HISTÓRIA DE VIDA E CONSTITUIÇÃO DOS SUJEITOS: OS ALUNOS EM SITUAÇÃO DE DEFICIÊNCIA E A ÁREA DE CIÊNCIAS NATURAIS, EXATAS E TECNOLÓGICAS
Danielle Santos, Carolina Souza, Márlon Pessanha
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVIII
- Ano
- 2020
- Data
- 13/11/2020
- Linha de pesquisa
- Equidade, Inclusão, Diversidade E Estudos Culturais E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## HISTîRIA DE VIDA E CONSTITUI,ÌO DOS SUJEITOS: OS ALUNOS EM SITUA,ÌO DE DEFICIæNCIA E A çREA DE CIæNCIAS NATURAIS, EXATAS E TECNOLîGICAS
## LIFE HISTORY AND CONSTITUTION OF SUBJECTS: STUDENTS IN SITUATION OF DISABILITIES AND THE AREA OF NATURAL, EXACT AND TECHNOLOGICAL SCIENCES
## Danielle Santos , Carolina Souza , M‡rlon Pessanha 1 2 3
1 UFSCar/santos.danirita@yahoo.com.br
UFSCar/Departamento de Metodologia de Ensino/ carolinasouza@ufscar.br
2
3 I UFSCar/Departamento de Metodologia de Ensino/ marlonpessanha@yahoo.com.br
## Resumo
Os cursos ligados ˆ ‡rea de CiGLYPH<144>ncias Naturais, Exatas e Tecnol-gicas s‹o parte de um campo com um perfil semelhante, em que h‡ uma presenGLYPH<141>a majoritariamente masculina, sem deficiGLYPH<144>ncias e branca, resultando num espaGLYPH<141>o de pouco di‡logo com a diferenGLYPH<141>a e a diversidade. Este trabalho, fruto de uma dissertaGLYPH<141>‹o de mestrado, buscou dar visibilidade a hist-rias de vidas de estudantes em situaGLYPH<141>‹o de deficiGLYPH<144>ncia, que optaram por uma carreira na ‡rea de CiGLYPH<144>ncias Naturais, Exatas ou Tecnol-gicas, visando identificar poss'veis meandros, contextos e fatores relacionados ˆs hist-rias de vidas desses jovens universit‡rios e as opGLYPH<141>›es pelo ensino superior. Para isso, consideramos a conceitualizaGLYPH<141>‹o de deficiGLYPH<144>ncia da sociologia da deficiGLYPH<144>ncia, em especial sob a -tica de Foucault, e pesquisas relacionadas com a escolha da carreira, o ensino superior e a educaGLYPH<141>‹o em CiGLYPH<144>ncias. No desenvolvimento do trabalho, realizamos entrevistas epis-dicas das trajet-rias de vida dos participantes, que foram analisadas de forma compreensivainterpretativa. A pesquisa realizada possibilitou embarcar nas narrativas e levantar olhares para a formaGLYPH<141>‹o de processos disciplinares e dispositivos existentes nas diferentes instituiGLYPH<141>›es, assim como normas e processos que n‹o depender‹o da situaGLYPH<141>‹o de deficiGLYPH<144>ncia das pessoas.
Palavras-chave : Hist-rias de vida; situaGLYPH<141>‹o de deficiGLYPH<144>ncia; ‡reas de CiGLYPH<144>ncias Naturais, Exatas e Tecnol-gicas.
## Abstract
The courses of the area of Natural, Exact and Technological Sciences are part of a field that dialogues in a very similar profile, with a predominantly male presence, without disabilities and white, resulting in a space of little dialogue with difference and diversity. In this work, that is that is a result of a masterÕs thesis, we seek to give visibility to the stories of the lives of students with disabilities, who opted for a career in area of Natural, Exact or Technological Sciences. For this, we consider the conceptualization of disability in the sociology of disability, especially from the perspective of Foucault, and research related to career choice, higher education and science education. In the development of the work, we conducted episodic interviews of the participants' life trajectories, which were analyzed in a
comprehensive-interpretative way. The research carried out made it possible to embark into the narratives and to look at the formation of disciplinary processes and devices existing in different institutions, as well as norms and processes that will not depend on people's situation of disability.
