Pular para o conteúdo
Buscador da Pesquisa em Ensino de Física Busca em texto completo · v0.3.0

O Role-Playing Game como instrumento de discussões de temas CTS

Bruna Da Rosa De Brites, Josiane Marques Da Silva, Cristiane Muenchen

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XVIII
Ano
2020
Data
12/11/2020
Linha de pesquisa
Tecnologias Da Informação E Comunicação E O Ensino De Física/Ciência, Tecnologia, Sociedade E Ambiente No Ensino De Física
Tipo
Comunicação

Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do EPEF 2020

Texto completo

## O ROLE-PLAYING GAME COMO INSTRUMENTO DE DISCUSSÕES DE TEMAS CTS

## THE ROLE-PLAYING GAME AS A DISCUSSION INSTRUMENT OF STS THEMES

## Bruna da Rosa de Brites¹, Josiane Marques da Silva², Cristiane Muenchen³

¹Universidade Federal de Santa Maria/ Licenciatura em Física, brunabrites96@gmail.com ²Universidade Federal de Santa Maria/ Doutorado em Educação em Ciências: Química da Vida e Saúde, josimarquesilva@gmail.com 3

³Universidade Federal de Santa Maria/Departamento de Física/crismuenchen@yahoo.com.br

## Resumo

O presente trabalho, metodologicamente de natureza qualitativa, discute as atividades desenvolvidas no contexto do Estágio Supervisionado em Ensino de Física IV do curso de Licenciatura em Física da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). As práticas educativas deste estágio foram balizadas pela perspectiva da Educação Ciência Tecnologia Sociedade (CTS), a partir do tema 'Transportes urbanos: implicações socioambientais e econômicas'. No escopo deste trabalho apresenta-se e discute-se a aplicação do Role-Playing Game (RPG - jogo de interpretação de papéis) como instrumento de discussão do tema CTS, a partir da seguinte questão de pesquisa: Quais as contribuições e desafios da utilização do RPG no desenvolvimento do tema 'Transportes Urbanos: Implicações sócioambientais e econômicas'? A obtenção dos dados foi realizada por meio de diários da estagiária e dos observadores e a análise foi orientada pela Análise Textual Discursiva, emergindo, assim, duas categorias analíticas: Obstáculos e superações da utilização do RPG para o desenvolvimento do tema e Discussões sobre as interações CTS. Ao final das atividades, foi possível perceber que o RPG é um instrumento com potencial de desenvolver um espaço para que ocorram discussões sobre as interações CTS, colocando o estudante no papel central do processo de ensino e aprendizagem de modo a facilitar o entendimento acerca das relações entre Ciência, Tecnologia e Sociedade.

Palavras-chave : Role-playing game. RPG. Estágio Supervisionado. Educação Ciência Tecnologia Sociedade.

## Abstract

This paper, methodologically of a qualitative nature, discusses how the experienced activities in the context of the Supervised Internship in Physics Teaching IV of the Physics Degree course of the Federal University of Santa Maria (FUSM). The educational practices of this internship were marked by the perspective Science Technology Society (STS) from the theme 'Urban transports: socio-environmental and economic implications'. In the scope of this paper presents and discusses the role-playing game (RPG) implementation as discussion instrument of STS theme from the following question: What are the contributions and challenges of using RPG for development of the theme 'Urban transports: socio-environmental and economic implications'? The obtaining data was performed by the treinee and observers diary and the data analysis guided by Discursive Textual Analysis, thus emerging two analytical categories: Obstacles and overcoming the use of RPG for the development

of the theme and Discussions about the interactions STS. At the end of the activities, it was possible to perceive that the RPG is an instrument with potencial of develop a space for discussions about STS interactions, placing the student in the central role of the teaching and learning process in order to facilitate the understanding the relations between Science, Technology and Society

Keywords : Role-playing game. RPG. Supervised Internship. Science Tecnology Society Education.

