A FLUTUAÇÃO: UMA POSSIBILIDADE DE APROXIMAÇÃO ENTRE A EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E OS DIREITOS HUMANOS
Armando Gil Ferreira Da Silva, Patricia Domingos, Gloria Regina Pessoa Campello Queiroz
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVIII
- Ano
- 2020
- Data
- 12/11/2020
- Linha de pesquisa
- Formação E Prática Profissional Do Professor De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## A FLUTUAÇÃO: UMA POSSIBILIDADE DE APROXIMAÇÃO ENTRE A EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E OS DIREITOS HUMANOS
## THE FLOTATION: A POSSIBILITY OF BRINGING SCIENCE EDUCATION AND HUMAN RIGHTS CLOSER TOGETHER
Armando Gil Ferreira dos Santos 1 , Gloria Regina Pessoa Campello Queiroz 2 , Patrícia Domingos 3
1 CEFET-RJ/PPCTE/DIPPG/gilarm@gmail.com
2 UERJ-IF/CEFET-RJ/gloriapcq@gmail.com 3 UERJ-IBRAG/DBV/patvitesse@gmail.com
## Resumo
Os debates e pesquisas na formação de professores têm como um dos grandes desafios, repensar as práticas e políticas nos cursos de licenciatura que possibilitem assegurar o compromisso social dos futuros docentes. Esta investigação é um estudo de caso sobre a educação para os direitos humanos que se destaca nas aulas de uma disciplina de Estudos e Desenvolvimento de Projetos a partir de um recorte interdisciplinar a respeito da flutuação para a vida. Para auxiliar na compreensão dos conceitos neste trabalho buscamos dialogar com alguns autores como: Cortina, Roth & Tobin, Engeström e Bakhtin. Os nossos sujeitos de pesquisa na modalidade codocência são duas professoras de diferentes áreas do conhecimento, sendo uma da Física e a outra da Biologia e doze licenciandos dos cursos de Física, Biologia e Pedagogia compartilhados no laboratório interdisciplinar como espaço de formação inicial. Utilizamos a videogravação das aulas como percurso metodológico e com o olhar discursivo, aproveitamos a riqueza dos enunciados e as relações dialógicas entre os atores sociais inseridos neste contexto de atividade humana para reconhecermos as suas contribuições que poderão transformar as concepções dos licenciandos sobre o direito à vida saudável. Este trabalho aponta para a necessidade de abandonarmos construções curriculares exclusivamente disciplinares, indo em direção a temas que aproximem a educação em ciências e os Direitos Humanos, conforme os resultados alcançados e evidenciados nos discursos dos licenciandos com a aprendizagem expansiva, preparando-os para atuarem em coletivos e redes sob a ótica da ética cordial.
Palavras-chave : Formação de professores, codocência, aprendizagem expansiva, direitos humanos, diálogos interdisciplinares
## Abstract
One of the major challenges in teacher training is to rethink practices and policies in undergraduate courses to ensure the social commitment of future teachers. This research is a case study of human rights education that stands out in the classes of a discipline of Studies and Project Development from an interdisciplinary cutout regarding fluctuation for life. To help us understand the concepts in this work, we sought dialogue with some authors such as: Cortina, Roth & Tobin, Engeström and
Bakhtin. Our research subjects in the coteaching modality are two teachers from different areas of knowledge, one of Physics and the other of Biology, and twelve students from the Physics, Biology and Pedagogy courses shared in the interdisciplinary laboratory as a space for initial training. We use the video-recording of classes as a methodological route and with a discursive gaze, we take advantage of the richness of the statements and the dialogic relations between the social actors inserted in this context of human activity to recognize their contributions that may transform the conceptions of the students about the right to a healthy life. This work points to the need to abandon curricular constructions exclusively disciplinary, going towards themes that approximate education in sciences and Human Rights, according to the results evidenced and reached with the expansive learning, through the approaches on the nature of the interdisciplinary science and the cordial ethics.
Keywords : Teacher training, coteaching, expansive learning, human rights, interdisciplinary dialogues.
