MENINAS COMO MEDIADORAS DA CULTURA CIENTÍFICA: EXPECTATIVAS E APRENDIZAGENS NA TRAJETÓRIA DE BOLSISTAS DO PROJETO MENINAS NA CIÊNCIA
Sônia Elisa Marchi Gonzatti, Vitória Portantiolo Klein, Andreia Spessatto De Maman, Dayene Borges Guarienti, Márcia Jussara Hepp Rehfeldt
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVIII
- Ano
- 2020
- Data
- 11/11/2020
- Linha de pesquisa
- Equidade, Inclusão, Diversidade E Estudos Culturais E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## MENINAS COMO MEDIADORAS DA CULTURA CIENTÍFICA: EXPECTATIVAS E APRENDIZAGENS NA TRAJETÓRIA DE BOLSISTAS DO PROJETO MENINAS NA CIÊNCIA
## GIRLS AS MEDIATORS OF SCIENTIFIC CULTURE: EXPECTATIONS AND LEARNING IN THE TRAJECTORY TO THE PROJECT "GIRLS IN SCIENCE"
Sônia Elisa Marchi Gonzatti¹, Vitória Portantiolo Klein 2 , Andreia Spessatto De Maman 3 , Dayene Borges Guarienti 4 , Márcia Jussara Hepp Rehfeldt 5
¹Univates, soniag@univates.br Univates, vitoria.klein@universo.univates.br 3 Univates, andreiah2o@univates.br 4 Univates, dayene.guarienti@univates.br 5 Univates, mrehfeld@univates.br
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## Resumo
Mulheres enfrentam atravessamentos de gênero que iniciam na infância e perduram até a vida adulta. No meio acadêmico, enfrentam dificuldades, competições e discriminações implícitas. Particularmente, no campo das ciências exatas, esse cenário impacta no número de mulheres que fazem carreira na área. Projetos como o Meninas na Ciência são uma das iniciativas que podem reverter essa realidade. O presente trabalho tem como objetivo apresentar as percepções das meninas bolsistas de iniciação científica júnior, sobre suas motivações e aprendizagens a partir das experiências desenvolvidas durante a trajetória em um projeto do Edital chamado Meninas na Ciência, aprovado em uma universidade comunitária do Sul do Brasil. No total, são nove meninas, cuja bolsa tem vigência de julho de 2019 a junho de 2020. A recolha de dados ocorreu por meio de questionários on-line, um realizado no início da bolsa e, o outro, em janeiro de 2020. Em um primeiro momento, foram questionadas quanto às suas motivações para participar do projeto, em que relataram uma busca por novos conhecimentos, o gosto pela área de exatas, o fato de ser um projeto que inclui apenas garotas e a busca por oportunidades futuras. No segundo questionário, que abordou as suas experiências e aprendizagens, pode-se observar que as respostas foram ao encontro de suas expectativas iniciais, tendo relatos do desenvolvimento de interesse por novos temas e da aquisição de novos conhecimentos.
Palavras-chave : gênero; meninas na ciência; cultura científica.
## Abstract
Women face gender issues that start in childhood and last until adulthood. In the academic environment, they face difficulties, competitions and implicit discrimination. Particularly, in the field of exact sciences, this scenario impacts the number of women who make a career in the area. Projects like Girls in Science are one of the initiatives that can reverse this reality. The present work aims to present the
perceptions of scholarship girls of junior scientific initiation, about their motivations and learnings during the trajectory in a project of a public noticed called Girls in Science approved in a community college located in the South of Brazil. In total, there are nine girls, whose scholarships runs from July 2019 to June 2020. Data collection took place through online questionnaires, one conducted at the beginning of the scholarship and the other in January 2020. In at first, they were asked about their motivations for participating in the project, in which they reported a search for new knowledge, a delight for the exact area, the fact that it is a project that includes only girls and the search for future opportunities. In the second questionnaire, which addressed their experiences and learning, it can be seen that the answers met their initial expectations, with reports of the development of interest in new themes and the acquisition of new knowledge.
Keywords : Gender; girls in science; scientific culture.
