A FUNDAÇÃO DA FFCL-USP E SEUS PRIMEIROS ANOS (1934-1941): REFLEXÕES SOBRE O ENSINO E A PESQUISA EM FÍSICA NO BRASIL
Jonathan Melkes Francisco Monzon, Marcia Tiemi Saito
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVIII
- Ano
- 2020
- Data
- 13/11/2020
- Linha de pesquisa
- Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## A FUNDAÇÃO DA FFCL-USP E SEUS PRIMEIROS ANOS (1934-1941): REFLEXÕES SOBRE O ENSINO E A PESQUISA EM FÍSICA NO BRASIL
## THE FOUNDATION OF FFCL-USP AND ITS FIRST YEARS (1934-1941): CONSIDERATIONS ABOUT PHYSICS TEACHING AND RESEARCH IN BRAZIL
Jonathan Melkes Francisco Monzon 1 , Marcia Tiemi Saito 2
1 Instituto Federal do Paraná (IFPR), jonathan.melkesf@gmail.com 2 Instituto Federal do Paraná (IFPR), marcia.saito@ifpr.edu.br
## Resumo
Apesar das pesquisas sobre a História da Física no Brasil terem avançado nos últimos anos, ainda existem diversos temas a serem explorados. Um desses temas se refere à fundação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL), juntamente com a Universidade de São Paulo, em 1934. Os objetivos deste trabalho consistem em apresentar um panorama sobre o contexto de fundação desta faculdade e seus primeiros anos de funcionamento, bem como fazer uma reflexão sobre os impactos de sua criação para o Ensino e a Pesquisa em Física institucionalizada no Brasil. As análises a serem realizadas estarão alicerçadas em documentos históricos e pesquisas historiográficas já existentes sobre esse tema. Conclui-se que a criação da FFCL foi um marco na história da Física no Brasil. A sua fundação permitiu a reunião de pesquisadores nacionais e estrangeiros, por oferecer-lhes um ambiente e condições de trabalho propícias, além de fortes investimentos em infraestrutura e equipamentos especializados. A FFCL também contribuiu para a formação de professores capacitados para atuar no ensino básico e superior. Por fim, o desejo de formar uma 'elite intelectual' - de natureza distinta a uma elite econômica -, uma das motivações para a criação da USP, permitiu com que se adotasse uma política de bolsas e inclusão de estudantes de mais baixa renda. Essa política pode ser considerada parte do início, ainda que de forma incipiente, da democratização do acesso ao ensino superior.
Palavras-chave : História da Física no Brasil, Ensino de Física no Brasil, Física no Brasil, história das instituições, historiografia da ciência.
## Abstract
In spite of the development in research about the history of physics in Brazil, we still have many subjects to be explored. One of them is the foundation of the Faculty of Philosophy, Sciences and Arts (FFCL), together with the University of Sao Paulo (USP), in 1934. The aim of the present work is to present an overview about the historical context of foundation of this faculty and its first years of operation. We also analyze the consequences of its foundation to institutionalization of physics teaching and research in Brazil. The analysis of the present work will be based on historical documents and studies. We conclude that the foundation of FFCL was an historic landmark. It allowed Brazilian and foreign researchers to collaborate in developing national research, offering them an adequate environment and good conditions of work. It also made possible investments in specialized laboratories and equipment. FFCL also contributed to teacher training for basic and higher education. Besides, the foundation of USP aimed to form an 'intellectual elite', which is different from economical elite. This fact allowed FFCL to adopt a politics of financial and
inclusion of low-income students. This politics can be considered part of the beginning of democratization process to access higher education in Brazil.
Keywords : History of physics in Brazil, Physics teaching in Brazil, Physics in Brazil, history of institutions, historiography of science.
## 1 - Introdução
Apesar das pesquisas sobre a História da Física no Brasil terem avançado nos últimos anos, ainda existem diversos temas a serem explorados nessa área. Além disso, existem diversos debates e críticas sobre a própria produção historiográfica existente a respeito dessa história (Vieira e Videira, 2007). Um importante marco ainda a ser mais bem explorado no que diz respeito à institucionalização do ensino e da pesquisa em Física no Brasil está relacionado à fundação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL), em conjunto com a Universidade de São Paulo (USP), em 1934.