Keywords : Life history; situation of disabilities; Natural, Exact and Technological Sciences.
## IntroduGLYPH<141>‹o
O Ensino Superior pode ser um espaGLYPH<141>o diverso, fruto do encontro de pessoas de diferentes origens, mœltiplas crenGLYPH<141>as e costumes. Tal diversidade, contudo, tende a ser homogeneizada por processos educativos, que assumem linhas de normalidade que devem ser questionadas. A ‡rea de CiGLYPH<144>ncias Naturais, Exatas e Tecnol-gicas apresenta desafios a serem pensados e problematizados, no que diz respeito aos sujeitos que fazem parte da mesma e principalmente, dos que deixam de fazer parte, impossibilitando o di‡logo com maior pluralidade de vis›es e questionamentos de mundo. Os cursos relacionados a essas ‡reas tGLYPH<144>m, por tradiGLYPH<141>‹o, reunido estudantes, majoritariamente masculinos, brancos, heterossexuais e visivelmente, em n‹o condiGLYPH<141>‹o de deficiGLYPH<144>ncia.
As universidades pœblicas, de maneira geral, motivadas por mudanGLYPH<141>as sociais e devido ˆs recentes alteraGLYPH<141>›es na legislaGLYPH<141>‹o, tGLYPH<144>m estabelecido um compromisso com a tem‡tica da diversidade e a inclus‹o, como por exemplo, pelas pol'ticas de aGLYPH<141>›es afirmativas envolvendo o acesso e permanGLYPH<144>ncia de Pessoas com DeficiGLYPH<144>ncia (PcD) no Ensino Superior.
O trabalho tem como objetivo dar visibilidade ˆs hist-rias de estudantes, em situaGLYPH<141>‹o de deficiGLYPH<144>ncia, que optaram por cursos da ‡rea de CiGLYPH<144>ncias Naturais, Exatas e Tecnol-gicas, tradicionalmente, com baixa representatividade desse perfil de estudante. A pesquisa aqui apresentada Ž o recorte de uma dissertaGLYPH<141>‹o de mestrado, em que s‹o apresentadas as hist-rias de vida de dois estudantes e seus interesses pela ‡rea de CiGLYPH<144>ncias Naturais, Exatas e Tecnol-gicas, perspectivas e expectativas futuras. Nesse processo, procurou-se compreender como esses estudantes dialogam com as suas ‡reas de formaGLYPH<141>‹o, CiGLYPH<144>ncia da ComputaGLYPH<141>‹o e CiGLYPH<144>ncias Biol-gicas, e as relaGLYPH<141>›es com o ensino de f'sica na graduaGLYPH<141>‹o e na educaGLYPH<141>‹o b‡sica. Elementos sobre a escolha da carreira e dos processos de vivGLYPH<144>ncias na ‡rea tambŽm s‹o destaques nessa pesquisa.
## FundamentaGLYPH<141>‹o te-rica
Assuntos relacionados ˆ deficiGLYPH<144>ncia e ˆ diferenGLYPH<141>a tGLYPH<144>m aparecido sob diferentes -ticas e diferentes contextos nos œltimos anos. Em espec'fico, no %mbito da sociologia da deficiGLYPH<144>ncia, campo que se desenvolve a partir de discuss›es de natureza pol'tica, epistemol-gica e legislativa, a deficiGLYPH<144>ncia Ž interpretada a partir do olhar sobre os meios e interaGLYPH<141>›es sociais em que ela emerge.
De modo geral, a sociologia da deficiGLYPH<144>ncia assume que a deficiGLYPH<144>ncia Ž produzida e mantida por um grupo social a partir do momento em que esse grupo interpreta e trata como desvantagens certas diferenGLYPH<141>as apresentadas por determinadas pessoas. Neste sentido, Omote (1994) afirma que, na discuss‹o de normalidade e diferenGLYPH<141>a, a deficiGLYPH<144>ncia n‹o surge no indiv'duo, devido as suas
caracter'sticas, mas se constitui na interaGLYPH<141>‹o social entre os indiv'duos, em funGLYPH<141>‹o das reaGLYPH<141>›es ˆs caracter'sticas. A deficiGLYPH<144>ncia, assim, em uma definiGLYPH<141>‹o que assumimos em nosso trabalho, n‹o Ž uma caracter'stica absoluta do sujeito, mas sim algo que se produz na relaGLYPH<141>‹o entre os sujeitos nas situaGLYPH<141>›es no meio social.