## A formação de professores diante de desafios socioculturais
Nos últimos anos tem sido frequentemente discutido o papel da pesquisa na formação de professores, suas relações com o ensino e o compromisso com a responsabilidade social de futuros docentes. Quando pensamos na formação profissional docente, associamos as adversidades de uma sociedade com desafios socioculturais à exigência de processos de construção e reconstrução do conhecimento dos indivíduos para lidar com questões sobre cidadania, valores de justiça, desigualdade social e a educação para os direitos humanos, entre elas a grande vulnerabilidade social de grande parte da nossa população. Estas questões estão 'vivas' dentro das escolas e das universidades como uma pauta de necessidades para os cursos de licenciatura. Alguns pressupostos são apontados na literatura como uma maior valorização da educação no cenário social, pois:
há conhecimentos que estão na base de ações que podem trazer melhores condições de acesso a bens sociais valorizados, conhecimentos que são relevantes socialmente e que têm conotações específicas em ambientes diversificados. Nesse âmbito entram em jogo os processos educacionais, lembrando que não se trata apenas e estritamente de conhecimento advindo das ciências ou de conhecimento instrumental, mas de um conjunto mais amplo de meios de construção de compreensões que possibilitam viver melhor (GATTI, p.165, 2016).
Considerar a diversidade de condições nos níveis cognitivos, culturais, econômicos, individuais e sociais, não implica em engessar a formação do profissional docente sob a forma de currículos rígidos, mas em construir nos cursos de licenciatura que se propõem desenvolver tal formação, os meios para oportunizar um conjunto de ações para o desenvolvimento de habilidades com nível adequado para sua futura atuação profissional. Diante da ciência no contexto educacional, temos a seguinte pergunta: quais são as possibilidades de enfrentar desafios da educação em ciências para a formação de professores voltada para as questões de vulnerabilidade social e violação dos Direitos Humanos, tão presentes no sofrimento das crianças e adolescentes em seus contextos sociais?
Apresentamos neste trabalho uma ação docente em busca de um tratamento complexo para problemas socioambientais de relevância atual, buscando avançar em relação a abordagens didáticas reducionistas, fragmentadas e encapsuladas
(ENGESTRÖM, 2002). Cabe aqui comentar que abordagens orientadas para uma simplificação do conhecimento científico, que conduzem a explicações superficiais ou equivocadas, representam a fragilização da ciência e seu ensino.
## Aos ataques à ciência, a ética da razão humana na formação de professores
Vivemos um momento político brasileiro de instabilidade institucional e de direitos humanos em que a ciência vem passando por situações das mais angustiantes, fraturantes e degradantes da nossa história. Frigotto, em entrevista a Severo (2019), considera que este momento é uma regressão do ponto de vista do conhecimento e do ponto de vista da cidadania. Sabemos que pesquisas são fundamentais para o país avançar em direção ao desenvolvimento econômico, com inclusão social, respeito aos direitos humanos e sustentabilidade ambiental. Para Frigotto em palestra 1 , a saída nossa não é outra se não a resistência ativa, uma resistência em que a nossa visão não é o ódio, é o diálogo, o debate, o contraponto, e implica a busca da unidade e da institucionalidade. A temeridade em negar evidências científicas na definição de políticas públicas coloca o ato de lutar pela ciência como um dever de todos os cientistas/educadores.
Assim, diante da possibilidade de um cenário futuro mais pessimista, também no contexto da formação de professores, a hora não é para se abater ou desistir. Estas questões nos colocam inseguranças para elaborarmos intenções na construção do projeto de vida em sociedade mas, por outro lado, possibilitam e nos provocam a estabelecer mecanismos de resistência que denunciam e anunciam as deformidades constituídas pela conjuntura política e histórica do nosso país, por meio da cibercultura, dos movimentos sociais e da imprensa séria. Ainda bem que as vozes dos aliados da ciência não foram silenciadas impositivamente. O debate público continua e a proposta deste trabalho é que a escola dele participe.
