O LÚDICO NO ENSINO DE FÍSICA: O BRINQUEDO COMO RECURSO DIDÁTICO PARA O ENSINO DE CIÊNCIAS.
Caue Fernandes, Eugenio Maria De França Ramos
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVIII
- Ano
- 2020
- Data
- 10/11/2020
- Linha de pesquisa
- Comunicação Em Práticas Educativas Formais, Informais E Não Formais E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## O LÚDICO NO ENSINO DE FÍSICA: O BRINQUEDO COMO RECURSO DIDÁTICO PARA O ENSINO DE CIÊNCIAS.
## PLAY IN PHYSICS TEACHING: TOY AS SCIENCE TEACHING'S MATERIAL.
Caue Fernandes 1 , Eugenio Maria de França Ramos 2
1 UNESP - Campus de Rio Claro/IGCE, c.fernandes1@unesp.br 2 UNESP - Campus de Rio Claro/IB e LaPEMID CEAPLA, eugenio.ramos@unesp.br
## Resumo
Apresentamos neste trabalho parte de uma pesquisa qualitativa e exploratória intitulada 'O Lúdico no ensino de Física: o brinquedo como recurso didático para o ensino de Ciências', que trata sobre materiais didáticos experimentais, particularmente brinquedos que possam ser utilizados em atividades de Ensino de Física (Ciências). Como foco de pesquisa, consideramos brinquedos prontos e de baixo custo, que estejam disponíveis no comércio de uma cidade do interior do Estado de São Paulo, com cerca de 200 mil habitantes. Entendemos que, sobretudo para professores das séries iniciais da Educação Básica, os brinquedos poderiam ser considerados recursos didáticos relevantes em atividades de ensino, nas quais características físicas de tais protótipos poderiam tratar de aspectos conceituais a serem aprofundados ou exemplificados em uma análise dos fenômenos observados. Foram identificados 35 tipos diferentes de brinquedos nas lojas pesquisadas no comércio local. Os brinquedos foram identificados em três categorias segundo as características de interesse para o Ensino de Física. Concentrando a análise nos brinquedos em que os efeitos físicos visíveis são essenciais, procuramos indicar seu potencial conceitual e sua relevância nos conteúdos identificados em livros didáticos para essa faixa etária. O acervo foi organizado na forma de um banco de dados (biblioteca de instrumentos didáticos), que permitirá subsidiar a formação inicial de professores de Física e outras fases dessa pesquisa (com intervenções didáticas exploratórias). Brinquedos como "língua de sogra" ou "bolha de sabão" se mostraram relevantes tanto em termos de percepção de vendas como também em seu potencial de tratar de temas de Física em atividades de ensino, com baixo custo por protótipo.
Palavras-chave : Brinquedos, baixo custo, Ensino de Ciências, Ensino Fundamental
## Abstract
 In this work we present a qualitative and exploratory research titled 'Playful in Physics teaching: toy as a didactic resource for the teaching of Sciences', the research is about teachings materials, especially toys that can be used in Science teaching activities. As research focus, we considered fabricated and low cost toys, that are available in stores located in a small city nearly São Paulo, about 200 thousand inhabitants. We considered these toys can be considered as relevant didactic resources, especially for elementary school teachers, in which physical characteristics could treat conceptual aspects to be investigated and exemplified in an analysis of the observed phenomena. 35 different toys were identified in the surveyed stores. toys
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were identified in 3 categories according to interest categories for teaching physics. Focusing our analysis on toys where the physical effect is relevant, trying to indicate your conceptual potential and showing its relevance in the contents identified in textbooks for this age group. the collection was organized in the form of a database (library of teaching instruments). Toys like 'party horn' or 'soap bubble' these toys are relevant both for teaching physics and selling because they are low cost and easy access
Keywords : Toys; low cost; Science Teaching, Elementary School
## A escola nos dias de hoje
Em nossas atividades didáticas é comum perceber que uma parcela significativa dos estudantes do Ensino Médio da Educação Básica não se interessa pela disciplina de Física.
O desinteresse dos estudantes muitas vezes é associado à forma com a qual essa disciplina é ministrada, ao privilegiar apenas os aspectos matemáticos e a resolução de exercícios. Entretanto tal forma de apresentar o conhecimento acaba por ocultar que a Física tem uma forte ligação com uma base fenomenológica, e que, como destaca Ramos (1990), poderia ser ludicamente acessível a quaisquer níveis cognitivos de escolaridade.
