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ENSINO DE CIÊNCIAS E DECOLONIALISMO: história em quadrinhos e representatividade étnico-racial

Tupiracy Celso Gomes Damasceno, Marcus Vinicius Pereira

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XVIII
Ano
2020
Data
13/11/2020
Linha de pesquisa
Equidade, Inclusão, Diversidade E Estudos Culturais E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## ENSINO DE CIÊNCIAS E DECOLONIALISMO: história em quadrinhos e representatividade étnico-racial

## SCIENCE EDUCATION AND DECOLOLIANLISM: comics and ethnic-racial representation

## Tupiracy Celso Gomes Damasceno 1 , Marcus Vinicius Pereira 2

1

Instituto Federal do Rio de Janeiro, tupiracy@hotmail.com

2 Instituto Federal do Rio de Janeiro, marcus.pereira@ifrj.edu.br

## Resumo

A baixa presença de pretos e pardos nos meios científicos, quando comparados a sua proporção na população, somada à percepção da ciência como meio racialmente neutro gera na população a percepção de que isso se dá simplesmente por causalidade, não sendo nem de longe um ponto a ser debatido. Fruto do racismo estrutural, essa noção é tão arraigada que nem mesmo militantes dos movimentos negros escapam dela, sendo fundamental para a alteração desse panorama a superação do paradigma cultural que tem, na Europa e no aspecto caucasiano, a noção de bom e de belo. No presente trabalho, a partir da análise histórica das relações raciais no Brasil e da necessidade de ampliação da representação negra e parda no campo das ciências, partiu-se para a elaboração de um produto na forma de história em quadrinhos que possibilite junto aos alunos um meio para trabalhar essas ideias. Nesse sentido, a história em quadrinhos elaborada tem como personagem principal o físico e egiptólogo senegalês Sheik Anta Diop, visando à discussão dos métodos científicos, que foi aplicada com alunos do ensino médio para melhor compreensão tanto da natureza da ciência quanto da importância da representação.

Palavras-chave : história em quadrinhos, natureza da ciência, decolonialismo, relações étnico-raciais.

## Abstract

The low presence of blacks in scientific circles, when compared to their proportion in the population, together with the perception of science as a racially neutral means generates in the population the perception that this is simply due to causality, being not even a point be debated. As a result of structural racism, this notion is so ingrained that not even militants of the black movements escape it, being fundamental for the change of this panorama the overcoming of the cultural paradigm that in Europe has in the caucasian aspect the notion of good and beautiful. In the present study, based on the historical analysis of race relations in Brazil and the need to expand black and brown representation in the field of sciences, we started with the elaboration of an educational product that allows the students a way of working these ideas. In this sense, the comic story elaborated has as main character the Senegalese physicist and Egyptologist Sheik Anta Diop aiming at the discussion of scientific methods, which was tested with high school students for a better understanding both of the nature of science and of the importance of representation.

Keywords : comics, nature of science, decolonialism, ethnic-racial relations.

## Considerações Iniciais

O presente trabalho surgiu da percepção da invisibilidade da questão étnicoracial no meio científico. A fim de minimizar isso, elaborou-se uma História em Quadrinhos (HQ) tendo como protagonista um desconhecido intelectual negro do século XX, Sheik Anta Diop, Doutor em Física e em Ciências Sociais, um dos precursores na defesa de tese da origem da humanidade na África e da base étnicoracial da fundação da civilização egípcia como negra. Dessa forma, pretende-se contribuir com a alteração do panorama de exclusão decorrente do ideário eurocentrado presente em nossa educação. Apesar desta importante conquista, a promulgação da Lei nº 10.639 (BRASIL, 2003), que alterou a Lei nº 9.394 de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (BRASIL, 1996), não garantiu a inclusão no currículo desses conteúdos de forma transversal às disciplinas curriculares.

Possibilitar a compreensão da ciência, e, em consequência, de seu método como um empreendimento humano é fundamental para a compreensão de seu funcionamento e constitui uma das bases do letramento científico, ampliando-se as condições necessárias que possibilitam capacitar para a interpretação e aplicação dos conhecimentos das ciências em nossa realidade cotidiana como um dos parâmetros para a tomada de decisões. Neste sentido, a compreensão do conceito de raça/etnia é fundamental para determinar em que consiste a discriminação racial, principalmente por tratar-se de um conceito histórica e socialmente determinado.

