ONDE ESTÁ A ÁFRICA NO ENSINO DE FÍSICA?
Nínive Silva, Janethe Patrícia Acuña Escalera, Juliana Kaori Ido, Guilherme Brockington, Bruna Almeida Dos Santos, Ana Paula Moreira
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVIII
- Ano
- 2020
- Data
- 13/11/2020
- Linha de pesquisa
- Equidade, Inclusão, Diversidade E Estudos Culturais E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## ONDE ESTÁ A ÁFRICA NO ENSINO DE FÍSICA?
## WHERE IS AFRICA IN THE PHYSICS TEACHING?
Nínive Silva 1 , Bruna Almeida dos Santos 2 , Janethe Patrícia Acuña Escalera 3 , Juliana Kaori Ido 4 Ana Paula Moreira 5 Guilherme Brockington 6
Universidade Federal do ABC - Mestranda ninive.silva@ufabc.edu.br 2 Universidade Federal do ABC - Licencianda em Física: e-mail: almeidabru97@gmail.com 3 Universidade Federal do ABC - Mestranda, e-mail: acuna.jp@gmail.com 4 Universidade Federal do ABC - Mestranda, e-mail: idokaori@yahoo.com.br 5 Universidade Mogi das Cruzes - anapaulaa.moreira@gmail.com 6 Universidade Federal do ABC - Centro de Ciências Naturais e Humanidades,
brockington@ufabc.edu.br
## Resumo
Este trabalho apresenta os resultados iniciais de uma pesquisa de mestrado realizada em um Programa de Pós-Graduação em Ensino e Histórias das Ciências e da Matemática na Universidade Federal do ABC. O intuito foi investigar se há presença da produção de conhecimento realizada pela África no Ensino de Física. Para tal, foi realizada uma investigação em plataformas nacionais e internacionais voltadas para o Ensino e Pesquisa em Ciências desde o ano 2000, bem como em anais do EPEF - Encontro de Pesquisa em Ensino de Física -, ENPEC - Encontro Nacional de Ensino de Ciências) e SNEF - Simpósio Nacional de Ensino de Física nos últimos dez anos. Ademais, traz uma análise de três coleções de livros didáticos de Física, aprovados pelo PNLD em diferentes momentos históricos. Os resultados preliminares apontam que, de maneira geral, há uma ausência da produção de conhecimento, seja de natureza científica ou tecnológica, realizada em contexto africano.
Palavras-chave : África, Ensino de Física, anais de eventos.
Abstract
This work introduces the results of a master's research in the Graduate Program in Teaching and History of Science and Mathematics, at the Federal University of ABC. The aim was to investigate whether there is a presence of knowledge production by Africa in Physics Education. To this end, we did an investigation on national and international platforms focused on Science Teaching and Research, since the year 2000, and also in the following events: EPEF - Research Meeting in Physics Teaching, ENPEC - National Meeting of Reaching in the Science Teaching, and SNEF - National Physics Teaching Symposium, in the last ten years. In additional, our analysis includes three 3 collections of Physics textbooks, applied by PNLD at different historical moments. Preliminary results indicate that, in general, there is an absence of knowledge production, scientific or technological, carried out in the african context.
Keywords : Africa, conference proceedings of events, Physics Teaching.
Introdução
Este trabalho aponta os encaminhamentos iniciais de uma pesquisa de mestrado em andamento, realizada no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ensino e Histórias das Ciências e da Matemática na Universidade Federal do ABC. O objetivo da pesquisa é evidenciar as contribuições científicas e filosóficas dos pensadores africanos e problematizar o silenciamento dessa produção de conhecimento no Ensino de Ciências, especificamente no Ensino de Física.
