Inserção da História da Ciência no Ensino Médio: Importância e dificuldades
Laiane Caio, Edenmar G. D. Zacaria, Paulo Vinicius Rebeque
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVIII
- Ano
- 2020
- Data
- 13/11/2020
- Linha de pesquisa
- Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## INSERÇÃO DA HISTÓRIA DA CIÊNCIA NO ENSINO MÉDIO: IMPORTÂNCIA E DIFICULDADES
## INSERTING THE HISTORY OF SCIENCE IN HIGH SCHOOL: IMPORTANCE AND DIFFICULTIES
Laiane Caio 1 , Edenmar G. D. Zacaria 2 , Paulo Vinícius Rebeque 3
1 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul - Campus Bento Gonçalves, laianecaio@hotmail.com
2 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul - Campus Bento Gonçalves, edenmarzacaria@outlook.com
3 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul - Campus Bento Gonçalves, paulo.rebeque@bento.ifrs.edu.br
## Resumo
O presente texto trata da importância de se inserir História da Ciência nas aulas de Ciências do Ensino Médio e as dificuldades de realizar tal tarefa. Sendo parte de uma pesquisa maior já realizada, esta primeira etapa do estudo visa descrever, a partir de uma revisão bibliográfica, alguns empecilhos enfrentados pelos professores que acarretam em uma abordagem inadequada da natureza do conhecimento científico. Como consequência, as concepções distorcidas sobre a atividade científica que os estudantes possuem acabam sendo intensificadas. É também válido ressaltar que abordar História da Ciência auxilia os alunos na compreensão de leis, princípios e teorias. Apesar de não haver um manual que diga quais passos devem ser tomados para que haja a inserção de elementos históricos com qualidade, esta pesquisa, a partir de uma análise da bibliografia, procura propor alguns pontos que podem auxiliar os docentes, que por vezes, pouco tem contato com materiais e pesquisas que decorrem sobre este assunto.
Palavras-chave : História da Ciência, Ensino Médio, Concepções Errôneas.
## Abstract
This article seeks to demonstrate the importance of inserting History of Science in High School science classes and the difficulties of accomplishing this task. As part of a larger research already carried out, this first stage of the study aims to describe, from a bibliographic review, some obstacles faced by teachers that lead to an inadequate approach to the nature of scientific knowledge. Because of this, the distorted conceptions related to the scientific activity that students have end up being intensified. It is also important to noting that approaching History of Science helps students to understand laws, principles and theories. Although there is no manual that says what steps should be taken for the insertion of historical elements with quality, this research, based on an analysis of the bibliography, aims to propose some points that can help teachers, who, sometimes, has little contact with materials and research taking place on this subject.
Keywords : History of Science, High School, Misconceptions.
## Introdução
- O presente artigo é um recorte de uma pesquisa maior já realizada e que será dividida em duas partes. Esta primeira tem como principal objetivo destacar a importância e as dificuldades de abordar aspectos históricos da Ciência nas aulas de Ciências, em especial na área da Física, no Ensino Médio.
A necessidade desta pesquisa provém de alguns pontos destacados em outros estudos, que mostram que alunos e professores possuem visões que divergem da que a educação científica deveria proporcionar, como ressaltado por Sheid, Persich e Krause (2009), em uma pesquisa realizada com 89 estudantes. Tais visões são classificadas em sete tipos. Segundo Fenandez et. al. (2002), estas são: Concepção empiricoindutivista, Concepção rígida da atividade científica, Concepção aproblemática e ahistórica da Ciência, Concepção exclusivamente analítica da Ciência, Concepção meramente acumulativa do conhecimento científico, Concepção individualista e elitista da Ciência e Concepção descontextualizada, socialmente neutra da atividade científica.
Estas visões equivocadas da Ciência são frutos de diversos fatores, como o whyggismo 1 e o anacronismo 2 (FORATO, MARTINS e PIETROCOLA, 2011). Segundo estes mesmos autores, alguns historiadores e professores trazem aos estudantes e interessados uma versão tendenciosa dos acontecimentos, o que implica em uma compreensão deturpada da história. Seguindo esta mesma ideia, Bastos (1998), menciona que o método de ensino adotado pela maior parte das escolas é um dos principais disseminadores dessas visões errôneas, uma vez que grande parte dos professores focam apenas nos resultados finais das atividades científicas, deixando o processo de produção e construção do conhecimento científico em segundo plano.