As interpretaGLYPH<141>›es da sociologia da deficiGLYPH<144>ncia dialogam com estudos sobre doenGLYPH<141>as, estigmas, anormalidade, exploraGLYPH<141>‹o, racismo, quest›es de gGLYPH<144>nero, entre outros. Um dos pilares da sociologia da deficiGLYPH<144>ncia, que contribuem com algumas dessas interpretaGLYPH<141>›es, e que serve de base para o nosso trabalho, Ž o pensamento de Foucault. Em especial, nas obras Vigiar e Punir (FOUCAULT, 1987) e Os anormais (FOUCAULT, 2001), o autor se concentra nas relaGLYPH<141>›es de poder, nas instituiGLYPH<141>›es que domesticam o corpo, na forma como o corpo Ž utilizado como objeto do poder; nos processos de disciplinarizaGLYPH<141>‹o e normalizaGLYPH<141>‹o dos corpos dentro dos diversos tipos de instituiGLYPH<141>›es.
Em nosso trabalho, alŽm de utilizarmos algumas das ideias de Foucault, pelo contexto espec'fico de pesquisa e considerando os objetivos de nosso estudo, tambŽm comp›em o nosso marco te-rico discuss›es sobre o ingresso e permanGLYPH<144>ncia no Ensino Superior, com foco nos cursos das ‡reas de CiGLYPH<144>ncias Naturais, Exatas e Tecnol-gicas, estudos sobre projetos de vida e a escolha da carreira (SANTOS, 2005; SANTANA; OLIVEIRA et al, 2009; ANDRADE; PAGAN, 2012, CUNHA et al, 2001) tambŽm fizeram parte dos referencias te-ricos para dialogo com as narrativas dos estudantes.
## Metodologia
A pesquisa foi desenvolvida em uma universidade pœblica federal, localizada no estado de S‹o Paulo, e contou com a participaGLYPH<141>‹o de alunos que ingressaram por reserva de vagas para Pessoas com DeficiGLYPH<144>ncia (PcD), em cursos ligados ˆ ‡rea de ciGLYPH<144>ncias naturais, exatas e tecnol-gicas. Esses alunos foram convidados a participar da pesquisa atravŽs de contato via e-mail, obtido com apoio das secretarias dos cursos das ‡reas em quest‹o. As entrevistas ocorreram em novembro de 2019.
Os participantes da pesquisa Beatriz e Carlos , respectivamente alunos dos 1 cursos de CiGLYPH<144>ncias Biol-gicas e CiGLYPH<144>ncias da ComputaGLYPH<141>‹o, foram os estudantes que aceitaram a participar da pesquisa. Foram realizadas entrevistas epis-dicas (FLICK, 2002) e em sequGLYPH<144>ncia buscou-se analis‡-las pautando-se na forma de an‡lise compreensiva-interpretativa (SOUZA, 2014) das trajet-rias de vida e o di‡logo com os referencias te-ricos de an‡lise. Como guia da entrevista narrativa foram utilizadas as perguntas: Como foi sua inf%ncia, adolescGLYPH<144>ncia e vivGLYPH<144>ncia escolar (em relaGLYPH<141>‹o a escola, os outros alunos e professores)? Como se deu sua escolha pela graduaGLYPH<141>‹o que cursa? E quais s‹o os seus planos para o futuro?
## Resultados e discuss‹o
Com base no mŽtodo de an‡lise interpretativa-compreensiva foram realizadas as leituras e escutas das narrativas. No processo de leitura e prŽ-an‡lise foram criados eixos norteadores de an‡lise que se delinearam na medida em que as
experiGLYPH<144>ncias foram sendo narradas. Chegou-se a trGLYPH<144>s eixos tem‡ticos . Nesse 2 recorte da pesquisa focaremos em dois deles.
