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Afinal, que assuntos da física escolar são lembrados por trabalhadores ao exercerem suas atividades em um processo produtivo industrial?

Nilson Marcos Dias Garcia

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XVIII
Ano
2002
Data
07/06/2002
Linha de pesquisa
Ensino/Aprendizagem De Física E Ciências, Tecnologia E Sociedade
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## AFINAL , QUE ASSUNTOS DA FÍSICA ESCOLAR SÃO LEMBRADOS POR TRABALHADORES AO EXERCEREM SUAS ATIVIDADES EM UM PROCESSO PRODUTIVO INDUSTRIAL? ♦

Nilson Marcos Dias Garcia [nilson@ppgte.cefetptpr.br]

Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná - PPGTE/DAFIS [www.cefetpr.br]

## INTRODUÇÃO

Diferentemente dos outros animais, que, guiados pelos instintos, ensinam m à sua descendência as atividades que lhes garantam m a vida, reproduzindo aquilo que lhes foi ensinado pelos seus pais e pelos de sua espécie, a humanidade sempmpre se utilizou da educação para transmitir, não somente as regras de garantia da vida, mas tambmbém m como intervir na natureza, para adaptá-la cada vez mais às suas necessidades.

- É pela educação, atividade humana partícipe da totalidade da organização social e historicamente determinada por um m modo de produção (Cury, 1986 : 13), que se transmitem , entre outros, o conhecimento, os padrões culturais, os símbmbolos sociais, assim m como as relações de poder, seja através de ações vivenciais, que acontecem m espontaneamente no decorrer das infindáveis situações das quais participamos simpmplesmente por estarmos vivos e imersos nos diversos processos da sociedade, seja através de ações intencionais, que acontecem m de forma deliberada e com m instrumentos específicos, organizada em m locais predeterminados, hoje denominados de escolas (Cortella, 1998 : 49).

Os dias atuais não fogem m à essa regra e a educação, quer seja a escolar ou a não escolar 1 , por ser um m dos elementos constitutivos de uma sociedade, inflfluencia e sofrfre influência do meio e do contexto em m que está sendo, ou pretende ser, desenvolvida. Nesse sentido, não se pode deixar de registrar que as transformações pelas quais o mumundo passa atualmente são de grande magnitude e se refletem m com m intensidade nas diversas formas de educação.

A respeito dessas transformações, características da Revolução Técnico-Científica vivenciada, e tecendo um m paralelo com m aquelas ocorridas no contexto da Revolução Industrial, Hobsbawm m (1995:508) pondera que "nenhum período da história foi mais penetrado pelas ciências naturais nem mais dependente delas do que o século XX" e continua, ressaltando que apesar disso, "nenhum período, desde a retratação de Galileu, se sentiu menos à vontade com elas", chamando a atenção para o fato de que, ao mesmo tempmpo em m que ocorre uma rápida transformação da ciência dos laboratórios em m produtos

tecnológicos, maior e mais rapidamente passa a a ser o nosso afastamento do entendimento do funcionamento destes equipamentos.

Essa nova situação, como não poderia deixar de ser, tem m reflexos em m outros setores da sociedade, pois, ao incorporar um m sem m número destas inovações nas máquinas utilizadas para a produção industrial de bens, provoca tambmbém mumudanças na organização e nas relações de trabalho, exigindo das pessoas, para a obtenção e manutenção de empmprego, novos compmportamentos e conhecimentos. Dessa forma, ao se pensar na formação escolar de hoje, tem -se que pensar tambmbém m numa escolarização voltada ao desenvolvimento, entre outros, dos princípios gerais das ciências, assim m como das suas aplicações, aspectos estes considerados essenciais para se evitar o alheamento que se pode sentir quando se tem m pela frente, como ferramenta de trabalho, uma máquina que incorpora na sua operação e produção um m sem número de novas tecnologias.

Entretanto, apesar da evidente participação da ciência na produção tecnológica do mu mundo de hoje e da Física ser uma das ciências que oferece uma boa sustentação para esse desenvolvimento, não têm m sido freqüentes projetos de ensino dessa disciplina que contempmplem m de maneira significativa aspectos mais contempmporâneos da ciência e da tecnologia 2 . Aliás, a respeito do desenvolvimento dessa disciplina, Megid Neto (1990), ao elaborar um m estado da arte sobre as pesquisas relacionadas ao ensino de Física no Brasil, já havia chegado à conclusão de que pouca coisa havia mumudado na organização dessa disciplina desde a sua impmplantação, em m 1837, com m a criação do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro.

Apesar dessas considerações, não se pode deixar de levar em m conta que a docência de aulas de Física nas escolas de Ensino Médio brasileiras são uns dos poucos momentos em que a maior parte da população estudantil terá a oportunidade de acesso a esses conhecimentos e quer sejam m atuais e contextualizados ou anacrônicos e desvinculados da realidade, constituir-se-ão no arcabouço conceitual que os acompmpanhará por toda a sua vida produtiva, haja vista a constatação de que o Ensino Médio é, ainda, para a maior parte da pequena parcela da população brasileira que chegou a esse nível de ensino, sua última etapa de educação formal. Em m sendo assim , "além dos conteúdos vivenciados na escola, como acréscimo, a esses alunos restarão apenas os conhecimentos adquiridos na universidade da vida, em cursos específicos ou de treinamento profissional para o desempenho futuro de quaisquer profissões" (Garcia et al, 2000, p. 139).

Na expectativa de identificar quais desses conhecimentos escolares de Física ainda permeiam m a atividade de profissionais com escolarização mínima equivalente ao Ensino Médio, foi desenvolvida, no âmbmbito de uma investigação de maior alcance 3 , uma pesquisa que teve como um m de seus objetivos identificar os conhecimentos escolares de Física que se apresentam m nas atividades profissionais dos trabalhadores de uma indústria de eletrodomésticos de linha branca (geladeiras e freezers).