## Colonialidade, Raça e Decolonialismo

O racismo toma a proporção que vemos hoje a partir da colonização, e a manutenção da dominação fundada no processo colonial não pode se dar exclusivamente pala via da violência. Dessa forma, é fundamental a criação de um suporte de modelagem da realidade que justifique as práticas coloniais, esse suporte se dá através da ideologia racista, que, desde a descoberta de povos distintos dos europeus, estabelece a inferioridade dos recém descobertos, seja fundamentada em crenças religiosas, ou quando da superação desse paradigma, da concepção científica. As justificativas para diferenciação e consequente exploração dos indivíduos de origem religiosa (SCHWARCZ, 2018) são superadas pela descoberta da teoria da evolução das espécies de Darwin e mais precisamente pela interpretação social dada a essa teoria, que subverte o conceito de raça biológica, uma subespécie de uma mesma espécie, tendo como base apenas características fenotípicas (cor da pele, cor dos olhos), para estabelecer racismo com base 'biológica'. Dessa forma, o escopo fundamental, o conceito de espécie Darwiniana, renomeado como raça, estabelecendo a justificativa científica para a distinção entre os povos.

Apesar da atual constatação da inexistência do conceito de raça, ele não deixou de ser utilizado como marcador social, e sua compreensão deve ser buscada na compatibilidade de conceitos etimológicos, etnológicos, sociológicos, antropológicos ou biológicos, para que se chegue a uma definição jurídica (STF, 2003). Essa perspectiva norteou desde o regime escravocrata de dominação até as políticas eugenista de saúde, pós-proclamação da República, que vinculavam a questão étnica à questão de saúde, no que se refere a propagação de doenças como sendo inerentes a determinadas populações e combatidas portanto com a sua redução (STEPAN, 2004). Nisso se constituiu a política de branqueamento da população, com o estímulo à imigração de europeus para o Brasil, com o intuito de que com as miscigenações decorrentes em certo prazo, toda a população se tornaria branca, com a diluição do sangue negro, mais fraco, com o dos brancos, superior.

A superação do mito da democracia racial inaugurado por Gilberto Freire, em seu livro intitulado Casa Grande e Senzala, adotada pelo Estado Brasileiro como mecanismo de negação das tensões raciais, ainda hoje não foi superado. Se podemos afirmar que a existência do racismo não é mais negada pelo Estado, apesar de na atualidade ser negada por alguns governantes, o fato é que a narrativa racial, por estruturar a sociedade brasileira, se mantem ativa, seja através do racismo institucional, que determina a posição de certas etnias dentro das hierarquias, seja através da reprodução de estereótipos que estabelecem a noção de belo e bom, reafirmando os privilégios das classes dominantes. Fica explicitado que a manutenção dos valores coloniais dentro de nações passa sem dúvida pela formação do intelectual colonizado e suas relações com a cultura colonial como ideal a ser alcançado, uma vez que para a sua constituição tem sua formação orientada para o apagamento de seu passado anterior à colonização como irrelevante e em consequência fundamentadora do conceito universalista da colônia e da modernidade (MALDONADO-TORRES, 2019). A descolonização, dessa forma, para além da simples desvinculação entre a colônia e a metrópole passa pela alteração da visão do colonizado, convencido de sua inferioridade e posto em condições justificadoras da mesma, dentro de sua própria terra.

A colonialidade, essa manutenção dos valores da colonização, mesmo após seu fim, por sua própria essência e fundamento, se incorpora em todas as dimensões da vida do indivíduo, determinando suas concepções do que é o ser, do que é o saber e do que é o poder. Assim, a superação da condição da colonialidade a decolonialização passa pelo entendimento de como esses aspectos fundamentam a colonialidade e de como podemos superá-los. A decolonização em termos do ser passa dessa forma, necessariamente pela valorização de fenótipos tidos como não universalizados, seja no que se refere à exposição dos mesmos como componentes da sociedade brasileira, em peças de propaganda, filmes e reportagens para além do estereótipo de marginalizado, seja com a efetiva inserção desses indivíduos em locais tidos como 'não adequados', por representarem historicamente locais de predomínio da população lida como branca, e concentradores de seus privilégios. Nesse sentido, o sistema de cotas é um importante instrumento decolonial. No entanto, é através do currículo oculto que a colonialidade estabelece de forma mais profunda o que é o saber a ser dignificado como real. As classes dominantes estabelecem o que deve e o que não deve ser socialmente relevante, criando na sociedade, através dos meios de comunicação e da escola, estruturas totais que regulam a visão de mundo dos indivíduos dentro desses parâmetros. As escolas, assim, são fundamentadoras da hegemonia, tanto nas práticas quanto nas vivências cotidianas funcionando como uma barreira a outras vivências (APPLE, 2008), reproduzindo a formação do intelectual colonializado. É fundamental que esses conhecimentos estejam associados à vivência de crianças e jovens e as suas identidades, a que caminhos serão orientados como indivíduos na sociedade (SILVA, 2010). A alteração pode se dar, por exemplo, através da representatividade que se tornará mais efetiva, a depender do meio empregado para transmitir essa ideia nesse sentido.

