IDENTIFICAÇÃO DOS PROCESSOS DE GÊNERO PRESENTES NA FÍSICA ATRAVES DA ANÁLISE DOS VIDEOS DA SÉRIE LUGAR DE MULHER
Laís Gedoz, Alexsandro Pereira De Pereira, Daniela Borges Pavani, Renato Felix Rodrigues
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVIII
- Ano
- 2020
- Data
- 13/11/2020
- Linha de pesquisa
- Equidade, Inclusão, Diversidade E Estudos Culturais E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## IDENTIFICAÇÃO DOS PROCESSOS DE GÊNERO PRESENTES NA FÍSICA ATRAVES DA ANÁLISE DOS VIDEOS DA SÉRIE LUGAR DE MULHER 1
## IDENTIFICATION OF THE GENDER PROSSECES PRESENT IN PHYSICS THROUGH ANALYSIS OF THE VIDEOS OF THE LUGAR DE MULHER SERIES
## Laís Gedoz 1 , Alexsandro Pereira de Pereira 2 , Daniela Borges Pavani 3 , Renato Felix Rodrigues 4
1 UFRGS/Instituto de Física/ PPGEnFís, lais.gedoz@ufrgs.br 2 UFRGS/Instituto de Física/ PPGEnFís, alexsandro.pereira@ufrgs.br 3 UFRGS/Departamento de Astronomia/ DA/IF-UFRGS, dpavani@if.ufrgs.br 4 UFRGS/Instituto de Física/ PPGEnFís, renato.felix@ufrgs.br
## Resumo
Uma dentre as diversas ações implementadas no Brasil com o intuito de incentivar o acesso de meninas e mulheres às áreas das ciências exatas foi o programa Lugar de Mulher. Desenvolvido através da parceria entre o projeto Meninas da Ciência do Instituto de Física da UFRGS com a unidade de televisão da universidade, UFRGS-TV, o programa produz mensalmente pequenos vídeos com mulheres que atuam nas áreas de Ciência e Tecnologia. Neste trabalho apresentamos a análise dos vídeos realizados com duas pesquisadoras da área de Física com os objetivos de identificar alguns dos processos Simbólico, Estrutural e Individual de gênero presentes na ciência e o modo como elas lidam com esses processos. Os resultados mostram que a identificação desses processos nos proporciona um melhor entendimento sobre como é ser uma cientista mulher dentro da área da Física e um entendimento melhor da não neutralidade científica. Além disso, podemos perceber como situações parecidas podem gerar diferentes interpretações e impactos, que podem ser positivos ou negativos, dependendo da forma como a cientista percebe a situação. Quando analisados através da epistemologia feminista proposta por Sandra Harding, os vídeos aparentam ter um potencial para serem utilizados em atividades educacionais como ponto de partida para problematizar os processos de gênero no meio científico.
Palavras-chave : Ensino de Física, mulheres na ciência, questões de gênero.
## Abstract
One of the several actions implemented in Brazil with the aim of encouraging girls and women to access the Natural Science areas was the Lugar de Mulher program. Developed through a partnership between the Meninas na Ciência project at the UFRGS Physics Institute and the university's television unit, UFRGS-TV, the program produces monthly short videos with women working in the areas of Science and Technology. In this study we present the analysis of the videos made with two Physics researchers with the aims of identifying some of the Symbolic, Structural and Individual gender processes present in science and the way they deal with these processes. The results show that the identification of these processes provides us with a better understanding of what it is like to be a female scientist within the field of Physics and a better understanding of scientific non-neutrality. In addition, we can see how similar situations can generate different interpretations and impacts, which can be positive or negative, depending on how the scientist perceives the situation. Furthermore, when analyzed through the feminist epistemology proposed by Sandra Harding, the videos have great potential to be used in educational activities as a starting point to problematize gender processes in the scientific community.
Keywords : Physics education, women in science, gender issues.