Evidências científicas sugerem que a África é o berço do mundo. A genética e a paleontologia evidenciam que as populações humanas atuais são o resultado de um evento denominado Grande Diáspora, que ocorreu na África, em que grupos africanos migraram desse continente para povoar as demais partes do planeta (HENN; CAVALLI-SFORZA; FELDMAN, 2019) . Um estudo realizado por Atkinson (2011), encontram-se evidências de que a origem da linguagem humana moderna é africana, dada à variabilidade de fonemas encontrada no continente. Neste estudo, foi realizado um inventário das vogais, consoantes e tons extraídos de 504 línguas no Atlas Mundial de Estruturas Linguísticas - WALS, juntamente com a informação da localização do idioma e demografia de cada o orador. Os resultados indicaram que a maior variabilidade linguística é encontrada na África, assim como a língua humana mais antiga, falada pelo povo Khoi (HENN; CAVALLI-SFORZA; FELDMAN, 2019). Além desses dados, Aristóteles considerava que as contribuições dadas pelos egípcios no campo da astronomia foram cruciais para que os gregos pudessem construir teorias nesta área do conhecimento (BARNES, 1984).
Dada a relevância do Continente africano, é preciso questionar: qual é o lugar que a produção de conhecimento africana tem ocupado no Ensino de Ciências? Com a promulgação da lei 10.639, em 2003, posteriormente, alterada para 11.645, em 2008, tornou-se obrigatória a inserção de História Afro-Brasileira, Africana e Indígena em todas as disciplinas e em todas as escolas:
§ Os conteúdos referentes à história e cultura afro-brasileira e dos povos indígenas brasileiros serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de educação artística e de literatura e história brasileiras. (BRASIL, 2003).
A lei estabelece que a Cultura Negra e Indígena devem ser abordadas preferencialmente nas disciplinas de humanidades e linguagens, o que traz uma mensagem, ao menos implícita, de que os indígenas e africanos não possuem conhecimentos racionais para serem compartilhados em ciências da natureza e da matemática. Pretende-se subverter essa representação social em nossa pesquisa de mestrado, por meio das contribuições realizadas por filósofos africanos antigos no campo da filosofia natural e no estudo da física antiga. Todavia, o foco deste trabalho consiste em apresentar o resultado de um levantamento bibliográfico em plataformas nacionais e internacionais voltadas para o Ensino de Ciências desde o ano 2000, juntamente com uma revisão de trabalhos publicados em anais dos eventos: ENPEC - Encontro Nacional de Ensino de Ciências -, EPEF - Encontro de Pesquisa de Ensino de Física - e SNEF- Simpósio Nacional de Ensino de Física, nos últimos dez anos. Além disso, trazemos uma análise de três coleções de livros didáticos de física, aprovados no PNLD e utilizados nas escolas públicas e privadas do país.
## PERCURSO METODOLÓGICO
Onde está a África no Ensino de Física? Esse questionamento foi realizado pela primeira autora do presente trabalho, na ocasião de sua colação de grau no curso de Licenciatura em Física. Esse incômodo surgiu ao perceber um predomínio entre
pensadores europeus na Ciência e na História das Ciências, e uma ausência de contribuições dos povos africanos no estabelecimento das ciências naturais, como afirma...
Quanto mais se amplia o direito à educação, quanto mais se universaliza a educação básica e se democratiza o acesso ao ensino superior, mais entram para o espaço escolar sujeitos antes invisibilizados ou desconsiderados como sujeitos de conhecimento. Eles chegam com os seus conhecimentos, demandas políticas, valores, corporeidade, condições de vida, sofrimentos e vitórias. Questionam nossos currículos colonizados e colonizadores e exigem propostas emancipatórias. Quais são as respostas epistemológicas do campo da educação a esse movimento? Será que elas são tão fortes como a dura realidade dos sujeitos que as demandam? Ou são fracas, burocráticas e com os olhos fixos na relação entre conhecimento e os índices internacionais de desempenho escolar? (GOMES, 2012 p. 99).