Um enfoque do conteúdo fenomenológico e lúdico permitiria superar dificuldades didáticas até mesmo nos anos iniciais da escolaridade: uma curiosidade muito grande dos estudantes pelos conhecimentos científicos, mas não adequadamente correspondida (PEREIRA, 2016). Também se observa nos anos iniciais do Ensino Fundamental alunos com muito pouco, ou nenhum, contato com o Ensino de Ciências da Natureza (SOUSA, 2017).
O uso de experimentos didáticos poderia ser uma alternativa a isso, mas, como aponta Gaspar (2014), embora professores considerem positivo utilizar materiais experimentais para o Ensino de Física, uma parcela considerável alega não utilizar por faltar materiais didáticos.
Em nosso estudo analisamos a possibilidade de considerar brinquedos como materiais didáticos para o Ensino de Física na Educação Básica, procurando caracterizá-los seja em aspectos qualitativos ou fenomenológicos.
Nesta etapa do trabalho procuramos identificar brinquedos, concentrando nossa atenção nos protótipos que possam ser adquiridos prontos, com baixo custo e fácil acesso. O fato de serem de baixo custo permite que qualquer professor ou escola possa adquiri-los com mais facilidade, para atividades em sala de aula, mesmo que a escola não possua laboratório didático.
Analisamos também algumas possibilidades de inserções já nos primeiros anos de escolaridade, nos anos iniciais do Ensino Fundamental, tomando por base os conteúdos indicados em livros didáticos de Ensino de Ciências obtidos junto a Escola desta etapa na cidade de Rio Claro (SP).
Comentado [1]: Mudei o resumo da tradução
## Os brinquedos e a aprendizagem
Brinquedos fazem parte do universo cultural das crianças, além de se constituir numa forma de interagir com a natureza e o mundo cultural. As crianças têm uma curiosidade natural em entender como o mundo ao seu redor funcione. Isso ajuda na hora que ela precise desvendar os mistérios do mundo que a cerca.
Nessa fase, a escola não é apenas um lugar de se assistir aula, é um espaço muito importante para a criança no que se diz respeito ao convívio social, uma vez que ir a escola implica uma série de vivências, ou seja: encontrar os amigos, bater papo, namorar, praticar algum esporte, conhecer novos jogos ou modas etc. (RAMOS, 1990).
Segundo Vygotsky, todo avanço de uma criança de um estado de desenvolvimento para outro está conectado com uma mudança acentuada nas motivações, tendências e incentivos. Para ele a aprendizagem da criança começa muito antes da aprendizagem escolar, que a aprendizagem escolar nunca parte do nada. Ou seja, que toda aprendizagem da criança tem uma pré-história.
... Por exemplo, a criança começa a estudar aritmética, mas já muito antes de ir à escola adquiriu determinada experiência referente à quantidade, encontrou já várias operações de divisão e adição, complexas e simples; por tanto, a criança teve uma pré-escola aritmética, e o psicólogo que ignora este fato está cego. (VYGOSTSKY et al , 1988: 109)
Laburú enfatiza a importância do brinquedo como uma alternativa para um ensino lúdico, a partir da teoria de aprendizagem de Vygotsky, como:
Também é preciso dizer que Vygotsky identifica uma espécie de continuidade entre as diversas atividades simbólicas - dos gestos, do desenho e do brinquedo - que contribuem para o desenvolvimento da representação simbólica e, consequentemente, para o processo de aquisição da linguagem escrita. (LABURU, ZAMPERO, BARROS, 2013: 11)
É importante proporcionar aos alunos, principalmente crianças das séries iniciais, a diferentes modos de representação dos tipos verbais, gráficos, figurativos, fotográficos, cinestésicos - como experimentos - com a finalidade de que eles entendam o significado dos conceitos científicos, como destaca Laburú (apud SOUSA, 2017).
Neste âmbito, do acesso aos brinquedos com aspectos físicos relevantes, poderá se ampliar o conhecimento científico sobre os fenômenos, desvelando, como destacado nas ideias de Snyders (1988), a alegria do aprendizado escolar.
## Percurso Metodológico
Tomando por base ideias de Gonsalves (2007) e de Lüdke e André (2013), a pesquisa caracteriza-se como qualitativa, de caráter exploratório, tendo como foco de atenção brinquedos que possam ser encontrados em lojas comerciais e a análise direta dos protótipos.
Com tais brinquedos construímos um banco de dados, uma biblioteca de instrumentos didáticos (BID), considerando-os como potenciais recursos educacionais. A BID compreende registros digitais, com fotografias (como exemplificado nas imagens 1 e 2) e em vídeos de funcionamento e, quando possível, com alguns exemplares dos materiais que consideramos potencialmente relevantes para as atividades de Ensino de Física.