## O Ensino e Desenvolvimento de Projetos e os Direitos Humanos
Aproveitando a oportunidade que essas questões tão urgentes e resultantes do nosso momento histórico nos colocam, aumentamos o volume das nossas vozes para apresentarmos este trabalho direcionado a todos, sem exceção. Ele é uma das peças fundamentais do quebra-cabeça de uma disciplina chamada Ensino e Desenvolvimento de Projetos (EDP), oferecida por um Instituto de Física de uma universidade pública do Rio de Janeiro, como oportunidade para integrar licenciandos de Física, Biologia e Pedagogia e ministrada na perspectiva da codocência 2 por duas formadoras, uma de Física e a outra de Biologia, tendo como foco a aprendizagem expansiva 3 para o ensino de ciências.
A junção dos três cursos de licenciatura potencializa o diálogo entre as áreas humana - Pedagogia - e das ciências da natureza - Física e Biologia. Por que incluir a Pedagogia na formação de professores de Ciências? O curso de graduação em Pedagogia tem como objetivo formar professores para os anos iniciais do ensino fundamental de crianças, jovens e adultos, com atenção para a inclusão de alunos portadores de necessidades educativas especiais. Além disso, o estudante de Pedagogia deve ter o interesse pela pesquisa, por problemas educacionais, científicos e culturais. Portanto, a manutenção contínua de um canal de formação para o ensino de ciências entre os Institutos de Física e Biologia e a Faculdade de Educação propicia caminhos prolíferos para interação e desenvolvimento de projetos. Tal aproximação tem sido feita por meio da disciplina EDP (SANTOS et al, 2019, QUEIROZ; DOMINGOS, 2017), entre outras iniciativas de colaboração promovidas pelo projeto LIFE 4 , estabelecido em nossa universidade desde 2013.
Os temas explorados e espiralados nesta disciplina possuem quatro vertentes sustentadas por diálogos interdisciplinares: Consciência Planetária , Condições para a Vida na Terra , Processos Fundamentais para a Vida Complexa e Educação para os Direitos Humanos . Olhar as formas de quebrar o isolamento disciplinar no curso de licenciatura possibilita problematizações para projetos e pesquisas. Diante da necessidade de romper com os 'prelúdios' e imediatamente deslocar-se para a objetividade sem precedentes na formação disciplinar, à qual os licenciandos foram submetidos ao longo do curso de graduação, a interdisciplinaridade se constitui como uma estratégia essencial para dar conta da complexidade do conhecimento e para lidar com as mais variadas dificuldades que emergem no processo do ensinar e do aprender. A perspectiva de que qualquer indivíduo tem a capacidade de aprender, permeada pela experiência, a partir das condições oferecidas ou disponíveis, nos permite perceber que a formação é um processo que envolve o desenvolvimento de aspectos cognitivos, socioculturais e afetivos na construção ampla, dinâmica e contínua, tanto para o aluno quanto para o professor, constituídos como atores sociais deste processo.
O reconhecimento e a relevância do planeta, enquanto local de convivência, nos responsabiliza politicamente ou pelo menos deveria, e nos compromete incondicionalmente pela ética, às ações de preservação, sustentabilidade e pelas buscas incessantes da qualidade de vida e do ambiente saudável para todos os seres, independentemente da sua natureza. Nesta perspectiva, na busca por uma educação brasileira empenhada com a formação de sujeitos de direito, concordamos com Candau (2012) quando defende a educação em direitos humanos como um componente do direito à educação e elemento fundamental de sua qualidade, articulada entre direitos da igualdade e direitos da diferença, como uma exigência do momento atual. Buscamos ainda o pensamento de Cortina (2007) que nos aponta a necessidade de pensarmos sobre um novo cenário de ética cidadã, aquela que ultrapassa os limites de uma ética constituída puramente a partir da razão processual, para uma ética de razão humana integral, por ela denominada razão cordial . Para Cortina, a ética da razão cordial é uma autêntica comunicação - entendimento comum e um sentir comum; estrutura cognitiva somada a uma estima de valores;
desenvolvimento de uma técnica de argumentação, sem deixar de lado uma sintonia com violações aos direitos humanos por meio de narrações, testemunhos, histórias de vida, levando assim em conta aspectos afetivos, estima, apreço, carinho e sentimento pela dor do outro.