## Introdução
Nos últimos anos, tem se observado no Brasil um aumento de ações e premiações com o objetivo de incentivar o acesso de meninas e mulheres às áreas das ciências exatas. No início, as ações estavam mais voltadas para o ensino superior e ao mercado de trabalho e, a partir de 2010, começaram a ser realizadas ações voltadas também para crianças e adolescentes (OLIVEIRA; UNBEHAUM; GAVA, 2019). Uma dentre as diversas ações implementadas foi o programa Lugar de Mulher que é uma parceria entre o projeto Meninas da Ciência do Instituto de Física da UFRGS com a unidade de televisão da universidade, UFRGS-TV. O programa produz mensalmente vídeos de em média 5 minutos de duração com mulheres que atuam nas áreas de Ciência e Tecnologia. Segundo a página do projeto 'O programa foi criado com o objetivo de difundir a presença de mulheres em carreiras de ciências e tecnologias e criar assim modelos femininos em áreas onde há baixa representatividade de mulheres' 2 .
As entrevistas realizadas pelo programa vão muito além do que apenas nos proporcionar um contato com a trajetória das entrevistadas e com o que elas trabalham. Uma análise cuidadosa das suas falas nos proporciona um entendimento de como a ciência não é neutra nem imparcial características nas quais muitas vezes os cientistas relutam em admitir. Este é um entendimento importante já que as concepções de que a ciência é neutra e imparcial ainda são muito difundidas na nossa sociedade (HARDING, 1986). Além disso, podemos identificar os aspectos
2
Para maiores informações sobre o programa Lugar de Mulher e o projeto Meninas na
Ciência, acesse: https://www.ufrgs.br/meninasnaciencia/
genereficados 3 presentes na cultura científica e entender, com um pouco mais de profundidade, casos de mulheres que conseguiram atuar numa área em que a predominância é masculina (SILVA; RIBEIRO, 2014). Entender esses aspectos nos auxilia no desenvolvimento de ações e pesquisas que possuam como objetivo mostrar as meninas e mulheres que as áreas de Ciência e Tecnologia também são lugares de mulher.
Os objetivos deste trabalho são identificar alguns dos processos Simbólico, Estrutural e Individual de gênero presentes na ciência e como as pesquisadoras lidam com esses processos. Para isso, foram analisadas as entrevistas com as pesquisadoras da área da Física Ana e Carol, nomes fictícios, que correspondem a dois vídeos dentre os 59 vídeos realizados até a realização deste estudo.
## Referencial Teórico
A teoria proposta por Harding (1986) defende que o desenvolvimento do conhecimento é carregado de influências culturais e crenças dos pesquisadores e pesquisadoras que são marcadas de formas distintas quanto à raça, classe e gênero. Ao termos consciência disso, podemos identificar esses efeitos nos métodos e interpretações presentes na ciência. Como fazemos parte de uma cultura científica, a racionalidade presente na ciência permeia não apenas a forma de agir e de pensar dentro das instituições, mas também na nossa vida privada. Enquanto no passado entender a natureza tinha como objetivo melhorar nossa vida, atualmente se tornou um empreendimento para obter os recursos da natureza através de um acesso desigual, para que ocorra uma dominação de certos grupos sociais sobre outros.
Ao definirmos gênero como uma categoria analítica que influencia a forma de pensar e agir das pessoas podemos identificar o modo como nossos sistemas de crenças e instituições são moldados por significados de gênero. O gênero é entendido simultaneamente como um processo, pois é produzido nas interações sociais, e como um discurso, pois corresponde a um conjunto de figuras de pensamento ou ideias que geralmente são compartilhadas em uma sociedade. Segundo Harding (1986), a vida social genereficada é produzida a partir de três processos que são denominados de Simbolismo de gênero , Estrutura de gênero e Gênero individual . Esses três processos são distintos para diferentes culturas em diferentes períodos históricos e é muito difícil entender uma situação sem levar em conta os três processos, pois eles estão relacionados entre si. Os Simbolismos de gênero são metáforas dualistas de gênero e dicotomias que as pessoas atribuem a fenômenos, coisas ou pessoas por meio da linguagem (e.g. homens são objetivos, mulheres são subjetivas, homens entendem a Física melhor do que as mulheres). A Estrutura de gênero é como os indivíduos organizam suas atividades e interações sociais com base nos Simbolismos de gênero (e.g. existem mais homens do que
mulheres atuando na área da Física). Já o Gênero individual é uma forma de identificação e comportamento individual que é socialmente construído e está correlacionado com a 'realidade' (HARDING, 1986, p. 18) ou com a percepção das diferenças sexuais. Além disso, é o modo como os seres humanos se identificam como tal, e isso pode ser identificado através de como um indivíduo se posiciona em diferentes contextos (DUE, 2012) (e.g. eu não sou boa em Física porque eu sou mulher.).