A USP foi oficialmente criada pelo decreto do estado de São Paulo nº 6.283, de 25 de janeiro de 1934, e regulamentada pelos Estatutos formalizados pelo decreto estadual nº 6.533, de 4 de julho do mesmo ano. As motivações para a sua criação, de acordo com os documentos de sua fundação (USP, 1936), foram a necessidade de 'organização e desenvolvimento da cultura filosófica, científica, literária e artística', de 'formação das classes dirigentes' (USP, 1936, p. 39), e um interesse na organização e no desenvolvimento da cultura superior, em todos os setores do conhecimento humano. Essas motivações se apoiavam na crença de que essas ações constituíam a base das instituições democráticas de uma nação e que, posteriormente, sua influência transcenderia as barreiras do estado de São Paulo indo de acordo com os interesses morais da União (USP, 1936, p. 15).
No ato de sua fundação, passaram a integrar o sistema universitário: a Faculdade de Direito, a Faculdade de Medicina, a Escola Politécnica, o Instituto de Educação, a Faculdade de Medicina Veterinária, a Faculdade de Farmácia e Odontologia e a Escola Superior de Agricultura, que já existiam, em São Paulo; além destas, foram criadas a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL), o Instituto de Ciências Econômicas e Comerciais e a Escola de Belas Artes, bem como outras instituições complementares (USP, 1936, p. 15). A FFCL, objeto de estudo da presente pesquisa, foi separada em três seções autônomas: Filosofia, Ciências e Letras, sendo a seção de Ciências composta por seis subseções - I Ciências Matemáticas; II - Ciências Físicas; III - Ciências Químicas; IV - Ciências Naturais; V - Geografia e História; VI - Ciências Sociais e Políticas. Com essa estrutura, a FFCL visava formar professores para atuar no ensino de nível secundário, pois 'sendo o problema de formação do professor secundário uma das mais graves questões relativas ao ensino desse nível, (…) [o] futuro pessoal docente se recrutará entre os diplomados por estes institutos' (USP, 1936, p.16).
Sendo assim, tendo em vista a importância da fundação da FFCL para a história da Física no Brasil, os objetivos deste trabalho consistem em apresentar um panorama sobre o contexto de fundação desta faculdade e seus primeiros anos de funcionamento. A partir disso, se pretende fazer uma reflexão sobre os impactos da criação da FFCL para o Ensino e a Pesquisa em Física sistematizada no país. Em particular, serão exploradas as motivações políticas e sociais que antecederam a sua fundação, as dificuldades encontradas nos seus primeiros anos de funcionamento, os investimentos realizados para a concretização deste projeto, em especial, os esforços em recrutar profissionais para atuarem como docentes nesta faculdade,
e os seus impactos educacionais e para a formação de professores no país. O desenvolvimento dessas análises será alicerçado em documentos históricos e pesquisas historiográficas já existentes sobre o tema.
## 2 - As motivações para a fundação da FFCL: um aprofundamento histórico-social
A fundação da FFCL, em 1934 1 , juntamente com a fundação da USP, ocorre em um contexto histórico-social particular para o Estado de São Paulo, após a sua derrota no movimento de 1932, o qual foi motivado pela perda de poder político desse Estado e de Minas Gerais no país, com a fim da 'política do café-com-leite' (Acervo IFUSP, 2020). Diante desse contexto, existem algumas hipóteses sobre as motivações para a criação da USP e, em particular, da FFCL. A primeira delas seria a de que, embora o governo federal tivesse ganhado a batalha contra o estado de São Paulo, Getúlio Vargas sabia que não poderia ignorar a elite paulista em seu governo, sendo assim, a criação da USP seria uma espécie de consolo para essa elite (Skidmore, 2003). Outra hipótese, vinculada a esta, seria a de que a elite paulista passou a articular uma nova estratégia de conquistar poder político, não mais através das armas, mas através da formação '(...) de uma elite intelectual, capaz de compreender os problemas de sua época e de dar a eles solução adequada' (Prado, 1974, p. 98). Por fim, uma terceira hipótese retrata a USP como fruto de 'uma iniciativa de empresários do setor cultural (...) pessoas com interesses empresariais, ligadas a editoras, donos de escolas [etc.]' (Mesquita Neto, 1993, pp. 11-12).