## A INVESTIGAÇÃO

A pesquisa de campmpo foi realizada no segundo semestre de 1998 e se desenvolveu como um m estudo de caso. Os contatos e entrevistas previstos no projeto seguiram , aproximadamente, a hierarquia funcional da produção da Empmpresa. Assim , foram m contatados e entrevistados gerentes da produção, supervisores, engenheiros processistas e de produto, técnicos, funcionários da manutenção e operadores, com m a finalidade de apreender os conteúdos de Física presentes no processo produtivo sob óticas de diversos atores, que representam m interesses e posições da Empmpresa em diferentes graus, dados os diversos cargos que ocupam m na sua hierarquia funcional.

Os dados da pesquisa foram m obtidos através de visitas ao chão da fábrica e da aplicação de questionários e de entrevistas semi-estruturadas realizadas com m os funcionários da Empmpresa. As entrevistas foram m gravadas e aconteceram m nos mais diversos horários, pelo fato de a Empmpresa trabalhar em m turnos. Basicamente, buscou-se informações sobre: 1) os assuntos escolares de Física dos quais os respondentes ainda se lembmbravam; 2) a identificação e a percepção dos mesmos na sua atividade profifissional; 3) os conhecimentos requeridos para ingresso e treinamento na Empmpresa, assim m como sugestões sobre a organização escolar de conhecimentos de Física.

- O questionário, por ser extenso e exigir esforço de memória para que fossem estabelecidas as relações entre o conhecimento escolar do funcionário e o que acontecia na sua atividade profissional, era entregue ao respondente em m média uma semana antes da realização da entrevista, o que lhe permitia melhores condições de respondê-lo. Neste, era possível a indicação de assuntos escolares de Física tanto a partir da memória do respondente quanto a partir do auxílio de uma listagem desses assuntos.

As entrevistas, por sua vez, além m de outras questões, buscavam m tambmbém m a identificação de assuntos de Física presentes no exercício de sua função na indústria, e permitiam m um m melhor detalhamento de algumas das infoformações anteriores.

As análises desses dois instrumentos foram conduzidas de forma a explicitar: 1) os conhecimentos de Física presentes no processo produtivo da Empmpresa investigada; 2) os espaços de circulação desses conhecimentos; 3) o significado e a impmportância desses conhecimentos tanto para os trabalhadores como para a Empmpresa; 4) as percepções dos trabalhadores a respeito das práticas escolares relativas ao conhecimento de Física, e 5) o papel da escolarização e do conhecimento de Física na obtenção e manutenção do empmprego, para os diferentes grupos de entrevistados.

Ao final do trabalho de campmpo, haviam m sido mantidos contatos com m trinta e sete fufuncionários, realizadas trinta e seis entrevistas e aplicados trinta e dois questionários, assim distribuídos: recrutamento de pessoas (2 pessoas - numa única entrevista), gerentes (3 pessoas), supervisores (5 pessoas), engenheiros de processos e produtos (3 pessoas), técnicos (4 pessoas), manutenção (6 pessoas) e operadores (14 pessoas).

Essas atividades permitiram, entre outras coisas, identifificar uma série de infoformações sobre os assuntos escolares de Física que se encontram m presentes nas atividades dos trabalhadores participantes da pesquisa, as quais passamos a apresentar.

## A FÍSICA ESCOLAR PRESENTE NAS ATIVIDADES DOS TRABALHADORES

As opiniões dos participantes da pesquisa a respeito dos assuntos escolares de Física que eles percebiam m presentes na sua prática profissional foi explicitada através das respostas apresentadas no questionário e tambmbém m durante as entrevistas.

No questionário, havia dois momentos em m que essa solicitação era feita. De início, o funcionário era convidado a escrever, na questão 2 4 , usando apenas sua memória, os assuntos de Física dos quais se lembmbrava e que conseguia perceber estarem m presentes em m suas atividades na fábrica. Após essa primeira etapa, ele era solicitado a realizar a mesma tarefa na questão 3, porém, tendo como apoio uma lista de assuntos usualmente propostos nos programas de Física do Ensino Médio, organizada a partir de índices de diversos livros didáticos propostos para esse nível 5 .

Durante a entrevista, por sua vez, além m de outras questões, era solicitada a identificação de assuntos de Física presentes no exercício de sua função na indústria, detalhando, um m pouco mais, algumas das informações anteriores e das quais o pesquisador já tivera conhecimento.

Após a tabulação dos dados apresentados nos questionários e da leitura das diversas entrevistas, foi possível organizar os assuntos de Física considerados relevantes pelos participantes, analisar as respostas e sobre elas tecer algumas considerações.

As informações que forneceram m subsídios para essa análise e que dependeram m apenas da memória, foram m dadas como respostas à questão número 2 do questionário, cujo texto: "anote os conteúdos de Física aprendidos na escola dos quais você consegue se lembrar pela sua utilização no exercício de suas atividades", trazia como desafio o pensar na atividade desempmpenhada na fábrica e o tentar identificar r aspectos da Física nela presentes. Convém registrar que na entrega do questionário era enfatizado que as respostas a esta questão deveriam m ser dadas sem m se recorrer a nenhum m outro meio que não a própria memória, assim como convém m tambmbém m registrar que nas análises foi suposto que esta solicitação foi atendida pelos respondentes 6 .

Dada a natureza da questão, as respostas foram m totalmente abertas, constituindo uma lista de assuntos que, por terem m sido registrados espontaneamente, não estabeleceram m uma relação organizada com m conteúdos escolares de Física. Entretanto, para que posteriormente pudesse ser feita uma compmparação entre estes tópicos indicados pela lembmbrança e aqueles indicados com m o auxílio de uma listagem m de conteúdos, procurou-se estabelecer uma relação entre os assuntos citados pela lembmbrança e aqueles constantes na listagem m da questão 3 do questionário, apresentada aos respondentes em outra etapa da pesquisa. Dessa forma, os

assuntos indicados pela lembmbrança não o foram , em m princípio, citados com m a mesma denominação com m que estão apresentados.