## História em Quadrinhos e Ludicidade

O dinamismo das aulas, bem como a utilização de materiais diversificados, é prática que pode proporcionar aos alunos um aprendizado diante do fato de que sua percepção sobre a inadequação curricular pode ser uma das razões para o

abandono do ensino médio. Nesse contexto, o uso de ferramentas mais acessíveis não pode ser desprezado (CARUSO e SILVEIRA, 2008, p. 2). A disposição de elementos específicos de uma HQ assume as características de uma 'linguagem' que se vale da experiência visual comum entre o criador e o público (EISNER, 1989, p. 10). Essa característica de associar a ludicidade com estética, composta por imagens articuladas entre si, tornou a HQ importante instrumento para a crítica social. O primeiro quadrinho editado no Brasil - As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte - data de 1869, e trata de forma humorada das questões e contradições da corte (CARDOSO, 2002). A utilização de uma HQ no presente trabalho, além de agregar características inerentes a essa mídia, se fundamenta na facilidade e no baixo custo de emprego do material desenvolvido, que por isso foi feita em preto e branco, possibilitando sua reprodução sem perda de qualidade gráfica.

## Metodologia

Para a caracterização da metodologia, fundamental é a determinação dos pressupostos filosóficos que a balizaram, seja no que se refere a representação da realidade a ser pesquisada (ontológico), a noção do que é conhecimento (epistemológico), a percepção de como os valores se enquadram na pesquisa (axiológico), para, a partir daí, se determinar a metodologia. Dessa forma, a presente pesquisa tem como pressuposto ontológico o de que a realidade não se apresenta ao indivíduo de forma nua, mas sempre coberta pelo véu da ideologia, sendo a realidade baseada nas lutas de poder e identidade, baseadas em privilégios e opressão, fruto do passado colonial. Como pressuposto epistemológico, o conhecimento ocorre pela suplantação do véu da ideologia através da pesquisa de análise das relações de poder socialmente postas. E axiológico, os valores do grupo de pesquisa devem ser considerados segundo a perspectiva como eles se dão no próprio grupo (CRESWELL, 2014). Nesse sentido, a estrutura interpretativa será a da Teoria Racial Crítica (TRC), associada à superação do modelo colonial (pós colonialismo) e para além dele (decolonialismo). O cenário empírico é uma escola estadual localizada na região central do município de Nilópolis, cidade que constitui a Baixada Fluminense do Estado do Rio de Janeiro, possuindo 2.114 alunos, funcionando nos três turnos, com turmas de ensino médio e fundamental.

A coleta dos dados se deu através de dois grupos focais - um com 10 alunos voluntários da manhã, outro com 11, voluntários da tarde -, sempre com gravações em áudio. Dessa forma, a pesquisa - fruto de um mestrado profissional em ensino de ciências - foi dividida em quatro (4) etapas: (a) verificação da relação que os alunos estabelecem entre características fenotípicas negroides e profissões ligadas a área das ciências, utilizando um conjunto de rostos de modelos brancos e de cientistas e políticos negros, seguida de uma explanação sobre o conceito de racismo estrutural, na apresentação dos dados obtidos; (b) elaboração do roteiro da HQ considerando a pesquisa bibliográfica realizada; (c) aplicação da HQ elaborada, com registro em áudio das discussões entre os estudantes; (d) identificação das leituras produzidas pelos alunos, tanto através de suas falas quanto de seu comportamento no que se refere a percepção da apresentação dos métodos científicos na HQ, quanto da perspectiva decolonialista.

## Resultados

Um total de 21 estudantes voluntários participaram da pesquisa, em sua maioria com 17 anos, etnicamente distribuídos segundo sua autodeclaração - 5 alunos se identificaram como brancos, 6 como negros,10 como pardos, não havendo menção a etnias indígenas ou asiáticas - revelando a preponderância de pretos e pardos na pesquisa. O questionário foi elaborado com o objetivo de verificar a clareza e o entendimento do conteúdo de metodologia das ciências apresentado na HQ, que buscou determinar a compreensão dos voluntários sobre as etapas presentes na narrativa, o impacto da HQ produzida no que se refere a representatividade racial, e as críticas a esse produto educacional.