De acordo com Monk e Osborne (1997), estudar e compreender a natureza do conhecimento científico é de suma importância para entender o próprio conhecimento científico. Isto implica que fatores históricos, epistêmicos, sociais e culturais fazem parte da Ciência, tanto quanto a matemática, os conceitos e as teorias envolvidas em determinado assunto. Como ressaltado por estes mesmos autores, para aprender Ciência, é necessário também aprender sobre Ciência. Ainda dentro destes aspectos, Matthews (1995), relata que abordar aspectos históricos nas aulas de Ciência do Ensino Médio, além de atrair mais estudantes pelo fato de humanizar a Ciência, auxilia na compreensão, por parte dos alunos, dos determinados conteúdos estudados.
Há várias dificuldades encontradas ao se abordar aspectos relacionados à construção do conhecimento científico, como a carência de materiais. Porém, o mais
presente é a falta de tempo didático 3 disponível para tal aplicação. Isso, por si só, pode 'obrigar' o professor a ter de trabalhar com recortes históricos, correndo grande risco de acabar disseminando mais visões equivocadas a respeito da Ciência (FORATO, MARTINS e PIETROCOLA, 20011).
A História da Ciência é fundamental na formação de futuros professores de física, já que para um docente, é necessário tanto competências científicas quanto didáticas (MARTINS, 1990). Com isso, se faz necessário pensar e refletir questões referentes à História da Ciência como a necessidade de estudá-la e como aplicá-la nas aulas de Física no Ensino Médio. Para isso, buscou-se através de uma revisão bibliográfica, identificar as principais dificuldades encontradas ao se abordar História da Ciência em aulas voltadas para o Ensino Médio, e possíveis formas de realizar essa aplicação.
A seguir, comenta-se sobre a metodologia utilizada nesta pesquisa. Na sequência, apresenta-se os fundamentos teóricos que embasaram este estudo. Por fim, descreve-se algumas possibilidades para inserir a história da Ciência nas aulas de Ensino Médio.
## Metodologia
Fez-se uma revisão de literatura narrativa, ou não sistemática, de cunho qualitativo. Pesquisou-se em algumas revistas relacionadas a aspectos de ensino e história da ciência. Algumas delas são: Ciência e Educação, Revista Brasileira de História da Ciência, Revista Brasileira de Ensino de Ciência e Tecnologia. A partir disso, selecionou-se alguns artigos referentes a questões de ensino da ciência, inserção da história da ciência na educação e ensino de física moderna e contemporânea no Ensino Médio.
A fim de contemplar o objetivo deste trabalho, justificar o tema da pesquisa e melhor investigar os assuntos relacionados à inserção da História da Ciência no Ensino Médio, realizou-se pesquisa e leitura de diversos artigos que o discutiam. Procurou-se analisar e identificar algumas das dificuldades que o professor se depara ao lecionar assuntos relacionados à natureza do conhecimento. Além disso, verificou-se, através de pesquisas já realizadas por outros autores, quais as concepções que os estudantes de Ensino Médio possuem em relação à Ciência, assim como a opinião deles quanto a este assunto. Ampliando o conhecimento sobre as dificuldades que rodeiam o ensino de História nas aulas de Ciência, optouse por analisar alguns artigos que pudessem dar subsídios suficientes para analisar e debater os resultados encontrados ao longo deste trabalho.
Ao final desta pesquisa, através de estudos relacionados, descreveu-se algumas possibilidades para ensinar História da Ciência nas aulas.
## Fundamentação Teórica
Este tópico está separado em duas partes. A primeira descreve brevemente qual a importância de abordar História da Ciência em aulas do Ensino Médio e como isto é visto por outros pesquisadores. A segunda etapa ressalta algumas
dificuldades encontradas ao tentar transpor elementos históricos didaticamente, e quais as consequências de uma abordagem histórica inadequada.
## Qual a importância de ensinar História da Ciência no Ensino Médio?
Pesquisas, relativamente recentes, mostram que as universidades, no geral, estão demonstrando uma preocupação em relação ao ensino da História da Ciência, visto que muitas delas já possuem em sua grade curricular alguma forma de incorporar a história, seja através de uma disciplina específica, ou incorporando estes aspectos nas próprias disciplinas da área (MARTINS, 2007).
Através de uma pesquisa empírica realizada com três grupos de alunos de graduação e pós-graduação, Martins (2007) relata que abordar o contexto histórico dos conteúdos permite que os discentes possam ter uma aquisição de conhecimentos mais ampla. Segundo o autor, de forma contextualizada, além de atrair a atenção dos alunos, facilita na compreensão das leis, princípios e conceitos, além de promover o senso crítico dos estudantes.
De acordo com Martins (2007), houve a inserção de algumas reformas educacionais que pontuam a necessidade de uma contextualização histórico-social da Ciência. Consequentemente, o ensino da História da Ciência acaba tornando-se ainda mais relevante, em especial, como necessidade formativa do professor (CARVALHO e GIL PÉREZ, 1998).