De posse das respostas dadas à questão 2 e após ter sido feita a organização referida no parágrafo anterior, foi feita uma contagem da quantidade de vezes que assuntos de um mesmo tópico foforam m indicados. O resultado dessa contagem m possibilitou que os tópicos de Física fossem m ordenados pela quantidade de vezes que foram m lembmbrados e permitiram m a organização da Tabela a seguir.

Tópicos ordenados pela quantidade de indicações, a partir da lembmbrança dos funcionários

Tabela 1

Tabela 2

Observações:

- 1. Os valores indicam m número de citações nas respostas. O valor zero indica ausência de lembmbrança.
- 2. Soma: soma das indicações feitas por todos os p participantes, apenas pela lembmbrança

Após a indicação dos assuntos de Física usando apenas a memória, o questionário solicitava que os participantes identifificassem m os assuntos de Física que julgavam m presentes em sua atividade tendo como referência uma listagem m destes. Conforme já foi indicado, nesta parte do questionário era necessário que o respondente, tendo em m vista sua atividade na fábrica, tentasse estabelecer relação entre essa atividade e o assunto de Física que, na sua opinião, estivesse nela presente. Além m disso, era solicitado que, em m caso afirmativo, indicasse a intensidade dessa presença 7 .

De posse dessas respostas e após a aplicação de critérios metodológicos para tratamento de dados qualitativos (Pereira,1999), organizou-se a Tabela a seguir.

Tópicos ordenados pela intensidade de presença, a partir de uma listagem m de assuntos.

Tabela 3

## Observação:

Média: média aritmética das médias dos valores atribuídos p pelos participantes, estimumulados pela listagem m de conteúdos. Máximo valor igual a 3,0.

Analisando as duas tabelas, foi possível perceber que os 20 tópicos mais indicados, tanto por lembmbrança quanto por estímumulo de uma lista, praticamente se repetiram, variando apenas sua posição relativa. Visando explicitar essa observação e propiciar elementos para novas análises, elaborou-se a Tabela 3, na qual são apresentados, lado a lado, as posições relativas dos assuntos indicados pela lembmbrança e por estímumulo da listagem , ressaltando os 20 tópicos mais indicados em m cada uma das formas de seleção.

Quadro compmparativo entre a intensidade de presença dos conteúdos de Física indicados pela lembmbrança e estimumulados pela listagem

Soma: Soma das indicações feitas por todos os participantes apenas pela lembmbrança

Média: Média aritmética das indicações estimumuladas p pela listagem . Máximo valor igual a 3,0.

Ordem: Classificação dos conteúdos em função da soma ou da média

Conforme se pode perceber observando o quadro compmparativo anterior (tabela 3), há um m conjunto de assuntos bastante presentes nas respostas dadas pelos trabalhadores da Empmpresa pesquisada, tanto naquelas apoiadas apenas na lembmbrança pura e simpmples, como naquelas estimumuladas pela listagem m de assuntos.

Além m disso, pela compmparação das médias das respostas dadas por todos os participantes, pode-se perceber que, independentemente do grupo a que pertençam m os respondentes, estes assuntos foram m bastante indicados, diferindo apenas nas suas posições relativas. Essa convergência pode ser observada tanto para os assuntos indicados pela lembmbrança (Tabela 1), quanto por aqueles estimumulados pela listagem m (Tabela 2)

A partir dessas observações, foi possível identificar os assuntos de Física que, para esses funcionários, nessa Empmpresa, permitem m estabelecer alguma relação com m as atividades que eles desempmpenham . A lista dos assuntos mais indicados, ordenados pela similaridade de conteúdo e apresentada a seguir, forma um m quadro que fornece um m conjunto de

conhecimentos escolares de Física que, na opinião dos funcionários participantes da pesquisa, estão presentes nesta Empmpresa. São eles:

## Mecânica

Introdução à Física, Cinemática, Leis de Newton (1 ª e 3 ª ),

2 ª lei de Newton, Conservação de energia,

Movimento curvo e rotações, Hidrostática

## Termologia

Tempmperatura, Termodinâmica, Dilatação, Transmissão de calor,

Máquinas térmicas, Mudanças de estados da matéria,

Estado gasoso, Estado líquido

## Eletricidade

Carga elétrica, Potencial elétrico, Corrente elétrica nos metais,

Ação térmica da corrente elétrica, Capacitores

Corrente alternada e contínua

Ferramentas e mecanismos, Acústica

## A PRÁTICA TRANSFORMA A FÍSICA ESCOLAR EM REALIDADE

De posse desses dados, partiu-se para uma análise de justifificativas para os resultados, haja vista que em m diversos momentos das entrevistas, os trabalhadores, contrariamente aos resultados, indicavam m que as atividades escolares eram m superficiais e não desempmpenhariam influência significativa no seu conhecimento de Física e atribuíam m grande responsabilidade do conhecimento que possuíam m à sua vivência na própria fábrica.

Os dados constantes nas Tabelas 1, 2 e 3 anteriores mostraram m que os tópicos Cinemática , Introdução (à Física) e 1ª e 3ª Leis de Newton, usualmente considerados como fazendo parte da Mecânica, foram m alguns dos mais indicados pelos participantes da pesquisa. Essa indicação talvez possa ser justificada, em m parte, pela natureza das máquinas e equipamentos utilizados na Empmpresa e pelo tipo de conhecimento físico que nelas se evidencia.

Em m visita ao seu parque industrial, verificou-se uma série de máquinas nas quais fificaram m evidentes aspectos dos movimentos retilíneos, como aqueles existentes nas dobradeiras, nas esteiras rolantes e nas transportadoras suspensas; curvos, como nas parafusadeiras e nas máquinas de espumação de portas, e oscilatórios e repetitivos, como nas máquinas de injeção de plástico. Além m disso, foi perceptível tambmbém, tanto nas máquinas quanto no processo da indústria, a aplicação de força e o uso de diversas máquinas simpmples

(alavancas, planos inclinados, cunhas, etc..), assim m como a realização de medidas e o uso de representações através de gráficos, possibilitando, para quem m já teve algum m conhecimento prévio, a identificação de aspectos macroscópicos de alguns dos princípios físicos ligados à Mecânica.