## Introdução e Fundamentação Teórica

No contexto do Ensino de Ciências/Física, são crescentes as discussões sobre as dificuldades no processo de ensino aprendizagem, entre as quais podemos citar a fragmentação dos conteúdos e a falta de relação destes com a vida dos estudantes (MUENCHEN, 2006; CENTA, 2015). Assim, pode-se identificar na literatura da área diversos autores sinalizando, como alternativa para superar tais dificuldades, a necessidade de repensar o currículo escolar por meio de temas, os quais aproximem o 'mundo da escola' com o 'mundo da vida', dando significado àquilo que é ensinado nas escolas. Como exemplo disso, temos a perspectiva Educação Ciência Tecnologia Sociedade (CTS) (STRIEDER, 2008; AULER, 2002; MUENCHEN, 2006).

A Educação CTS é uma perspectiva de reorganização curricular que tem como intenção discutir a não neutralidade da ciência e tecnologia (CT) e a participação social nas decisões que envolvem CT no sentido de promover a Alfabetização Científica e Tecnológica (AULER, 2002). Desta forma, as discussões CTS devem ser abordadas no contexto escolar, no sentido de, segundo Auler (2002, p. 31) 'abordar o estudo daqueles fatos e aplicações científicas que tenham maior relevância social; [...] abordar as implicações sociais e éticas relacionadas ao uso da Ciência e da Tecnologia' e adquirir uma compreensão da natureza da ciência e do trabalho científico'.

Para que estas discussões ocorram, segundo os pressupostos da Educação CTS, são necessários temas de natureza sócio-científica para mediar abordagens em sala de aula e reconfigurar o currículo escolar. Neste sentido, Hunsche (2010) argumenta que a obtenção dos temas CTS pode ser realizada de distintas formas, a exemplo de temas que estão em repercussão na mídia ou temas escolhidos pelos professores para trabalhar determinado conteúdo.

Nas abordagens educativas dos temas CTS, é necessário o uso de recursos, instrumentos e metodologias que favoreçam a criação de um espaço no qual discussões sócio-científicas possam ocorrer. Assim, se percebe que o Role-Playing Game (RPG, jogo de interpretação de papéis) se apresenta como um instrumento que tem potencial para proporcionar esse espaço e permitir que essas relações sejam discutidas em sala de aula, de maneira interativa, dialógica, divertida e no qual os educandos têm protagonismo.

De acordo com Amaral (2013), o RPG é um jogo de contar histórias e, as histórias são construídas no decorrer do jogo pelos seus participantes, que elaboram caminhos, ações e falas para seus personagens. Geralmente, cada jogador fica responsável por um personagem. Mesmo que o termo 'interpretar' traga a ideia de algo semelhante a um teatro, para o RPG não se faz necessário um cenário físico,

figurino ou qualquer outro elemento teatral. Essencialmente, o único elemento de fato necessário é a imaginação dos participantes. O cenário no contexto do RPG não é somente um local no qual se passa a história, mas, todo o universo literário no qual os personagens existem (SILVA, 2016).

Diante disto, se entende que discussões sobre perspectivas de reorganização dos currículos escolares e de instrumentos que permitam abordagens educativas problematizadoras, a exemplo da Educação CTS e do RPG, devem estar presentes em contexto de formação de professores. Assim, se considera que, na formação inicial de professores, o estágio supervisionado pode ser um espaço propício para que ocorram estas discussões, até mesmo porque, para Pimenta e Lima (2011), o estágio não deve ser reduzido a técnicas e habilidades desconectadas da teoria e, desta forma, deve configurar-se como um espaço teórico e instrumentalizador da práxis docente.

Deste modo, o presente trabalho, desenvolvido no decorrer de uma prática de estágio supervisionado, tem a intenção de responder a seguinte questão: Quais as contribuições e desafios da utilização do jogo RPG no desenvolvimento do tema 'Transportes Urbanos: Implicações sócio-ambientais e econômicas'?

