REPRESENTATIVIDADE DAS MULHERES NA CIÊNCIA: VISIBILIDADE ATRAVÉS DO LIVRO DIDÁTICO DE FÍSICA
Madge Bianchi Dos Santos
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVIII
- Ano
- 2020
- Data
- 13/11/2020
- Linha de pesquisa
- Equidade, Inclusão, Diversidade E Estudos Culturais E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## REPRESENTATIVIDADE DAS MULHERES NA CIÊNCIA: VISIBILIDADE ATRAVÉS DO LIVRO DIDÁTICO DE FÍSICA
## WOMEN REPRESENTATIVITY IN SCIENCE: VISIBILITY THROUGH THE PHYSICS TEXTBOOK
## Madge Bianchi dos Santos
Instituto Federal Catarinense, madge.santos@ifc.edu.br
## Resumo
Este artigo aborda a omissão dos autores e das autoras de livros didáticos do ensino médio em relação às contribuições femininas para a ciência, particularmente na Física. A invisibilização das mulheres na ciência contribui para uma perspectiva sexista da mesma, restringindo a maneira de fazer ciência, a escolha dos objetos de investigação, reduzindo as possibilidades de explicações para os fenômenos naturais. E ainda, a falta de representatividade afasta as meninas das carreiras ligadas à tecnologia e a ciências tais como a Física. O livro didático é um artefato cultural que perpetua, na educação básica, a inferiorização da mulher, mesmo que seja pela ausência delas. Por fim, são sugeridas mudanças no livro didático de Física, não somente na quantidade de mulheres citadas (e suas contribuições), mas também na forma com que podem ser citadas, visando minorar a desigualdade de gênero e contribuir para que mais meninas possam escolher carreiras científicas ou ligadas à tecnologia.
Palavras-chave : igualdade de gênero, mulheres na ciência, mulheres cientistas, livro didático de Física.
## Abstract
This paper addresses the omission of men and women authors of high school textbooks about women's contributions to science, especially in physics. The invisibility of women in science contributes to a sexist view of it, limiting the way of doing science, the choice of investigation objects, reducing the possibilities of explanations for natural phenomena. Also, the lack of representativeness pushes girls away from STEM careers. The textbook is a cultural artifact that perpetuates, in basic education, the downgrading of women. Finally, changes in the physics textbook are suggested, not only in the number of women cited (and their contributions) but also in the way they can be cited, aiming to reduce gender inequality and enable more girls to choose STEM careers.
Keywords : gender equality, physics textbook, women in science, women scientists.
## Introdução
A ciência ainda parece uma atividade exclusivamente masculina, marcantemente a Física. As cientistas são mais visibilizadas nos estudos de gênero sobre mulheres nas ciências. Por vezes, em reportagens esporádicas e em edições ou textos especiais de periódicos científicos. Ou ainda em ações como programas e projetos específicos para incentivar a participação de meninas e jovens na ciência. Tem se mostrado necessária a ampliação da visibilidade das contribuições delas na construção do conhecimento científico.
Este artigo trata da baixa representatividade, em livros didáticos (LDs), de mulheres cientistas e suas contribuições ao longo da história da ciência. Posteriormente, defende a necessidade da inserção das cientistas, de forma significativa, nos LDs de Física do ensino médio como uma das maneiras de combater a desigualdade de gênero na educação básica e, indiretamente, na produção da ciência brasileira, já que uma parcela das (e dos) estudantes serão cientistas. Não está no escopo deste trabalho investigar as causas dessa subrepresentação. Entretanto, identificar a não citação de mulheres cientistas nos livros didáticos é trazer um dado relevante sobre a cultura da educação em ciências no Brasil.