Nesse sentido, há uma concordância com m o explicitado a respeito da Mecânica, nos Parâmetros Curriculares Nacionais de Física, pois neles é reconhecido que ela pode ser considerada como

"o espaço adequado para promover conhecimentos a partir de um sentido prático e vivencial macroscópico, dispensando modelagens mais abstratas do mundo microscópico (...) Além disso, é na Mecânica onde mais claramente é explicitada a existência de princípios gerais, expressos nas leis de conservação, tanto da quantidade de movimento quanto da energrgia, instrumentos conceituais indispensáveis ao desenvolvimento de toda a Física. Nessa abordagem, as condições de equilíbrio e as caracterizações de movimentos decorreriam das relações gerais e não as antecederiam, evitando-se descrições detalhadas e abstratas de situações irreais, ou uma ênfase demasiadamente matematizada como usualmente se pratica no tratamento da Cinemática." (PCN - Conhecimentos de Física)

Dessa forma, é possível entender que boa parte das máquinas da Empmpresa ofereceram condições concretas para a percepção de princípios físicos da Mecânica, o que de fato acabou acontecendo por parte dos funcionários participantes da pesquisa, conforme o verificado nos resultados.

Essa constatação pode tambmbém m ser evidenciada pelas opiniões de alguns deles, conforme se pode depreender de algumas entrevistas:

- P. Você percebe, você consegue identificar alguns pontos que você acha que são interessantes, que é fácil você perceber a física?
- EP3. Sim, tem bastante, não é. A parte de mecânica, principalmente relacionado à parte de movimentos... de rotação, aceleração, você vê tudo isto presente nas máquinas ali, cada componentezinho ali tem uma aplicação da física.

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

- P. E teria algum outro mais geral mesmo que você não estivesse utilizando ?

OP12. Eu acho que a parte de movimentação, aceleração, velocidade, tempos e medidas você também utiliza no dia a dia em qualquer setor da fábrica, porque linha de montagem você tem uma esteira e um ... uma velocidade X por minuto, então a partir do momento em que a pessoa saiba que dentro de um metro você tem tantos produtos, ele vai saber que hora ele tá conseguindo fazer tantos produtos e como ele deve de proceder com o movimento dele ali naquela montagem, mais rápido, menos rápido, isso de certa forma poderia ser até geral que estaria auxiliando muito.

Observou-se tambmbém m que o tópico Cinemática foi mumuito mais indicado quando o critério era o da lembmbrança (1º) do que quando estimumulado pela listagem m (12º). Talvez isso tenha acontecido pelo fato de que os aspectos que mais se ressaltaram m nas máquinas foram m os de caráter macroscópicos, ligados aos movimentos e velocidades, exatamente os que recebem bastante atenção quando, na escola, se estuda a Cinemática.

De fato, apoiando-se nos índices de diversos livros didáticos, é possível verificar que a Cinemática é um m assunto usualmente previsto para ser estudado no início do ano ou do período letivo da maior parte dos cursos de Física para o Ensino Médio, o que, de certa forma, faz com m que quase sempmpre seja apresentado pelos professores e estudado pelos alunos, contrariamente àqueles normalmente deixados para o final do curso e que acabam m sendo abordados superficialmente ou simpmplesmente abandonados. Sob esse critério, podemos verificar que a Cinemática é um m dos assuntos proporcionalmente mais explorados nos cursos de Física no Ensino Médio, abordado, entretanto, com m forte ênfase matemática e vinculado a uma série de "descrições detalhadas e abstratas de situações irreais", conforme já exposto no trecho dos PCN de Física apresentado. Não se pode negar, assim , que esse assunto seja abordado durante um m grande período de tempmpo nas aulas, o que pode fazer com m que seja mais facilmente lembmbrado do que outros.

Quando porém, se tem m como referência a listagem de assuntos proposta na pesquisa, ficam m mais explícitos e precisos os assuntos agrupados sob o nome de Cinemática e mais criteriosa, da parte dos respondentes, a associação entre esses assuntos e o trabalho das máquinas, o que pode justificar uma posição relativa não tão significativa quanto aquela originada apenas da lembmbrança.

Com m relação ao tópico denominado Introdução (à Física), observou-se que o mesmo, na média, foi igualmente bem m indicado, quer seja a pela lembmbrança, quer seja pelo estímumulo da listagem , talvez pelo fafato de que sob este título estão agrupados os assuntos relativos a medidas, gráficos, algarismos significativos e unidades, usualmente propostos para tambmbém serem m desenvolvidos no início dos cursos de Física e bastante presentes na produção industrial da Empmpresa investigada, conforme se pode depreender das falas abaixo transcritas:

MN4. (.....) Algo bem prático,... e outras coisas em números que a gente trabalha com números significativos, não significativos,... você tem que medir um capacitor, digamos que é um vírgula dois is dez a menos seis (1,2 x 10 -6) 6) , então, tem vários números que você vê que até ali é significativo, outro não,... é mecânica também que você usa muito. Mas que eu me lembre de cabeça é isso aí.

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- P. E por exemplo construção de gráficos, interpretação de gráficos, lá na tua máquina não precisa, mas você acha que seria interessante saber, porque?
- OP8. Seria importante, porque lá na máquina não tem, mas digamos tem, às vezes é feito, tem gráficos aí que mostram né, digamos assim como é que está a venda do mês, mas eu acho que seria importante você conhecer e de repente até aprender a fazer. Tem dado muito também sobre refugos, né, o índice de refugos, é feito um gráfico lá, se o índice, digamos assim, de uma semana abaixou ou aumentou, eu sei que tem, mas não sei como é que funciona.

Sobre esse mesmo tópico, chama a atenção o fato de que a manifestação dos operadores foi mumuito mais intensa quando dependia da lembmbrança do que quando era estimumulada pela listagem , conforme se pode verificar nas Tabelas 1 e 2. Considerando que a Introdução à Física, assim m como a Cinemática é um m assunto usualmente abordado no início dos cursos, pode-se supor que a justificativa para essa situação seja similar àquela que

apresentamos para a grande indicação da Cinemática, ou seja, são mais presentes as lembmbranças de assuntos que foram m mais insistentemente abordados na escola.