## Inf%ncia, adolescGLYPH<144>ncia e vida adulta e a situaGLYPH<141>‹o de deficiGLYPH<144>ncia
Ao serem convidados a narrarem sobre a inf%ncia e a adolescGLYPH<144>ncia, os entrevistados, revelaram partes de seus percursos vividos em diversos contextos sociais, como por exemplo, nas vivGLYPH<144>ncias familiares, no espaGLYPH<141>o escolar e outros. Nos encontros e desencontros narrados Ž poss'vel captar algumas ÒmarcasÓ na constituiGLYPH<141>‹o dessas pessoas. No que se refere ˆ inf%ncia, foi poss'vel identificar em ambos os estudantes, a evocaGLYPH<141>‹o de uma n‹o mem-ria dessa fase da vida, ou talvez um n‹o querer lembrar/falar da inf%ncia ou ainda uma mem-ria de uma inf%ncia outra, n‹o a que se associa tradicionalmente, vinculada a brincadeiras, brinquedos etc.
[...] a' descobriram que eu tinha paralisia cerebral. E da', j‡ foi um choque de cara assim pra fam'lia, e da' ele comeGLYPH<141>ou o tratamento, ent‹o tipo, eu n‹o tenho muitas lembranGLYPH<141>as de quando eu era crianGLYPH<141>a, assim, t‡, quase nada. Mas pelas fotos que eu vejo, eu fiz inœmeras cirurgias desde que eu era crianGLYPH<141>a. [...]E da', com muita fisioterapia alongamentos de tend‹o, a' eu estico o braGLYPH<141>o, mas n‹o estica o braGLYPH<141>o por completo. [...]. (BEATRIZ)
Na minha inf%ncia eu n‹o vejo tantos pontos espec'ficos que seria bom de se comentar. Eu perdi o meu olho aos meus 2 anos de idade por um problema de saœde chamado retinoblastoma. E aos 3 anos de idade eu tive minha primeira pr-tese. Ent‹o, tipo, eu fui crescendo com uma crianGLYPH<141>a normal, fazendo manutenGLYPH<141>‹o, trocando pr-tese etc,[...]. (CARLOS)
Pelas falas dos entrevistados, Ž prov‡vel que essas inf%ncias tenham sido marcadas pela construGLYPH<141>‹o de um corpo em situaGLYPH<141>‹o de deficiGLYPH<144>ncia, o qual precisou se adequar ˆs condiGLYPH<141>›es de normalizaGLYPH<141>‹o existentes, sejam na sociedade ou na medicina, sejam por meio de fisioterapias, cirurgias, pr-teses e outros meios. Foucault (1987) destaca o poder disciplinar na instituiGLYPH<141>‹o mŽdica e o poder da instituiGLYPH<141>‹o familiar como parte fundamental do processo de ÒverÓ o corpo e a deficiGLYPH<144>ncia e, principalmente em fazer esse corpo mais pr-ximo do considerado normal.
Sobre o per'odo da adolescGLYPH<144>ncia, Beatriz relata acontecimentos em sua vida, com destaque para seu corpo, conv'vio social e familiar. Nas narrativas Ž poss'vel perceber uma relaGLYPH<141>‹o ainda confusa com a situaGLYPH<141>‹o de deficiGLYPH<144>ncia, que segundo a estudante, foi na universidade que passou a se ÒdescobrirÓ na situaGLYPH<141>‹o de deficiente.