Atualmente, temos os refugiados climáticos e de guerra como tristes exemplos para problematizarmos as questões sobre a necessidade de refletirmos sob os princípios da ética cordial , entre eles o empoderamento de sujeitos descuidados pelos governos em seus direitos. No Brasil, ampliamos a reflexão com exemplos sobre as manchas de petróleo que invadiram recentemente o nosso litoral, com consequências ambientais, econômicas e sociais às comunidades locais, devido às circunstâncias de um provável acidente com um petroleiro venezuelano 'fantasma' que circulava pelos oceanos na tentativa de burlar o embargo do poder econômico norte americano. Essas e outras questões precisam urgentemente estar na pauta de discussão nos ambientes educacionais e assim a formação de professores eleva seu patamar na responsabilidade das licenciaturas.
Assim, com o olhar atento aos direitos à vida saudável, o fenômeno da flutuação emerge no cenário das discussões deste trabalho como disparador de interesses para explicar o protagonismo no planeta de um grupo de microrganismos, conhecido como fitoplâncton (QUEIROZ; DOMINGOS, 2017). Quais são as relações entre o fenômeno da flutuação do fitoplâncton e a garantia do direito ao ambiente saudável para uma sociedade mais cordial, justa, solidária e democrática?
## Percurso metodológico
Este trabalho é parte de uma pesquisa de doutoramento em andamento que optou pela videogravação durante o ano de 2019 como estratégia para reunir os elementos emergentes em um conjunto de aulas da disciplina EDP, com a clareza que registros audiovisuais não são evidências do real; são produções quase tão subjetivas e pessoais quanto o diário de campo e isso deve ser levado em conta no momento da análise.
- O conjunto de informações obtidas a partir da videogravação das aulas sobre fitoplâncton, flutuação dos corpos e direito a um ambiente saudável gerou dados que possibilitaram a elaboração de textos no formato de enunciados narrando as histórias de quatro encontros entre as professoras formadoras (uma de Biologia, BIO e outra de Física, FIS) e a turma heterogênea de licenciandos (5 de Biologia, 4 de Física e 6 de Pedagogia nominados B1...; F1...; P1...), totalizando 12 horas no campo.
A abordagem dialógica nas aulas visa aprendizagens expansivas que transformam indivíduos isolados em seres que encontram sentido nas explicações da ciência e se tornam capazes de agir coletivamente em busca de justiça social. As análises aqui realizadas encontram sustentação em BAKTHIN (2009), para quem 'cada enunciado é um elo na corrente complexamente organizada de outros enunciados . '
## Os enunciados como um conjunto de sentidos
A partir das imagens nos slides que mostravam as dimensões de uma colorida e bonita variedade de fitoplâncton com cadeias formadas por várias e variadas células,
as professoras BIO e FIS abriram uma série de discussões com os alunos sobre as características, movimentação e sensibilidade aos fenômenos luminosos e magnéticos mais intensos desta forma de vida aquática. O recorte das docentes nesse momento foi mostrar inúmeros formatos dos micro-organismos apresentados, destacando a presença de óleos graxos no interior das células que ao mesmo tempo que servem como reserva de energia, facilitam a flutuação e possibilitam a produção de oxigênio via fotossíntese. Neste momento, a professora BIO pergunta para os alunos:
## - O que isso tem a ver com a flutuação?
Aproveitando a oportunidade, a professora FIS retomou sucintamente a ideia de líquidos que não se misturam, como o óleo e a água. Instantaneamente, os alunos associaram os conceitos de empuxo e densidade com as características relacionadas à flutuação destes micro-organismos na zona eufótica da coluna d'água dos oceanos. A Matemática foi então trazida de forma explícita, na forma de uma equação, apresentada em um slide no qual havia elementos que puderam evidenciar ações de complementaridade de ambas áreas do conhecimento: de um lado, a Física apropriando-se de uma equação matemática (equação de Stokes 5 ) para calcular a velocidade de sedimentação de uma partícula esférica e do outro lado a Biologia acrescentando um fator empírico relativo à forma dos micro-organismos, como variável importante no valor da velocidade com que eles caem e se sedimentam no solo: quanto mais a forma se afasta da forma esférica, simétrica, maior o fator e menor a velocidade de sedimentação, melhorando a flutuação na zona eufótica.