A maioria dos alunos (20) disse ter conseguido perceber as etapas do método científico, no entanto, três responderam com um lacônico 'sim', tendo um respondido que não havia entendido. Dentre os 20 questionários, apenas 20% dos voluntários tiveram o cuidado de separar as etapas do método presente na história. Um voluntário sugeriu que o personagem descrevesse as etapas do método, para que a compreensão se tornasse mais fácil, crítica bem vinda, mas que, se empregada em toda a narrativa, perderia o sentido na mídia empregada. Qual seja, um modelo de descrição dos eventos narrados nesse meio possui características próprias que, ao transmitir o evento narrado, associam textos (transcrito nos balões) e imagens (as ilustrações) em um sistema de característica de interpretação lógica própria (EISNER, 1989) que é a apresentação do método dentro de uma narrativa e não apenas através de uma descrição. Muitos estudantes afirmaram ter entendido as etapas do método, passando em seguida a chamar a atenção para algumas características da HQ, como a pouca presença de negros na primeira parte da história e o incômodo pela discriminação sofrida por Diop. Esse fato foi mais aprofundado na discussão em grupo, quando os alunos se mostraram empolgados quando novamente questionados. Essa percepção foi estimulada pelos vídeos utilizados ( links constam na introdução da HQ) para destacar que a ausência de representatividade de pretos e pardos funciona como um dos mecanismos de reprodução do racismo estrutural. A estrutura social brasileira é construída de forma que a cor, o status social e classe estejam intimamente ligados entre si (GUIMARÃES, 1999), bem como para justificar a ausência de pretos e pardos e determinados locais como decorrente da noção de mérito (MOREIRA, 2017), formando uma estrutura racista que, ao mesmo tempo em que nega a sua existência, justifica o lugar social de negros e pardos, a partir da narrativa inicial apresentada no vídeo sobre discriminação no mundo do trabalho, os alunos puderam perceber também no quadrinho a importância da representatividade.

Dessa forma, o aspecto de a HQ ser protagonizada por um cientista negro também foi destacada pela maioria dos voluntários (16), que reafirmaram a importância de se reconhecerem na narrativa apresentada. Tal afirmação ressoa em comentários como o de que foi muito importante se ver em um protagonista e como isso os faz bem e estimulados, reafirmando o lugar de não subalternidade de pretos e pardos. Outros chamaram a atenção para o ineditismo desse tipo de ocorrência. Entre os seis voluntários que responderam ser indiferente a etnia do personagem principal, dois responderam não ao questionamento, mas justificaram a resposta com uma descrição da importância do protagonismo negro, o que indica confusão quanto importância do protagonista ser negro. Dentre os quatro voluntários que responderam não perceberem relevância no protagonista ser negro e onde a justificativa era coerente com essa resposta, houve uma uniformidade de narrativas,

que vão ao encontro a concepção de pureza da ciência como apartada das relações humanas e consequentemente da cultura e dos preconceitos. Esse pensamento tem sua origem também no preconceito racial, uma vez que a própria noção de ciência está associada à cultura europeia, do colonizador, e que por sua vez nos foi imposta com a noção de universalização do particular, tido como única verdade possível e em consequência a negação de qualquer outra verdade, a partir de suas interpretações da realidade elaboradas em sua vivência comunitária na metrópole, estabelecida como único parâmetro para determinar o que é a civilização (FANON, 1968). Percepção fundante das relações étnico-raciais no Brasil, demonstra sua estruturação para alguns dos alunos demonstrando de forma clara a persistência do mito da igualdade racial, tão fortemente enraizado e que persistiu mesmo após a exibição dos vídeos, que precederam a apresentação da HQ. O desenvolvimento desse item se deu ainda mais durante as discussões em grupo, momento em que de forma mais efusiva alguns alunos demonstraram o quanto era 'legal' ver a atuação de um negro como protagonista, o que foi descrito como motivo de orgulho. Nesse momento, ninguém se manifestou em defesa do mito da democracia racial, não se reproduzindo no debate público a defesa da neutralidade da ciência e da indiferença do protagonismo negro.