A autora chama a atenção para a ironia existente no fato de as ciências naturais, que se classificam como racionais, ignoram exatamente uma análise crítica sobre sua própria natureza, análise na qual defendem que seja realizada nas ciências humanas. Essa ironia é mais bem compreendida quando entendemos que os cientistas possuem uma autoimagem sobre quem são e sobre o que a natureza e a racionalidade científica nos reservam. Além disso, acreditam que suas metodologias eliminam as influências sociais das suas pesquisas. Dessa forma, a discriminação das mulheres na ciência ocorre não só devido ao contexto político e social que se originam, em parte das relações sociais genereficadas, mas também devido à forma como os homens cientistas enxergam a si mesmos e a natureza da ciência. Devido a isso, a Física é genereficada tanto no processo Estrutural como no processo Simbólico e isso se reflete no fato de a maioria dos professores de Física e dos físicos serem homens e de que os valores associados às ciências naturais são os mesmos associados aos homens (e.g. racionalidade, objetividade e rigidez) (DUE, 2012).
A autora destaca que a divisão de trabalho por gênero na nossa sociedade influencia também a divisão de trabalho dentro da ciência, preservando as hierarquias sociais. Devido a isso, observa-se que mulheres de todas as classes e etnias, homens negros e homens brancos de classe baixa são mais numerosos atuando como professoras e professores de ciências no nível fundamental e médio e como técnicos de laboratório. Essa divisão de trabalho por gênero e os Simbolismos de gênero relacionados à ciência, segundo Harding (1986), são igualmente responsáveis pela baixa representatividade feminina e pelo fato de que as meninas geralmente não se interessam em desenvolver habilidades científicas.
## Metodologia
Para a análise, foi realizada uma busca no site do projeto Lugar de Mulher por vídeos de entrevistadas da área da Física. Foram selecionados apenas os vídeos da área da Física devido ao tema do evento e devido à limitação de páginas do trabalho. Na consulta, foram encontrados três vídeos, dois sobre duas pesquisadoras do Instituo de Física e um sobre uma aluna de bacharelado em Física. Após a seleção dos vídeos foi realizada a transcrição do áudio e em seguida os trechos foram analisados com base no referencial teórico.
Devido a limitação da informação presente nos vídeos, nem sempre foi possível identificar os processos de gênero na fala das entrevistadas. Por conta disso a entrevista com a aluna de bacharelado não será considerada neste trabalho. A seguir, apresentamos os segmentos dos vídeos das pesquisadoras do Instituto de Física em que foi possível identificar alguns aspectos dos processos Simbólico, Estrutural e Individual de gênero que propiciassem discussões relevantes para o ensino de Física. A análise está dividida em três seções: Por que escolheu se tornar cientista, Discriminação de gênero e Muito além de cientistas. Essas categorias foram escolhidas a partir dos temas em comum abordados nas entrevistas. Optamos
por utilizar os nomes fictícios Ana e Carol para se referir as pesquisadoras para preservar a identidade das entrevistadas.
