UM MÉTODO (?) COMPLETAMENTE NOVO (?) PARA ENSINAR (?) FÍSICA
Carlos Magno Sampaio, Antonio Joaquim Severino
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVIII
- Ano
- 2020
- Data
- 12/11/2020
- Linha de pesquisa
- Tecnologias Da Informação E Comunicação E O Ensino De Física/Ciência, Tecnologia, Sociedade E Ambiente No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## UM MÉTODO (?) COMPLETAMENTE NOVO (?) PARA ENSINAR (?) FÍSICA
## NEW(?) METHOD(?) OF TEACHING(?) PHYSICS SCIENCE(?)
Carlos Magno Sampaio 1 , Antônio Joaquim Severino 2
1 Universidade Nove de Julho - Uninove/PPGE, magno@usp.br 2 Universidade Nove de Julho - Uninove/PPGE, ajsev@uol.com.br
## Resumo
O presente artigo é resultante de pesquisa teórica e integra uma dissertação 1 de mestrado, cujo propósito foi discutir se os fundamentos epistemológicos dessas modalidades, que vem sendo defendidas e implantadas em processos pedagógicos, podem proporcionar condições adequadas para formação do conhecimento no processo de ensino e aprendizagem. Após descrever e caracterizar as estratégias denominadas 'Metodologias Ativas', bem como analisar o teor da proposta de sua utilização, que decorre de políticas educacionais que lhe conferem uma posição de destaque e caráter inovador, principalmente quando articulada às Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação. Conclui-se, assim, que estão sendo concebidas e aplicadas de maneira técnica, com resultados restritos no que se refere ao ensino e aprendizagem significativos, apresentando ainda fragilidades em termos de fundamentação epistemológica e a incorporação de um viés mercantilista que acaba prejudicando a proposta dos processos ativos almejados, que são reconhecidamente necessários.
Palavras-chave : Metodologias ativas, formação de conceitos, concepções alternativas, Teoria histórico-cultural, inovação no ensino.
## Abstract
This article is the result of theoretical research and integrates a master's dissertation, whose purpose was to discuss whether the epistemological foundations of these modalities, which have been defended and implemented in pedagogical processes, can provide adequate conditions for the formation of knowledge in the teaching and learning process. After describing and characterizing the strategies called 'Active Learning', as well as analyzing the content of the proposal for its use, which results from educational policies that give it a prominent position and an innovative character, especially when articulated with the Digital Technologies of Information and Communication. It is concluded, therefore, that they are being conceived and applied in a technical way, with restricted results with regard to significant teaching and learning, still presenting weaknesses in terms of
epistemological foundation and the incorporation of a mercantilist bias that ends up harming the proposal of the targeted active processes, which are recognized as necessary.
Keywords : active learning, concept formation, alternative conceptions, historical-cultural theory, educational innovation.
## Introdução
O desafio da escola, enquanto invenção humana de institucionalização do ensino formal é de tornar possível a aquisição de conhecimento, ou seja, encontrar meios de ensino e instrução cada vez mais adequados à apropriação desse bem cultural por todos os indivíduos, considerando que, uma vez que o conhecimento evolui e se torna cada vez mais ligado à tecnologia, é preciso pensar em estratégias para organizar o ensino desse conhecimento de forma também mais evoluída e entrelaçada com a tecnologia. Neste diapasão, tem crescido a diversidade de estratégias de ensino ativo, que procuram trazer o aluno para o centro do processo educativo, como protagonista de sua própria aprendizagem e ao mesmo tempo deslocar a figura de um professor detentor e centralizador da informação para a de um mediador, um curador, um parceiro mais experiente, facilitador do aprendizado (BACICH, 2016; MORAN, 2017).