Ent‹o, eu n‹o me via como deficiente atŽ entrar na faculdade. Porque meus pais nunca me trataram como um deficiente. [...] E da', tipo, minha fam'lia tambŽm nunca tratou isso de forma, tipo n‹o existe, nŽ porque do ponto de vista da fam'lia tradicional, se vocGLYPH<144> n‹o fala, o problema n‹o existe. (BEATRIZ)
Ent‹o tipo, s- que atŽ hoje meus pais n‹o veem isso com bons olhos. [...] da' a gente t‡ no mercado, eu pego a fila preferencial e meu pai fala "O que vocGLYPH<144> t‡ fazendo a'?", eu falo "Eu tenho direito de usar" a' ele fala "Ah n‹o filha, vem pra c‡", a' eu fico assim, "T‡ bom nŽ, quer pegar uma filona a', fica". A' a minha m‹e j‡ fala, se eu falo que n‹o consigo fazer tal coisa, "Ai p‡ra, vocGLYPH<144> sabe que vocGLYPH<144> consegue". (BEATRIZ)
Por n‹o se ver como ÒdeficienteÓ, em um primeiro momento poder'amos compreender que h‡ um pensamento de n‹o normalizaGLYPH<141>‹o ou percepGLYPH<141>‹o na intersubjetividade do que lhe Ž diferente. O que parece haver, contudo, Ž uma ocultaGLYPH<141>‹o e negaGLYPH<141>‹o da deficiGLYPH<144>ncia enquanto proteGLYPH<141>‹o dela pelos pais. A normalizaGLYPH<141>‹o enquanto ÒinstrumentoÓ que oculta a diferenGLYPH<141>a Ž, assim, o que parece levar Beatriz a n‹o se perceber e ser percebida como ÒdeficienteÓ.
Carlos, mais discreto e resumido nas suas respostas, narra que durante a sua adolescGLYPH<144>ncia, seu pai o apoiou financeiramente na compra de peGLYPH<141>as para a montagem de seu computador. TambŽm nos contou ter realizado um curso de montagem de micro quando tinha quinze anos. Ambos os relatos em suas narrativas, parecem estar associados a em cursar CiGLYPH<144>ncia da ComputaGLYPH<141>‹o. A morte da m‹e tambŽm foi narrada na entrevista.
Em 2013 minha m‹e chegou a falecer, tanto que foi o motivo da minha depress‹o de 2014 atŽ 2016. Tanto que hoje eu tenho v‡rios problemas pra conseguir conversar com as pessoas. E... (pausa para uma tosse) isso tambŽm foi me incentivando a seguir uma carreira profissional porque eu pensava, meu pai, ele n‹o vai conseguir me sustentar. (CARLOS)
Carlos destaca o momento de luto e como a perda da m‹e foi decisiva para seguir uma carreira profissional, j‡ que as condiGLYPH<141>›es financeiras do pai n‹o seriam suficientes para sustent‡-lo. Assim, Carlos se vGLYPH<144> diante de uma decis‹o de buscar um emprego e comeGLYPH<141>ar a trabalhar ou iniciar os estudos em uma universidade, na busca por mais opGLYPH<141>›es e melhores condiGLYPH<141>›es de trabalho.
## Escolha pela ‡rea de ciGLYPH<144>ncias naturais, exatas ou tecnol-gicas e o que vem em seguida
No que se refere ˆ entrada na universidade e ˆ opGLYPH<141>‹o pelo curso de CiGLYPH<144>ncias Biol-gicas, Beatriz apresenta um desejo inicial pela ‡rea, porŽm surgem nesse percurso, muitas dœvidas em se certificar se de fato esse curso seria um curso de sucesso que proporcionaria uma estabilidade financeira ou se de fato esse curso realmente era de seu desejo:
E da' eu sempre gostei muito de planta, eu nunca gostei muito de bicho, n‹o sou muito f‹ de bicho, s- que eu gostava muito de planta, eu gostava muito de ecossistema, de ‡gua e da' eu peguei, eu pensei ÒNossa eu vou fazer Biologia, CiGLYPH<144>ncias Biol-gicasÓ. E da' eu tinha um cunhado que tava para se formar bi-logo h‡ muitos anos, da', porque ele n‹o levava a faculdade a sŽrio nem nada, ent‹o do ponto de vista do meu pai, bi-logo era uma coisa ruim, n‹o, era uma pessoa sem comprometimento, que usava muita droga. E da', ele falava pra mim ÒFilha vocGLYPH<144> tem certeza?Ó. A' eu comecei nŽ ÒSer‡ que eu tenho certeza?