Para gerar uma modificação na cultura e inserir no imaginário das (e dos) estudantes a imagem de uma ciência construída por homens e mulheres, é preciso aumentar a representatividade delas em espaços acessíveis às (e aos) estudantes (no caso deste artigo, no ensino médio). Um deles é o espaço escolar, tendo como principal material didático o LD. Alguns autores como Delizoicov, Angotti e Pernambuco (2011) e Rosa (2015) indicam haver um consenso quanto ao LD ser o principal instrumento de apoio à prática docente. Assim, ele pode ser um instrumento pelo qual também os professores virão a conhecer os nomes e as histórias das cientistas, incluindo-as em suas aulas. Propõe-se, neste trabalho, a inserção de mais mulheres cientistas nos LDs de Física e uma mudança essencial na forma como elas são apresentadas. Não em espaços separados no fim de um capítulo ou seção, mas de forma que sua contribuição científica esteja estreitamente ligada ao conteúdo abordado no livro. Que sejam apresentadas também como protagonistas da produção científica.
A influência do feminismo no ensino de ciências (e no LD) é discutida por Rosa e da Silva (2015). As autoras mostram que nem mesmo uma questão da primeira onda do feminismo é atendida nos LDs - a representação igualitária em termos de quantidade. Elas encontraram 21,4% de representações femininas nos livros selecionados. As imagens analisadas eram de mulheres em livros de Física, não de mulheres cientistas. O exame qualitativo delas também corrobora a ideia de a mulher ser apresentada como pouco capaz de trabalhar em empreendimentos científicos. Outro ponto que as autoras realçam é o fato de que a participação igualitária entre gêneros na ciência modifica a forma como esta é produzida. Elas citam um caso da Biologia, do estudo da função do óvulo, que foi mais bem compreendida a partir das pesquisas de mulheres cientistas - os homens cientistas atribuíam ao óvulo uma função passiva.
A seguir, são apresentados estudos referentes à ausência de mulheres cientistas no LD de Física no ensino médio e do motivo da escolha do LD para este
trabalho. Posteriormente, discute-se a necessidade e os benefícios de alterar essa situação de invisibilidade.
## Onde estão as cientistas nos livros didáticos? E por que o livro didático?
Talvez, para estudantes do ensino médio, haja uma aparência de isenção de fatores culturais e de interesses sociais em um LD de Física, todavia ele é produzido por grupos sociais e sofre influência da cultura, das desigualdades e das disputas dessa mesma sociedade. Estes fatores não são o objeto de estudo dos assuntos abordados em um LD de Física, mas o LD é afetado por eles. Esse livro é, pois, um artefato cultural (BANDEIRA; VELOZO, 2019). Como tal, ainda difunde e perpetua a atribuição de papéis a homens e mulheres presentes na sociedade atual, fortemente marcada pelo machismo e pela misoginia, em que pese existam as lentas conquistas de espaços para as mulheres. Uma dessas lentas conquistas aparece nos dados de bolsistas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ) em 2012. Analisando-os em relação aos gêneros, a física Márcia Barbosa aponta a diferença numérica entre homens e mulheres nessa área do conhecimento, e que a diferença aumenta ao longo da carreira. Elas são menos de 40% dos bolsistas do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) e passam a ser menos de 10% dos bolsistas de produtividade em pesquisa (BARBOSA, 2015).
Há estudos que apontam o LD de ciências (e de Física, especificamente) como agente continuador das desigualdades de gênero. Rosa e da Silva (2015) mostram que as imagens de pessoas nos livros reforçam os papéis desiguais de homens e mulheres, atribuindo a elas uma posição de inferioridade. A pesquisa foi realizada com uma coleção de Física para ensino médio do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). Em um total de 154 imagens com figuras humanas nos três volumes dessa coleção, apenas 33 eram femininas - a maioria delas em atividades domésticas, de cuidados com os filhos e relacionadas à estética do corpo da mulher. Os homens e meninos são retratados em atividades externas e mais criativas.
Outro estudo realizado com 28 LDs de Ciências da Natureza e de Matemática (SILVEIRA, CHAGAS, 2019) identifica frequente uso de linguagem sexista e androcêntrica, além da inexpressiva referência a mulheres cientistas. Em dois livros (um de Biologia e um de Física) nenhuma cientista é citada. Silveira e Chagas (2019) levantam a necessidade de mudar esta forma de apresentar a ciência aos estudantes, indo ao encontro da ampliação da igualdade de gênero.
