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ESPERANTISMO: UMA DISCUSSÃO SOBRE OS ARGUMENTOS DE TERRAPLANISTAS E TERRAESFERICISTAS

Felipe Lopez, William Ney Jr, Cristiano Mattos

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XVIII
Ano
2020
Data
10/11/2020
Linha de pesquisa
Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## ESPERANTISMO: UMA DISCUSSÃO SOBRE OS ARGUMENTOS DE TERRAPLANISTAS E TERRAESFERICISTAS

## ESPERANTISM: A DISCUSSION ABOUT FLAT-EARTHERS' AND GLOBE-EARTHERS' ARGUMENTS

## Felipe Lopez 1 , William Ney Junior 2 , Cristiano Mattos 3

1 Universidade de São Paulo / Programa de Pós-graduação Interunidades em Ensino de Ciências, felipe.sanches.lopez@usp.br

2 Universidade de São Paulo / Programa de Pós-graduação Interunidades em Ensino de Ciências, wnj@usp.br

3 Universidade de São Paulo / Instituto de Física, crmattos@usp.br

## Resumo

Neste trabalho, pretendemos avançar na compreensão de uma polêmica que voltou à voga em debates na sociedade brasileira: o terraplanismo . A incapacidade de uma resposta científica que mude a posição daqueles que acreditam na Terra plana chama atenção, principalmente, quando a posição minoritária é desprezada e desqualificada apenas com argumentos de autoridade. Não pretendemos debochar ou desqualificar dessa forma de expressar uma compreensão, muitas vezes não explícita, de uma parcela da população. Pelo contrário, pretendemos identificar o 'Terraesfericismo', apesar de ter sido a tese hegemônica no meio científico desde os gregos antigos, como uma expressão da forma dogmática com que a ciência vem sendo ensinada e veiculada. Tal forma dogmática, apresenta o processo científico, não como expressão de um processo histórico e coletivo de produção de conhecimentos transitórios, mas como verdades cristalizadas.

Palavras-chave : Ciência, Religião, Dogmatismo, Terraplanismo, Esperantistas

## Abstract

In this paper, we intend to advance in the understanding of a controversy that has returned to the Brazilian society's debate, flatearthism . The failure of a scientific response that could change the position of those that believe in flat Earth draws attention, primarily when the minority position is despised and disqualified using only arguments of authority. We do not intend to mock or disqualify this way that a portion of the population thinks about the shape of the Earth, even if not always explicitly. On the contrary, despite having been the hegemonic thesis since the ancient greeks, we intend to identify 'Earthsphericism' as an expression of the dogmatic way in which science has been taught and conveyed. Such dogmatic way, shows the scientific process, not as an expression of a collective process of production of transitory knowledge, but as crystallized truths.

Keywords : Science, Religion, Dogmatism, Flatearthism, Esperantists.

## Introdução

Diversos países têm passado por crises de confiança na ciência. Apesar da produção do conhecimento científico estar crescendo exponencialmente, a distribuição dos benefícios científicos e de novas tecnologias têm se restringido cada vez mais com ao aumento da desigualdade financeira. Como qualquer comódite, o conhecimento científico se tornou moeda de troca no processo capitalista de acúmulo de capital, de poder econômico e político. Assim, apesar da ampliação do acesso ao conhecimento científico por meio da educação formal, a qualidade da ciência apresentada leva à ideia de que é um conhecimento dogmático, o que coloca o conhecimento científico em equivalência com o conhecimento religioso. A consequência dessa incompreensão do processo de produção da ciência é o descrédito da sua validade.

A fragmentação da realidade, estabelecida no pós-modernismo, coalesceu no mundo contemporâneo como bipartidarismo político. As divisões binárias floresceram sob o rótulo de 'direita e esquerda', 'ciência e religião', 'realistas e antirrealistas', todas dicotomias trazidas numa perspectiva da lógica formal que torna a convivência dos opostos um beco sem saída.

A arrogância com que defensores da 'ciência' e das 'pseudociências' apresentam seus argumentos mostra claramente a impossibilidade de seguir adiante no debate, a não ser por meio da força que elimina o outro.

