PERCEPÇÕES DE PROFESSORES DE FÍSICA SOBRE ASPECTOS DEFINIDORES DE SEU PERFIL PROFISSIONAL
Rafael Figueira, Alice Helen Campos Pierson
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVIII
- Ano
- 2020
- Data
- 13/11/2020
- Linha de pesquisa
- Formação E Prática Profissional Do Professor De Física / Ciência, Tecnologia, Sociedade E Ambiente No Ensino De Física / Equidade, Inclusão, Diversidade E Estudos Culturais E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do EPEF 2020
Texto completo
## PERCEPÇÕES DE PROFESSORES DE FÍSICA SOBRE ASPECTOS DEFINIDORES DE SEU PERFIL PROFISSIONAL
## PERCEPTIONS OF PHYSICS TEACHERS ON DEFINING ASPECTS OF THEIR PROFESSIONAL PROFILE
## Rafael Figueira 1 , Alice Helena Campos Pierson 2
1 Colégio São Lucas - Jaú/SP, rafaelfigueirajau@gmail.com
2 Universidade Federal de São Carlos, Departamento de Metodologia de Ensino, apierson@ufscar.br
## Resumo
Ao evidenciarmos os processos de efetivação das proposições curriculares no contexto escolar, reconhecemos os docentes como personagens centrais neste processo, podendo as reinterpretar, adequar e até mesmo obstaculizar a sua efetivação. Nessa direção, reconhecemos ser importante conhecer as compreensões apresentadas pelos docentes, sobre a forma como pensam o ensino de física. Desta maneira, com a finalidade de buscarmos elementos que nos auxiliem na reflexão sobre quais aspectos os docentes reconhecem como centrais no processo de seleção, organização e desenvolvimento dos conteúdos de física no ensino médio, propusemos para um grupo de professores de física do ensino médio, um conjunto de questões com a finalidade de conhecer as compreensões que eles apresentam sobre por que, o que e como ensinar física no ensino médio. Partindo deste cenário, apresentamos nesta produção um ensaio das análises de uma das questões que objetivava investigar quais os conhecimentos/experiências/valores, que os docentes destacam como mais importantes na definição do perfil profissional. Ao analisarmos as respostas dos professores participantes, identificamos em maior número os argumentos relacionados com a atividade docente, principalmente relacionados às dimensões metodológica e pedagógica. Além destes elementos, em segundo plano, estiveram argumentos relacionados com a formação e, em menor número, aqueles que se relacionam com as características dos professores. Mesmo quando consideramos os tempos de atuação, não identificamos grandes discrepâncias entre a distribuição dos argumentos nas categorias consideradas.
Palavras-chave : Percepções; Perfil Profissional; Professores de Física
## Abstract
By highlighting the processes for implementing curricular proposals in the school context, we recognize teachers as central characters in this process, being able to reinterpret, adapt and even hinder their development in practice. In this sense, we recognize that it is important to know the understandings presented by teachers on the way they think about teaching physics. Thus, in order to seek elements that assist us in reflecting on which aspects teachers recognize as central to the process of selection, organization and development of physics content in high school, we proposed to a group of high school physics teachers a set of questions in order to understand their understandings about why, what and how to teach physics in high school. Starting from this scenario, we present in this production an essay of the analysis of one of the questions that aimed to investigate which knowledge / experiences / values that
teachers highlight as most important in the definition of the professional profile. When analyzing the responses of the participating teachers, we identified in greater numbers the arguments related to the teaching activity, mainly related to the methodological and pedagogical dimensions.. In addition to these elements, in the background there were arguments related to training and to a lesser extent those related to the characteristics of teachers. Even when we consider the performance times, we did not identify any major discrepancies between the distribution of arguments in the categories considered.
Keywords : Perceptions; Professional Profile; Physics Teachers
## Introdução
O conceito de currículo, quando alinhado à visão de Sacristán (1998), expressa uma seleção de elementos culturais de uma época que, no processo de seleção, busca a articulação entre determinados princípios (regulamentações oficiais) e a sua realização no âmbito prático, envolvendo os processos de ensino e aprendizagem propostos pelas orientações curriculares e projetos políticos pedagógicos das escolas e aqueles efetivamente desenvolvidos em sala de aula.