## Contexto da Pesquisa e Caminho Metodológico

O estágio supervisionado no curso de Física Licenciatura da UFSM é dividido em quatro componentes curriculares, sendo o terceiro destinado ao planejamento e o quarto ao desenvolvimento desse planejamento no contexto escolar. Deste modo, nesse trabalho serão abordadas apenas as atividades realizadas no IV estágio, no que concerne ao desenvolvimento o jogo de RPG, totalizando 9 horas-aula (6 encontros) cada uma com 45 minutos.

- O tema desenvolvido, 'Transportes urbanos: implicações socioambientais e econômicas 1 ' (adaptado de Muenchen, 2006), justifica-se pelo grande impacto das ações humanas, no que diz respeito ao uso de combustíveis fósseis, tanto no âmbito ambiental, quanto no social e econômico, caracterizando um tema que perpassa as três dimensões a serem exploradas pela Educação CTS.

Na abordagem em sala de aula, foram planejadas distintas atividades, a exemplo do RPG. Como o tema abordado envolvia conteúdos referentes à termodinâmica, o cenário do jogo escolhido foi revolução industrial. No jogo, planejado e adaptado segundo Sabka (2016), a máquina térmica começava a ter aplicações nas indústrias, de modo a favorecer seus proprietários, mas substituindo a mão de obra humana. Portanto, os grupos de personagens eram: proprietários, operários, cientistas e jornalistas. As atividades desenvolvidas e os materiais 2 utilizados no âmbito do RPG foram organizadas conforme o Quadro 1:

Quadro 1: atividades desenvolvidas no contexto do jogo.

Fonte: Os autores.

Metodologicamente esta pesquisa é de natureza qualitativa (LÜDKE; ANDRÉ, 1987), tendo sido analisados os diários da estagiária e de dois observadores (PORLÁN, 1991). A análise dos dados foi orientada pelos pressupostos da Análise Textual Discursiva, por meio da Unitarização, Categorização e Metatexto (MORAES; GALIAZZI, 2011). As unidades de significado selecionadas no processo de análise serão identificadas pelo sistema alfanumérico, sendo DE\_Un para as unidades do diário da estagiária, DO1\_Un para as unidades do diário do observador 1 e DO2\_Un para as unidades do diário do observador 2. A partir do processo analítico emergiram duas categorias, discutidas na sequência.

## Obstáculos e superações da utilização do RPG para o desenvolvimento do tema

Durante a realização do jogo de RPG foi possível identificar alguns obstáculos quanto ao seu desenvolvimento, a exemplo da infrequência dos estudantes conforme a unidade DO1\_U1:

Na terceira aula em que o jogo estava sendo desenvolvido estavam presentes oito alunos, destes oito apenas cinco estavam na primeira aula, quando o jogo foi apresentado.

Com isso, emergiu a necessidade de repensar as atividades do jogo, pois este também fazia parte do processo avaliativo e com a infrequência de alguns estudantes o desenvolvimento das tarefas, que faziam parte das etapas do jogo, era comprometido. Desta forma, a estagiária necessitou adaptar as atividades para que todos os estudantes realizassem as tarefas, em um processo de reflexão-açãoreflexão. Neste sentido, Freire (1996, p.32) argumenta que 'A reflexão crítica sobre a prática se torna uma exigência da relação Teoria/Prática sem a qual a teoria pode ir

virando blablablá e a prática, ativismo' pois para ele 'ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção'.

Sob esta ótica, foram criados subterfúgios para que todos os estudantes se envolvessem no jogo e realizassem as tarefas, conforme a unidade DO1\_U2:

Os alunos que faltaram a aula (grupos dos jornalistas) terão que fazer uma edição do jornal sobre o que aconteceu no jogo e a tarefa deve ser realizada em casa por causa da infrequência.

Além da infrequência dos estudantes, outro obstáculo encontrado foi a falta de imersão dos alunos no jogo, considerando que para o seu pleno funcionamento, espera-se que o jogador/estudante assuma papel ativo, já que a história é construída a partir das ações dos personagens. Esta dificuldade pode estar atrelada à falta de empenho dos alunos em realizar as tarefas solicitadas. É possível perceber estes dois obstáculos nas unidades DE\_U1 e DE\_2:

Pude notar que alguns alunos não haviam se concentrado na leitura do jornal, pois quando questionei eles realizaram uma segunda leitura rápida e elencaram aspectos óbvios do texto (óbvios no sentido de que leram na hora para mim algum ponto do texto) e isso também havia acontecido na aula anterior.