Essas hipóteses, apesar de darem ênfase a diferentes aspectos, refletem a existência de um sentimento de derrota na elite paulista - cientistas, políticos e cafeicultores -, o qual foi gerado pelas diversas derrotas políticas e pelas crises econômicas, que interferiram drasticamente na indústria do café e fizeram com que o estado de São Paulo deixasse de ser um pivô nas decisões políticas da União. A criação da USP, então, seria uma tentativa de reverter este sentimento, formando uma elite não mais com enfoque econômico, mas uma 'elite intelectual', capaz de interferir nas diretrizes do Estado.
Contudo, São Paulo era um Estado onde poucos jovens alcançavam o nível superior de educação e era sabido que, para que ele voltasse a sua posição de locomotiva do país, primeiramente era necessário elevar o nível educacional de sua população. Salmeron (2001) destaca alguns pontos importantes a respeito do contexto político-social da época:
Não havia no país escolas especializadas no estudo das ciências da natureza, ciências humanas ou literatura. Em geral, as pessoas interessavam-se por matemática, física ou química quando estudavam engenharia; os que se interessavam por biologia, estudavam medicina; os especialistas em literatura, vinham principalmente das escolas de direito, e assim por diante. Os cientistas de quase todos os campos da ciência, os filósofos, os escritores, adquiriam a maior parte da sua educação profissional como autodidatas. Pouquíssimos tinham a oportunidade de aprimorar a sua formação na Europa. (Salmeron, 2001, p. 219)
Diante desse contexto, a FFCL surge com objetivos de 'formar professores para o ensino secundário e superior, que teriam como responsabilidade o desenvolvimento de uma elite intelectual' (Ferreira, 2009, p.5). Os professores formados pela FFCL, portanto, teriam a incumbência de semear nos jovens do ensino básico a chamada 'consciência nacional' . Com isso, 'a USP (…) buscava 2 não só formar uma elite preparada para estabelecer as bases para o progresso do País, revalorizando a soberania paulista, mas justificar a existência dessa elite intelectualizada' (Acervo IFUSP, 2020).
## 3 - Os primeiros anos da FFCL e a natureza do seu corpo docente
Como consequência do contexto educacional, político e acadêmico no país, havia uma carência de especialistas em território nacional para lecionar e desenvolver pesquisas na recém-criada FFCL, assim, surge a necessidade de contratar profissionais estrangeiros. Contudo, atrair esses profissionais para atuar no ensino superior brasileiro poderia não ser uma tarefa fácil. Logo, esta atividade assumiu o caráter de uma missão, que ficou a cargo do engenheiro Theodoro Ramos 3 , sendo posteriormente batizada com o seu nome pelos historiadores. Nessa missão, o professor da Escola Politécnica foi incumbido de viajar pela Europa e convidar pesquisadores para compor o corpo docente da FFCL. Além da busca por esses profissionais, Theodoro também ficou encarregado de observar o modo de funcionamento das instituições de ensino europeias, a fim de replicar aquilo que seria considerado conveniente para o sistema de ensino no Brasil (Ferreira, 2009).