Nas décadas recentes, estratégias de ensino ativo ganharam destaque, evidenciando a necessidade da formação de professores e alunos em paralelo à tendência globalizante em torno desse tema, que tem se popularizado no Brasil como 'metodologias ativas'. O que nos leva a proferir algumas indagações, dentre elas o título deste artigo, que é, ao mesmo tempo, uma homenagem e uma provocação: 'Metodologias Ativas: um novo (?) método (?) para ensinar(?).
Provocação por se tratar de uma investigação que também tem o sentido de averiguar se há realmente algo novo de caráter inovador e homenagem, por ser um título emprestado do artigo do Professor Luis Carlos de Menezes (1980), 'Novo (?) método (?) para ensinar (?) Física (?). Há 40 anos ele escreveu:
Um grande número de educadores, hoje em dia, está muito próximo dos analistas de sistema: Falam o mesmo jargão pobre, usam os mesmos inevitáveis diagramas e têm a mesma fascinação por teste. Para eles o professor é o operador de uma máquina programável ou é a própria máquina. Ora, poderá pensar o leitor, não é justo estar 'malhando' a moderna educação científica, forma científica de ensinar ciência. Que mal há em reduzir o processo educacional a uma sequência de operações objetivas? O mal está todo nisto mesmo: na medida que o aluno é tomado como paciente do processo, a passividade é o aprendizado mais indelével. Se se busca um ser ativo resultante da Educação, na própria Educação ele deve ser agente. Outra importante decorrência da passividade imposta ao educando, presente tanto na 'científica' educação como na tradicional arenga expositiva, é a cristalização do conteúdo (MENEZES, 1980; p.95).
A associação dos professores a analistas de sistemas é pertinente ao modelo de educação e ao processo de ensino e aprendizagem que queremos superar. Evoca uma prática educacional compatível com e tendência liberal renovada, da escola nova, onde o professor se presta a inserir dados informacionais ao aluno, visto como uma máquina programável, sendo o professor o operador e, talvez, se sentindo uma máquina também: uma máquina que possui informações que podem ser transmitidas para outras máquinas. Categoria fundamental do ensino
expositivo e da condição passiva do aluno e, também, nos remete a uma percepção positivista e tecnicista de educação, em que o aluno pode ser moldado, programado.
Mas em que consiste a metodologia ativa, e o que faz com que se avulte agora a mudança nas práticas didáticas?
Essas iniciativas trazem um cardápio de atividades que visam uma desenvoltura mais independente e participativa dos estudantes em atividades escolares, descentralizando a figura de um professor detentor do conhecimento e transmissor único de informações. Como os estudantes estão imersos numa vida profundamente afetada pela tecnologia, nas atividades de aprendizagem ativa, valoriza-se o uso da tecnologia (BACICH, 2016; MORAN, 2017) o que não poderia ser mais adequado, apesar de não ser uma condição obrigatória.
Podemos caracterizar como metodologias ativas as estratégias pedagógicas que contrastam com o chamado ensino tradicional, colocando o aprendiz no foco do processo ensino aprendizagem, de acordo Valério (2018). As práticas pedagógicas que são aplicadas de forma a motivar, envolver os alunos, engajá-los com atividades práticas individuais ou coletivas e nas quais os alunos sejam protagonistas da sua aprendizagem, caracterizam-se como exemplos de práticas ativas, ensino ativo, metodologias ativas (MORAN, 2017).
Diferente de uma posição subserviente e passiva em que só se copia, ouve e assiste exposições, característica marcante da escola tradicional, por meio das metodologias ativas, busca-se criar situações de aprendizagem em que os sujeitos façam coisas, coloquem conhecimentos em ação e realizem operações, pensem e conceituem o que fazem, construam conhecimentos sobre conteúdos envolvidos nas atividades que realizam e, também, desenvolvam estratégias cognitivas, suas capacidades críticas e reflexivas sobre suas práticas, aprendam a conviver e interagir com seus pares e o professor, explorem atitudes e valores pessoais, sociais e culturais (MORAN, 2015; BACICH, 2016).