## Por que escolheu se tornar cientista
Ana relata que quando era criança ficava maravilhada em observar seu pai consertando problemas elétricos da sua casa. Enquanto consertava ele lhe explicava como funcionava a eletricidade. Segundo Ana '[...] todas aquelas coisas que pareciam para os outros mágica, eu passava a compreender como funcionava. Eu sabia que essa era a vida que eu queria ter, compreender como funciona o mundo ao meu redor '. Mesmo que culturalmente trabalhar como eletricista seja atribuído como função para os homens (SENCAR; ERYILMAZ, 2004), parece que o pai de Ana não reproduziu esse Simbolismo de gênero masculinizado. Uma possível interpretação sobre o relato da pesquisadora é que ao explicar o assunto para a filha, o pai passava implicitamente o Simbolismo de gênero de que mulheres podem aprender sobre eletricidade. A partir disso, pode-se inferir que o Gênero individual de Ana foi influenciado positivamente, pois na fala da pesquisadora não são feitos comentários negativos em relação a isso, pelo contrário, pelo relato Ana percebeu que queria compreender o mundo e que conseguia entender assuntos que para os outros eram mágica. O caso de Ana chama a atenção para o papel da família para o desenvolvimento de atitudes positivas nas áreas relacionadas à Ciência & Tecnologia (SHORT-MEYERSON; SANDRIN; EDWARDS, 2016). Segundo Andre et al. (1999) uma das formas de promover um aumento do acesso de mulheres na ciência seria através da realização de ações nos primeiros anos de escolarização e que envolvessem a participação dos pais.
Carol sempre gostou de coisas que geralmente as pessoas não gostavam, segundo a pesquisadora :
Eu achava legal fazer algo que é...que não é comum, que as pessoas acham difícil, então eu achava bacana isso. Então, essa foi minha maior motivação para fazer o curso' [...] A prova que eu fui pior no vestibular foi física porque eu realmente não tinha o conhecimento, mas eu gostava.
Nesta fala não é possível identificar como ela lidou com os níveis Estrutural e Simbólico de gênero presente na Física, pois ela não relata informações sobre esses processos. No entanto, pode-se supor que esses dois níveis não afetaram de forma negativa o seu processo Individual de gênero a ponto de fazê-la desistir da Física É interessante notar que Carol não desistiu da sua escolha profissional . mesmo considerando Física incomum e difícil, e mesmo tendo um baixo desempenho em Física no vestibular. Estudos na literatura apontam que frequentemente as meninas percebem a ciência como difícil e desinteressante (BROTMAN; MOORE, 2008), mas no caso de Carol foi o contrário, os desafios motivavam a pesquisadora.
## Descriminação de gênero
Segundo Ana ' Eu percebi que eu tava no lugar errado no meu primeiro dia de aula. Nós éramos 40 alunos em sala de aula, só quatro meninas .' O fato de ter mais homens na turma pode ser entendido como uma característica da Estrutura de gênero da Física, pois é um reflexo da atribuição de um Simbolismo de gênero de
que a Física é uma área para homens. No caso de Ana essa Estrutura de gênero fez com que no seu processo Individual de gênero ela sentisse que estava no lugar errado por ser mulher.
A pesquisadora também relatou que, quando ia para conferencias, as pessoas queriam falar apenas com seu orientador ou colaboradores, mas não com ela. Ana se questionava: 'Não era para eu estar lá. O que que eu estava fazendo lá?' O fato de as pessoas não falarem com ela reflete uma característica da Estrutura de gênero da área da Física, pois diz respeito à forma como as pessoas interagiam entre si. Essa interação pode ser compreendida como sendo uma consequência da influência de um Simbolismo de gênero que afirma que Física é para homens, portanto, eles supostamente entendem melhor o assunto. Novamente, o processo Individual de gênero de Ana foi afetado pelos níveis Simbólico e Estrutural , fazendo com que, num primeiro momento, ela sentisse que não deveria estar lá por ser mulher. Apesar disso, Ana relata que conseguiu mudar esse cenário: 'eu tive que usar algo que não é tão natural das mulheres, que é uma extrema agressividade'. Apesar da existência na nossa cultura de um Simbolismo de gênero que afirma que mulheres não devem ser, Ana adotou essa característica para o seu processo Individual de gênero . Ela começou a ir atrás das pessoas, alterando localmente o processo Estrutural de gênero , e dessa forma foi vencendo os obstáculos gerados pelos Simbolismos de gênero que, segundo a pesquisadora, afirmam que 'as mulheres não são agressivas, preparadas, espertas, poderosas o suficiente para serem cientistas e lideranças científicas'. Essas mudanças locais no processo Simbólico e Estrutural mudaram também o seu processo Individual de gênero .