Além m de ter sido possível perceber, durante as visitas à indústria, os movimentos e os processos de produção das máquinas que permitiram m estabelecer relação com m a Cinemática e com m conhecimentos introdutórios de Física, verificou-se tambmbém m que a realização destes m ovimentos se faz, fundamentalmente, devido a acionamentos hidráulicos. Há motores elétricos em m algumas das máquinas, porém , eles existem m para movimentar as bombmbas hidráulicas ligadas a dispositivos que irão realizar os movimentos. Além m disso, outros tipos de dispositivos hidráulicos, tambmbém m existentes nas máquinas, são acionados pela pressão, que é distribuída por uma rede pressurizada. Numa das visitas à fábrica, orientada por um supervisor de manutenção, teve-se a oportunidade de observar esses detalhes, o local onde se concentram m os compmpressores que fornecem m o ar compmprimido para toda a fábrica, assim m como a rede de tubos que fazia com m que esse ar chegasse a cada uma das máquinas. Conforme pode ser então verificado, quase todas as máquinas, ou dependem , ou tem m alguma relação com m ar ou óleo pressurizado.

Essa consciência da existência e da impmportância da pressão na produção industrial desta fábrica ficou evidente através das respostas dadas pelos funcionários aos questionários. O tópico Hidrostática, que compmpreendia, entre outros os assuntos pressão , massa específica e prensa hidráulica, foi o 6º mais indicado pela lembmbrança e o 9º quando estimumulado pela listagem , revelando que, para o grupo de participantes da pesquisa, existe uma associação bastante intensa entre esse conceito físico e a sua aplicação.

As transcrições abaixo reforçam m essa observação:

MN5. Atualmente nessa área que estou a Física começou desde o primeiro dia que eu entrei. Eu cheguei aqui e a primeira coisa que eu tive que fazer foi eliminar um vazamento de óleo, (risos) e eu sem saber, sem conhecimento, peguei, fui lá e estava pressurizada, ai vazou tudo, levei um banho de óleo. Daí um colega meu falou: você não sabe o que é uma pressão de linha? Você não estudou o que é pressão? Ai eu falei: estudar eu estudei, mas eu não me lembro muito bem. Vamos recordar o que é uma pressão de linha, tal, acontece isso, acontece aquilo, tem que tomar cuidado, linha pressurizada. Até um colega meu falou: lembra a Física, é um tubo, se tiver pressão, se você abrir ele, tem aquela pressão ainda, mantém. Então desde o primeiro dia eu comecei a viver isso, a Física e manutenção.

Relacionado com m a pressão, um m outro assunto tambmbém m lembmbrado pelos participantes foi o vácuo. Com m relação a este, houve registros devido à lembmbrança e tambmbém m devido ao estímumulo da listagem . Procurando identificar a razão de tais indicações, foram m encontradas suas aplicações em m algumas máquinas, principalmente nas termoformadoras.

Conforme o próprio nome sugere, a termofoformadora é uma máquina que molda peças utilizando calor. É numa dessas máquinas que são feitos os gabinetes internos (parte de dentro) das geladeiras e freezers. É uma máquina grande, com m controle compmputadorizado, na qual o processo principal acontece numa câmara totalmente vedada. Uma placa de plástico de cerca de 1,0 m m de largura por 2,0 m m de compmprimento (essas dimensões variam m em m função do tamanho da geladeira ou freezer) entra nessa câmara e é submetida a um m aquecimento até ficar bem m maleável. Em m seguida, essa placa é sugada para cima e o plástico forma uma bolha. Um

molde metálico do gabinete que vai ser feito sobe sob essa bolha de plástico e na seqüência é feito o vácuo a partir dele, de forma que o plástico maleável a ele se ajusta perfeitamente, assumindo todas as suas saliências e reentrâncias. Após, há um m reequilíbrio de pressão, é aplicado um m jato de ar frio e abaixado o molde, e está pronto mais um m gabinete, que sai da máquina para os procedimentos finais. Em algumas dessas máquinas, a câmara onde esse processo ocorre é transparente, o que possibilita que ele seja totalmente observado, transformando-se em m espetáculo para os visitantes.

Um m dos operadores desta máquina descreve esse processo de maneira interessante:

- P. E o que a máquina faz nesse meio tempo? Nesse, intervalo o que a máquina faz?
- OP14. Nesse intervalo tem a parte de resfrfriamento né. Enquanto está preparando na resistência pra aquecer, já tem outra peça em resfriamento. Em determinada parte, e por aí vai né.
- P. E como é que ela estufa aquela bolha lá?
- OP14. Ali no caso é um vácuo né, que entra na parte superior, né e suga pra cima e forma o balão. Aí no momento que encerra a parte do balão, aí entra um vácuo na parte inferior do molde e ia sugando pra baixo pra formar a peça.
- P. Tá. E depois...
- OP14. Aí depois de formada né, entra um ar r de resfriamento no caso né, e a máquina, e aquele tempo que a gente joga ali j já pra dar tempo pra resfriar a peça no caso né. E daí resfriou a peça, né o molde desce, é liberado, manda e já vem outra.
- P. Já vem outra e daí lá na frente é só ver se saiu em ordem?
- OP14. Isso. Daí tem a parte do corte, né. Isso tudo a gente vai inspecionando. Mais ou menos se baseia nisso daí.
- P. Legal. Você sabe como é que faz o vácuo?
- OP14. Eh.. o vácuo, na verdade, né, tem a bomba do vácuo, né, que gera o vácuo. Tem o tanque de reservatório, né e tem as válvulas que liberam no tempo certo, as válvulas já liberam o vácuo, o vácuo vem pelas tubulações e suga a peça.