Recentemente foi realizado um levantamento sobre as atitudes públicas em relação à ciência e à saúde, com uma amostra de 140 mil pessoas com 15 anos ou mais, em 140 países (GALLUP, 2019). Um dos principais resultados obtidos foi de que 18% das pessoas têm um nível de confiança 'alto' em cientistas, 54% têm um nível de confiança 'médio', 14% têm confiança 'baixa' e 13% 'não sabem'. Esse resultado varia conforme a região: na Austrália e Nova Zelândia, norte da Europa e Ásia Central, uma em cada três pessoas relata a confiança na ciência como 'alta'. Enquanto nas Américas Central e do Sul essa proporção cai para um em cada dez. (GALLUP, 2019)

Por outro lado, na totalidade da amostra, 70% das pessoas acham que a ciência os beneficia, enquanto apenas 40% acha que o benefício se estende à maioria da população de seu país. O que está de acordo com o resultado de que 1/3 dos entrevistados na África e nas Américas Central e Sul se sentem excluídos dos benefícios da ciência. Nós, brasileiros, estamos no grupo dos sul-americanos que têm a maior proporção de sujeitos (25%) que acreditam que a ciência não os beneficia pessoalmente, nem à sociedade como um todo. O resultado que mais interessa à discussão proposta é o de que 64% da amostra global, que têm uma afiliação religiosa e afirmam que a religião é uma parte importante de sua vida cotidiana, dizem que, quando há um desacordo, acreditam mais na religião do que na ciência (GALLUP, 2019).

Neste trabalho, pretendemos avançar na compreensão de um problema recente e crescente no Brasil, o terraplanismo. Não pretendemos debochar ou desqualificar essa forma de expressar uma compreensão, muitas vezes não explícita, de uma parcela da população. O 'terraesfericismo' tem sido a tese hegemônica no meio científico desde os gregos antigos, entretanto essa forma de ver o planeta se cristalizou como verdade dogmática e não como expressão de um processo histórico e coletivo de produção de conhecimento - ou como expressão da

Ciência. Tomada como verdade absoluta, a ciência encontra novas verdades como rivais e não consegue estabelecer o diálogo, pois o cidadão comum que defende a verdade científica, o faz com o mesmo tipo de argumentação dogmática daquele que defende a verdade pseudocientífica ou religiosa. O resultado desse encontro é a impossibilidade do diálogo, fenômeno que deveria ser impensável a quem pretende fazer ciência.

Nosso objetivo é identificar aspectos desse dogmatismo científico, cujos adeptos foram denominados por Gramsci (2019) como 'esperantistas', e como isso impede o avanço do diálogo frente a posições divergentes.

## Referencial teórico

Com o intuito de fundamentar nossa reflexão, utilizaremos como referencial teórico o materialismo histórico-dialético. Em específico, as reflexões de Gramsci sobre a objetividade do mundo exterior e da natureza da ciência presentes nos Cadernos do Cárcere 1 (GRAMSCI, 2019).

## Concepção gramsciana de ciência

O materialismo histórico-dialético desenvolvido por Marx e Engels ao longo de diversos trabalhos ( e.g. , ENGELS, 2011; MARX, 2010a) pode ser visto, dentre vários e complexos aspectos da obra, como uma forma de superar as dicotomias presentes em análises socioeconômicas que se pautaram pelo uso da lógica formal. Dentre elas, talvez uma das mais centrais para a discussão sobre a natureza da ciência, e sobre a qual nos debruçamos neste trabalho, é a dicotomia entre sujeito e objeto.

Gramsci (2019) reforça a perspectiva dialética do par sujeito-objeto ao indicar que qualquer objetividade é sempre uma objetividade humana que, por sua vez, corresponde a uma subjetividade histórica . Nessa perspectiva, a objetividade do mundo exterior só pode ser afirmada dentro da perspectiva dos seres humanos, e se torna subjetiva ao longo da história por meio do desenvolvimento da cultura. De certa forma, essa ideia já havia sido proposta por Marx (2010b, p. 103, tradução nossa), quando disse que 'a tradição de todas as gerações passadas pesa como um pesadelo no cérebro dos vivos'.