Quando a jornalista 2 me entregou a folha dela, notei que ela não havia elaborado as questões para entrevista que eu tinha sugerido e sim apenas escrito coisas relacionadas com o que estava presente no jornal 2 e com a narração que eu havia feito no início da aula.

Este fato pode estar associado a cultura escolar em que os alunos estão inseridos, assumindo o papel de receptor do conhecimento científico e não de participante do processo de ensino aprendizagem. Assim, se percebe que esta cultura deve ser superada através de práticas educativas problematizadoras e que possibilitem aos alunos tornarem-se sujeitos do conhecimento. Conforme Delizoicov, Angotti e Pernambuco (2010, p. 122), é importante 'reconhecer que esse aluno é, na verdade, o sujeito de sua aprendizagem; é quem realiza a ação, e não alguém que sofre ou recebe uma ação'. Deste modo, foram tomadas iniciativas de superação 3 , de modo a criar um ambiente no qual o aluno se sentisse motivado a participar, assumindo um papel de protagonismo, como é possível perceber na unidade DE\_U3.

Criei este pequeno texto na intenção de tornar o jogo um pouco mais participativo, de modo que a leitura dele frente aos alunos fizessem eles se sentirem mais integrados com a história e, de algum modo, motivasse eles a realizarem suas respectivas tarefas.

Outra limitação no desenvolvimento dos conteúdos de Física no contexto do jogo foi encontrada na adaptação elaborada pela estagiária a partir do jogo criado por Sabka (2016), na qual foram desenvolvidas atividades distintas para os diferentes grupos de personagens. Um exemplo disso são as atividades que foram realizadas pelos grupos de cientistas, sendo estes os únicos responsáveis pelos cálculos de eficiência de máquinas térmicas, significando que, apesar de a estagiária ter apresentado no quadro a definição histórica de horse-power , boa parte da turma não chegou a realizar estes cálculos. Além disso, a tarefa de realizar os cálculos de eficiência configurou-se em uma atividade que demandou mais tempo do que as demais. Pode-se verificar estas afirmações por meio das unidades de significado DO1\_U2 e DE\_U4:

Os alunos dos outros grupos entenderam o funcionamento das máquinas térmicas? pois os cálculos eram realizados apenas pelos cientistas.

O proprietário 1 logo terminou de escrever quais aspectos e critérios iria considerar com relação às máquinas térmicas, os trabalhadores não demoraram muito para entregar suas cartas e os cientistas não haviam chegado nem na metade de seus cálculos quando o sinal tocou.

Do ponto de vista das características do jogo, tendo grupos de personagens bem definidos, entende-se a necessidade de existir atividades distintas para os diferentes grupos já que, neste caso, os cientistas eram os desenvolvedores da referida tecnologia. Da mesma forma, considerando o contexto histórico do jogo, seria incoerente, por exemplo, os operários efetuarem cálculos de eficiência, haja vista que esse grupo social, neste contexto, era em sua maioria destituído de educação formal. Entretanto, sob a óptica do desenvolvimento do tema e dos conteúdos de Física a ele subordinados, tais obstáculos podem figurar como prejuízo aos alunos que não interpretavam cientistas. Tendo isso em vista, tomando o estágio como um espaço de reflexão sobre a prática, a estagiária, a partir de um processo de reflexão, conseguiu encontrar uma maneira de tentar superar tais obstáculos, como é possível perceber na unidade DE\_U5:

Como somente os alunos que interpretavam cientistas estavam fazendo os cálculos de eficiência, pedi que eles apresentassem os cálculos aos proprietários durante a reunião, pensando que eles poderiam fazer isso de tal forma que todos os alunos (inclusive os operários) se beneficiassem. Além disso, assim eu poderia perceber se tinham entendido os cálculos e os resultados.