A autora deste artigo fez parte de um grupo que também analisou LDs de Ciências da Natureza, do ensino médio, de coleções constantes no PNLD (BIANCHI et al ., 2019) . Foram encontrados resultados semelhantes aos de Silveira e Chagas. 1 No total de cinco livros de Física foram identificados 150 nomes diferentes de cientistas homens e somente cinco nomes de cientistas mulheres, sendo que, em um deles, nenhuma cientista foi citada. Em outro desses livros, uma parte considerável do espaço dedicado à Marie Curie trata do seu papel de mãe e esposa. A paternidade e a quantidade de filhos não foram citadas em relação a nenhum dos cientistas homens, evidenciando mais uma vez a diferença de tratamento dos
gêneros no LD. Por que foi considerado relevante citar quantos filhos Marie tinha, como desempenhava seu papel de mãe em um LD de Física? É uma das perguntas relevantes se quisermos alterar essa situação de desigualdade.
Sobre a importância do LD no ensino de Física, pode-se iniciar com a função de indicador dos conteúdos a serem ensinados nessa área. Até pouco tempo atrás não havia um currículo comum. As Orientações Curriculares para o Ensino Médio (PCNEM) 2 visavam orientar a prática docente. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) 3 tem caráter normativo e visa definir o currículo da educação básica, mas a versão final para o ensino médio é muito recente - foi homologada em dezembro de 2018. Isso reforça a ideia de que, até então, o LD tem sido o principal instrumento norteador do ensino de Física, primeiro quanto à determinação do currículo (enquanto lista de tópicos a serem tratados), e segundo quanto a outros fatores tais como: método de ensino, forma de falar/escrever sobre ciência e sobre aqueles e aquelas que contribuíram para seu desenvolvimento.
Tratando da dinâmica de aula e o LD, um estudo de Artuso e Appel (2015) indica que uma minoria dos professores (2,8%) que lecionam Física utiliza o LD para preparação de aulas e que a maioria o utiliza como fonte de exercícios (58,5%). Os autores não mencionam se foi feito um levantamento sobre a formação desses professores. Por outro lado, os estudos reunidos no trabalho de Rosa (2015) mostram que os professores utilizam o LD para leitura de textos, resolução de exercícios e uso ou leitura de imagens. De acordo com o Censo Escolar 2007 realizado pelo Ministério da Educação (MEC), apenas 27% dos professores que lecionam Física no Brasil tinham formação na área. Assim, é possível que a maioria dos professores atuantes nessa área utilize mais o LD, e não conheça histórias de mulheres da Física além de Marie Curie.
O LD de Física (e de outras ciências) é uma das formas pela qual os e as estudantes terão contato frequente com o conhecimento científico. Tendo em vista sua relevância para o ensino de Física, que as mulheres são praticamente invisíveis neles e que as poucas citadas são apresentadas de maneira desigual em relação aos homens, as modificações aqui sugeridas visam alterar a percepção que meninos e meninas têm da ciência na educação básica.
## Omitir as mulheres cientistas da História da Ciência influencia os resultados científicos
Neste trecho faz-se uma reflexão sobre como o desenvolvimento científico é prejudicado por uma visão sexista da ciência, e, também, por uma educação científica sexista.
Um primeiro ponto apontado como prejuízo é a redução da quantidade de pessoas capazes de resolver problemas científicos, de responder questões de pesquisa. As contribuições de diversas cientistas ao longo da história demonstram que elas são plenamente capazes de desenvolver ciência. Do ponto de vista puramente científico, não há motivos para afastar as mulheres do desenvolvimento da ciência. Isto apenas atrasaria os resultados.