## 1. Contextualização
Segundo dados do Censo da Educação Superior no Brasil de 2016 (INEP, 2019), o número de mulheres matriculadas na graduação é maior que o de homens. Porém, esse número não se aplica nos cursos de Ciências Exatas e Engenharias, onde a porcentagem de mulheres matriculadas é muito baixa, sendo que dentre os 20 maiores cursos de graduação, as mulheres são minoria em 8 deles. Desses, 4 fazem parte da área das Ciências Exatas e Engenharias (INEP, 2019). Tal cenário se replica na Universidade do Vale do Taquari - Univates (GONZATTI et al, 2019); no segundo semestre letivo de 2019, o número de matrículas nos cursos do Centro de Ciências Exatas e Tecnológicas (CETEC) obteve uma média de 21,3% de mulheres, possuindo alguns desses cursos, como Engenharia de Controle e Automação, Engenharia Elétrica e Engenharia Mecânica, menos de 5% de mulheres matriculadas. No que tange à pós-graduação, o estudo de Barros & Silva (2019), denuncia um processo de exclusão vertical de mulheres ao longo do avanço nas carreiras em Engenharias e Ciências Exatas, vinculadas tanto a obstáculos encontrados no percurso da carreira quanto em questões familiares, ambos aspectos que estão associados a práticas sociais de naturalização das disparidades de gênero.
Editais nacionais como o Meninas na Ciência constituem uma estratégia para reverter essa realidade. No contexto local, nota-se que os atravessamentos de gênero e as estatísticas convergem com aquelas do cenário macro. Por isso, a Universidade do Vale do Taquari apresentou o projeto de pesquisa - 'A formação da cultura científica: meninas aprendendo, mediando e difundindo saberes e práticas em Ciências Exatas e Tecnológicas', aprovado por meio da chamada CNPq/MCTi 031/2018, que tem como objetivo geral incentivar a participação feminina em cursos de graduação das áreas de Engenharias e Ciências Exatas. Esse incentivo se dá por meio de ações realizadas junto de três escolas públicas estaduais de ensino médio da região do Vale do Taquari.
O projeto atua em duas direções principais. Na direção vertical, tem como proposta a integração InterUnidades, onde estão inseridas aquelas atividades em que as meninas das três escolas interagem entre si, incluindo debates, visitas guiadas em laboratórios e Mostra Científica Integradora. Já na direção horizontal, a integração ocorre entre escolas e a universidade por meio de ações que
contemplam quatro eixos principais, sendo eles Experimentação, Aplicativos Computacionais, Ensino de Astronomia e Robótica. Os encontros no início foram quinzenais, agora, são mensais e focam na formação quanto aos eixos temáticos e em planejamento. Ressalta-se que os eixos temáticos emergiram a partir das necessidades e demandas levantadas pelas escolas parceiras. Posteriormente, as equipes de bolsistas das escolas desenvolvem essas atividades em cada contexto escolar, levando as Ciências Exatas para a escola e mostrando que seguir carreira científica não depende do gênero. A figura 1 apresenta esquematicamente a matriz de referência do projeto.
Figura 1: Matriz de referência do Projeto Meninas na Ciência/Univates
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Fonte: das autoras (2019).
A realização destas atividades busca inserir as estudantes no meio científico, oferecendo experiências nas quais as garotas possam se sentir à vontade para questionar e opinar, pois o afastamento das mulheres da ciência pode ser resultado da falta de oportunidades de participação durante as aulas de ciências exatas. Cordeiro (2013) relata que 'o machismo não permeia apenas a ciência, mas também a educação, afastando mulheres de carreiras científicas.'
Social e culturalmente, convive-se com vários atravessamentos de gênero que criam um estereótipo sobre o que as mulheres são ou não capazes de fazer. Um exemplo são os filmes infantis e livros didáticos que demonstram a área das Ciências Exatas como prioritariamente masculina (GEDOZ; PEREIRA; PAVANI, 2018). Ao estudar a carreira científica de Física, Lima (2013), conclui que as mulheres enfrentam diversos obstáculos e preconceitos durante a caminhada, como explica a metáfora do labirinto de cristal, os quais iniciam já na infância, na escolha da área de atuação e ao longo de sua trajetória acadêmica.