Outros tópicos bastante indicados foram m os relacionados com m a Termologia . Analisando-se a Tabela 3, entretanto, foi possível se perceber uma diferença nas posições relativas destes tópicos quando compmparadas as indicações apenas pela lembmbrança e as estimumuladas pela listagem . Por exempmplo, o tópico Temperatura, essencial na produção da Empmpresa, pois a mesma se dedica a fabricar refrigeradores e freezers, ocupou a 4ª posição quando a resposta foi dada movida apenas pela lembmbrança. Entretanto, estimumulado pela listagem , ocupou a 1ª posição na indicação. Da mesma forma, outros tópicos correlatos, tais como Termodinâmica , Dilatação , Transmissão de Calor e Máquinas Térmicas, foram menos indicados quando o critério era a lembmbrança do que quando era apoiado pela listagem , ocupando respectivamente as posições 8ª, 11ª, 17ª ª e 19ª pela lembmbrança e 2ª, 6ª, 4ª e 15ª, evidentemente mais citados, quando estimumulada pela listagem .

Retomando a questão da Física como disciplina escolar, observa-se que os assuntos agrupados sob a denominação Termologia são propostos, nos livros didáticos, para serem desenvolvidos no início de um m período letivo 8 , de forma semelhante à Cinemática. São, portanto, assuntos que têm m grande probabilidade de serem m propostos e desenvolvidos na maior parte dos cursos de Física, propiciando aos alunos a oportunidade de com m eles manter contato. Além m disso, ainda guardando semelhança com m a Cinemática, a forma de abordagem m proposta para a Termologia, em m boa parte dos livros didáticos, é bastante matematizada, exigindo pouco estabelecimento de relações mais gerais.

Nessas condições, dados os resultados, é possível crer que a identificação ampmparada por uma listagem m de assuntos permite uma maior tomada de consciência dos conhecimentos envolvidos no processo produtivo do qual se participa, daí a diferença de posição relativa dos mesmos tópicos observada. Apesar dessas considerações, todos esses tópicos, presentes no processo produtivo investigado, acabaram m por estar entre os 20 mais indicados, quer seja pela lembmbrança ou pelo estímumulo.

Outro fator que pode ter levado à essa concordância nesses assuntos, diz respeito ao fato de as idéias associadas a Tempmperatura e Calor fazerem m parte da essência da Empmpresa. De certa forma, usando-se uma metáfora, "respira-se" Calor e Tempmperatura nesta Empmpresa, quer seja pelos refrigeradores que produz, quer seja a pela dinâmica das máquinas que os produzem , que usam m uma combmbinação de calor e tempmperatutura para, por exempmplo, moldar peças, fundir plástico para injeção de partes das geladeiras, embmbalar os produtos prontos numa máquina termorretrátil ou secar as peças pintadas. Essa situação transparece, não só na identificação de assuntos escolares de Física como tambmbém m nas falas dos funcionários, conforme se pode depreender em m algumas das seguintes transcrições:

- P. ... que conhecimento de física você acaba precisando para poder trabalhar, para mexer nessa parte de eletrotécnica?
- MN4. Bom, a parte de calor, temperatura, é muito utilizado em quase todas as máquinas, pressão,... engrenagens, a gente tem que ter aí um conhecimento bom, redutor, que envolve física e potência, guia, também a gente usa. Mas é mais, é temperatura, é termometria e pressão. São os p principais. Aí vem mais outros fatores não menos importantes, não é. Mas os mais utilizados é temperatura e pressão.

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- P. A física que você aprendeu na escola ajudou a você entender esses processos industriais?
- OP1. Ajudou a parte de maquinário, eu acho que ajudou.
- P. Dá pra você falar um pouco a respeito?
- OP1. Tipo assim a gente ali usa muito relação de velocidade, unidade de medida, temperatura, controladores de pressão e isso me ajuda, por exemplo, um exemplo

assim comum né, vamos dizer eu estou usando um aparelho de controlador de temperatura de câmara quente, o aparelho, ele oferece três ou quatro maneiras de eu controlar essa temperatura. Uma em graus Celsius, outra proporcional, outra em Farenheit, esse tipo de coisa, esse tipo de transformação, eu aprendi no colégio, na pura teoria e hoje em dia eu tenho condições de se tiver problema num deles, eu transformo pro outro e adquiro a temperatura que eu quiser através, eu acredito que é através da física.

Outro aspecto que pode ser considerado ainda a respeito da Termologia, é o fato de que, dependendo apenas da lembmbrança, os maiores índices de indicação são oriundos dos operadores, portadores de menor escolarização, mas com m mumuito maior contato com m as máquinas e equipamentos. Entretanto, quando o critério de indicação é o que se apóia na listagem , essa situação se inverte, sendo atribuídos os maiores índices aos grupos possuidores de maior escolarização, quais sejam m os supervisores, os engenheiros e os funcionários de manutenção. Fogem m a essas regras os técnicos, que nestes tópicos em m particular têm m baixos índices em m ambmbos os critérios.

Analisando as informações relativas a Eletricidade, verificou-se, baseando-se nas respostas apresentadas pelos participantes da pesquisa, principalmente as que dependiam m da memória , que a Eletrostática é bastante presente na Empmpresa, principalmente no seu setor de pintura, que se utiliza de processos eletrostáticos para melhor cobertura e adesão da tinta.

Conforme se observou, quase todo o processo acontece automaticamente. As peças a serem m pintadas, principalmente as portas e os gabinetes são suspensas em m ganchos eletrizados que se deslocam m a velocidade constante e que os conduzem m pelos ambmbientes que compmpõem m o processo de pintura. Iniciando por banhos químicos de limpmpeza e preparação de superfície, que acontece em m diversas câmaras, algumas aquecidas, elas passam m na seqüência através de um m conjunto de sensores que vão fornecer coordenadas posicionadoras para as pistolas de pintura, para só então entrarem m na câmara de pintura propriamente dita. Após, elas seguem para a câmara de secagem m e finalmente para as inspeções finais, uma visual e outra com equipamentos. Esse processo é bastante rico em m termos de conhecimentos envolvidos, tanto de química quanto de física, além m de ser um m dos setores mais exigentes em m termos de apresentação dos produtos da Empmpresa, pois afinal, uma das primeiras coisas que se observa num m produto é a sua aparência, ditada, mumuitas vezes, pela sua pintura.