Nesta perspectiva, ao considerarmos os níveis de objetivação do currículo (SACRISTÁN, 1998, p. 165-166), destacamos que, no seu desenvolvimento, os docentes se constituem como atores ativos, promovendo a mediação entre os pressupostos curriculares, os conteúdos desenvolvidos e os estudantes. Há, neste processo de mediação, diversas motivações que envolvem, desde as concepções sobre o exercício profissional docente, até aspectos mais sociológicos associados aos problemas didáticos em geral.
Assim, mesmo havendo uma proposta de currículo oficial contemplando objetivos e finalidades para o ensino de um componente curricular, o docente, com frequência, o reinterpreta e adéqua, considerando suas perspectivas, aspirações e compreensões pessoais sobre os processos de ensino e a área do conhecimento que leciona. Neste processo de reinterpretação e desenvolvimento do currículo, a própria prática configura um novo currículo, o qual é efetivamente desenvolvido em sala de aula.
Reconhecendo a importância do papel do professor no processo de mediação do currículo oficial e o currículo que, de fato, é desenvolvido na prática, realizamos uma busca no portal Web of Science sobre pesquisas que possuíam como temática as compreensões expostas pelos professores sobre o ensino da física. Nossa busca preliminar nos conduziu a duas produções sobre o conhecimento profissional e epistemologia dos professores (PORLÁN ARIZA; RIVERO GARCÍA; MARTÍN DEL POZO, 1997; 1998) e outra que cujo objetivo era investigar as crenças de professores sobre o ensino, a aprendizagem e a ciência (TSAI, 2002). Estas produções nos chamaram a atenção, por promoverem uma discussão mais ampla sobre concepções dos professores acerca do ensino de um componente curricular.
Com o objetivo de apresentar o marco teórico e metodológico utilizado em investigações sobre o conhecimento profissional dos professores, Porlán Ariza; Rivero García; Martín del Pozo (1997) apresentam alguns elementos para uma teoria
profissional para os professores. Enquanto, em uma produção subsequente, os mesmos autores (1998) apresentam uma revisão de alguns estudos empíricos que desenvolveram e que consideraram significativos para a análise das concepções científicas e didáticas de professores. Nesse sentido defendem que,
o conhecimento profissional pode ser resultado da justaposição de quatro tipos de saberes de naturezas diferentes, gerados em momentos e contextos que nem sempre são coincidentes, que se mantem relativamente isolados uns dos outros na memória dos sujeitos e que se manifestam em diferentes tipos de situações profissionais. (PORLÁN ARIZA; RIVERO GARCÍA; MARTÍN DEL POZO, 1997, p. 158, tradução nossa)
Os autores destacam que há duas dimensões associadas ao conhecimento profissional dos docentes, a dimensão epistemológica e a psicológica, as quais se colocam a partir de duas dicotomias, respectivamente a racional-experiencial e a explícita-tácita. A partir destas dimensões e dicotomias, apresentamos na Figura 1, um diagrama que contempla os saberes componentes do conhecimento profissional na perspectiva defendida por Porlán Ariza; Rivero García; Martín del Pozo (1997).
Figura 1 - Dimensões e componentes do conhecimento profissional
<!-- image -->
Por sua vez, Tsai (2002) buscou, a partir de entrevistas realizadas 37 professores de física e química de Taiwan, investigar as crenças que estes docentes possuíam sobre a ciência de maneira geral, o seu ensino e a aprendizagem. Ao fazer referência a diversas produções, o autor destaca que as crenças que os professores apresentam sobre como a ciência é desenvolvida podem potencialmente estar relacionadas com as crenças que possuem sobre como ensiná-la e como os estudantes a aprendem (TSAI, 2002, p. 771).
- O autor ressalta, a partir dos tópicos abordados, que é difícil haver discrepâncias entre as crenças que os professores têm sobre o ensino, sobre a aprendizagem e a sobre a ciência, definindo a consonâncias entre as três dimensões como uma epistemologia aninhada 1 .
Considerando estes elementos, esta produção tem como objetivo investigar quais as percepções apresentadas por professores de física da educação básica sobre elementos que reconhecem como importantes na definição de seu perfil
profissional. Este questionamento foi proposto para professores de física da educação básica, de escolas públicas e privadas, como parte de um questionário inicial de um projeto de pesquisa mais amplo.