O segundo ponto é o prejuízo à qualidade do conhecimento produzido. Silva (2008) traz discussões sobre a invisibilidade da mulher na ciência. Essas discussões apoiam-se nos trabalhos de autoras que tecem críticas ao processo atual de produção científica a partir de uma perspectiva feminista. Para uma dessas autoras, Londa Schienbinger , é preciso tornar a educação básica não sexista para que o 4 desenvolvimento científico não esteja à mercê dos papéis historicamente construídos. Silva explica que, com a atribuição (cultural) de inferioridade à mulher, o conhecimento científico é validado com base em uma visão masculina de mundo. Um exemplo disso foi citado na introdução deste texto - o estudo da função do óvulo. Outro é mencionado por French (2009): um caso de parcialidade de gênero na paleoantropologia. As duas teorias rivais eram fortemente marcadas por perspectivas de gênero. Ambas propunham-se a explicar os marcos da evolução dos hominídeos, uma com o modelo de 'homem caçador' e a outra com o modelo de 'mulher coletora'. Segundo French, pesquisas mais recentes sugerem que o trabalho de coleta era mais frequente, mas que também era importante a tarefa de caçar, o que leva a uma combinação dos modelos. Preconceitos de gênero afetam a escolha do objeto de investigação e a forma de investigação - alteram a maneira de produzir ciência, pois reduzem a diversidade de possibilidades de pensar sobre um mesmo problema.
Citar poucas contribuições de mulheres cientistas também interfere na forma como a ciência é produzida. A invisibilização é uma maneira de manter o fazer científico com características sexistas, de perpetuar a desigualdade por omissão (BANDEIRA; VELOZO, 2019). As mulheres foram ou silenciadas ou tiveram seu trabalho dificultado historicamente, e continuam sendo excluídas dos LDs de Física.
Diante do que foi apresentado, urge a necessidade de aumentar a visibilidade das mulheres cientistas nos LDs de Física. Uma possível proposta nesse sentido é a modificação do tradicional modelo de citar duas ou três mulheres em partes do livro separadas do conteúdo abordado, e passar a citar as contribuições delas de maneira mais conectada aos textos explicativos dos tópicos. Alterações em relação a essa forma de citar as cientistas foram identificadas no trabalho de Borsatto (2018). A autora analisou 36 livros de Física do PNLD 2018. Ela encontrou alguns textos sobre as dificuldades de as mulheres produzirem ciência, de acessarem o conhecimento em espaços formais de ensino e dificuldades relacionadas aos cuidados com os filhos. Mas essas mudanças ainda são pouco significativas, considerando que foram apenas 16 personagens femininas identificadas nos 36 livros.
Os estudos citados evidenciam não apenas a necessidade de modificar a forma, mas também aumentar a quantidade de mulheres citadas nos LDs de Física. O trabalho de Borsatto citado no parágrafo anterior identificou 16 mulheres que tiveram destaque com suas contribuições para o desenvolvimento científico. A autora deste trabalho (BIANCHI et al. , 2019) identificou, em 12 LDs (quatro de Química, três de Biologia e cinco de Física), 364 nomes diferentes de cientistas homens e apenas 15 de mulheres. Uma possível explicação é que os autores de LDs conheçam poucas contribuições relevantes de mulheres cientistas.
- O Quadro 1 sugere nomes de mulheres cientistas ou desenvolvedoras de técnicas/tecnologias que podem ser citadas de acordo com os assuntos de Física abordados no ensino médio.
Quadro 1 - Contribuições de mulheres para o conhecimento científico agrupadas por assuntos de Física abordados no ensino médio.
Fonte: própria autoria.
Ressalta-se que o Quadro 1 não exaure a quantidade de mulheres que podem ser citadas nos LDs.
## Considerações finais
Este trabalho abordou a ausência das mulheres no desenvolvimento da Física representada no LD do ensino médio. Salientou-se a necessidade urgente de mudanças em direção à igualdade de gênero. Discutiu-se também a importância de alterar a quantidade de citações e a forma como as mulheres são citadas nos LDs de Física. Elas precisam aparecer de forma significativa para que estudantes da educação básica realmente vejam a ciência como uma atividade de mulheres e homens e que mais meninas possam ver a si mesmas em carreiras relacionadas à ciência e tecnologia.
Aumentar a representatividade significa que meninas e jovens poderão escolher carreiras mais livremente, sem a imposição de padrões ditados desde a pré-escola. Apesar de não ser o objeto deste trabalho, pode-se sugerir a inclusão de mais cientistas brasileiras e brasileiros no LD de Física, latino-americanas e latinoamericanos, negras e negros, descentralizando a ciência das visões estadunidense, europeia e branca.
## Referências
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