Durante o ensino básico, meninas que têm aptidão pela área das Ciências Exatas e Tecnológicas ainda enfrentam dificuldades, como a falta de modelos inspiradores de mulheres nas ciências em geral ou uma interação preferencial dos professores da área com os meninos em detrimento das meninas (CORDEIRO, 2013; 2017; GEDOZ; PEREIRA; PAVANI, 2018). Por tudo isso, é necessário e estratégico que ações que façam refletir sobre os atravessamentos de gênero iniciem o mais cedo possível, na vida escolar das meninas.
Esse trabalho tem como objetivo apresentar as percepções relatadas pelas bolsistas BIC Júnior do Projeto Meninas na Ciência, suas motivações e aprendizagens a partir das experiências desenvolvidas durante a trajetória de bolsistas que atuam como mediadoras da formação da cultura científica em suas escolas.
## 2. Metodologia
Neste estudo serão analisados dois questionários, os quais foram respondidos pelas nove bolsistas de iniciação científica Júnior das três escolas parceiras, aplicados no início do projeto e ao final do primeiro semestre de trabalho na bolsa. Os questionários foram respondidos em meio eletrônico, sendo a ferramenta utilizada o Questionário do Google.
No levantamento inicial, as bolsistas foram questionadas quanto às suas motivações para participação no projeto, também como encaram sua aprendizagem em relação aos seus colegas meninos. No segundo questionário, as garotas foram questionadas quanto às suas experiências ao aplicarem as atividades em sala de aula, sobre as aprendizagens marcantes e como foi a receptividade das atividades realizadas nas escolas.
Os dados foram analisados e comparados, visando avaliar em que medida as vivências durante a iniciação científica se aproximaram das expectativas iniciais. Optou-se por uma análise descritiva, o que oferece a este estudo um caráter qualitativo de pesquisa.
## 3. Análise das Entrevistas
No primeiro questionário, pesquisou-se o que motivou as meninas a quererem fazer parte do projeto Meninas na Ciência. As respostas mais frequentes foram relacionadas às possíveis oportunidades futuras que o projeto pode trazer; ao gosto delas pela área das Ciências Exatas; à vontade de aprender mais e ao fato de ser um projeto só de meninas, como evidenciado no depoimento: 'o objetivo de ser com meninas, fez com que criasse muito mais a vontade de aprender com esse projeto. E adquirir mais conhecimento com aquilo que me motiva a estudar cada vez mais.' (bolsista 6). Nessa linha, podemos perceber que a maioria mencionou se sentir mais atraída pelo projeto pois ele é feito por mulheres e com mulheres. Segundo Hazari, Tai e Sadler (2007), pesquisas demonstram que ao comparar o desempenho das meninas em aulas de física compostas por ambos os sexos, meninas em aulas de física exclusivamente femininas, desenvolvem maior interesse, autoconceito, confiança, realização e persistência, demonstrando assim a importância de implementar um projeto somente de meninas.
Já no questionário realizado em janeiro de 2020, respondido por 8 das 9 bolsistas, a primeira questão referenciava as experiências e aprendizagens mais importantes no contexto do projeto Meninas na Ciência. As respostas foram bem diversificadas, incluindo a dificuldade no desenvolvimento de novas atividades, aquisição de novos conhecimentos, o aumento do interesse por novos assuntos, como astronomia e robótica, e a oportunidade de expor opiniões em rodas de conversas e fóruns. A análise evidenciou um conjunto de argumentos que remete à percepção de seus papéis como mediadoras e difusoras da cultura científica, o que está em acordo com o objetivo geral do projeto. Nesse sentido, uma das meninas
expõe que está sendo uma experiência significativa e enxerga como desafiador desenvolver atividades que gerem interesse pelas Ciências Exatas nela e nas outras meninas:
'Tem sido uma experiência marcante representar o projeto como um todo. A maior aprendizagem e desafio que tive foi tentar entender como desenvolver atividades que gerassem interesse em determinadas áreas da ciência, tanto em mim, quanto nas demais meninas' (bolsista 1).