Como resultado dessa missão, alguns professores aceitaram o desafio de iniciar carreira docente na FFCL, seja por conta das dificuldades de encontrar empregos permanentes na Europa, seja por conta do incentivo do governo de seu país, como foi o caso da Itália, que ofereceu diversas facilidades para os professores que quisessem vir à USP (Ferreira, 2009; Vieira e Videira, 2007; Silva, 2016). Especificamente na área de Física, foi contratado o professor ítalo-russo Gleb Wataghin, atualmente considerado um dos principais impulsionadores das pesquisas sistematizadas em Física no Brasil. Além dessas motivações, o salário e as condições de trabalho oferecidos na época pelo governo paulista para esses docentes era atraente, pois seu regime de trabalho era de dedicação integral à pesquisa, bons equipamentos e ferramentas para pesquisa e a possibilidade das aulas serem ministradas no idioma de origem dos professores (Vieira e Videira, 2007; Silva, 2016). De fato, fica evidenciado nas primeiras páginas do Anuário da USP de 1934/35, o forte investimento do Governo de São Paulo em criar e equipar laboratórios, a fim de criar um ambiente simpático e propício ao ensino e à pesquisa:
Orientada pelo firme propósito do governo de acender nessa Faculdade um foco de pesquisas e organizá-la como um centro de cultura capaz de influir eficazmente no desenvolvimento dos altos estudos e na renovação dos métodos de trabalho científico. Não foi menor o empenho do governo do Estado em aparelhar do material e das instalações necessários as diversas secções, presididas, nessa Faculdade, pela reconhecida competência dos especialistas contratados (USP, 1936, p. 17).
Portanto, os primeiros anos de funcionamento da FFCL contaram com um corpo docente em sua maioria pesquisadores estrangeiros, principalmente, alemães, franceses, italianos e portugueses, os quais, com boas condições de trabalho, puderam desenvolver a pesquisa nacional sistematizada nas áreas abarcadas por esta faculdade.
## 4 - Os investimentos em laboratórios e equipamentos de pesquisa
A instalação inicial da FFCL, no ano de 1934, se deu em caráter provisório, ocupando espaço e laboratórios em comum ao edifício da já existente Faculdade de Medicina. Nos anos seguintes, iniciaram-se os trâmites para a instalação de laboratórios e espaço próprios, necessários ao pleno funcionamento de cada uma de suas seções e subseções, até a aquisição de um local de caráter mais permanente (USP, 1938). O forte investimento nos laboratórios fica evidenciado nos primeiros anos de sua criação, pois se entendia que, para existir produção de conhecimento científico nas áreas abarcadas pela faculdade, era necessário investir em uma infraestrutura especializada:
À medida do seu desenvolvimento, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras vem ampliando as suas atividades de pesquisa, tendo já, para isso, aparelhado convenientemente as Cadeiras dos Cursos de Física, História Natural e Química. Dispondo, assim, de laboratórios especializados nas disciplinas respectivas, tem-se incrementado nas mesmas a pesquisa científica desinteressada, sendo de notar os trabalhos já efetuados nos Departamentos de Física, [e outros] (…). Outras cadeiras (...) têm realizado trabalhos de pesquisa, que tem sido publicado nos 'Boletins' da FFCL (USP, 1942, p. 112).
O Anuário da USP de 1936/37 revela que 'os vários departamentos especializados da Faculdade desenvolveram grande atividade durante o ano letivo, não só na parte propriamente didática, como também no que se refere a pesquisas científicas' (USP, 1938, p.39). É sabido que o investimento financeiro empregado na infraestrutura da Universidade não foi o único fator para o sucesso dos trabalhos. O esforço empregado pelo corpo docente e técnico especializado, que trabalhou na construção, desenvolvimento e manutenção dos equipamentos que seriam utilizados nas pesquisas, foi essencial para a sua sistematização.
Em particular, na área de Física, foi possível desenvolver as primeiras pesquisas em raios cósmicos e partículas, as quais foram lideradas pelo Prof. Wataghin - professor contratado na missão Theodoro Ramos - e contaram com a colaboração do Sr. Damy de Souza Santos, estudante formado na primeira turma de Física da FFCL e que, em 1941, se tornou professor desta mesma faculdade (USP, 1938; USP, 1942).