Parte das respostas a essas indagações está na democratização do acesso ao ensino superior, por meio da política pública de cotas raciais e sociais, que proporcionou a entrada de sujeitos sociais questionadores da estrutura rígida do currículo escolar, especialmente, de seu caráter eurocêntrico. Segundo Barbosa (2008), o eurocentrismo, enquanto ideologia e paradigma, é caracterizado como a crença na superioridade europeia, o que abrange uma compreensão econômicosocial (capitalismo), culturalista (modernidade, cultura greco-romana), religiosa (judaico-cristã), racial ('branca') etc. Nessa perspectiva anacrônica, os demais povos, na melhor das hipóteses, são vistos como crianças a serem educadas pela suposta luz da razão'. Cremos ser dever de pesquisadores do Ensino de Ciências desconstruir esses estereótipos que causam segregação, e, possivelmente, distanciamento da aprendizagem em física ( DE ASSIS CASTRO; MONTEIRO, 2019) .
A primeira etapa metodológica desta pesquisa consistiu em realizar uma busca nas seguintes plataformas digitais: ERIC - Educational Resources Information Center , Scielo e Google Scholar desde o ano 2000. Essas plataformas foram utilizadas para investigar se há presença de cosmologias e cosmogonias africanas no Ensino de Ciências no Brasil e no mundo. Os seguintes descritores foram utilizados na plataforma internacional ERIC: 'Science Education and African cosmogony','African cosmology', 'Africa and Science Teaching'. Utilizamos esses descritores, tendo em vista que os mitos cosmogônicos ou a cosmologia podem ser pontos de aproximação do conhecimento de povos antigos com o currículo escolar, especialmente nas séries finais do Ensino Fundamental.
Em seguida, realizamos análises em anais de eventos voltados para a pesquisa de Ensino de Física (EPEF) no Simpósio Nacional de Ensino de Física (SNEF) e no Encontro Nacional de Pesquisa de Ensino de Ciências (ENPEC), nos últimos dez anos, e o resultado encontra-se na próxima sessão.
Além dessas, fizemos análises em três coleções de livros didáticos de física, de diferentes momentos históricos: antes da aprovação da lei 10639, em 2003, que discorre sobre a inserção da história e cultura afro-brasileira; uma coleção de 2005 (dois anos após a promulgação da lei) e uma coleção de 2010 (dois anos depois da alteração da 10639 para 11.645).
Na Biblioteca Eletrônica Científica Online - Scielo, não foram encontrados artigos com os descritores citados na seção anterior, quer em língua inglesa quer em língua portuguesa.
No Centro de Informação de Recursos Educacionais -Eric, uma plataforma de busca internacional, fizemos uma busca desde o ano 2000, utilizando os descritores 'Science Education and African cosmogony' e não foi encontrado nenhum artigo indexado. Apenas com o descritor "African cosmogony" foram encontrados dois artigos, sendo que um comparava as concepções prévias dos alunos com as concepções tradicionais indígenas africanas, e o outro discutia o uso dos provérbios das culturas africanas tradicionais. Com a palavra-chave 'African cosmology' foi encontrado o trabalho de Gordon (1979), em que há discussões sobre as influências da cultura yorubá na comunidade negra brasileira, no entanto, não há proposição de sua inserção no Ensino de Ciências. Já a busca com os descritores "Africa and Science Teaching" apresentou 44 artigos desde o ano 2000, sendo a maioria dos trabalhos relacionada com experiências educacionais no Continente Africano, mas nenhum deles tratou do objeto de pesquisa em si, que é o uso de cosmogonias africanas no Ensino de Ciências.
Como na plataforma Google Scholar foram encontrados diversos artigos, filtramos a busca da seguinte forma: "cosmologias africanas" + "Ensino de Ciências" e não encontramos nenhum resultado. Com os descritores: 'cosmogonias africanas' + 'Ensino de Ciências' foi encontrada uma dissertação de mestrado que propunha a inserção de cosmogonias africanas como proposta para discutir a origem da vida (SILVA, 2017).
## ANÁLISE DE ANAIS DE EVENTOS
No evento Encontro de Pesquisa de Ensino de Física, fizemos a análise de 2010 a 2018. Entretanto, não foi possível utilizar os descritores, tendo em vista que o site não disponibiliza uma busca interna, sendo necessário entrar em cada uma das sessões propostas e buscá-los manualmente. Nesses eventos foram realizadas diversas comunicações orais e apresentações de trabalhos via pôster, de modo que foi preciso acessar a programação de cada sessão temática e analisar os títulos dos trabalhos para verificar se algum tratava da inserção da África no Ensino de Física.