Em uma análise mais recente, Vital e Guerra (2017) pontuam que os estudantes veem aspectos históricos como sendo algo introdutório e até mesmo dispensável ao se estudar Física. Para este estudo, os autores lecionaram algumas aulas de Física, promovendo inicialmente, um debate de elementos históricos. No entanto, como já ressaltado, os alunos não demonstraram dar a devida importância a estes aspectos. Devido a isso, é sugerido pelos autores que haja um maior investimento das instituições na formação de professores, especificamente no que tange ao ensino da História da Ciência. Porém, é válido ressaltar que mesmo que haja a inserção da História da Ciência nos cursos de licenciatura, isso por si só, não garante que os futuros professores tenham essa iniciativa quando docentes, visto que as dificuldades de abordar elementos da natureza do conhecimento científico surgem quando se passa a utilizar a História da Ciência para fins didáticos (MARTINS, 2007). Com a inserção da História da Ciência nas aulas do Ensino Médio, pode-se ir encontra às visões errôneas sobre o fazer científico (MARTINS, 2017).
A seguir, foram discutidas algumas das principais dificuldades enfrentadas pelos professores ao se abordar elementos relacionados à natureza do conhecimento científico.
## Dificuldades encontradas ao abordar História da Ciência e as visões errôneas da Ciência
Como mencionado anteriormente, umas das dificuldades de ensinar História da Ciência é o tempo didático disponível, além do currículo das escolas brasileiras, que normalmente são focadas nos vestibulares e no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Esses fatores acabam colocando o professor em um certo dilema. Se por um lado o docente resolver aprofundar o contexto histórico demasiadamente, os conceitos físicos e matemáticos de determinado conteúdo acabarão por ficar em
segundo plano. Por outro lado, caso o professor aborde apenas alguns recortes históricos, ele corre o risco de disseminar concepções errôneas do fazer científico (FORATO, MARTINS e PIETROCOLA, 2011).
Segundo Martins (2010), aulas que busquem dar enfoque na natureza do conhecimento científico, quando não bem elaboradas podem disseminar algumas visões distorcidas da Ciência.
Quase sempre, ao se tentar apresentar a história de forma resumida, cai-se em uma história linear: uma sequência de eventos que são efeito um do outro, e que vão levando a resultados 'melhores' com o passar do tempo. Esse tipo de história traz em sua base a ideia simplista de progresso (melhora qualitativa) e de causalidade direta entre fatos do passado e do presente. Aceita a concepção de que aquilo que valorizamos no presente já existia no passado e que basta procurar para encontrar os 'pais' das ideias que aceitamos. É seguindo essa tendência simplista que se costuma estruturar a história da teoria da evolução: indicando alguns personagens importantes (como Lamarck e Darwin) e estabelecendo um progresso linear entre eles, além de indicar no 'pai' da teoria da seleção natural apenas as ideias que aceitamos hoje em dia (e que são diferentes das que ele tinha) (MARTINS, 2010, p. 5).
Oliveira (2002) descreve que ao analisar fatores histórico-epistemológicos, é possível perceber que o conhecimento científico está relacionado a um amplo processo de construção, que envolve desde a razão, a experimentação e a criatividade, até as emoções, influências culturais e sociais e crenças sobre. Porém, o autor menciona que no atual cenário de ensino da ciência, todos esses fatores resumem-se a uma simples equação matemática, referindo-se a professores de Física que dão ênfase apenas aos cálculos matemáticos relacionados a determinado conteúdo da Física.
Faria et al. (2014), ressaltam que grande parte dos estudantes possuem ideias equivocadas sobre o que é atividade científica. Isso se deve, em parte, a má formação de professores em relação ao ensino da História da Ciência (despreparo e até mesmo a ingenuidade deles), pois, como já mencionado, aulas não bem planejadas, podem contribuir ainda mais com as visões distorcidas da Ciência.
Nas palavras de Brito et al. (2014, p. 215):
Compreender os processos envolvidos na construção do conhecimento científico não se trata de uma tarefa trivial. Com frequência, vemos esse conhecimento supostamente vinculado a certas personalidades científicas, tais como Isaac Newton (1643-1727), cuja história é cercada por lendas e conclusões geniais acerca de fatos corriqueiros, que, consequentemente, fomentam no imaginário popular uma visão de que a ciência, assim como a sua compreensão, faz parte apenas do domínio de gênios abençoados com um conhecimento acima do normal. Torna-se imprescindível adequar essa visão.