Pretende-se ainda com a BID caracterizar aspectos teóricos da Física de tais protótipos, indicando, inicialmente, áreas de conhecimento e temáticas que poderiam ser contempladas.
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Fonte: LaPEMID, 2020
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## Explorando brinquedos disponíveis na cidade
A cidade na qual o estudo se desenvolve (Rio Claro - SP), caracteriza-se uma cidade do interior do estado de São Paulo, que abriga aproximadamente 206 mil habitantes, com uma taxa de escolarização (6-14 anos) de 98,2% e um PIB per capita de 46.406,99 reais (BRASIL, 2020). Neste contexto, pesquisamos brinquedos de baixo custo existentes em diferentes tipos de comércios, desde lojas mais simples como lojas de 1,99 (loja 1), camelôs de rua (loja 2) e lojas de festas (loja 3) - até lojas especializadas em venda de brinquedos (loja 4), todas geograficamente acessíveis no centro comercial da cidade.
Na visita a tais espaços de comércio, consultamos diretamente os brinquedos disponíveis e adicionalmente perguntamos aos vendedores quais, na percepção deles, eram os mais vendidos. O resultado de tal coleta de dados identificou 35 brinquedos diferentes, sendo a loja 1 com 24 tipos, a loja 2 e a 4 com 14 tipos e a loja 3 com 9 tipos. Na tabela 1 apresentamos alguns dos tipos de brinquedos encontrados, particularmente os mais vendidos.
Um brinquedo bastante popular encontrado entre aqueles que mais vendem é a língua de sogra , que exige uma pessoa que a assopre, provocando a distensão de um cilindro de papel, que é mantido inicialmente enrolado por uma mola de arame. Assoprar e provocar tal efeito é o que chamaremos de "efeito físico relevante".
Numa primeira organização, procuramos identificar os aspectos lúdicos e sua eventual ligação com efeitos físicos do funcionamento dos brinquedos (Tabela 2).
Importante destacar que a maioria dos brinquedos mais vendidos se encontram na categoria de análise 3 (efeitos físicos essenciais), na qual os efeitos físicos são essenciais ao seu funcionamento, ou seja, a razão pela qual o brinquedo é o mais vendido é o seu funcionamento físico. Quais sejam para fazer bolhas de sabão, inflar a língua de sogra ou a rotação do pião.
Tabela 1 - Relação dos brinquedos da cidade em lojas da cidade
Fonte: Os autores (2020)
Tabela 2 - Classificação dos brinquedos segundos efeitos físicos aparentes. Os considerados mais vendidos estão assinalados com asterisco.Fonte: Os autores (2020)
Procuramos em seguida com os protótipos identificados estudar aspectos do funcionamento dos brinquedos, tomando por base a indicação dos mais vendidos, e suas potenciais discussões para o Ensino de Física (Tabela 3)
Tabela 3 - Alguns dos brinquedos mais vendidos (segundo os vendedores) e suas características possibilidades fenomenológicas para o Ensino de Física.
Fonte: Os autores (2020)
Para estudar a possível associação com conteúdos letivos, coletamos em uma das escolas da Rede Municipal de Ensino da cidade, duas das coleções de livros didáticos de Ciências (COELHO, 2018; LEMBO et al , 2017) oferecidas aos professores das séries iniciais por meio do Plano Nacional do Livro Didático, com a qual identificamos conteúdos de Física (semelhantes entre as duas coleções). Embora não seja nossa intenção neste trabalho aprofundar aplicações didáticas, entendemos que os brinquedos pesquisados poderiam facilmente ser inseridos em alguns conteúdos e, em alguns casos, ampliar os conteúdos oferecidos aos estudantes dessa faixa de escolaridade, tomando por base os brinquedos de nossa categoria de análise 3, aquela em que os aspectos físicos são essenciais e relevantes para seu funcionamento.
Procuramos com a tabela 4 mostrar a afinidade de brinquedos com conteúdos escolares, tomando por base os conteúdos dos livros didáticos analisados em nosso trabalho. Percebe-se que os brinquedos que envolvem rotação e cinemática (particularmente lançamento horizontal e energia) são menos aplicáveis do que bolinha de sabão, brinquedo de som e língua de sogra nessa faixa de escolaridade.
Tabela 4 - Brinquedos e possibilidade de inserção do conteúdo por ano, tomando por base o conteúdo livros didáticos pesquisados
Os brinquedos pesquisados até o momento indicam que os que classificamos como categoria 3 (efeitos físicos essenciais) são relevantes em termos de vendas ao público e alguns deles plausíveis de serem aproveitados em atividades de ensino que
considerem o currículo apresentado aos professores das séries iniciais do Ensino Fundamental por meio de livros didáticos. Particularmente, o fato de um brinquedo ser bem vendido significa que sua utilização poderá suscitar nos estudantes uma associação entre o conteúdo ensinado e elementos de sua vida cultural.