Ó E da' eu fui fazer teste vocacional. A' eu fui com um psic-logo fazer o teste vocacional e deu muita aptid‹o para a ‡rea de CiGLYPH<144>ncias Biol-gicas, nŽ. E da' surgiu a opGLYPH<141>‹o Biomedicina. Ai eu falei ÒOlha pai, surgiu essa opGLYPH<141>‹oÓ. Ai, nossa ele gostou muito nŽ, medicina no nome. E da' t‡ bom, comecei a estudar para Biomedicina, fiz vestibular espec'fico para Biomedicina, passei na UNIFESP, Biomedicina, que era CiGLYPH<144>ncias Biol-gicas com modalidade mŽdica. S- que a' eu comecei conversar com pessoas que eram BiomŽdicas e elas falaram pra mim ÒBiomedicina n‹o Ž um trabalho bem reconhecido no BrasilÓ, por que o que o mŽdico faz com mais credibilidade e um bi-logo faz mais barato, Ž o que o biomŽdico faz. Ent‹o ela falou assim ÒA gente tem dificuldade de se inserir no mercadoÓ, porque vocGLYPH<144> fala para a pessoa ÒAh, eu sou biomŽdicoÓ a pessoa n‹o conhece muito bem ainda a ‡rea e fala ÒAh, mas vocGLYPH<144> Ž mŽdica?Ó ÒN‹o, eu sou BiomŽdicaÓ. Ah, mas um mŽdico Ž melhor assim, e o bi-logo faz
mais barato, entendeu? Da' eu peguei e conversei sobre isso com meu pai e ele falou ÒN‹o, tudo bemÓ. A' eu vou tentar fazer biologia. A' eu tentei, passei em biologia, a' no primeiro semestre eu apanhei bastante. (BEATRIZ)
E da' eu acho que foi assim grande parte, tambŽm de eu querer fazer biologia era por causa de uma professora que eu tinha no ensino mŽdio. Que ela dava aula de biologia, ela era incr'vel, eu tenho o WhatsApp dela, a "S". E da' eu peguei e falava assim, tipo, ela sempre me incentivou muito a fazer e ela me disponibilizou materiais de aula dela, que ela dava para outras escolas, falou "N‹o, estuda por esse a' pra vocGLYPH<144> saber mais, prender mais". E eu achava ela uma profissional incr'vel. (BEATRIZ)
Assim, a escolha da carreira, entendida aqui como um fator do projeto de vida, tambŽm pode ser influenciada pelos meios sociais e condiGLYPH<141>›es do indiv'duo estando atrelada ao comportamento de um grupo social. Nesse sentido, de acordo com Santos (2005), a literatura apresenta que uma das maiores influGLYPH<144>ncias na hora da escolha Ž a fam'lia. Segundo Santana, Andrade e Pagan (2012) a influGLYPH<144>ncia do professor sobre a escolha da carreira aparece entre os principais fatores relacionados ao estudo, uma vez que, entre diversos professores ao longo da vida escolar, alguns acabam sendo mais presentes e participativos, principalmente pelo desenvolvimento de algumas atitudes, que de certo modo causam admiraGLYPH<141>‹o e permitem fixar esses professores como exemplos importantes.
Ao relatar sobre o seu desenvolvimento no curso de CiGLYPH<144>ncias Biol-gicas, Beatriz destaca dificuldades com algumas disciplinas, respectivas avaliaGLYPH<141>›es, reprovas e o desejo de desistir:
A' eu n‹o sabia mais se eu queria fazer Biologia. Tirei meu primeiro zero da vida, na universidade, numa prova de f'sica. A' eu ligava para o meu pai chorando que eu n‹o queria mais fazer faculdade, que eu queria ir embora, que eu queria voltar a ser crianGLYPH<141>a, que crianGLYPH<141>a n‹o tinha responsabilidade nenhuma. A' ele falava pra mim ÒN‹o filha, calma, se esforGLYPH<141>aÓ, nŽ. A' eu tirei zero na P1, entrei na tutoria, estudei um monte, fui fazer a P2, tirei 1,5. A' eu ligava pra ele e chorava mais ainda a' ele falava ÒAi filha Ž normal reprovar, sabe as pessoas, acontece reprovaÓ. Ele j‡ tinha comeGLYPH<141>ado a aceitar que eu ia reprovar. Mas eu passei nessa matŽria, tirei 8 na P3 e 6,5 na sub e passei. (BEATRIZ)
E da' eu peguei, no meu primeiro ano eu tive trGLYPH<144>s reprovas, de cara assim, e da' tipo, j‡ acabou com o sonho de ter a FAPESP, porque FAPESP s- aceita atŽ duas reprovas e n‹o pode ser as duas no mesmo semestre. E eu tive trGLYPH<144>s em um semestre s-. Ai, eu j‡ falei "J‡ n‹o vou conseguir uma bolsa de iniciaGLYPH<141>‹o cient'fica", sabe, como se o mundo tivesse acabado. (BEATRIZ)
O vivido e narrado por Beatriz Ž bastante comum entre os demais estudantes. H‡ um 'ndice grande de reprova ou notas abaixo da mŽdia, na disciplina de F'sica, ofertada em outros cursos, como CiGLYPH<144>ncias Biol-gicas por exemplo. Esse pode ser apontado como uma das causas do nœmero de evas‹o, nesses cursos.