Carol comentou nunca ter sofrido discriminações de gênero, no entanto, relatou que isso já aconteceu com colegas. É importante salientar que o machismo está tão enraizado nos níveis Estruturais e Simbólicos que muitas vezes a discriminação torna-se naturalizada, podendo passar despercebida ou sendo até reproduzida pelas próprias mulheres (LIMA, 2013). Segundo a pesquisadora '[...] no dia da formatura eu era a única menina, então, a grande vantagem de ser a única é que todas os olhares vão para você, então, eu adorava, achava um máximo '. Mesmo que no processo Estrutural de gênero ela fosse uma exceção, Carol não percebeu a situação como uma disparidade. No seu processo Individual de gênero ela interpretou como uma vantagem. Nesse caso, pode-se supor que o processo Estrutural não foi percebido de forma negativa por Carol.
## Muito além de cientistas
Nas entrevistas podemos conhecer outros aspectos da vida delas, que fazem parte do processo Individual de gênero, e que vão muito além de serem apenas pesquisadoras. No caso da Ana, ela fala sobre gostar de correr e de ter esse contato com a natureza, sobre ser diretora do Instituto de Física, orientadora, professora e namorada. O que chama a atenção no relato de Ana é a sua fala sobre maternidade 'Eu tenho uma vida muito mais fácil que outras mulheres, eu não tenho filhos'. Na entrevista com Carol, além de falar sobre ser professora e orientadora, também fala sobre sua experiência como mãe:
Eu tenho um menininho de 3 anos e ele demanda, é uma alegria, mas ele dá trabalho. Ele vai crescer e eu sei que daqui a pouco ele vai ter a vida dele, a rotina dele, e vai precisar menos e menos de mim. Então, eu tenho
que aproveitar essa parte, esses momentos que ele precisa de mim que são esses que são legais.
Esses relatos nos auxiliam a perceber o lado mais humano por detrás dessas pesquisadoras e nos ajuda a desmistificar alguns simbolismos, estereótipos e preconceitos em relação à profissão de cientista. Em relação a maternidade, na fala de Ana ela é apresentada como algo que torna a vida mais difícil. Já na fala de Carol, ter filhos dá trabalho, no entanto, a pesquisadora passa uma visão mais positiva em relação a maternidade, não relatando prejuízos para a sua pesquisa. Isso decorre do fato de que a nossa sociedade ainda possui um caráter patriarcal em que ainda é atribuído o Simbolismo de Gênero de que a maior parte das responsabilidades em cuidar dos filhos são das mulheres (SILVA; RIBEIRO, 2014). Além disso, a cultura científica é baseada no modelo masculino de carreira que envolve compromisso em tempo integral, produtividade, competitividade. Como ter filhos diminui a produtividade, isso leva algumas pesquisadoras a optarem pela família, outras pela academia, ou pela combinação das duas. As que decidem pela última opção acabam enfrentado várias dificuldades e preconceitos nas suas carreiras (SILVA; RIBEIRO, 2014).
## Considerações Finais
A identificação dos processos Simbólico, Estrutural e Individual de gênero e de suas relações na fala das entrevistadas nos proporciona um melhor entendimento sobre como é ser uma cientista mulher dentro da área da Física. No caso de Ana foi possível compreender quais foram alguns dos obstáculos que ela enfrentou por ser mulher, como isso a impactou e quais as estratégias utilizadas para superara-los. Em ambos os relatos foi possível identificar o processo Estrutural de gênero de que existem muito mais homens do que mulheres atuando na área da Física, cenário que se estende até os tempos atuais (MENEZES, 2017). O caso de Carol chama a atenção pela forma como ela lidou com os desafios da área, pois fazer algo difícil a motivava, e com o fato de ser a única mulher na turma de formandos. Enquanto Ana sentia que estava no lugar errado quando frequentava uma turma em que a maioria eram homens, Carol enxerga uma vantagem em ser a única mulher na sua turma de formandos, pois atraía os olhares do público. Com esses relatos podemos perceber como situações parecidas podem gerar diferentes interpretações e impactos, que podem ser positivos ou negativos, dependendo da forma como a cientista percebe a situação.