Desse excerto, depreende-se que a bolsista percebe-se no papel de mediadora da cultura científica, valorizando-o e valorizando-se como sujeito que promove vivências da área de Exatas junto a outras meninas. Tal fala, ainda, evidencia que o interesse por determinada área está conectado às experiências vividas, conforme já evidenciado em estudos prévios (HAZARI; TAI; SADLER, 2007; KLAWE; WHITNEY; SIMARD, 2009). A perda de interesse por disciplinas de Ciências Exatas e Engenharias começa em uma idade jovem. Portanto, é importante intervir ainda na infância para garantir um aumento de mulheres na área. De acordo com Klawe; Whitney; Simard, (2009, p. 3-4) abordagens de sucesso que foram utilizadas durante o ensino fundamental e médio envolvem: expor as meninas à pesquisadoras femininas de prestígio; derrubar mitos e estereótipos associados à carreira de computação e tecnologia; proporcionar atividades didáticas/experimentais; matricular meninas em cursos de informática. Por isso, propor atividades diferentes das que geralmente são utilizadas em sala de aula pelos professores é importante. Ao utilizar novas ferramentas, como aplicativos computacionais, experimentos e atividades de robótica e astronomia, contempla-se essa perspectiva de que as meninas tenham experiências diferentes e passem a gostar mais das Ciências Exatas e permaneçam na área.
Outro grupo de argumentos está relacionado ao interesse e às aprendizagens em áreas que antes elas não tinham segurança e que emergiram como Eixos temáticos do projeto; a área de Astronomia foi comentada por duas das gurias 1 e a área da Robótica por quatro delas.
'As melhores experiências foram os novos conhecimentos e a ampliação de assuntos que me despertaram maior interesse. Os assuntos que mais me despertaram interesse foram os relacionados à astronomia e robótica, tendo influências que me instigam a explorar mais este universo' (bolsista 2).
Outras duas bolsistas destacaram a atividade InterUnidades, realizada em 23 de outubro de 2019, a saber, visita guiada aos laboratórios de Engenharias e Arquitetura da instituição e as atividades de robótica:
'Todas as experiências que tive no projeto foram marcantes, mas acho que as primeiras foram as que mais vou lembrar, como a primeira de robótica em que aprendemos a acender um led por meio de programações no computador, que é algo que pensava ser bem mais difícil. Outra atividade marcante, foi a visita aos cursos de engenharias e afins, onde várias meninas da escola puderam participar e talvez motivar-se a pensar em tais profissões' (bolsista 7).
'Uma das mais marcantes experiências foi o dia que as meninas da nossa escola puderam vir até a Univates e adquirir novas aprendizagens.' (bolsista 8).
Uma das 8 entrevistadas mencionou a participação em palestras e conversas como um elemento importante de aprendizagem, pois proporcionou momentos de debate e de expressão verbal.
'O que mais me marcou, foram as participações em conversas, palestras e o VIII fórum de enfrentamento à violência contra a mulher, [nov/2019]. A oportunidade que nos proporcionam de falar, de também se expor é algo muito gratificante, faz-nos crescer muito como indivíduo' (bolsista 5).
Esse depoimento enseja o questionamento de até que ponto há espaço nas escolas para refletir e debater questões de gênero. Na direção apontada por Silva & Ribeiro (2014), as situações de desigualdade na ciência ainda são muito presentes e há uma naturalização dos fatores sociais que excluem e menosprezam as mulheres em detrimento dos homens. Portanto, trazer o tema à tona é uma forma de resistência e de enfrentamento que converge com um dos objetivos específicos do Meninas na Ciência, o de 'incentivar a autonomia, a iniciativa e o senso crítico das meninas no que diz respeito ao seu potencial para seguirem carreiras, cursos ou profissões no âmbito das Ciências Exatas e Tecnológicas e ao seu poder decisório em relação aos percursos formativos e escolhas de vida' (projeto aprovado no CNPq, 2018, p. 1, no prelo). O fórum referido pela bolsista faz parte de coalizões com outros projetos institucionais que abordam questões de gênero; nesse caso, a parceria foi com o projeto de Extensão Maria da Penha, e também com os cursos de Direito, Psicologia e Jornalismo, que promovem o fórum de maneira integrada a outras entidades sociais.