Para o acesso mais próximo entre os alunos e o conhecimento, pode-se trabalhar com materiais simples, cujo valor econômico seja acessível e não impeça a pessoa de alterá-lo se assim desejar e que, além disso, sejam razoavelmente familiares a elas e fáceis de se encontrar pelo comércio da cidade. Assim pode-se aproveitar materiais que mesmo industrializados sejam úteis para as atividades de ensino.
Nossa preocupação com o uso de materiais de baixo custo não pretende substituir a necessidade de apoio ao financiamento da Educação. Já na década de 1990 Figueiredo (apud Ramos 1990) apontava que um dos principais problemas encontrados nas escolas é o sucateamento e a pobreza das escolas em relação ao Ensino de Ciências.
## Considerações Finais
Um dos principais desafios no Ensino de Ciências é fazer com que o estudante goste e sinta prazer em aprender Ciências, para assim, desenvolver-se e ampliar seu conhecimento cultural pela ação intencional de aprender.
Alguns dos brinquedos disponíveis em lojas da cidade e de custo baixo (como a língua de sogra ou o dispositivo para bolas de sabão) são potencialmente viáveis para serem utilizados em atividades de Ensino de Física.
Com os brinquedos pesquisados até o momento conseguimos construir uma pequena Biblioteca de Brinquedos, com a temática de Ensino de Física, procurando estabelecer algumas formas de registros e classificação de possibilidades de conteúdos. Tal acervo está disponível no âmbito Biblioteca de Instrumentos Didáticos (BID) do Laboratório de Prática de Ensino, Materiais e Instrumentação Didática (LaPEMID) para atividades de formação inicial de professores de Física.
Com tal acervo, pretendemos avançar em outras etapas de nosso estudo, ampliando a coleta de dados (com novas lojas e protótipos pesquisados) e, numa fase seguinte, sugerindo algumas possibilidades didáticas, para o Ensino Fundamental e o Ensino Médio.
## Agradecimentos e apoio
Ao LaPEMID CEAPLA UNESP pelo apoio.
## Referências
BRASIL, IBGE. Municípios brasileiros . https://cidades.ibge.gov.br/brasil/sp/rioclaro/panorama acessado em 26/02/2020.
COELHO, G. Ciências . Coleção volumes 1, 2, 3, 4 e 5. São Paulo; FTD 2018
GASPAR, A. Atividades experimentais no ensino de Física: Uma nova visão baseada na teoria de Vigotski. São Paulo: Editora Livraria da Física, 2014.
GONSALVES, E. P. Conversas sobre iniciação à pesquisa científica . Campinas, SP: Alinea. 2007.
LABURÚ, C. E.; ZOMPERO, A. F.; BARROS, M.A. Vygotsky e múltiplas representações: leituras convergentes para o ensino de Ciências. Cad. Bras. Ens. Fís. , v.30, n.1: p. 7 - 24, Abr. 2013.
LEMBO, A., COSTA, I., VESPASIANO, S. S. Odisseia . Coleção volumes 1, 2, 3, 4 e 5. São Paulo: Sei, 2017
LÜDKE, M. e ANDRÉ, M. E. D. A. Pesquisa em educação : abordagens qualitativas. Rio de Janeiro: EPU, 2013.
PEREIRA, G. R. et al (2016). Atividade experimentais e o ensino de Física para os anos iniciais do Ensino Fundamental : análise de um programa formativo para professores. Cad. Cat. Ens. Fís. , v.33, n.2, p. 579 - 605.
RAMOS, E. M. F. Brinquedos e Jogos no Ensino de Física . Dissertação (mestrado), USP. São Paulo. 1990
SNYDERS, G. A alegria na escola . São Paulo: Manole Ltda. 1988.
SOUSA, A. dos S. Kit de Brinquedos : Uma Forma Prazerosa de Ensinar e Aprender Física no Ensino Fundamental 1. Dissertação (mestrado), UFERSA, Mossoró. 2017
VIDAL, E. M.; André, A. C. M.; Moura, F. M. T. Os conceitos Físicos na formação de professores de 1º à 4º séries no curso de pedagogia da Universidade Estadual do Ceará . cad.cat.Ens.Fís , UECE, Ceará. 1998
VYGOTSKY, L. S. et al. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem . São Paulo: Ícone, 1988.
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