A novidade trazida por Gramsci se encontra na introdução da ideia de hegemonia cultural , uma reflexão de que o que é objetivo se torna historicamente subjetivo por meio de um processo de unificação cultural (hegemonia) que, por meio de diversos mecanismos, acaba por suprimir o surgimento, ao longo da história, de outros conjuntos de ideias, de outras ideologias.

A concepção gramsciana de realidade objetiva vai contra o que o autor chama de materialismo metafísico . Para essa última perspectiva, a realidade está fora do ser humano, e existiria independentemente da existência dos seres humanos. Enquanto, para o autor, conhecemos a realidade única e exclusivamente na perspectiva do ser humano, que é um devir histórico, tudo o que parte de sua perspectiva também é considerado um devir, incluindo a própria realidade e a objetividade (GRAMSCI, 2019).

Indo além, podemos afirmar que ser realista, na perspectiva do materialismo metafísico, nos coloca em contradição com a perspectiva dialética. Isso porque aceitar a existência de uma realidade externa e independente do ser humano é violar a unidade dialética sujeito-objeto e a historicidade dos conceitos e das categorias materialistas dialéticas. Nesse tipo de realismo, acaba-se priorizando o objetivismo e desconsiderando a contradição do seu contraponto subjetivo como parte da realidade, muito menos seu papel no devir da realidade.

No positivismo, perspectiva filosófica dominante na fundamentação das ciências naturais, pouco se interessa por esses tipos de questões. A maior preocupação é a da elaboração dos métodos de investigação, que reforçam os sentidos e os instrumentos lógicos. Essa forma de compreender e desenvolver as ciências naturais é transmitida para a comunidade científica por meio de uma cultura própria. No entanto, para Gramsci (2019), aceitar uma realidade objetiva que existe de forma independente dos seres humanos é aceitar uma das formas da fé religiosa, uma vez que a questão sobre essa existência é indecidível.

Em termos materialistas histórico-dialéticos, podemos dizer que as ciências são superestruturas, influenciadas pelas condições materiais de produção e envoltas por ideologias. Demonstrações disso, são os períodos em que a ciência foi suprimida por outras ideologias (GRAMSCI, 2019) ou que sofreu influência mais explícita da ideologia dominante, tomando uma forma particular (LOPEZ; ORTEGA; MATTOS, 2019).

## Esperantismo científico

- O esperantismo 2 científico é um termo desenvolvido por Gramsci e diz respeito ao conjunto de pessoas (cientistas ou não) que acreditam que a ciência é uma linguagem universal, neutra e, por meio dela, a humanidade poderia superar as barreiras culturais (GRAMSCI, 2019). Para os esperantistas científicos:

tudo o que não vem expresso em sua linguagem [científica] é delírio, é preconceito, é superstição, etc.; mediante um processo análogo ao que se verifica na mentalidade sectária, eles transformam em juízo moral ou em diagnóstico de ordem psiquiátrica o que deveria ser um mero juízo histórico.' (p. 184)

Assim, o esperantismo científico é categorizado como um tipo de fanatismo, que pode ser equiparado ao fanatismo religioso. A crença de que as ciências podem resolver os problemas do mundo e melhorar a vida de toda sociedade, pode se tornar um fanatismo fundamentalista. Tal fé, abstrata, exclui a motivação de realizar ações que possam efetivamente trazer a melhoria desejada, fazendo com que a humanidade espere que algo ou alguém externo, um Messias científico, as realize (GRAMSCI, 2019).