Apesar de ser bastante automatizada, a pintura envolve um m bom m número de funcionários (aproximadamente 105), entre operários, operadores de máquinas, engenheiros químicos e técnicos químicos. Chamou a atenção o fato de que, dentre os técnicos da Empmpresa com m os quais se manteve contato, apenas o técnico químico, ligado à pintura, desempmpenhava suas funções acompmpanhando a pintura ou a preparação das tintas. As funções dos demais técnicos, por sua vez, estava mumuito mais associada à gerência e à administração do que ao processo produtivo. Sendo assim , pode-se perceber que o conhecimento exigido dos engenheiros e técnicos da seção de pintura era bastante específico e mais ligado às exigências do seu posto de trabalho do que à administração.

Para apresentar esse processo e mostrar como alguns conceitos de Eletrostática são nele aplicados, é significativa a fala de um m dos operadores de pintura, que mesmo sendo portador de um m certificado de conclusão de segundo grau em m curso supletivo, curso este que usualmente aborda os conteúdos escolares de forma aligeirada e superficial, por causa dos

exíguos tempmpos destinados às disciplinas, descreve, com m relativa precisão, as grandezas físicas envolvidas no processo:

- P. Eu estou dizendo é o seguinte, eu já vi que a placa é eletrizizada, como é que ela fica eletrizada?
- OP11. A nossa pistola ela libera uma cargrga positiva, e a corrente que transporta, transportadora, ela é negativa. Então, uma vez passada a pistola, ali dá uma carga eletrizada na peça, aonde a tinta gruda.
- P. A tinta é positiva então.

OP11. É.

(...)

- P. Eu andei ontem, já umas 2 ou 3 vezes eu fiquei de passar lá e ontem eu entrei, eu nunca tinha entrado lá nas câmaras, na parte toda, eu achei muito interessante de ver isso daí.
- OP11. Isso na pistola, daí tem o ... pelo menos foi o que me falaram, os robôs, digamos que trabalham sozinho, aquele ali me parece que trabalha com 220 quilovolts, a gente tem como norma nunca entrar naquela salinha quando o aparelho está ligado, senão você leva um choque ... então ali a eletricidade é muito mais alta. Nos robôs, na pistola é mais baixo.

(...)

- P. O pessoal que fica ali tem que ficar num lugar isolado.
- OP11. A gente usa botina eletrostática por causa de dar algum ... algum problema na caixa, então a eletricidade não pára na gente ...vai estar com a pistola desligada segurando ela na mão, ela tem 3 cabos, o ar, a tinta e o cabo da parte elétrica, daí se acontecer da gente tomar um choque simplesmente passa direto, não sente.
- P. Dá uns tremelique ...

OP11. Mas vai embora, não tem problema nenhum.

Conforme se pode verificar, para o entendimento do processo em m questão havia, de fato, necessidade de conhecimento de diversos aspectos de Eletricidade, tais como carga elétrica, potencial elétrico, corrente e tensão, por exempmplo. Além m desses, convém m registrar que, de acordo com m a explicação do operador que fazia a inspeção da espessura da camada de tinta, essa era determinada através de um m medidor de "rigidez dielétrica", manuseado, pelo que pudemos entender ao conversar com m ele, com m certo conhecimento de funcionamento.

- É interessante registrar que essas indicações relativas à Eletrostática foram m mais intensas sob o critério da memória do que quando havia o estímumulo da listagem . Por outro lado, com m a indicação de assuntos relacionados à Eletrodinâmica, tais como Ação térmica da corrente , Capacitores e Corrente alternada e contínua, aconteceu uma situação inversa: eles foram m mumuito mais indicados quando estimumulados pela listagem m do que quando dependiam apenas da memória.

Essa inversão chamou a atenção pelo fato de que, tanto as termoformadoras, que usam o calor para o amolecimento das placas que serão moldadas, quanto as injetoras, que derretem

o plástico granulado para que seja injetado nos moldes para a confecção de peças dos refrigeradores, obtém m as tempmperaturas necessárias para esses processos por meio de resistências elétricas, através da transformação da energia elétrica em m calor. Ou seja, há nessas máquinas um m processo físico de transformação de energia elétrica em m calor, por meio de resistências elétricas, estudado na escola, que, baseando-se nas respostas dadas pela memória, passa desapercebido da maior parte dos participantes da pesquisa, pois esse assunto não se encontra entre os 20 mais lembmbrados. A demonstração da percepção da existência desse conhecimento escolar nas máquinas, fica entretanto garantida quando se verifica que, sob o estímumulo da listagem , esse mesmo assunto assume a posição de 8º dentre os mais indicados.

Essa observação pode indicar a existência a de um m problema de linguagem , revelado pelo hiato entre o nome dado a um m assunto escolar de física e o seu significado. Tanto no caso da indicação pela lembmbrança quanto no caso dela ser feita através do estímumulo de uma lista, do respondente está se exigindo que ele estabeleça uma relação entre um m nome usualmente atribuído a um m assunto escolar e detalhes de sua prática profissional junto a máquinas e equipamento da Empmpresa, fatos que, sob alguns aspectos, podem m passar totalmente desapercebidos. O trecho de entrevista abaixo transcrito mostra essa preocupação vinda de um operador de máquina:

OP14. ... toda pessoa tem que aprender aquilo p porque ela sabe que um dia ela vai usar, mas não que seja aquela formulazinha de acordo com o que ele explicou, mas você vai usar. Eu estou usando, mas eu não sei, eu não sei qual o nome dessa Física que eu estou usando, mas eu estou usando, eu sei fazer ...