Segundo Cunha et al (2001) que realiza um estudo sobre a evas‹o do curso de qu'mica da universidade de Bras'lia, um dos dados levantados sobre o perfil dos alunos evadidos evidencia duas situaGLYPH<141>›es de hist-ricos escolares: uma com acompanhamento regular ao curso com menGLYPH<141>›es mŽdias e superiores nas disciplinas aprovadas e outra situaGLYPH<141>‹o nitidamente identificada como problem‡tica e irregular. A situaGLYPH<141>‹o identificada como irregular apresenta reprovaGLYPH<141>›es recorrentes nas mesmas disciplinas (frequentemente em C‡lculo 1 e 2, F'sica 1 e F'sica Experimental, Qu'mica Inorg%nica e Qu'mica Fundamental, Qu'mica Fundamental
Experimental, F'sico-Qu'mica, para citar algumas); com trancamentos constantes para diferentes disciplinas ou o abandono de outras.
As dœvidas sobre a vivGLYPH<144>ncia universit‡ria e as opGLYPH<141>›es de carreira, tambŽm se fazem presentes para Beatriz, que narra em sua entrevista, seus percursos, escolhas e cobranGLYPH<141>as:
S- que da', eu peguei e entrei na bateria no ano passado, ah eu falei "Eu gosto da bateria, vou ficar na bateria", e fez um ano que eu estou na bateria. A', eu tava meio assim, n‹o t™ fazendo nada no meu curso, nŽ, n‹o t™ fazendo nada na minha ‡rea, eu vou ficar para tr‡s. E da' eu estou prestando processo seletivo agora, pra uma parte de um projeto da produGLYPH<141>‹o, eu acho super legal, eles tambŽm est‹o trabalhando com um viŽs de pessoas com deficiGLYPH<144>ncia, sabe a ANAC? AgGLYPH<144>ncia Nacional de AviaGLYPH<141>‹o Civil. Eles querem construir um aeroporto com, tipo, acessibilidade ideal. E a' eu t™ prestando o processo seletivo e passei para a segunda fase, estou desenvolvendo o meu projeto agora que tem que enviar ele atŽ dia 30. A' eu peguei tambŽm, t™ conhecendo os laborat-rios l‡ da Bio. A', ent‹o, esse ano, no final do ano eu vou sair da bateria. (BEATRIZ)
Carlos, ao mencionar sobre a escolha pelo curso de graduaGLYPH<141>‹o, associa a gostos e vivGLYPH<144>ncias na inf%ncia e ao status profissional da carreira e sua possibilidade de rentabilidade.