Uma segunda questão, proposta no segundo questionário, indagou como as meninas avaliam a receptividade das atividades desenvolvidas nas suas escolas e dificuldades enfrentadas. A maioria delas afirma que as atividades foram bem recebidas e as colegas participativas. O grau de interesse por determinada área das Ciências Exatas foi considerado para o desenvolvimento das atividades, visando incentivar a participação das demais meninas da escola. Nesse sentido, duas bolsistas comentaram que o Ensino de Astronomia gerou maior interesse nas turmas, como evidenciado nos seguintes depoimentos: [houve] 'Boa receptividade com variação para determinados assuntos. Houve mais e menos demonstração de interesse, dependendo da atividade e da turma envolvida' (bolsista 1), 'As atividades de astronomia são as que despertam maior interesse e engajamento por parte dos alunos (bolsista 2).
Como dificuldades, mencionaram a dificuldade de conciliar horários, já que várias meninas trabalham e não puderam comparecer nas atividades quando realizadas no contraturno. Uma delas também menciona que a área da Robótica foi mais complicada pelo difícil acesso às informações e por ser uma novidade no contexto da escola.
Uma das bolsistas menciona que o projeto foi abordado de forma positiva por serem meninas coordenando, porém acredita que as pessoas ainda têm preconceito com isso: 'Creio que a escola e os alunos em geral abrangem o projeto de forma positiva por serem meninas que coordenam as atividades, mas algumas pessoas ainda tem um certo preconceito por isso' (bolsista 3). Esse preconceito pode ser o resultado de uma cultura na qual os requisitos básicos para pertencer à comunidade científica têm como base valores masculinos, o que acaba dificultando a participação das mulheres (SILVA; RIBEIRO, 2014).
A terceira pergunta referia-se a experiência de ajudar outras colegas a aprenderem Ciências Exatas e passarem a gostar da área. Elas relataram como um desafio e, ao mesmo tempo, uma experiência única e incrível, podendo incentivar e mostrar que as Ciências Exatas não são tão complicadas como é imaginado. Assim, utilizando-se de novos instrumentos, como ferramentas computacionais e experimentos, podemos gerar um maior interesse nas participantes.
'Todos sabemos que a área da matemática não é muito querida por algumas pessoas. Mas um dos nossos objetivos é tornar esse assunto o mais prático possível, desenvolvendo atividades que mostrem como ela é utilizada no nosso dia a dia e como ela pode ser prática' (bolsista 4).
A percepção das bolsistas de que a aplicação de exemplos práticos, que envolvem o cotidiano das garotas, podem colaborar para uma melhor aprendizagem das ciências exatas é de grande relevância. De acordo com Hazari, Tai e Sadler (2007) expor as estudantes a exemplos reais é uma maneira eficiente para melhorar a compreensão dos assuntos tratados. Os mesmos autores destacam a importância de experiências prévias positivas com o ensino de Ciências Exatas como um elemento motivador para o desempenho e a continuidade de estudos superiores na área. Sem dúvidas, a atuação das meninas bolsistas como mediadoras de processos de educação científica cumpre esse papel, tanto para elas quanto para as meninas participantes das oficinas oferecidas.
## 4. Considerações Finais
Em linhas gerais, as motivações iniciais das bolsistas vão de encontro aos relatos posteriores das experiências e aprendizagens marcantes durante a iniciação científica. Em um primeiro momento, declararam que gostariam de integrar o projeto devido às oportunidades futuras, pode-se notar que essas oportunidades já vêm aparecendo, como evidenciado nos relatos. O gosto pelas Ciências Exatas e a vontade de aprender mais foram outros fatores que levaram à participação no projeto, e esses convergem com o que foi mencionado no segundo questionário, onde valorizam a aquisição de novos conhecimentos, o aumento do interesse por áreas como Robótica e Astronomia e expressam que as Ciências não são tão complicadas quanto parecem. Tudo isso demonstra que as expectativas iniciais foram contempladas. Ainda, a satisfação de fazer parte de um projeto só de meninas já era expressada inicialmente; em seus últimos relatos pôde-se notar que esse continua sendo motivo de orgulho e motivação das meninas. Em síntese, percebe-se que o projeto vem cumprindo seu objetivo, de fomentar que meninas atuem como mediadoras da cultura científica como uma das formas possíveis de aproximá-las do campo das Ciências Exatas.