Situação similar acontece com m os assuntos Capacitores, lembmbrado por apenas um respondente e 20º colocado quando estimumulado pela listagem m e Corrente alternada e contínua, sem m nenhuma indicação pela lembmbrança e 13º quando estimumulado. Porém , tanto o assunto citado anteriormente, quanto esses, não são tão visíveis e explícitos quanto a Mecânica ou a Termologia, das quais já falamos. Sente-se o calor, mas não se vêem m as resistências elétricas que os produzem, pois estão no interior da máquina. Vê-se e usa-se o m ovimento dos motores, mas não é perceptível o fato de que ele está sendo provocado por uma alternância entre campmpos elétricos e magnéticos, exatamente porque suas bobinas estão sendo percorridas por uma corrente elétrica alternada ou contínua.

Talvez pelo fato de que o fenômeno físico envolvido nesses processos esteja no interior da máquina e não explícito, sua presença só estará sendo percebida se for estimumulada. Foi até possível inferir que os respondentes só tenham m se dado conta de que alguns desses assuntos estavam m presentes nas máquinas que operam m e estabelecido uma relação entre o aprendido na escola e a sua aplicação, ao participarem m dessa pesquisa e lerem m a listagem m de assuntos.

Corroborando essa idéia, são interessantes algumas declarações, das quais são transcritas algumas, segundo as quais eles só foram m se preocupar com m a Física presente nas máquinas que operam m após a intervenção da pesquisa.

- P. Você ficou satisfeito, como foi sua sensação ao responder isso daqui, ao perceber essa ligação com o que você aprendeu na escola e o que você faz aqui?

OP14. Interessante, é uma coisa que você não percebe que você está usando a Física direto, a toda hora, todo instante. Quando você pega um questionário desse e começa a fazer ... poxa, fazia isso e não sabia, então você fica surpreso mesmo, achei interessante, bem válido.

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

- P. Quando você está trabalhando em cima de uma máquina você consegue perceber a Física que está presente ali naquela máquina?
- MN6. Nunca tentei conciliar, mas é ... só o fato de eu testar uma resistência com o meu amperímetro já é uma Física, na verdade é a corrente elétrica que está passando que eu estou medindo, tem um pouco da ... da parte elétrica da Física que é o que eu me lembro mais.
- P. Alguma vez você já havia pensado nessa pergunta que eu acabei de te fazer, se você percebe a Física que está presente no ...

MN6. Nunca.

Ainda a respeito desses dois últimos assuntos, ou seja, Capacitores e Corrente alternada e contínua, é interessante registrar que os maiores valores de indicações, mesmo quando estimumulados, foram m feitos pelos supervisores e pessoal de manutenção, funcionários que, por força de sua função, conhecem m as máquinas em m detalhes. Por outro lado, os valores oriundos das respostas dadas pelos engenheiros de processo e produto, pelos técnicos e pelos operadores foram m bastante baixos, o que leva a uma análise mais profunda que tente justificar essa baixa indicação.

Os engenheiros de processo e produto e os técnicos, os primeiros com m curso superior e os segundos com m cursos reconhecidos como de boa qualidade, por força de suas atividades, não costumam m manter um m contato tão grande com m as máquinas, não conhecendo os seus detalhes, portanto. Os operadores, por sua vez, talvez porque sua escolaridade máxima seja o Ensino Médio (segundo grau), mumuitas vezes supletiva, mesmo tendo contato com m estas máquinas, aparentemente não conseguem m entender seus detalhes de funcionamento.

Nessas condições, pode-se inferir que a baixa indicação desses assuntos pode ser gerada por uma combmbinação de falta de conhecimento escolar com m a falta de conhecimento do funcionamento das máquinas e do seu processo. Não basta ter apenas um m deles, conforme se argumentou. Somente a integração desses dois elementos pode possibilitar o entendimento dos processos de funcionamento das máquinas presentes na indústria.

## ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

Conforme apresentado, este trabalho relata parte de uma pesquisa mais ampmpla, desenvolvida com m a intenção de identificar as possíveis interações entre os conhecimentos de Física aprendidos na escola pelos fufuncionários pesquisados e os que são utilizados nos processos de produção industrial da empmpresa montadora de eletrodomésticos de linha branca na qual trabalham . No caso em m particular, buscou-se identificar quais conhecimentos escolares de Física estão presentes no processo produtivo em m questão, objetivo que se acredita ter sido atingido.

A investigação, contrariamente ao que mumuitos dos entrevistados declararam m no início das entrevistas, permitiu mostrar que mumuito da Física aprendida na escola ainda é utilizada e pode ser percebida no processo produtivo industrial da empmpresa investigada. Entretanto, essa percepção só pode ficar mais visível depois que os funcionários, motivados pela pesquisa, se preocuparam m em m identificar aspectos da Física escolar nas suas atividades profissionais. Conforme mumuitos declararam, eles só se deram m conta de que mumuitas das coisas que faziam tinham m vinculação com m o que haviam m aprendido na escola depois de serem m motivados pela participação na pesquisa.

Além m da dependência dessa motivação, pode-se verificar que a percepção dos assuntos de Física presentes em m suas atividades se revelou mais aguçada pelos funcionários que realizaram m cursos superiores ou estudaram m em m escolas técnicas, nas quais o desenvolvimento da disciplina de Física é usualmente acompmpanhado por atividades experimentais, sejam m elas em m laboratórios didáticos ou em m oficinas, o que não acontece na maioria das escolas de Ensino Médio.

Finalizando, é interessante ressaltar a impmportância das informações prestadas pelos trabalhadores sobre sua percepção dos assuntos de Física, pois, elas podem m servir de referência para uma reflexão a respeito de quais e de como são organizados os assuntos escolares dessa disciplina. Apesar do real avanço que algumas iniciativas representam m em termos de abordagem m e de propostas inovadoras no ensino de Física para o Ensino Médio, em geral, elas não têm m conseguido rompmper os limites da escola e propiciar um m corpo de conhecimentos que consigam m dar conta de explicar a lógica de funcionamento das máquinas industriais modernas, apoiada em m processos automatizados de base micro eletrônica e possam oferecer, como pondera Kuenzer (2000, 65), uma "generalização de conhecimentos que deveriam m ser democratizados para toda a população, uma vez que são requisitos mínimos para a participação compmpetente em m uma sociedade que cada vez mais incorpora ciência e tecnologia".

## REFERÊNCIAS

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