Nas falas das pesquisadoras notamos que por mais que durante suas trajetórias elas tenham passado por situações geradas ou pela Estrutura ou pelo Simbolismo de gênero presente na Física, os seus níveis Individuais de gênero não foram afetados significativamente a ponto de elas desistirem das suas escolhas acadêmicas. Isso aponta para a necessidade de compreendermos com maior profundidade como as Estruturas e Simbolismos afetam ou não o processo Individual de gênero de mulheres cientistas e de mulheres que desistiram da profissão.
É importante salientar que um maior número de mulheres numa determinada área não significa que automaticamente as discriminações de gênero desaparecem (SCHIEBINGER, 2001). Como apontado por Harding (1986), as discriminações de gênero na ciência só mudarão quando ocorrerem mudanças nos Simbolismos de gênero e na divisão de trabalho por gênero dentro da ciência e na sociedade. Para
que ocorram mudanças nos níveis Simbólicos é necessário identifica-los e problematiza-los, e isso pode ser realizado através de análises semelhantes à apresentada neste estudo.
Concluímos que os vídeos do programa Lugar de Mulher aparentam ter um potencial para serem utilizados em atividades educacionais como ponto de partida para problematizar os processos de gênero no meio científico, quando analisados através da epistemologia feminista proposta por Harding (1986). Discutir com maior profundida a relação entre os três níveis e analisá-los sob um olhar crítico pode trazer, além de um entendimento melhor da não neutralidade científica, uma mudança mais significativa nos Simbolismos de gênero presentes nas áreas das ciências exatas.
## Referências
ANDRE, T. et al. Competency beliefs, positive affect, and gender stereotypes of elementary students and their parents about science versus other school subjects. Journal of Research in Science Teaching , v. 36, n. 6, p. 719-747, 1999.
BROTMAN, J. S.; MOORE, F. M. Girls and science: A review of four themes in the science education literature. Journal of Research in Science Teaching , v. 45, n. 9, p. 971-1002, 2008.
CONNELL, R.; PEARSE, R. Gênero: uma perspectiva global . 3 ed. São Paulo: a nVersos, 2015.
DUE, K. Who is the competent physics student? A study of students' positions and social interaction in small-group discussions. Cultural Studies of Science Education , v. 9, n. 2, p. 441-459, 2012.
HARDING, S. The Science Question in Feminism . 2nd. ed. Londres: Cornell University Press, 1986.
LIMA, B. S. O labirinto de cristal: as trajetórias das cientistas na Física. Revista Estudos Feministas , v. 21, n. 3, p. 883-903, 2013.
MENEZES, D. P. Mulheres na Física: a real idade em dados. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , v. 34, n. 2, p. 341-343, 2017.
OLIVEIRA, E. R. B. DE; UNBEHAUM, S.; GAVA, T. A educação STEM e gênero: uma contribuição para o debate. Cadernos de Pesquisa , v. 49, n. 171, p. 130-159, 2019.
SCHIEBINGER, L. O feminismo mudou a ciência? 1 a ed. Bauru:SP: EDUSC, 2001.
SENCAR, S.; ERYILMAZ, A. Factors mediating the effect of gender on ninth-grade Turkish students' misconceptions concerning electric circuits. Journal of Research in Science Teaching , v. 41, n. 6, p. 603-616, 2004.
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SILVA, F. F. DA; RIBEIRO, P. R. C. Trajetórias de mulheres na ciência: 'ser cientista' e 'ser mulher'. Ciência & Educação (Bauru) , v. 20, n. 2, p. 449-466, 2014.
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