No ano de 2010, foram aprovados 149 trabalhos para apresentação oral e em formato de pôster. A análise dos títulos e resumos mostrou que nenhum deles discutia a África no Ensino de Física. Em 2012, foram aprovados 199 trabalhos, dos quais apenas um tratou do tema, apresentando a possibilidade da inserção do mito no Ensino de Física e propondo a inserção do mito grego para discutir conceitos da óptica. No evento de 2014 foram aprovados 444 trabalhos. A contagem foi feita pela listagem do número de autores, o que facilitou realizar a busca com os indicadores 'África', cosmogonias africanas', 'Cosmologias', 'Cosmogonias', 'Ciência africana', 'Cosmologias africanas'. Não foram encontrados trabalhos que contivessem algum dos indicadores. Em 2016 foram aprovados 158 trabalhos, num evento unificado da SBF, reunindo outras áreas de pesquisa, não apenas o ensino. Com relação ao tema desta pesquisa, nenhum trabalho foi encontrado. Por fim, o EPEF de 2018 teve 176 trabalhos aprovados, sendo que um falava sobre uma proposta didática de astronomia numa comunidade indígena, no qual havia uma discussão sobre as concepções astronômicas de povos indígenas. Além disso, encontramos outro, que trazia uma análise de livros didáticos aprovados no Programa Nacional do Livro Didático - PNLD para verificar se havia inserção da astronomia cultural. Os resultados apontados pelo
trabalho revelam que 73% dos materiais didáticos apresentam uma visão da astronomia monocultural e não possibilitam o diálogo com a forma com que outros povos, dentre eles afro-brasileiros e indígenas, construíram o conhecimento.
O evento Encontro Nacional de Ensino de Física - SNEF, foi analisado de 2011 a 2019. Não conseguimos verificar a quantidade de trabalhos aceitos para publicação do ano de 2011. E, como nesse evento não havia a relação completa de todos os trabalhos, realizamos a busca mediante a leitura dos títulos dos trabalhos contidos em cada uma das áreas temáticas da programação. Foram encontrados poucos trabalhos sobre astronomia e cosmologia e nenhum trouxe discussões sobre a África no Ensino de Física. Já no SNEF de 2013, foram aceitos 600 trabalhos para apresentação (comunicação oral e pôster) e foi possível realizar a busca por descritores. A partir dos termos 'cosmogonias' e 'cosmogonias africanas' não foram encontrados trabalhos, mas a busca por 'astronomia" resultou num trabalho em que se realizou a abordagem de cinemática baseada em um livro didático e a abordagem consistiu em inserir a cosmologia egípcia e a grega para que os alunos pudessem se atentar às suas diferenças. Em 2015 foram aceitos 540 trabalhos para publicação no SNEF. Foi possível fazer a busca por intermédio de descritores; com o descritor 'astronomia' foram encontrados poucos trabalhos, e realizamos sua leitura completa para verificar a adequação deles a esta pesquisa. Um dos trabalhos, a respeito da elaboração de material didático sobre conteúdos de astronomia, trata da necessidade de se formar um aluno crítico, instruindo-o acerca dos conhecimentos que foram produzidos pela humanidade desde a Grécia Antiga até os dias atuais. O trabalho, entretanto, não faz qualquer menção ao Continente Africano. Um outro trabalho tratava da adaptação de um material didático de forma a contemplar a astronomia cultural indígena, revelando que a lei regulamentada em 2008 (11.645) pode ser cumprida no Ensino de Física. Um terceiro demonstrava que fenômenos astronômicos são observados há mais de 2.000 anos, antes da era cristã, tanto no ocidente como no oriente. Contudo, há um silenciamento do conhecimento astronômico produzido pelos africanos, tanto no Egito como em outras regiões africanas. Também encontrouse um trabalho experimental voltado para o ensino de astronomia. Na parte teórica, havia menção ao fato de que Eratóstenes era grego, contudo ele era nascido em Cirene, localizada na Líbia (Continente Africano). Com os descritores: 'cosmogonias', 'África', 'cosmologias africanas', 'cosmogonias africanas' não foram encontrados artigos.