As metodologias ativas são então definidas de uma maneira geral como estratégias pedagógicas criadas para envolver os alunos num processo de ensino aprendizagem que enseje um comportamento ativo, engajado e de significado - que pensem no que estão fazendo. Que realizem atividades que os situem dentro de um contexto e que os auxiliem no desenvolvimento de estratégias cognitivas e no processo de construção de conhecimento.
## O Pêndulo da Educação
Propostas ativas em processos educacionais não são novidade. Na verdade, é centenária, marcando o fim do século XIX e início do século XX, onde resgatamos os fundamentos das metodologias ativas. Autores como John Dewey (1859-1952), por exemplo, considerado um dos pioneiros da concepção ativa de aprendizagem, já defendia ideias do ensino ativo, considerando o interesse dos aprendizes, a capacidade de resolução de problemas, a autonomia e aprender fazendo.
Para Libâneo (2006), a acepção do termo liberal, que se aloja à pedagogia liberal, é uma manifestação própria da sociedade capitalista e na qual se enceta a pedagogia liberal tradicional, a pedagogia liberal renovada (também denominada escola nova ou ativa) e a pedagogia liberal tecnicista, que surgiram como justificativa desse sistema, cuja lógica é a organização social baseada na propriedade dos meios de produção --- a sociedade de classes. Ele também assevera que as
tendências liberais têm deixado marcas profundas na educação brasileira num passado recente, oscilando nas suas formas ora conservadora, ora renovada, ressaltando que ainda que muitos professores não se deem conta dessa oscilação, elas se manifestam concretamente nas práticas escolares e no ideário pedagógico.
Para Libâneo (2006), na escola ativa, o aluno deve ser o sujeito do conhecimento, se propõe um ensino centrado no aluno e em que se valorize a atividade com experiência direta sobre o meio. Ele nos chama a atenção para a versão dessa tendência liberal, que fora difundida pelos 'Pioneiros da Educação Nova', a partir de seu principal representante, Anísio Teixeira (1900- 1971), que ao usar o termo 'educação progressiva', originou a designação renovada progressivista, ou pragmática. Esta tendência inspirou-se, como já foi dito, no filósofo e educador norte-americano John Dewey, mas foi influenciada por Montessori, Decroly e, de certa forma, Piaget.
Em relação à pedagogia tradicional, partindo da perspectiva do ideário da Escola Nova de entender a educação, deslocou-se o eixo da questão pedagógica do professor para o aluno; 'para uma pedagogia de inspiração experimental baseada principalmente nas contribuições da biologia e da psicologia', 'trata-se de uma teoria pedagógica que considera que o importante não é aprender, mas aprender a aprender' (SAVIANI, 1994, p.21).
A preocupação com os métodos pedagógicos presentes no escolanovismo que acabam por desembocar na eficiência instrumental de um pragmatismo montante, permitiu a articulação de uma nova tendência: a pedagogia tecnicista (SAVIANI, 1994, p.23). Nessa tendência liberal, a partir das metas econômicas, sociais e políticas da sociedade é que deve estar subordinada a preparação dos indivíduos na escola. A educação assume como função a qualificação da mão de obra industrial, a preparação para o mundo do trabalho, o treinamento (inclusive científico) comportamental para se ajustar às metas da sociedade industrial e tecnológica. Preconizam-se as técnicas de descoberta e aplicação em detrimento do conteúdo da realidade, que não é tido como essencial (LIBÂNEO, 2006, p.23).
No tecnicismo, o que está em pauta são as competências que devem ser desenvolvidas com vistas ao mercado de trabalho, cabendo na atuação da escola, transmitir eficientemente informações precisas, objetivas e rápidas, deslocando o foco da escola para o aperfeiçoamento da ordem social vigente, ou seja, atender à lógica capitalista, articulando-se diretamente ao sistema produtivo (LIBÂNEO, 2006, p.28). Para Saviani (1994), embora a pedagogia nova também dê grande importância aos meios, como na tecnicista, há uma inversão da seta, pois enquanto na pedagogia nova os meios ficam à disposição do professor-aluno, na tecnicista os professor-alunos estão submetidos aos meios.