Porém, para Gramsci, os cientistas não esperantistas são essenciais para combater esse fanatismo superficial. Eles devem utilizar os meios de divulgar a ciência, e não mais permitir que jornalistas e autodidatas façam esse trabalho (GRAMSCI, 2019). O esperantismo científico, entendido como uma espécie de positivismo ingênuo, é comum na área científico-tecnológica. Podemos identificar um

exemplo no último capítulo do livro Física e Filosofia , no qual Heisenberg (1987) descreve como a ciência pode auxiliar os seres humanos em seus conflitos. Ao discutir a criação do CERN 3 , o autor coloca a ciência como mediadora da relação entre culturas. Para ele, não pode haver desentendimento sobre a ciência já que essa não depende de nenhuma autoridade humana. Dessa forma, diferentes culturas poderiam dialogar usando a ciência como base comum.

Outro entendimento sobre ciência e tecnologia, trazido por Heisenberg (1987), é de que essas duas são inevitáveis e estão à parte de qualquer desejo humano, usando como exemplo o desenvolvimento dos meios modernos de comunicação, como afirma o autor:

Poderemos, de certo modo, encará-lo como um processo biológico, em escala mundial, pelo qual estruturas ativas do organismo humano estabelecem-se, gradual e imperceptivelmente, sobre vastas porções de matéria e as transformam, a seu jeito, naquela condição que convém à crescente população humana. (p. 143)

Esse conjunto de crenças está intimamente relacionado aos mitos científicos : neutralidade científica, decisões tecnocráticas, a perspectiva salvacionista e determinismo tecnológico (AULER, 2002).

## Uma relação entre Esperantismo e Mitos

Auler (2002) propõe que alguns mitos representam a forma com que as sociedades modernas capitalistas entendem o papel da ciência e tecnologia no seu desenvolvimento. Esses mitos estão ligados à crença de que a ciência é neutra, livre de influências sociais. Auler (2002) aponta os seguintes mitos científicos:

- (i) Decisões tecnocráticas : toda decisão tomada com base na ciência é inerentemente boa, e, por ser ideologicamente neutra, pode ser aplicada em qualquer sociedade;
- (ii) Salvacionismo : o inevitável progresso científico e tecnológico resolverá os problemas da sociedade e levará a humanidade ao bem-estar social; e
- (iii) Determinismo tecnológico : a tecnologia define o que uma sociedade pode fazer e independe das influências sociais.

Auler destaca, também, que a raiz desses mitos está na crença da neutralidade científica e tecnológica. Porém, sua não-neutralidade pode ser identificada a partir de quatro dimensões interdependentes (AULER, 2002, 98-122) 4 :

- (i) O direcionamento dado à atividade científico-tecnológica resulta de decisões políticas : a ciência se desenvolve no sentido do lucro privado;
- (ii) A apropriação do conhecimento científico-tecnológico não ocorre de forma equitativa, o sistema político define seu uso : a forma com que os produtos científicos são utilizados em uma sociedade dependem de suas forças políticas;

- (iii) O conhecimento produzido não é resultado apenas dos tradicionais fatores epistêmicos (lógica e experiência) : o conhecimento científico é produzido a partir de paradigmas que se desenvolvem sócio historicamente;
- (iv) Os produtos científicos e tecnológicos incorporam, materializam interesses, desejos de sociedades ou grupos hegemônicos : os produtos da ciência e tecnologia têm pontos positivos e negativos que não são independentes de seu uso.

Ao analisar os mitos científicos (AULER, 2002), é possível identificar que estão de acordo com a perspectiva gramsciana de ciência. Esta, por ser uma superestrutura, sofre influências das condições econômicas, sociais, culturais e históricas de uma sociedade, sendo, ainda, controladas pelo grupo social dominante. Como qualquer crença fundamentalista, a crença nos mitos científicos leva à desconexão do processo produtivo do conhecimento e dos seus resultados, que deixam de ser identificados como um processo histórico do desenvolvimento social. Essa alienação se manifesta na imobilidade do crente frente a qualquer crítica ao sistema no qual está aderido de forma fundamentalista, seja o sistema da própria ciência, seja o de um credo religioso. O resultado é a morte do diálogo como troca de argumentos e suas garantias, apenas são manifestas certezas cuja validade é a própria experiência do sujeito ou é a afirmação de uma autoridade naquele sistema.