## Uma breve descrição sobre os participantes da pesquisa
A partir de uma rede de professores construída inicialmente de profissionais que faziam parte da rede de relações dos autores, mas que foi se ampliando com a indicação de conhecidos dos já indicados, pudemos iniciar a seleção dos participantes.
Os participantes da pesquisa deveriam estar atuando como professores de física e se identificarem como tal, independente de sua formação inicial. Considerando estes aspectos, encaminhamos o questionário para um grupo de 162 professores e obtivemos uma participação de 35 docentes (pouco mais de 21%), que predominantemente atuam nos estados de São Paulo (18 professores) e Minas Gerais (10 professores). Houve também a participação de dois professores do Mato Grosso do Sul, do Paraná e do Rio de Janeiro, respectivamente e um da Paraíba. A maioria dos docentes apresenta a formação inicial na área de física (totalizando 28 participantes), enquanto outros quatro provêm da área de matemática e outros três com formação inicial nas áreas de construção naval, engenharia civil e química. É importante destacar que apenas dez participantes não apresentam cursos de pósgraduação.
Por fim, em relação ao tempo de atuação como professores da educação básica, 25 professores atuam há menos de 10 anos neste nível de ensino, dos quais 17 têm menos de 5 anos de docência. Já em relação ao tipo de instituição em que lecionam atualmente, 11 professores lecionam somente em escolas particulares,10 atuam somente em escolas públicas e 14 atuam em instituições públicas e privadas.
## Sobre a coleta de dados e as análises
Disponibilizamos para os professores participantes um questionário composto por dez questões abertas, que objetivavam instiga-los a refletir sobre: por que ensinar a física na educação básica; o que deve ser ensinado deste componente curricular; como os conteúdos devem ser estruturados e desenvolvidos ao longo do ensino médio.
Dentre as dez questões, apresentamos aos docentes a seguinte indagação: Olhando para a forma como você se vê hoje como professor de física, quais os conhecimentos/experiências/valores que você destaca como mais importantes na definição do seu perfil profissional?
Entendemos o perfil profissional como o conjunto de características apresentadas e utilizadas pelo docente na sua prática pedagógica, o que, de certa forma se configura como um elemento constituinte da sua identidade enquanto professor. Nessa direção, alinhamo-nos a Iza e colaboradores (2014, p. 276) quando ressaltam que 'a identidade que cada professor constrói baseia-se em um equilíbrio único entre as características pessoais e os percursos profissionais construídos ao longo da história de vida.'
Marcelo (2009) destaca que a identidade docente é algo dinâmico que evolui tanto individualmente quanto coletivamente. Além disso, o autor ressalta que o
desenvolvimento da identidade se caracteriza como um 'processo de Interpretação de si mesmo como pessoa dentro de um determinado contexto'. Assim a identidade e, consequentemente, a identidade profissional não é estável, inerente, ou fixa, pois pode ser entendida como resposta a pergunta 'quem sou eu neste momento?'.
Então, ainda que nesta produção, nos limitaremos a apresentar os resultados das análises das respostas obtidas nesta questão, no contexto da pesquisa mais ampla, ela fazia-se necessária para investigarmos as possíveis relações existentes entre os elementos que os docentes reconhecem como importantes para a definição de seu perfil profissional e a forma como selecionam, organizam e desenvolvem os conteúdos de física na educação básica.
Para a análise das respostas desta questão, buscamos inspiração na Análise de Conteúdo de Bardin, visando 'obter por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) dessas mensagens.' (BARDIN, 2011, p. 48). Nesta produção, as contribuições deste referencial se relacionam com a possibilidade de compreender os aspectos que os docentes consideram que são/foram relevantes na definição de seu perfil profissional, alinhando-nos a uma perspectiva de análise temática das respostas obtidas.
Desta maneira, iniciamos os procedimentos analíticos realizando uma leitura flutuante, o que nos possibilitou uma primeira aproximação às percepções expostas pelos participantes. Após esta leitura flutuante, identificamos algumas percepções que apresentavam certa similaridade, assim, ao retomarmos a exploração das respostas em uma leitura mais aprofundada, estas impressões iniciais nos auxiliaram na reflexão e posteriormente na composição das categorias utilizadas para a análise.