Conforme aponta Freire (2011, p. 40), na formação de professores 'o momento fundamental é o da reflexão crítica.' (2011, p. 40) Reflexão esta que resulta em um planejamento fluido, em constante mudança, mostrando que 'é pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem que se pode melhorar a próxima prática' (FREIRE, 2011, p. 40).

## Discussões sobre as interações CTS

De acordo com Silva (2016), a revolução industrial pode ser um cenário conveniente para uma abordagem CTS, podendo discutir os impactos de uma determinada tecnologia sobre a ciência e sobre a sociedade. Em consonância a isso, durante o desenvolvimento do jogo foi possível perceber indícios de que este cenário levou a discussões sobre o impacto da popularização das máquinas térmicas na sociedade, em especial, aos operários, como aponta a unidade DE\_U6:

[...] responderam que as roupas ficariam melhores e mais baratas e sobraria mais dinheiro aos proprietários. Quanto a este último, a proprietária 2 perguntou-se do que adianta as roupas ficarem mais baratas se a classe operária ficaria sem emprego e não teria dinheiro para comprar as roupas.

É possível perceber que a unidade acima mostra o entendimento que os alunos têm acerca das relações entre a tecnologia e a sociedade, já que na fala dos alunos, fica visível o fato de que a popularização das máquinas térmicas gera um impacto direto na indústria, melhorando a produção mas que, ao mesmo tempo, acarreta em um impacto sobre a sociedade, levando ao desemprego, que por sua vez poderá levar resultados negativos à economia da indústria.

De acordo com Santos e Mortimer (2002), nas discussões de temas CTS seria de grande importância discutir a influência dos alunos enquanto cidadãos em questões que envolvem a CT. Ainda, explicitam que isso poderia ser feito, por exemplo, 'levando-se os alunos a perceberem o potencial de atuar em grupos sociais organizados, como centros comunitários, escolas, sindicatos, etc'. Haja vista que os materiais traziam informações acerca das revoltas trabalhistas e da formação de sindicatos na época e que a estagiária chamava a atenção para estes fatos, pode-se

perceber a resignação por parte dos trabalhadores quanto à substituição de sua mão de obra na indústria, como é explicitado pela unidade DE\_U7:

Antes que a reunião começasse, pude perceber que a operária 1 estava cochichando com os colegas na tentativa de convencê-los a tomar alguma providência enquanto trabalhadores com relação a reunião que aconteceria a seguir. Porém, sem sucesso.

Além do baixo envolvimento que os alunos apresentaram para a realização das atividades, através da leitura da unidade acima pode-se perceber a submissão do grupo social formado pelos operários, já que, em meio a uma situação crítica - a compra de uma tecnologia que acabaria com seu espaço no mercado de trabalho não tomaram nenhuma atitude, aceitando as circunstâncias.

Outra questão importante a ser abordada no âmbito da Educação CTS é a soberania que a razão científica tem exercido sobre a sociedade no mundo moderno. De acordo com Santos e Mortimer (2002), o cientificismo tem como consequência, 'uma verdadeira fé na ciência, no homem, na razão' (SANTOS; MORTIMER, 2002, p. 2). Além disso, ainda em consonância a esses autores, o cientificismo tem, ideologicamente, uma função de dominação. Tal visão cientificista é visível na unidade DE\_U8:

Durante a reunião com o grupo de cientistas da máquina de Watt, a proprietária 2 questionou sobre a potência da máquina, querendo saber quantos homens ela substituía. [...]. Entretanto, mesmo sem ter essa informação, os cientistas 3 e 4 afirmaram que ela substituía 100 trabalhadores, o que deixou os proprietários bastante satisfeitos.

Assim, nota-se a submissão dos proprietários em relação às informações prestadas pelos cientistas, que apresentaram um dado referente à potência da máquina e houve a aceitação por parte dos proprietários sem nenhum questionamento acerca da veracidade da informação, mostrando o poder dos técnicos com relação às decisões que envolvem a CT.