## Primeiros passos na empiria

Com o objetivo de identificar alguns dos argumentos utilizados por 'terraplanistas', participamos do evento FLATCon Brasil 5 . Em meio à várias tentativas frustradas de entrevistas com participantes que não desejavam fazê-lo, logramos realizar 7 entrevistas: 6 com 'terraplanistas' e uma com um astrofísico, 'terraesfericista', infiltrado na convenção. Aqui, apresentamos alguns fragmentos das transcrições para exemplificar as posições tomadas pelos crentes na Terra plana (identificados por TP seguido por um número) e pelo crente na Terra esférica (identificado por TE).

- O protocolo de entrevista foi construído para determinar argumentos sobre questões consideradas controversas para os participantes do evento, como o formato da Terra, o movimento anti-vacinação e os efeitos das mudanças climáticas. Aqui extraímos excertos relativos ao problema do formato do planeta Terra.

## Exemplos de argumentos dogmáticos

Nesta seção, apresentamos, brevemente, algumas relações entre os argumentos de terraplanistas e terraesfericistas com o intuito de mostrar suas semelhanças, em especial o seu caráter esperantista e dogmático. Em diversos momentos, a entrevista com o astrofísico (TE) deixa claro o esperantismo. Ao ser questionado sobre a perspectiva da comunidade astronômica sobre o movimento de negacionismo científico, o entrevistado começa com uma definição de ciência:

(TE): A ciência é a contemplação de eventos e a tentativa de compreender esses eventos e explicá-los de uma forma que, idealmente, até possam ser traduzidas em um modelo matemático. Então, hoje, com o modelo esférico

que a astrofísica e a astronomia conseguem aferir, nós podemos prever eclipses lunares que vão ocorrer até 100 anos. Nós podemos prever eclipses solares que vão acontecer com precisão de dia, hora, minuto, segundo. Então, é necessário que eles apresentem o modelo em que eles tenham essas precisões de registros de eventos [...]

Esse trecho pode ser relacionado com dois outros de entrevistas com terraplanistas. A resposta do TP1 à pergunta 'qual a sua principal crítica para a ciência?', traz um questionamento à definição de ciência mostrada acima:

(TP1): Primeiro a gente tem que perguntar: quem é essa tal da ciência? Podemos dizer que existe a chamada comunidade científica, existem instituições respeitadas, mas existem cientistas independentes, eles não fazem ciência? Todo mundo tem que tá debaixo de um único guardachuva? Então, o que nós questionamos é a tal da ditadura científica.

A definição de ciência do TE pode ser entendida como esperantista em alguns níveis. Primeiro com relação à definição de que ciência é aquela que, mesmo idealmente, pode ser traduzida em um modelo matemático, prevendo indubitavelmente o futuro. Em segundo lugar, apesar do uso do termo 'modelo', no enunciado não se identifica a ideia de um desenvolvimento sócio histórico das ciências, no qual modelos e teorias (mesmo matemáticas) tem domínios de validade e que podem ser substituídos por outros modelos e teorias de validade mais ampla. Outro excerto que pode ser relacionado à fala do TE, é a fala de TP3 respondendo à questão 'você acredita em alguma verdade absoluta?':

(TP3): A matemática é uma verdade absoluta. Na matemática dois mais dois nunca vai deixar de ser quatro. E é com essa base científica, da matemática, que a gente usa para fazer os testes de curvatura e provar que a Terra é plana e não esférica.

Em ambos os argumentos, a matemática é o fundamento que sustenta os modelos utilizados e garantem comprovações tanto a favor do terraplanismo quanto a favor do terraesfericismo. Em especial, para o TE, falta aos terraplanistas apresentar o modelo matemático, isto é, observações que não se baseiam em um modelo matemático, devem ser desconsideradas.

Quando consideramos a relação entre terraplanismo e religião, o argumento utilizado por um dos entrevistados (TP1) equivale àquele utilizado pelo TE sobre a neutralidade da ciência:

(TP1): A Terra plana é um movimento independente, apenas às pessoas que entendem que a Terra é plana, há cristãos, há diversas religiões, há pessoas ateus, pessoas que não tem religião. Então, a única coisa que tem que falar sobre isso é de que o movimento da Terra plana não tem nada a ver com religião, é apenas uma busca da verdade.