Emergiram deste processo analítico, três categorias que, de certa forma, contemplam aspectos relacionados ao exposto por Iza e colaboradores (2014) e Marcelo (2009) sobre a dinamicidade da construção da identidade docente, bem como sobre os elementos que a constituem, são elas: percepções sobre os aspectos definidores de seu perfil profissional a partir de elementos provenientes da atividade docente; percepções sobre os aspectos definidores de seu perfil profissional a partir de elementos associados às características do professor; percepções sobre os aspectos definidores de seu perfil profissional a partir de elementos associados à dimensão formativa.
É importante salientarmos que o conceito de percepções possui uma amplitude de significados e enfoques, principalmente na área da psicologia como Marin (2008) destaca. Matos e Jardilino (2016), por sua vez, ao promoverem uma síntese de conceitos presentes no campo da educação, dentre os diversos enfoques, ressaltam as percepções como um processo pelo qual o indivíduo toma consciência de si e do ambiente por meio da organização e interpretação de sensações e/ou dados sensoriais, resultando em uma representação dos objetos externos/exteriores. Alinhando-nos a esta perspectiva, ressaltamos que, o uso deste termo nesta produção, se relaciona com o processo pelo qual os professores participantes tomam consciência sobre os conhecimentos/experiências/valores importantes na definição da forma como se entendem como professores de física, por meio de um processo de reflexão sobre eles próprios. Apresentamos a seguir a distribuição das incidências de cada uma das categorias.
Quadro 1 - Frequência das percepções dos professores sobre os aspectos definidores de seu perfil profissional
Então, depois de definirmos as categorias e agruparmos os argumentos apresentados pelos docentes, identificamos que o maior número destes posicionamentos valorizavam elementos relacionados à atividade docente em diversas dimensões, desde elementos de um nível experiencial, com foco na dimensão metodológica, como a adotada comumente por estes professores em suas aulas, até aqueles mais direcionados ao nível racional, focalizando a importância da compreensão conceitual pelo docente, como nos respectivos exemplos a seguir.
P23: [...] Como profissional, investi em uma didática clara e prática, sempre utilizo de 2-3 exemplos do cotidiano (ou utilização tecnológica) sobre o assunto em pauta, pois acredito que é a melhor ferramenta para trazer significado para o aluno sobre o assunto.
P01: O meu perfil profissional sempre foi de caráter técnico, principalmente porque antes lecionei em escolas técnicas. Isso contribui de alguma forma para entender os conceitos e conhecimentos da física e suas aplicações principalmente na área da tecnologia [...]
De certa forma, percebemos uma consonância dos posicionamentos dos professores nesta categoria com os componentes do conhecimento profissional na perspectiva epistemológica destacada por Porlán Ariza; Rivero García; Martín del Pozo (1997). Como destacamos anteriormente, estes autores propõem que esta dimensão contempla desde saberes acadêmicos, que abarcam saberes de naturezas distintas, como aqueles relacionados aos conteúdos, os psicológicos, pedagógicos e didáticos, bem como aqueles de ordem epistemológica, até saberes baseados na experiência. Estes últimos, por sua vez, são desenvolvidos ao longo do exercício da profissão docente e se relacionam com diversos aspectos dos processos de ensino aprendizagem.
Uma característica importante destacada por estes autores, é o fato de estes saberes serem conscientes, ou seja, poderem se manifestar como crenças explicitas, princípios de atuação, metáforas. Conforme destacado por Bondía (2002), o saber da experiência se constituí como um saber particular, subjetivo, relativo, contingente e pessoal, assim:
- O saber da experiência [...] se adquire no modo como alguém vai respondendo ao que vai lhe acontecendo ao longo da vida e no modo como vamos dando sentido ao acontecer do que nos acontece. (BONDÍA, 2002, p. 27)
Desta maneira, passamos a direcionar nossos olhares para os enfoques dos posicionamentos categorizados como elementos provenientes da atividade docente. Esta análise possibilitou-nos identificar cinco enfoques para as respostas apresentadas pelos docentes ( conceitual, formativo, metodológico, pedagógico, social ). Os argumentos com enfoque conceitual valorizavam a importância do
conhecimento conceitual pelo docente. Os que possuíam enfoque formativo, estabeleciam uma relação com a formação do docente a partir de sua prática. Já os argumentos com enfoques metodológico e pedagógico, valorizavam aspectos associados ao como ensinar física e elementos relacionados aos processos educativos em uma dimensão mais ampla, respectivamente. Por fim, identificamos posicionamentos dos docentes que destacavam aspectos de ordem social, por valorizarem a interação com os seus pares, com estudantes e outros participantes do ambiente escolar. A seguir destacamos exemplos de posicionamentos com enfoque metodológico e pedagógico, respectivamente.