## Considerações finais

A Educação CTS tem tomado cada vez mais espaço nas discussões sobre reorganização curricular, configurando-se como uma perspectiva que objetiva discussões acerca da natureza e da não neutralidade da ciência, da participação da sociedade em decisões que envolvem a CT e, no limite, à Alfabetização Científica. Neste contexto, o RPG pode vir a contribuir no sentido de propiciar, em sala de aula, um ambiente que potencialize as discussões das relações CTS.

Desse modo, a aplicação do RPG exposto e discutido no presente trabalho apresenta indícios das suas contribuições para que tais discussões ocorram em sala de aula. Foi possível perceber, a partir das discussões das unidades de significado nas duas categorias, que a aplicação deste jogo ainda apresenta muitos obstáculos a serem superados e que as saídas encontradas pela estagiária são algumas das possíveis saídas a serem tomadas. Nesse sentido, se entende que, para que haja maior engajamento dos estudantes, o jogo deve ser mais interpretativo, o que não foi o caso no RPG desenvolvido, em que não houve muita interpretação por parte dos operários.

Além disso, mesmo que as atividades tenham sido organizadas e desenvolvidas em grupo, houve pouca interação entre os estudantes e participação destes na dinâmica, o que pode estar associado a cultura escolar estabelecida, na qual o professor é visto como o portador do conhecimento e o estudante como mero receptor, e, por consequência, simples ouvinte. Dessa forma, uma possível solução para esse problema seja, cada vez mais, a utilização de abordagens e instrumentos

problematizadores e dialógicos que possibilitem que o aluno assuma seu papel de protagonismo no processo de aprendizagem.

## Referências

AMARAL, R. R. RPG na escola: Aventuras pedagógicas. 23. ed. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2013. 159 p.

AULER, D. Interações entre Ciência-Tecnologia- Sociedade no contexto de formação de professores de Ciências. 2002. 257p. Tese - Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2002.

CENTA, F. G. Arroio Cadena: Cartão postal de Santa Maria?: possibilidades e desafios em uma reorientação curricular na perspectiva da Abordagem Temática. 2010. 203 p. Dissertação - Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 2015.

DELIZOICOV, D.; ANGOTTI, J. A.; PERNAMBUCO, M. M. Ensino de Ciências: fundamentos e métodos. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2011.

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática docente. São Paulo: Paz e Terra, 2011.

HUNSCHE, S. Professor fazedor de currículos: Desafios no estágio curricular supervisionado em ensino de Física. 2010. 144 p. Dissertação - Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 2010.

LÜDKE, M.; ANDRÉ, M. E. D. A. Pesquisa em Educação: Abordagens Qualitativas. São Paulo: Ed. Pedagógica e Universitária - EPU, 1987.

MORAES, R.; GALIAZZI, M. C. Análise Textual Discursiva. Ijuí: Editora Unijuí, 2011.

MUENCHEN, C. Configurações curriculares mediante o Enfoque CTS: Desafios a serem enfrentados na EJA. 2006. 129 p. Dissertação - Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 2006.

PIMENTA, S. G.; LIMA, M. S. L. Estágio e Docência. 6. ed. São Paulo: Cortez, 2011

PORLÁN, R.; MARTÍN, J. El diario del profesor: un recurso para la investigación en el aula. Sevilla: Díada, 1991.

SABKA, D. R. Uma abordagem CTS das máquinas térmicas na revolução industrial utilizando o RPG como recurso pedagógico. 2016. 132p. Dissertação Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2016.

SANTOS, W. L. P; MORTIMER, E. F. Uma análise dos pressupostos da abordagem C-T-S (Ciência - Tecnologia - Sociedade) no contexto da educação brasileira. Ensaio Pesquisa em Educação em Ciências. Vol 2, n. 2, p 1-23, dez. 2000.

SILVA, P. H. S. O Role-playing game (Rpg) como ferramenta para o ensino de Física. 2016. 133 p. Dissertação - Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2016.

STRIEDER, R. B. Abordagem CTS e Ensino Médio: Espaços de articulação. 2008. 236p. Dissertação - Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008.

Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.