Curiosamente, o aluno B1 elabora discretamente um questionamento para FIS, denotando uma aprendizagem expansiva:
- -É incrível! Como o fitoplâncton com dimensões microscópicas consegue realizar o fenômeno da flutuação a partir do empuxo e da densidade?
A fala deste aluno dá início a um diálogo entre os estudantes participantes, após insistentes perguntas das 2 professoras sobre o que era o mais incrível nesse conhecimento novo:
- - Essa luta para a flutuação, para ficar lá em cima. (B4).
- - As formas. Tem muitas formas, muitos seres diferentes fazendo a mesma coisa. (F2).
- - Pelo que foi entendido, é de onde se origina o Oxigênio, através da luta pela flutuação. (P1)
sedimentação, g (m s -2 ) é a aceleração gravitacional, d (m) é o diâmetro de uma esfera de volume idêntico ao da alga, 𝜌 ' é a densidade específica da alga que está sedimentando (kg m -3 ), 𝜌 é a densidade do meio fluido (kg m -3 ), ƞ é a viscosidade do meio (kg m -1 s -1 ) e Φ é o fator da resistência pela forma à sedimentação. Este é um número adimensional que expressa o fator pelo qual a velocidade de sedimentação de uma partícula qualquer difere da de uma esfera de volume e densidade idênticos (PADISÁK et al . 2003).
- Eu acho bem interessante saber que a gente tem micro-organismos trabalhando para que o Ecossistema funcione. Mas, é um pouco complexo para eu entender, também. Mas, está fluindo. (P1).
Demonstrando de acordo com os estudantes, FIS acrescenta :
- - Exatamente. É isso que é o incrível: que seres tão pequenininhos sejam responsáveis pela nossa vida, nós que somos tão maiores. Então, a gente depende disso. E, por isso, poluir isso, é.... (FIS).
O questionamento de B1 permitiu ainda às formadoras cogitarem possibilidades de mais um conhecimento interdisciplinar a ser pesquisado, o da existência de uma outra força neste sistema, capaz de auxiliar o mecanismo que sustenta o fenômeno da flutuação dos micro-organismos.
Evidenciando co-aprendizagem entre FIS e BIO durante o planejamento anterior à aula, FIS disse 'delicadamente': a Biologia foi lá e consertou a fórmula da Física , mostrando para os alunos a inserção de um fator chamado coeficiente de resistência pela forma que evidencia a existência de algumas formas que têm mais ou menos facilidade de sedimentação (afundamento).
A interdisciplinaridade na construção do conhecimento científico em questão levou à reflexão sobre a natureza da ciência, tendo a professora FIS discutido com o grupo de alunos uma recorrente questão sobre a Natureza da Ciência (CHALMERS, 1993).
-O que vem primeiro: a teoria ou a observação? (FIS)
Em seguida FIS relata algumas pesquisas de Biologia comportamental animal que se apropriaram de metodologias que utilizam a modelagem matemática feita previamente à empiria, relatando que, antes de ir a campo os cientistas elaboram equações diferenciais teóricas envolvendo os elementos conhecidos como favoráveis e/ou desfavoráveis à procriação de determinados grupos de animais.
Na sequência da aula, aproximando o ensino de ciências aos direitos humanos BIO questiona os alunos:
- -Que relações, que pontes, a gente consegue estabelecer entre essa vida microscópica e o direito de um ambiente saudável, íntegro?
Neste momento a aula se volta à problematização da diferença do tratamento das águas oferecido a populações economicamente diferenciadas e dialoga com o direito ao ambiente saudável, considerado internacionalmente no âmbito dos Direitos Humanos. Sustentamos com este trabalho que na formação de professores seja possível articular as epistemologias das diferentes ciências envolvidas e a didática para que tenhamos a teoria e prática como uma unidade intrínseca de ensino e pesquisa sobre questões relacionadas à Natureza da Ciência que incluem os direitos humanos, em prol de mais justiça social.