Em relação a possibilidade de melhorar a HQ, 11 estudantes não viram necessidade de mudanças. Dois consideraram o quadrinho muito complexo, externando a preocupação de que isso possa ser um empecilho para a leitura por outros indivíduos. Nesse ponto, podemos notar a reprodução do antigo preconceito que associa as HQs exclusivamente a histórias infantis. Narraram, ainda, a dificuldade de entender algumas palavras e a dificuldade de se localizar no contexto da história e em que momento ela se passa, apesar das indicações de locais e datas presentes. Alguns relataram também interesse por saber o final da história, pois alegaram não ter percebido isso. Outra narrativa recorrente refere-se ao interesse de conhecer mais sobre o personagem e o seu contexto social e político. Por fim, verificou-se que a utilização da narrativa gráfica como elemento de estímulo a compreensão de conceitos, corroborando Caruso e Silveira (2008), afirmando que essa mídia é um modo eficaz de ampliar o interesse por determinado assunto de uma forma mais leve, resultado encontrado tanto nas respostas ao questionário quanto durante as discussões em grupo.

## Considerações Finais

Na leitura realizada pelos estudantes da HQ, elaborada segundo os parâmetros de influência cultural na pesquisa científica, onde a apresentação das etapas do método foi inserida e a decolonialidade e representatividade foram elementos do pano de fundo da narrativa, alguns desses elementos foram ignorados por um grupo em prol da defesa do mito da democracia racial e da neutralidade da ciência. Apesar de representarem minoria entre as críticas apresentadas, a manutenção desse pensamento é previsível e esperada, já que todo o desenvolvimento histórico das relações étnico-raciais no Brasil, bem como incorporação governamental do mito da democracia racial, tem efeitos até hoje em nossa sociedade, principalmente no momento político atual quando visões reacionárias da realidade se voltam contra o academicismo e a defesa da inexistência de racismo no país é apregoada pelo próprio Presidente da República. Nesse panorama, é reconfortante que tais apreciações não tenham aparecido como a maioria dos comentários. Dessa forma, além do papel da representatividade e da

necessária compreensão do método, necessário é que se atente para o fato de que torna-se fundamental os esforços por permitir que outras realidades sejam possíveis, e isso só será possível com a superação da monovisão da realidade eurocentrada, para que verdadeiramente todos os diversos aspectos da multicultural formação brasileira tenham espaço. Isso é fundamental não só para que se inicie a alteração das estruturas sociais como para a ampliação das dinâmicas de criação em nossa sociedade, uma vez que mais referências incutem novas ideias possíveis.

No que se refere ao uso da HQ, ficou evidenciado em ambas as interações seu uso para transmitir os conteúdos como sendo interessante, pela facilidade de entendimento e pela novidade da representatividade, apesar da já mencionada presença do mito da igualdade racial. Mostrar essa realidade de forma clara não se dará em termos imediatos e nem fáceis, mas fundamentalmente através de iniciativas que não só chamem a atenção para a ausência do protagonismo negro, como do lugar de privilégio imposto pelo eurocentrismo. A superação dos estereótipos raciais e a inserção de negros e negras na sociedade passa pela ampliação da representação e apresentação desses sujeitos em determinados espaços de protagonismo, de forma que gerações em formação possam ter seus horizontes de acessibilidade e busca ampliados. No entanto, a ampliação da representatividade, apesar de fator necessária à alteração da estrutura racista, está longe de ser suficiente. Tomando o modelo estadunidense como exemplo, podemos verificar que a ascensão social e econômica de alguns negros (representatividade) não foi suficiente para alterar as condições de degradação e preconceito impostas a essa população. Apenas, a superação do modelo colonialista de percepção do outro e de si, imposto tanto pelo currículo oficial que determina os conteúdos a serem transmitidos, quanto pelo currículo oculto que determina o proceder e a percepção do elemento étnico em nossas escolas, pode iniciar a alteração dessa estrutura historicamente construída e socialmente reforçada a partir da reprodução acrítica.

A escola como reprodutora e propagadora da estrutura hegemônica e da ideologia racista é ambiente propício ao início dessa mudança, e é nesse sentido que a HQ como produto educacional busca apresentar tanto a existência da metodologia de aquisição do conhecimento, quanto a importância da luta contra a opressão racial. Por fim, destacamos que alguns alunos que participaram como voluntários na aplicação da HQ, quando tiveram a oportunidade de selecionar patronos para o projeto de final de ano promovido pela escola, escolheram Diop, e sua bibliografia como referência.

## Referências

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