Os principais achados desse estudo nos provocam e nos motivam a continuar debatendo e agindo em estágios cada vez mais precoces da formação escolar de meninas e na aproximação delas ao campo de Ciências Exatas. Se por um lado superamos barreiras formais do acesso de mulheres às carreiras científicas, por outro, ainda é observada uma dessintonia nos avanços femininos em todos os níveis educacionais (BARROS; SILVA, 2019), aspecto que nos força a deslocar já para o Ensino Fundamental nossas reflexões, estudos e ações sobre processos de inserção, acolhida e retenção de meninas e mulheres nessas áreas ainda dominadas pelos homens. Nesse sentido, fica evidenciado nesse estudo que as experiências de mediarem as aprendizagens de outras meninas, os estudos sobre temas instigantes de Ciências Exatas, os espaços de fala e de escuta têm
repercutido na formação de uma nova geração de meninas-mulheres. Essas, por sua vez, influenciarão, em quaisquer áreas que forem seguir, a formação crítica de outras mulheres quanto às disparidades de gênero que ainda persistem, não só no campo da atividade científica.
## Referências
BARROS, Suzane Carvalho da Vitória; SILVA, Luciana Mourão Cerqueira. Desenvolvimento na carreira de bolsistas produtividade: uma análise de gênero. Arquivos Brasileiros de Psicologia , v. 71, n.2, maio/ago. 2019. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci\_arttext&pid=S180952672019000200006. Acesso em agosto/2019
CORDEIRO, Marinês Domingues. Questões de gênero na ciência e na educação científica: uma discussão centrada no Prêmio Nobel de Física de 1903. In: Atas do IX Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências - IX ENPEC, Águas de Lindóia, SP, novembro/2013.
CORDEIRO, Marinês Domingues. Mulheres na Física: um pouco de história. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , V. 34, n. 3, p. 669-672, 2017.
GEDOZ, Laís; PEREIRA, Alexsandro P.; PAVANI, Daniela Borges. Questões de gênero no Ensino de Física: uma revisão da literatura nacional. In: XVII EPEF , Campos do Jordão, SP, agosto/2018.
GONZATTI, Sônia Elisa Marchi. Projeto de Pesquisa Edital 31/2018 CNPq : A formação da cultura científica: meninas aprendendo, mediando e difundindo saberes e práticas em Ciências Exatas e Tecnológicas. Lajeado, RS, 2018, no prelo.
GONZATTI, Sônia Elisa Marchi et al. Reflexões sobre gênero e ciência: trajetórias de gurias estudantes de engenharia In : LXVII Congresso brasileiro de Educação em Engenharia e 2º Simpósio Internacional de Educ em Eng da ABENGE , 2019, Fortaleza. Anais do LXVII Cobenge.... Brasília: Editora da Abenge, 2019. p.1 - 7
HAZARI, Zahra; TAI, Robert. H.; SADLER, Philip. M. Gender differences in introductory university physics performance: The influence of high school physics preparation and affective factors. Science Education , v. 91, no. 6, p. 847-876, 2007.
INEP. Resumo técnico: Censo da Educação Superior 2016. Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2019. Disponível em:
http://download.inep.gov.br/educacao\_superior/censo\_superior/resumo\_tecnico/resu mo\_tecnico\_censo\_da\_educacao\_superior\_2016.pdf.
KLAWE, Maria; WHITNEY, Telle; SIMAR, Caroline. Women in computing - Take 2. Communications of the acm , v. 52, no. 2, p. 68-76, 2009.
LIMA, Betina Stefanello. O labirinto de cristal: as trajetórias das cientistas na Física. Estudos Feministas , p. 883-903, 2013.
SILVA, Fabiane Ferreira da; RIBEIRO, Paula Regina Costa. Trajetórias de mulheres na ciência: "ser cientista" e "ser mulher". Ciência & Educação (Bauru), [s.l.], v. 20, n. 2, p.449-466, abr. 2014. FapUNIFESP (SciELO).
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