## Considerações
Mostramos neste trabalho, a partir da codocência e do diálogo como geradores de compreensões conceituais e atitudinais que é possível pensar na educação em ciências que desejamos nas escolas, uma ciência impregnada de um conjunto de saberes construídos culturalmente por atores sociais inseridos no contexto histórico atual de crise socioambiental. Neste trabalho e na tese em andamento trazemos
evidências de que os sujeitos em formação puderam se situar criticamente e com autonomia para enfrentar problemas atuais, como: meio ambiente, diferenças sociais e direitos à vida saudável.
A aprendizagem expansiva se fez efetiva ao promovermos a interação de alunos das ciências humanas e das ciências da natureza em torno de questões e temas interdisciplinares, delineando um caminho para o empoderamento dos sujeitos, a partir do conhecimento construído, favorecido pela ação pedagógica realizada. Nesta aprendizagem não encapsulada 6 , os alunos demonstraram um desenvolvimento conceitual e atitudinal tendo a vida como foco, caracterizando uma aprendizagem expansiva.
O conjunto de elementos fornecidos por essa pesquisa permite que os sujeitos formadores e formandos possam continuar a dialogar sobre o tema e pensar criticamente nas possibilidades da luta pela garantia de uma sociedade mais justa.
## Referências
BAKTHIN, M, (Volochínov). Marxismo e Filosofia da Linguagem. 13ª Ed. São Paulo: Hucitec, 2009.
CANDAU, V. M. F. (2012). Direito à educação, diversidade e educação em direitos humanos. Educação & Sociedade , 33 (120), 715-726.
CHALMERS, Alan Francis; FIKER, Raul. O que é ciência afinal? São Paulo: Brasiliense, 1993.
CORTINA, A. Ética de la razón cordial: Educar em la cidadania em el siglo XXI. Llanera (Asturias), Ediciones Nobel. 2007.
ENGESTRÖM, Y. Aprendizagem expansiva. 2ª Edição - Campinas, SP: Pontes Editores, 2016.
ENGESTRÖM, Yrjö. Non scolae sed vitae discimus: Como superar a encapsulação da aprendizagem escolar. Uma introdução a Vygotsky. São Paulo: Loyola, v. 987, 2002.
GATTI, B. A. Formação de professores: condições e problemas atuais. Revista internacional de formação de professores, v. 1, n. 2, p. 161-171, 2016.
QUEIROZ, G. R. P. C.; DOMINGOS, P. Flutuação dos corpos e a vida. In: Silvania Nascimento e Mara Regina Batista. (Org.). Interdisciplinaridade para além da sala de aula. Belo Horizonte: ROLIMÃ, v. único, p. 39-57, 2017.
PADISÁK, J.; SORÓCZKI-PINTÉR, É.; REZNER, Z. Sinking properties of some phytoplankton shapes and the relation of form resistance to morphological diversity of plankton-an experimental study. In: Aquatic biodiversity. Springer, Dordrecht, p. 243257, 2003.
ROTH, W.M., TOBIN K.G. From praxis to theory. Teachers and Teaching, 10 (2), p. 161-180, 2004.
ROTH, W.M.; TOBIN, K.G. Teaching together, learning together. Peter Lang, 2005.
SANTOS A.G.F., QUEIROZ G.R.P.C, DOMINGOS P., CATARINO G.F.C. A formação de professores de ciências na perspectiva interdisciplinar sobre a flutuação para vida no planeta: pelos caminhos da codocência. Ensaio: Pesquisa em Educação (online), v.21, p.1/1983-2117-20, 2019.
SEVERO, R., FRIGOTTO G.: um diálogo sobre o contexto político e educacional brasileiro. Conjectura: Filos. Educ., Caxias do Sul, RS, Ahead of Print, v. 24, e019021, 2019.
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