No SNEF de 2017, foram aprovados 705 trabalhos. Com o descritor 'astronomia', encontrou-se um trabalho que promove a valorização da astronomia elaborada em Continente Africano. Um outro possibilitava a inserção de mitos de constelações no Ensino de Física, e para tal, foram selecionados cinco mitos, mas nenhum de origem africana. Com os descritores: 'cosmologia africana', 'cosmogonias africanas' nada foi encontrado. Também não se encontrou a quantidade dos que foram aceitos para publicação no evento SNEF de 2019, e como não havia a ata do evento contendo a relação de todos os trabalhos, foi necessária a análise dos títulos contidos na sessão temática voltada para equidade, diversidade e estudos culturais no Ensino de Física. Apenas um trabalho promovia a discussão sobre a inserção da diversidade étnica no Ensino de Física, mas não trazia possibilidades de inserção da África.
Dos eventos do Encontro Nacional do Ensino de Ciências - ENPEC, constavam os anais e a busca foi realizada de maneira mais rápida e eficiente. Em 2009, foram aprovados 723 trabalhos, nas modalidades oral ou pôster. Com as palavras-chave
"cosmogonias africanas", "cosmogonias" e "África" nada foi encontrado. No ano de 2011 houve a submissão de 1235 trabalhos nas modalidade oral, pôster ou simpósios, mas a busca usando os mesmos descritores nada demonstrou. Em 2013, o ENPEC recebeu 1.596 trabalhos completos. Em 2015, houve a apresentação de 1.768 trabalhos e, aí também os descritores não levaram a nenhum resultados. O mesmo ocorreu no ENPEC de 2017, ainda que tenham sido aprovados 1.335 trabalhos. No evento de 2019, com o descritor 'África', foi encontrado um trabalho que discute a necessidade de incorporar o discurso decolonial de pensadores africanos no estudo de educação sexual, ao tratar sobre as questões de gênero. Com as palavras-chave: 'cosmogonias africanas', 'cosmogonias', 'cosmologias africanas' não foram encontrados trabalhos publicados. Esse evento recebeu, em 2019, 1254 trabalhos para a publicação.
## ANÁLISE DOS LIVROS DIDÁTICOS
A análise dos livros didáticos de Física considerou três coleções, de diferentes momentos históricos, para verificar se havia menção do conhecimento produzido na África.
A coleção " Física em Contextos: pessoal, social e histórico' (PIETROCOLA, 2010) é dividida em três volumes, em que são fornecidas propostas de atividades de cunho multidisciplinar, experimentos, leitura de textos, filmes e exercícios de aprofundamento para o vestibular. Foram analisados os três volumes da coleção e apenas no volume primeiro houve menção aos conhecimentos desenvolvidos por pensadores africanos.
A parte introdutória do livro traz a apresentação do conhecimento desenvolvido por diversos povos, como egípcios, chineses, gregos e romanos. Há informação de que os egípcios já utilizavam as estrelas como forma de orientação e foram os primeiros a fabricar o vidro. No entanto, o conhecimento de povos africanos só encontra lugar na Idade Antiga e, conforme o tempo avança, há um afunilamento de informações, até que aparecem apenas citações de pensadores e cientistas gregos e romanos. Quando passa para a Idade Média, há apresentação de um pensador não europeu, o árabe Abu Ali al-Hasan, por seus tratados sobre óptica. Na sequência, sobre a Idade Moderna, há apenas menção a cientistas homens e europeus, e na Idade Contemporânea, mencionam-se 28 cientistas europeus e a apresentação do físico brasileiro César Lattes. Após a sessão introdutória, o livro discute a cosmologia dos egípcios antigos, defendendo, no entanto, que esses conhecimentos estão mais próximos da religião do que da filosofia e da ciência. Na perspectiva dos autores, os gregos foram os primeiros a fornecer respostas sobre o funcionamento do cosmos, o que vai na contramão do filósofo Diógenes de Laêrtios que em Kury (1998), afirma que a ideia de universo finito, esférico, permeado por quatro elementos primordiais é de origem egípcia e não grega. Esses conhecimentos possivelmente influenciaram a filosofia natural grega, tendo em vista que, Platão, Tales de Mileto, Pitágoras, Eudoxos, dentre outros, aprenderam sobre a geometria, astronomia e os fenômenos naturais por meio de ensinamentos com os sacerdotes egípcios( KURY, 1998; TZAMALIKOS, 2016).