Foram iniciadas, nesse Departamento [de Ciências físicas], as primeiras pesquisas sobre a radiação cósmica com aparelhos inteiramente construídos no laboratório, sob a direção do prof. Wataghin, com a colaboração do prof. Cintra do Prado e do assistente Damy de Souza Santos, licenciado na turma de 1936. (USP, 1938, p. 39) 4
## 5 - As políticas da FFCL para a formação de professores
A fundação da FFCL vem com um objetivo claro perante as necessidades educacionais da época. O problema da formação de docentes para atuar no ensino secundário era grave, e a escassez de profissionais era a principal questão a ser trabalhada. Logo, 'é fácil avaliar o papel que está reservado a esses dois institutos universitários [a FFCL e o Instituto de Educação], na renovação das escolas secundarias, cujo futuro pessoal docente se recrutará entre os diplomados por estes institutos' (USP, 1936, p. 16). Cabe destacar que a escassez de educadores especializados não estava apenas no ensino básico, mas também no superior, na própria recém-criada USP. Segundo o Anuário USP 1940/41 (USP, 1942, pp.12-13), em 1941, a FFCL ainda sofria pela falta de efetivo docente em diversas cadeiras, apresentando deficiências nas aulas dadas e tendo que estabelecer uma política para a realização de concursos públicos e provimento de vagas.
Diante desse contexto, a FFCL passou a ser a primeira universidade no Brasil a oferecer uma preparação especial para aqueles que pretendiam exercer o magistério secundário. Porém, para que o licenciado formado em uma das seções da FFCL pudesse atuar nessa carreira, era necessário passar por uma complementação pedagógica, que ficava a cargo do Instituto de Educação, ou seja, 'é na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras que o candidato ao magistério de qualquer disciplina ou grupo de disciplinas afins, em escolas secundarias, irá aprender 'o que ensinar', para aprender 'como ensinar', no Instituto de Educação (IE)' (USP, 1936, p.16).
Para a atuação como docente no ensino superior, por outro lado, não era necessária a complementação pedagógica pelo IE. Este modelo de formação de professores durou até o ano de 1939, quando foi extinto o IE e a FFCL passou a incorporar os seus cursos universitários. Essas mudanças acarretaram na readequação do Estatuto da USP, que passou a entender que os objetivos da FFCL eram dois: a formação do professor secundário e a preparação dos cientistas e pesquisadores de cultura pura e desinteressada (USP, 1939, p. 17).
Como consequência dessa mudança, a FFCL passou a se dividir em seus cursos ordinários, com duração de três anos cada um, os quais forneceriam aos seus formados o título de Bacharéis. Já 'para obtenção do título de Licenciado, que lhes dará direito ao magistério secundário ou normal, é facultada a matrícula no (...) Curso Especial de Didática, lecionado em um ano' (USP, 1942, p.102). Este último tinha como um de seus objetivos, preparar candidatos ao magistério do ensino secundário normal e assistentes nos cursos superiores, e aquele que se formasse nesse curso faria jus às 'regalias decorrentes dos seus diplomas' (USP, 1942, p.111):
Os diplomas de licenciado, expedidos pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras conferem aos seus portadores o direito de exercer qualquer função no magistério secundário ou normal, em estabelecimento administrado pelos poderes públicos ou entidades particulares, sendo admitidos a registro no Ministério da Educação.
A partir do ano de 1943, só poderão exercer essas atividades os licenciados por Faculdades de Filosofia, nos termos do decreto-lei federal n° 1.190, de 1939.
Os assistentes das Faculdades de Filosofia deverão também ser licenciados nos respectivos cursos (USP, 1942, p.111).
Além disso, para auxílio na formação de professores, a FFCL contava com um programa de 'Bolsas de Estudo', instaurado a partir do ano de 1936, sendo ela uma proposta do Prof. Almeida Junior:
Ficou resolvida a concessão das Bolsas mediante concurso, a que também poderão concorrer os professores primários com cadeira no magistério do Estado. Pelo regimento aprovado pelo Conselho Universitário e pela Secretaria da Educação para regulamentação desse concurso, haverá em 1936, 20 bolsas de estudos do valor de 250$000 mensais, e 33 vagas para professores comissionados, limitado o número conforme a secção ou subsecção, de acordo com o quadro que foi organizado, e respeitada a média obtida, que será, no mínimo de 7, no exame vestibular, e de 6 em cada matéria durante o curso (USP, 1936, p. 27).