(TE): [...] a ciência ela não tem sexo, ela não tem religião, ela não tem cor.

Tais argumentos demonstram a visão de que existe uma verdade independente de suas crenças religiosas. Por fim, mostramos que ambos afirmam ter evidências irrefutáveis e verificáveis empiricamente e que, por si só, sustentam seu argumento:

(TP2): Eu tenho frações [da verdade] técnicas, empíricas sobre o formato da Terra. Então, eu te falo sobre a curvatura, eu falo dos faróis, sobre os periscópios do navio, eu te falo sobre o Salar de Uyuni, que não tem curvatura. Eu te falo sobre alguns assuntos reais, que são verdadeiros e irrefutáveis.

(TE): Eu, pelo menos, não tento colocar nada sobre imagens [...] porque eu tenho outras observações in loco que podem satisfazer essas explicações. Então, quando eu explico que o Sol se põe e ele baixa, porque se o Sol e a Lua estão na superfície plana, como é que o Sol se põe abaixo do horizonte? [...] Então, existem observações físicas que são irrefutáveis, que não precisa de um astrofísico para mostrar que o modelo deles está equivocado.

Embora sejam consideradas irrefutáveis, as evidências que ambos contêm são questionadas pelo grupo que não acredita em sua posição. Novamente, ignorase o desenvolvimento sócio histórico dos entendimentos (científicos ou não) e se encerra qualquer tipo de discussão.

## Conclusões

No Brasil e no mundo, vivemos um momento de crise das instituições, em particular a da Ciência. Nesse momento, grande parte das pessoas não têm confiança na ciência e aqueles que têm, apresentam os argumentos científicos validados apenas em argumentos de autoridade. Nesse tipo de argumentação os argumentos científicos e não-científicos se equivalem, pois ambos carecem de validação daquele que o escuta, seja num debate político na rua, seja o estudante na sala de aula. Aqui, fica clara a importância da história da ciência como fonte central para identificar e validar o caráter crítico com que o conhecimento científico, mesmo que provisório, é desenvolvido coletivamente ao longo da história humana. Nossa incapacidade de apresentar, rapidamente, a validade do argumento terraesfericista frente às crenças terraplanistas é apenas mais uma manifestação do fenômeno de descrédito da história humana como fonte ontológica da realidade. Por exemplo, a negação do holocausto nazista é a negação da própria ontologia do ser humano e o desprezo das nossas possíveis escolhas por um mundo fraterno, fundado numa ciência que fortaleça a bem-aventurança humana, expressa numa sociedade justa e democrática.

## Referências bibliográficas

AULER, D. Interações entre Ciência-Tecnologia-Sociedade no Contexto da Formação de Professores de Ciências . Tese (Doutorado em Educação) Florianópolis: UFSC, 2002

ENGELS, F. Socialism: Utopian and Scientific . Hoboken, NJ, USA: John Wiley & Sons, Inc., 2011

GALLUP. Wellcome Global Monitor - First Wave Findings . 2019. Disponível em: <https://wellcome.ac.uk/reports/wellcome-global-monitor/2018>. Acesso 20/01/2020.

GRAMSCI, A. Cadernos do cárcere . 11. ed. v. 1. Tradução: Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2019

LOPEZ, F.; ORTEGA, J. L.; MATTOS, C. O movimento Deutsche Physik e o ensino de Física na Alemanha nazista . In: XXIII SNEF. Salvador. Disponível em: <https://sec.sbfisica.org.br/eventos/snef/xxiii/sys/resumos/T0344-1.pdf>.

MARX, K. Economic Manuscripts of 1857-1858. In: COHEN, J. et al. (Eds.). Marx & Engels Collected Works . v. 29. London: Lawrence & Wishart, 2010a

MARX, K. The Eighteenth Brumaire of Louis Bonaparte. In: COHEN, J. et al. (Eds.). Marx & Engels Collected Works . v. 11. London: Lawrence & Wishart, 2010b.

Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.