Seguindo essa ideia, Matthews (1995) menciona que há discrepâncias quanto a inserção da História da Ciência. Há quem alegue que a única história possível de ser ensinada é a pseudo-história 4 e até mesmo que aprender sobre a História da Ciência pode tirar a credibilidade do saber científico.
Martins (2010) afirma que é impossível abordar a história de forma neutra, mas que cabe ao professor deixar claro que o que foi mostrado trata-se apenas de recortes, uma vez que tende a ser anacrônica, até mesmo pela escassez de materiais didáticos que comentem sobre esta parte da Ciência. Em função disso, é importante comentar que defensores da não inserção da História da Ciência, acreditam que a pseudo-história é o 'resultado de muitos e muitos livros cujos autores sentiram a necessidade de dar vida aos registros desses episódios usando um pouco de história, mas que, de fato, acabavam reescrevendo a história de tal forma que ela segue lado a lado com a física' (WHITAKER, 1979, p. 109 apud MATTHEWS, 1995, p. 174).
Em relação às concepções errôneas da Ciência, Fenandez et al. (2002) as classifica em sete tipos:
- Concepção empiricoindutivista: Nesta visão, são descartados os fatores que influenciaram ou foram determinantes para determinado conhecimento, fazendo alusão a um método científico infalível para achar o resultado;
- Concepção rígida da atividade científica: Acreditar que a Ciência possui um método mecanizado que direciona os cientistas a uma resposta incontestável;
- Concepção aproblermática e ahistórica da Ciência: Apresentar ou estudar apenas os resultados de um conhecimento, mas sem se aprofundar nas dificuldades ou influências do contexto sociohistórico e cultural que fizeram parte da construção deste saber;
- Concepção exclusivamente analítica da Ciência: Perceber os conhecimentos científicos de forma separada, ou seja, todos os processos de unificação de teorias por exemplo, não são levados em consideração;
- Concepção meramente acumulativo do conhecimento científico: A grosso modo, é o pensamento de que o atual conhecimento não está passível de alterações futuras.
- Concepção individualista e elitista da Ciência: O pensamento de que apenas pessoas superiores em intelecto possam contribuir significativamente na Ciência.
- Concepção descontextualizada, socialmente neutra da atividade científica: Não perceber a relação da Ciência com os fatores políticos, sociais e culturais do contexto no qual ela está inserida.
Como se pode perceber, a inserção da história da Ciência no Ensino Médio é um assunto delicado e que depende de vários fatores, podendo acabar disseminando visões distorcidas do fazer científico. Contudo, vale ressaltar sua importância, tanto para estimular o senso crítico dos estudantes como para ajuda-los a melhor compreender os conteúdos.
## Considerações Finais
Como primeira etapa de uma pesquisa, a presente revisão bibliográfica sobre a importância e as dificuldades de se abordar aspectos históricos da Ciência em aulas de Ciências mostrou-se produtiva, sobretudo pelos relatos de experiências
didáticas. Ou seja, este tema se revelou muito presente na literatura acadêmica, o que o coloca como importante campo de pesquisa na área de Ensino.
Entretanto, há de ser ressaltado que a maioria dos professores não utiliza artigos acadêmicos no cotidiano das escolas, mas sim livros didáticos que, por vezes, deixam a desejar uma adequada abordagem histórica dos temas científicos. Nesse sentido, ter como referência na preparação de aulas artigos acadêmicos, sobretudo os denominados relatos de experiências didáticas, pode ser uma possibilidade para os professores.
De fato, inserir elementos históricos nas aulas de Ciência no Ensino Médio não é uma tarefa fácil. Existem diversos fatores que podem não corroborar com essa iniciativa, como fatores pessoais (despreparo do professor para abordar estes assuntos e/ou pouco contato com materiais que apresentam a História da Ciência), fatores interpessoais, como a relação docente/aluno/escola e até aspectos gerais, como a falta de tempo didático, escassez de materiais didáticos e, possivelmente, currículos voltados ao conteudismo. Além disso, a bibliografia aqui evidenciada ilustrou os cuidados que o professor deve tomar para não disseminar visões errôneas da Ciência ou abordar apenas recortes históricos.
A partir dessas percepções, pode-se pensar em algumas maneiras de levar aspectos históricos da Ciência para as de Ensino Médio, como, por exemplo, disponibilizar materiais, além de incentivar a leitura, pode ser eficaz para que os estudantes possam se aprofundar mais no contexto histórico dos conteúdos, podendo economizar algum tempo em sala. Abordar textos relacionados aos conceitos que estão sendo estudados também pode auxiliar, pois, como visto, além de facilitar a aprendizagem, estudar aspectos históricos pode ampliar o senso crítico dos estudantes.
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