma narrativa que inclua a participação de uma mulher cientista no desenvolvimento da física brasileira, a compreensão de algumas das dinâmicas de circulação do conhecimento em mecânica quântica promovidas entre o Brasil e o resto do mundo no início do século XX.
As cartas trocadas entre Sonja Ashauer e Gleb Wataghin, por exemplo, são fontes que poderiam trazer uma série de reflexões sobre as práticas de pesquisa em física matemática na época, visto que nelas, Ashauer relata alguns dos problemas pesquisados além de certas angustias no decorrer da pós graduação, e sobre como novos temas de pesquisa podiam circular entre diferentes instituições do mundo.
## 6. Considerações Finais
Neste artigo, sugerimos a necessidade de se realizar pesquisa historiográfica a respeito da trajetória científica de Sonja Ashauer com vista a produção de materiais para se trabalhar com história das mulheres na física brasileira dentro da educação científica.
Argumentamos que a história da ciência pode exercer um papel importante na desmistificação e questionamento dos estereótipos sobre a ciência e seus praticantes, revelando-a enquanto construção histórica, sem ocultar os sujeitos que participaram de seu desenvolvimento, mesmo que estes tenham sido relegados a posições de menor prestígio, como foi o caso de muitas mulheres cientistas.
Mesmo acreditando que a educação científica não deveria contribuir para a reprodução de estereótipos que previamente excluem e desmotivam grupos marginalizados quanto à ciência, reconhecemos que o recrutamento de mini cientistas não é seu único, e muito menos mais importante, papel. Também é preciso considerar que o problema da falta de mulheres e de outras minorias na física não é causado apenas pela falta de representação, ou seja, o combate aos estereótipos sozinho não é suficiente para solucionar esta questão, assim como também não basta aumentar os números dessas pessoas nas instituições científicas. Tem sido bastante apontado pela literatura feminista sobre a ciência, e concordamos com este ponto, que a cultura da ciência em si é contraditória com os movimentos de libertação das minorias e portanto ela mesma, em suas práticas e valores, excluí essas pessoas. Neste sentido, lembramos que uma verdadeira transformação do cenário passa também por reformas na cultura da ciência.
## 7. Referências
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