Severino (2017) ressalta que essa perspectiva tecnicizante, resultante da completa impregnação da cultura contemporânea pelo exacerbado pragmatismo, toma a prática da atividade educativa cada vez mais como mero aparelhamento técnico para operações funcionais, já que o que se projeta e se tem como foco é 'a capacitação para o manejo de funções técnicas ou tecnicizadas no mundo da produção, sejam elas relacionadas ao comando operacional dos diversos campos do conhecimento científico e tecnológico ou sejam pertinentes à condução dos empreendimentos culturais' (SEVERINO, 2017, p.8).
Muitos autores contribuíram, em outros tempos, para que contemporaneamente ressurgissem, em novos contextos, novas denominações e
diferentes abordagens, os desejos de alunos ativos em sua aprendizagem, mas o que constatamos, quase um século depois, é que ainda encontramos, no ensino, tanto as marcas do ensino tradicional quanto o revigoramento da expectativa, como o movimento de vaivém de um pêndulo.
## O impacto político na gestão educacional
Políticas educacionais, como o Programa São Paulo Faz Escola (2008-2018) e, recentemente, a Base Nacional Curricular Comum (BNCC -2018) e a Reforma do Ensino Médio (lei 13.415/2017), o Novo Currículo Paulista e Programa Inova, ambos implementados em 2020 pelo Governo do Estado de São Paulo. É importante ressaltar que a estes últimos (e atuais), está articulado um movimento crescente que anseia o abandono de práticas de ensino que se baseiem em mera aula expositiva, memorização de informações descontextualizadas, a figura do professor como centralizador de informação e conhecimento, e tudo aquilo que normalmente está associado ao chamado ensino tradicional.
Há uma atmosfera de mudança que paira sobre o ensino, proporcionada por vários segmentos da sociedade, que, de forma entusiasmada, oferece alternativas para práticas de aulas onde se visa o aluno-protagonista, onde ele possa ser mais autônomo e ter mais engajamento com o seu processo de aprender continuamente, característica considerada como basilar para o ensino no século XXI. O professor é um elemento importante nesse processo como mediador entre o aluno e a cultura (inclusive a digital) e não mais como um mero transmissor de informações que supostamente serão convertidas em saberes. Com o inegável avanço da tecnologia móvel de dados, a informação está em toda parte, acessível, descentralizada. Logo, o novo paradigma escolar conta com a tecnologia como aliada do ensino, permitindo que a dinâmica de ensinar e aprender finalmente se reinventem. É assim que entra em cena uma das vertentes mais significativas do movimento de inovação do ensino, que segue pela via do termo 'metodologias ativas' e que, apesar de não ser a única de suas possibilidades, invariavelmente se mostra associada, conectada, interligada com as Tecnologias Digitais da Informação e da Comunicação - TDIC.
Contudo os processos ativos almejados e reconhecidamente necessários nas situações de produção do conhecimento e de realização do ensino/aprendizagem só se legitimam como mediadores da educação quando marcados também pela historicidade, ou seja, considerando que nosso modo de pensar e agir muda com o tempo histórico: o modo de conceber o mundo, a realidade, as ideias, visões e interpretações são históricas. Isso demonstra que, ao assumir categorias como mediação, cultura e historicidade, as contribuições de Vygotsky é que podem levar ao esclarecimento do sentido da educação em seu vínculo aos processos socioculturais envolventes. Além disso, subentende-se, ou deveria se subentender, que sendo 'ativas', as metodologias são guiadas por uma teoria para as atividades. Cabe ressaltar, que se o propósito das metodologias ativas é uma insurgência contra as metodologias passivas, que estão enraizadas no processo de ensino e aprendizagem pela herança da pedagogia liberal tradicional, há que se considerar que o contrário de passividade (entendida como paciente, ou seja, receptor passivo) é atividade (entendida como agente, unidade dialética receptor- transmissor). Assim, é razoável pensar que o aspecto fundante em debate seja uma teoria que ilumine a atividade. Logo, a Teoria da Atividade, de Leontiev, é que parece ser a mais apropriada.