Além do programa de bolsas concedido pela Universidade, existiam também aquelas oferecidas pelos institutos estrangeiros Fundação Rockefeller e a Fundação John Simon Gugenheim, para estudos no exterior (USP, 1942, p.11). Dessa forma, apesar de, desde o início, a criação da USP ter sido voltada para o fortalecimento da elite paulista, o esforço institucional de formar uma 'elite intelectual' - de natureza distinta a uma elite econômica - abria margem para a inclusão de 'alunos reconhecidamente pobres, e de real valor para o prosseguimento de seus estudos' (USP, 1936, p. 91).
Além disso, a concessão de bolsas e incentivos não era exclusividade dos alunos de graduação, mas também de docentes e auxiliares de ensino que tivessem revelado uma aptidão excepcional. Todos esses investimentos estavam inclusos no orçamento anual, a fim de propiciar os meios de especialização e aperfeiçoamento desse público dentro ou fora do país (USP, 1936, p. 52).
Todas essas políticas e investimentos universitários contribuíram para a formação de professores, do nível básico ao superior, e, consequentemente, repercutiram nos níveis educacionais da população.
## 6 - Considerações finais
A criação da FFCL foi um marco para o ensino e a pesquisa sistematizada nas diversas áreas do conhecimento abarcadas por essa faculdade, em particular, para o ensino e a pesquisa em Física no Brasil. A sua fundação reuniu pesquisadores nacionais e estrangeiros, que impulsionaram o desenvolvimento e a visibilidade dessas pesquisas no exterior. Isso foi possível devido à criação de um ambiente propício a vinda desses profissionais, tais como: boas condições de trabalho, salários condizentes, tempo de dedicação à pesquisa, laboratórios bem equipados, oportunidade de lecionar no idioma de origem, entre outros fatores. Na área de Física, a vinda do professor ítalo-russo Gleb Wataghin possibilitou o desenvolvimento de pesquisas nas áreas de raios cósmicos e partículas.
Para o seu funcionamento, a FFCL também contou com fortes investimentos da universidade em infraestrutura e equipamentos especializados, os quais, com a mobilização dos conhecimentos e da formação do corpo docente e técnico, puderam ser aprimorados para fins de desenvolvimentos das pesquisas. No caso das pesquisas em raios cósmicos, por exemplo, alguns aparelhos foram inteiramente construídos pelos pesquisadores, com a utilização da infraestrutura preexistente.
A fundação da USP, em especial da FFCL, foi motivada por um desejo de formar uma 'elite intelectual' capaz de interferir nas diretrizes do Estado e de organizar, desenvolver e disseminar o conhecimento e a cultura superiores. Uma das formas de concretizar esse desejo foi através da formação de professores capacitados para aturar no ensino básico e no superior, e da adoção de políticas institucionais específicas para esse fim. Inclusive, alguns estudantes formados, posteriormente, se tornariam professores dessa mesma faculdade. Além disso, a
natureza de uma 'elite intelectual', distinta da elite econômica, permitiu com que se adotasse uma política de bolsas e inclusão de estudantes de mais baixa renda, a qual pode ser considerada parte, ainda que de forma incipiente, do início da democratização do acesso ao ensino superior.
Dessa forma, as políticas adotadas e os investimentos realizados para a fundação da FFCL consistiram em iniciativas com importantes repercussões no desenvolvimento da pesquisa e da educação científica no país. Estas medidas, portanto, podem servir de base de reflexão para manutenção e desenvolvimentos futuros destas áreas.
## Referências
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FERREIRA, A. F. M. P. A criação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP : Um estudo sobre a formação de pesquisadores e professores de matemática e Física em São Paulo. Tese (doutorado) - Pontifícia Universidade Católica de, São Paulo, 2009.
NADAI, E. O Ensino de história e a criação do fato . São Paulo: Editora Contexto, 1988.
PRADO, M. L. C. A ideologia liberal de 'O Estado de São Paulo' (1932-1937 ). Dissertação (mestrado) - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, São Paulo, 1974.
SALMERON, R. A. Gleb Wataghin. Estudos Avançados 15(41) , 219-228, 2001.
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SKIDMORE, T. Uma história do Brasil . São Paulo: Paz e Terra, 2003.
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