P06: Como professor de física vejo que temos que ser dinâmicos em sala de aula, levando novas informações que busque a motivação do aluno, sempre adotando novas metodologias para que não fique na mesmice ou caia na aula tradicional. […]
P19: [...] E essa mudança se dá justamente por adquirir novas experiências de professor, que trouxe com novos conhecimentos e valores, e buscar um melhor entendimento para o aluno, e fazê-lo buscar mais o questionamento, a crítica, do que simplesmente replicar cálculos. Acredito que para definir tudo isso, o principal foi perceber que estas discussões trazem mais resultado para meus alunos, do que um ensino tradicional, que em geral era utilizado.
Como destacamos anteriormente, esta categoria apresentou um total de 34 argumentos ( Erro! Fonte de referência não encontrada. ), dos quais 16 tinham um enfoque metodológico e 13 um enfoque pedagógico. Estes dois enfoques somados, representaram cerca de 85% do total de argumentos para esta categoria. Os demais enfoques tiveram apenas um (enfoque Conceitual) ou dois posicionamentos (enfoques Formativo e Social).
Para além destes aspectos provenientes da atividade docente, observamos que um quarto dos argumentos apresentados pelos participantes valorizava elementos relacionados ao seu percurso formativo. Quando buscamos identificar os enfoques dos posicionamentos apresentados, observamos a presença daqueles relacionados à formação inicial, enquanto outros valorizavam aspectos provenientes de momentos de formação continuada. Este último enfoque apresentou um posicionamento a menos que aquele. Apresentamos nos exemplos a seguir, argumentos dos professores da categoria formativa, com enfoque na formação inicial e continuada, respectivamente.
P14. […] também credito minha formação mais experimental como bagagem de conhecimentos aplicados mais na minha prática profissional.
P34. Tenho muito a aprender ainda, acredito que na nossa profissão, o estudo e a aprendizagem devem ser ferramentas constantes, para não corremos o risco de reproduzir sempre as mesmas aulas. A cada ano que passa me sinto mais realizada como profissional, busco aprimorar meus conhecimentos e estudar áreas que não vi na faculdade, como cosmologia por exemplo [...]
Por fim, a categoria que apresentou a menor incidência é aquela em que os professores apresentam posicionamentos relacionados às suas características. Esta categoria apresentou apenas cinco argumentos, dos quais três se relacionavam com características pessoais dos professores, como a calma, paciência e o gosto pelo estudo. Em outra perspectiva, os dois posicionamentos remanescentes destacavam características dos professores em relação à interação com os estudantes. Os exemplos seguintes se relacionam a estes dois enfoques respectivamente.
P14. Não tenho muita experiência para definir um perfil profissional, mas me percebo um profissional calmo e paciente, imparcial, mesmo que minha prática em sala seja prejudicada pela minha imparcialidade, são valores que norteiam o meu trabalho […]
P29. Relação de empatia com os alunos!! Este é o principal fator que desmotiva ou motiva um aluno a chegar em casa e estudar sua disciplina.
Quando apresentamos uma breve caracterização dos participantes da pesquisa, destacamos que dos 35 participantes 25 atuavam há menos de 10 anos no ensino médio, dos quais 17 possuíam menos de cinco anos de docência. Por outro lado, dez participantes apresentavam mais de dez anos de atuação, sendo que quatro deles possuem mais de 20 anos atuando na educação básica.
Considerando o tempo de atuação dos professores do grupo, alguns aspectos nos chamaram a atenção: a ausência de argumentos relacionados à formação de professores com mais de vinte anos de atuação; e professores com tempo de atuação na educação básica na faixa de 11 a 20 anos, não fazendo referência a elementos que coloquem em destaque características pessoais.
Para além destas ausências, percebemos que houve uma consonância da distribuição dos posicionamentos por tempo de atuação, com a distribuição total observada, não havendo grandes divergências entre os valores percentuais.
## Considerações Finais
A investigação sobre as percepções de professores de física da educação básica sobre os conhecimentos/experiências/valores que consideram mais importantes na definição do próprio perfil profissional, nos possibilitou perceber que, para este grupo de professores, elementos relacionados com a atividade docente foram os mais presentes na argumentação sobre a construção deste perfil.