Podemos constatar que também é fato termos cada vez mais explicita a incorporação empresarial da educação produzindo a mercantilização e o tratamento da educação como mercado. A título de exemplo podemos citar que em 2006, no Programa de Desenvolvimento da Educação (PDE) o Governo Federal assumiu a denominação 'compromisso Todos pela Educação' e o apresentou como 'uma iniciativa da sociedade civil e conclamando a participação de todos os setores sociais, esse movimento é constituído, de fato, como um aglomerado de grupos empresariais' (LEHER, 2010).
Cabe ressaltar que esse mesmo grupo de empresários, denominados 'Todos pela educação', tiveram uma atuação muito forte tanto da reforma do ensino médio quanto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), pressionando o poder público para aprová-las, como é o caso do 'Movimento pela Base Nacional Comum', que contou com o apoio do Instituto Península que produziu vários vídeos 'explicativos' sobre a BNCC e do Instituto Natura, que também apoia a implantação de Escolas de Tempo Integral e que, junto ao Instituto Corresponsabilidade pela Educação, por exemplo, ajudou a implantar das escolas do Programa de Ensino Integral da Secretaria do Estado de São Paulo. O Instituto Ayrton Senna, que também compõe esse movimento, vai atuar em 2020 na implantação do programa paulista INOVA. Várias das corporações que compõem o movimento 'Todos pela Educação', como Fundação Lemann, Itaú Social, Instituto Unibanco e Fundação Roberto Marinho, defendem e divulgam o uso das metodologias ativas por meio de suas instituições e fundações e obviamente os documentos oficiais citados também.
Ao comentar a oportunidade de valorização da educação por meio da agenda 'Compromisso Todos pela Educação', Saviani (2007, p.1251) já nos asseverava de que 'é preciso cautela para não cairmos na ingenuidade de acreditar, sem reservas, nas boas intenções que agora, finalmente, teriam se apoderado de nossas elites econômicas e políticas'. Demonstrando preocupação de que tal proposta, sob o pretexto de modernizar a educação, poderia estar atendendo mais a outros interesses, visto que está no interior de uma lógica instrumental e consumista, própria do neoliberalismo.
- O movimento em torno das metodologias ativas está mergulhado no mundo fortemente vincado aos adventos da tecnologia. A partir das metodologias ativas, há um vetor na direção que pretende a formação dos sujeitos para uma atuação num mundo dominado pela tecnologia e outro vetor que aponta para a articulação com a tecnologia dinamizando, modernizando a educação. Esse é o aspecto que 'grosso modo' representa inovação. Entretanto, apesar dessa articulação (MILL, 2010 apud BACICH, 2016, p. 23) 'é um equívoco pensar que inovação tecnológica é, necessariamente, inovação pedagógica'.
É pertinente fazer uma reflexão a respeito da modernização dos processos de ensino e aprendizagem em que se faz o uso de vídeos em plataformas de streaming , por exemplo. Constata-se que as práticas ensejadas nesse contexto, seja para a produção ou a publicação de conteúdos de ensino, carregam pautas que transcendem as dimensões pedagógica e didática, trazem em seu bojo a possibilidade de novos mercados lucrarem. Valério (2018) nos adverte que embora haja iniciativas públicas e institucionais, para a produção e disponibilização de materiais on-line, a maior parte dos softwares, plataformas e repositórios dos conteúdos de ensino (incluindo vídeos) vem da iniciativa privada. 'São ferramentas para criar apresentações, questionários interativos, murais virtuais, atividades
individuais ou colaborativas e, inclusive, avaliar os trabalhos dos estudantes', explica ele. Na análise trazida à baila, expõe-se a categoria mercantilista, presente no fato, por exemplo, de que as grandes plataformas de distribuição digital de vídeos bonificam monetariamente as visualizações e ainda vinculam contratos comerciais publicitários ao seu conteúdo, 'de modo que seria altamente rentável defender e promover um cenário educativo onde todo estudante consuma compulsoriamente conteúdos na rede web ' (VALÉRIO, 2018).