[...] eu sempre assim, gostei de tecnologias em si. Durante a minha inf%ncia eu gostava muito de videogames e etc. E a' eu fui crescendo e eu nunca perdi o gosto e eu jogava outros jogos com meus amigos e etc. E eu simplesmente vim pr‡ c‡ com a ideia de que "ah eu quero entender melhor como m‡quinas funcionam" e eu quero entender e conseguir fazer uma ou algum prot-tipo, rob™s e sistemas aut™nomos. Tanto que como eu disse, se eu for fazer uma IC eu quero mais focar na parte de hardware e HC. (CARLOS)
[...] Ent‹o eu preciso ou arranjar um emprego ou estudar pra eu ter um o ensino superior e conseguir manter est‡vel, financeiramente falando. Tanto que eu escolhi a parte de exatas exatamente por causa dessa parte financeira - grifo nosso. (CARLOS, Ògrifos nossosÓ)
Em estudo realizado por Oliveira et al (2009), a informaGLYPH<141>‹o prŽvia sobre a carreira e o status profissional aparecem como fatores de influGLYPH<144>ncia. Alguns dos jovens entrevistados na pesquisa procuraram informaGLYPH<141>›es sobre a carreira conversando com pessoas que j‡ estudavam ou atuavam na ‡rea pretendida, em relaGLYPH<141>‹o aos que procuram a profiss‹o por status, de acordo com Oliveira et al (2009), a escolha foi feita unicamente se baseando no mercado de trabalho, sem necessariamente se preocupar com a satisfaGLYPH<141>‹o profissional.
Embora Carlos resgate suas vivGLYPH<144>ncias e gostos de inf%ncia para justificar suas escolhas, parece que a opGLYPH<141>‹o de carreira, pela ‡rea de ciGLYPH<144>ncias exatas e tecnol-gica se deu pelo seu contexto social, familiar e econ™mico regulado pelos fatores psicol-gicos e as autorreflex›es. Em seu relato, Carlos destaca que pretende fazer uma iniciaGLYPH<141>‹o cient'fica como parte do seu projeto de vida acadGLYPH<144>mico e n‹o menciona estar envolvido em outras atividades extracurriculares.
## ConsideraGLYPH<141>›es finais
A pesquisa possibilitou evidenciar um pouco do sentido formativo e autoformativo de todo um per'odo de vivGLYPH<144>ncias, contido nos relatos das trajet-rias que antecedem a universidade e o cursar a ‡rea de CiGLYPH<144>ncias Naturais, Exatas ou
Tecnol-gicas. Nesse per'odo Ž poss'vel perceber nas narrativas, movimentos singulares de aprendizagens e a relaGLYPH<141>‹o de conhecimento de si. A partir das entrevistas foi poss'vel perceber que a narrativa dos entrevistados foi mudando a relaGLYPH<141>‹o com sua situaGLYPH<141>‹o de deficiGLYPH<144>ncia, conforme esses corpos foram crescendo. ƒ poss'vel perceber inf%ncias fortemente marcadas por um corpo em correGLYPH<141>‹o, devido ˆs normas das quais eles n‹o se enquadram, e conforme esses estudantes v‹o crescendo, se aproximam do momento da escolha da carreira, os discursos que aparecem se assemelham muito ao de corpos em n‹o situaGLYPH<141>‹o de deficiGLYPH<144>ncia, matriculados em cursos das ‡reas de CiGLYPH<144>ncias Naturais, Exatas e Tecnol-gicas. Essa semelhanGLYPH<141>a Ž verificada nos relatos sobre a escolha pela carreira, os elementos destacados pelos entrevistados ao falar sobre a vida universit‡ria nos cursos, entre outros. As narrativas revelam como as pessoas em situaGLYPH<141>‹o de deficiGLYPH<144>ncia tambŽm est‹o inclu'das na produGLYPH<141>‹o de desejo imposta pelo sistema capitalista. Pode-se pensar que o desejo est‡ sendo produzido a todo o momento e eles, assim como os demais estudantes que dificilmente s‹o caracterizadas como possuindo alguma deficiGLYPH<144>ncia, est‹o sendo capturados e normatizados.
- O estudo reforGLYPH<141>a nas narrativas dos estudantes em situaGLYPH<141>‹o de deficiGLYPH<144>ncia, entraves no que diz respeito ao processo formativo nos cursos das ‡reas de CiGLYPH<144>ncias Naturais, Exatas e Tecnol-gicas. A pesquisa possibilitou conhecer as narrativas e levantar olhares para a formaGLYPH<141>‹o de processos disciplinares existentes em diferentes instituiGLYPH<141>›es, assim como normas e processos que n‹o depender‹o da condiGLYPH<141>‹o de deficiGLYPH<144>ncia das pessoas. As normas existem na fabricaGLYPH<141>‹o de desejos em todos os tipos de corpos.
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