Ainda que os participantes tenham argumentado mais sobre aspectos relacionados com a atividade docente, quando discorrem sobre a construção do seu perfil profissional, há uma pluralidade de elementos associados a este processo que ocorre ao longo da vida do professor, tal como destacado por Iza e colaboradores (2014) e Marcelo (2009).
Nessa direção, chamou-nos a atenção o baixo número de argumentos relacionados com as características e valores pessoais dos professores, justamente por estes aspectos apresentarem um caráter de base na construção da identidade docente. Mesmo que a estruturação da questão possa ter contribuído para que os participantes não explicitassem outros argumentos mais direcionados às suas características e valores pessoais, também podemos pensar que, para este grupo de professores e no momento em que a questão foi proposta, a compreensão sobre o perfil profissional valorizasse mais elementos associados à atividade docente.
Nessa direção, reconhecemos que para o desenvolvimento de futuras pesquisas que focalizem investigar a relação das características pessoais dos docentes com o seu perfil profissional, as questões devem ser ampliadas, abarcando outros elementos, bem como também devem ser considerados outros instrumentos de coleta de dados, como a história de vida, por exemplo. Por fim, ainda que o grupo de participantes tenha sido pequeno, pudemos ter algumas indicações sobre os elementos que reconhecem ser importantes na definição de seu perfil profissional.
## Referências Bibliográficas
BARDIN, L. Análise de Conteúdo . São Paulo: Edições 70, 2011.
BONDIA, J. L. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Revista Brasileira de Educação . n.19, p.20-28. 2002. Disponível em: http://ddd.uab.cat/pub/edlc /02124521v15n2p155.pdf . Acesso em: 29/04/2020.
IZA, D. F. V.; BENITES, L. C.; SANCHES NETO, L.; et al . Identidade docente: as várias faces da constituição do ser professor. Revista Eletrônica de Educação , v. 8, n. 2, p. 273-292, 2014. Disponível em: http://www.reveduc.ufscar.br/ index.php/reveduc/article/view/978/339 . Acesso em: 29/04/2020
MARCELO, C. A identidade docente: constantes e desafios. Tradução: Cristina Antunes. Formação Docente: Revista Brasileira de Pesquisa sobre Formação de Professores . v. 1, n. 1, p. 109-131, ago./dez. 2009. Disponível em: http://hdl.handle.net/11441/29196 . Acesso em: 29/04/2020.
MARIN, A. A. Pesquisa em educação ambiental e percepção ambiental. Pesquisa em Educação Ambiental , vol. 3, n. 1 -pp. 203-222, 2008. Disponível em: https://doi.org/10.18675/2177-580X.vol3.n1.p203-222 . Acesso em: 18/06/2020.
MATOS, D.; JARDILINO, J. R. Os conceitos de concepção, percepção, representação e crença no campo educacional: similaridades, diferenças e implicações para a pesquisa. Educação & Formação , v. 1, n. 3, p. 20-31, 1 set. 2016. Disponível em: https://doi.org/10.25053/edufor.v1i3.1893 . Acesso em: 18/06/2020.
PORLÁN ARIZA, R.; RIVERO GARCÍA, A.; MARTÍN DEL POZO, R. Conocimiento profesional y epistemología de los profesores I: Teoría, métodos e instrumentos. Enseñanza de las Ciencias , v. 15, n. 2, p. 155-171, 1997. Disponível em: https://www.raco.cat/index.php/Ensenanza/article/view/21488. Acesso em: 29/04/2020
PORLÁN ARIZA, R.; RIVERO GARCÍA, A.; MARTÍN DEL POZO, R. Conocimiento profesional y epistemología de los profesores, II: Estudios empíricos y conclusiones. Enseñanza de las Ciencias , v. 16, n. 2, p. 271-288, 1998. Disponível em: https://www.raco.cat/index.php/Ensenanza/article/view/21534 . Acesso em: 29/04/2020 SACRISTÁN, J. G. O Currículo: Uma reflexão sobre a prática . 3. ed. Porto Alegre: ArtMed, 1998.
TSAI, C.-C. Nested epistemologies: Science teachers' beliefs of teaching, learning and science. International Journal of Science Education , v. 24, n. 8, p. 771-783, 2002. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1080/09500690110049132 . Acesso em: 29/04/2020
Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.