Mas também podemos incluir a categoria 'formação conceitual' nessa análise, visto que tendo uma plataforma 'aberta' para qualquer tipo de publicação, isto é, científica ou não, é fácil constatar o risco de conceitos espontâneos (ingênuos) serem confrontados com conceitos científicos, como a Terra plana, energia infinita, moto-perpétuo e tantas outras fakes na Ciência.
Dentre várias considerações e críticas geradas à concepção construtivista da educação, as ideias alternativas presentes nos conceitos espontâneos se mostraram antagônicas ou conflitantes com os conceitos científicos, gerando uma tendência de pesquisas na linha de concepções espontâneas, que se concentram, prioritariamente, no ensino de ciências naturais. Essa temática, nos lembra Langhi (2011), identifica-se o final da década de 1970 e que tais ideias de senso comum foram tão marcantes nas pesquisas em ambiente escolar que se tornou uma das principais linhas de investigação na Didática das Ciências em todo o mundo.
Apesar dos autores que trataram do ensino híbrido terem considerado a intencionalidade da ação educativa, a orientação dos alunos e o cuidadoso planejamento da atividade, ao incorporar como inovadora a ideia de mesclar, ou hibridar aula, descuidando das fontes a serem tomadas pelos alunos como conhecimento científico, o que pode ocorrer, como consequência, é o agravamento do que já acontecia sem os recursos hoje tão acentuados pela internet. O número de pessoas que acreditam na teoria de que a Terra é plana, de que o homem nunca tenha pisado na Lua, de que as vacinas é que espalham epidemias é cada vez maior 2 .
A mudança conceitual, que por quase três décadas foi objeto de exaustivo estudo dentro da linha de investigação construtivista de concepções prévias ou intuitivas, não alcançou o sucesso esperado como teoria de ensino. Esse fato decorre das dificuldades em romper os obstáculos epistemológicos que nos apontou Bachelard(1996), fazendo com que os alunos continuem (ou retornem) aderindo às concepções intuitivas como representação da realidade, sem rupturas. Para Brockington (2011), isso continua acontecendo porque 'não foi possível estabelecer um quadro teórico capaz de explicar por que, mesmo fazendo uso de situações de conflito'.
## Considerações finais
Diante dos aspectos aqui levantados, o movimento em órbita das metodologias ativas resgata algumas características de tendências pedagógicas que já sofreram certo desgaste e foram até superadas em alguns aspectos, o que não justifica dizer que são novos métodos. Constata-se que estão sendo concebidas e aplicadas de maneira técnica, com resultados restritos no que se refere ao ensino e aprendizagem significativos, apresentando ainda fragilidades em termos de
fundamentação epistemológica e a incorporação de um viés mercantilista que acaba prejudicando a proposta dos processos ativos almejados, que são reconhecidamente necessários.
Em nossa busca da especificidade dos conceitos científicos, é fundamental percebermos que o seu conteúdo comporta diferentes níveis de desenvolvimento mental e que não se limitam a captar apenas o aspecto empírico externo observável dos objetos e fenômenos. Essa diferenciação já foi feita por Vygotsky, quando diferenciou os conceitos espontâneos dos conceitos científicos e também na forma de sua apropriação e de reelaboração. O aprendizado deve ser considerado ativo, justamente quando ocorre o desenvolvimento das funções mentais superiores, quando o conceito espontâneo consegue ser superado pelo conceito científico e essa barreira, essa distância é que precisa a ser vencida pela interação social.
## Referências
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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.