A segunda coleção objeto de nossa análise foi ' Física' (SAMPAIO, 2005) e consiste num volume único, no qual não há introdução sobre a natureza da ciência. Nessa coleção, o enfoque é desenvolver ferramentas de matematização, para que os alunos possam acessar os conhecimentos técnicos em física. Vale citar a baixa presença de ilustrações em que aparecem pessoas negras na edição. Nota-se a
presença de um lutador de boxe, uma garota olhando no espelho e um avô empurrando a neta num balanço. Não há qualquer menção aos conhecimentos africanos no livro.
A terceira coleção analisada, " Física novo fundamental" (BONJORNO, 1999), consiste de um volume único. Inicialmente, há uma introdução sobre o caráter experimental da física, que se iniciou na Pré-História. Os autores apresentam os gregos como os que deram à luz a filosofia e, com isso, tentaram explicar o mundo por meio da razão. No entanto, consideram que, na verdade, o mérito não foi dos gregos, e sim das civilizações que habitavam a região do Mediterrâneo. Nisso, percebe-se uma tendência a considerar o Oriente Médio como um local que forneceu subsídios para que a filosofia grega se tornasse fecunda, mas não há qualquer citação explícita a contribuições das civilizações do Nilo, como o Egito Antigo.
## CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este trabalho consistiu na apresentação dos resultados iniciais de uma pesquisa de mestrado, que investiga o lugar que a África ocupa no Ensino de Ciências, especificamente a Física. Nos sites de busca, sejam nacionais ou estrangeiros, foram pouquíssimos os trabalhos cuja abordagem - por meio da astronomia cultural ou de mitos de criação do universo - levava em conta a inserção da África no Ensino de Ciências.
Nossa análise dos congressos especializados na área de ensino de Ciências e Física revelou que quase nada é produzido sobre o tema. Mais que isso, foi possível notar que a academia quase sempre se remete exclusivamente à Grécia Antiga como local da gênese do conhecimento científico. Seria pertinente ressaltar, por exemplo, a relevância da biblioteca de Alexandria no desenvolvimento intelectual de Eratóstenes, e também salientar o fato de que o pensador era africano, apesar de ter nascido numa colônia grega. Ou seja, a quase totalidade dos trabalhos omitem ou desconhecem a influência da África e dos africanos no pensamento grego.
Nos livros didáticos, a análise, ainda que preliminar, foi reveladora, pois a coleção mais recente apresentou os conhecimentos africanos de forma adequada, revelando que é possível cumprir a lei 11645 também no ensino de Física e não apenas nas humanidades. Contudo, notamos a baixa presença de imagens com pessoas negras em todas as coleções. Por serem livros didáticos distribuídos em escolas públicas, ricas em diversidade étnica, vale questionar a representação social que a física tem para alunos que estudam ou estudaram essa componente curricular por meio de um livro no qual não podem se ver nele representados.
Nossos resultados revelam o quanto é preciso que a comunidade de pesquisa em Ensino de Ciências, especialmente a do Ensino de Física, reúna esforços para ampliar as investigações nos temas relacionados a raça e aprendizagem.
## Referenciais teóricos
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## XVIII Encontro de Pesquisa em Ensino de Física - 2020
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BONJORNO, José Roberto. Bonjorno & Clinton Física novo Fundamental, Volume Único. Editora FTD, São Paulo-SP , 1999.
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