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A PROPOSTA DO ESTÁGIO CURRICULAR SUPERVISIONADO DE CURSO DE LICENCIATURA EM CIÊNCIAS COM HABILITAÇÃO EM FÍSICA CONFORME AS ORIENTAÇÕES PRESENTES NO MANUAL ORIENTADOR

José Ricardo Da Silva Alencar, Odete Pacubi Baierl Teixeira

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XVIII
Ano
2020
Data
12/11/2020
Linha de pesquisa
Formação E Prática Profissional Do Professor De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

A PROPOSTA DO ESTÁGIO CURRICULAR SUPERVISIONADO DE CURSO DE LICENCIATURA EM CIÊNCIAS COM HABILITAÇÃO EM FÍSICA CONFORME AS ORIENTAÇÕES PRESENTES NO MANUAL ORIENTADOR

## THE SUPERVISED CURRICULAR INTERNSHIP PROPOSAL FOR A LICENSING COURSE IN SCIENCES WITH A PHYSICAL QUALIFICATION ACCORDING TO THE GUIDELINES PRESENT IN THE GUIDANCE MANUAL

José Ricardo Da Silva Alencar 1 , Odete Pacubi Baierl Teixeira 2

1 Universidade do Estado do Pará, jrsalencar@gmail.com 2 Universidade Estadual Paulista Julio Mesquita Filho, opbt@terra.com.br

## Resumo

O trabalho trata da formação inicial por meio da proposta materializada no Manual Orientador para o Estágio Curricular Supervisionado de um curso de Licenciatura em Ciências com habilitação em Física. O objetivo é analisar as orientações dadas nesse manual, as quais balizam as ações dos professoresformadores e dos estagiários para melhor aproveitamento da realização desse componente curricular. Toma-se por base para a discussão qualitativa a Análise de Conteúdo, sendo o corpus constituinte dos dados presentes no referido manual de orientação de estágio supervisionado. Conclui-se que existem indícios de se tentar superar a dicotomia do modelo de '3+1' com um tempo dentro da matriz curricular dedicado às componentes curriculares que desenvolvem saberes docentes e desenvolvimento de reflexões por meio de atividades propostas durante o Estágio.

Palavras-chave : Estágio Curricular Supervisionado, Física, Formação de Professores

## Abstract

The research deals with the initial formation through the proposal materialized in the Guidance Manual for the Supervised Curricular Internship of a Science Degree course with a Physics qualification. The objective is to analyze the guidelines given in this manual, which guides the actions of teacher-trainers and interns to better take advantage of the realization of these curricular components. It is used as a basis for qualitative discussion in Content Analysis, with the corpus constituting the data present in the supervised internship guidance manual. We conclude that there are signs of overcoming a dichotomy of the "3 + 1" model with a time within the curricular matrix dedicated to curricular components that develop teachers and develop reflexes through activities studied during the internship

Keywords : Supervised Curricular Internship, Physics, Teacher Education

## Contextualizando o Estágio Curricular Supervisionado da Instituição de Ensino Superior formadora de Professores de Física

Com efeito, atualmente as Instituições de Ensino Superior (IES) de formação de professores buscam superar o clássico modelo 3+1 (três anos de disciplinas específicas da ciência mais um ano de disciplinas pedagógicas). Muitos cursos refizeram seus currículos de modo a superar a separação entre teoria e prática docente. Buscaram alinhavar mais organicamente os saberes teóricos e os práticos de docência oriundos das críticas da literatura especializada. Por exemplo, incorporaram maior relação entre conteúdos específicos e a formação pedagógicodidática de maneira mais convergente para a formação do saber do professor, culminando em estágios supervisionados como componentes curriculares formativos onde há o espaço de aprendizagem dos saberes docentes.

Será que de fato esse modelo dicotômico é predominante ainda nos currículos de licenciatura? Muito embora, tenham ocorrido mudanças significativas nos cursos de licenciatura no país, Pimenta e Lima (2012, p. 33) atestam que muitos ainda não fundamentam a atuação do futuro profissional e não priorizam prática docente como referência para a fundamentação. Estes autores ainda notam que, em geral, os currículos possuem apenas uma união de disciplinas apresentadas sem articulação com os reais objetivos que as deram origem no momento da constituição do curso de licenciatura.

Acreditamos na utilização da sala de aula como local prioritário na formação de novos professores, pois permite: iniciação no campo principal de atuação da profissão, construção da identidade, exame crítico sobre a escola na perspectiva de não mais ser aluno, compreensão mais adequada da estrutura e funcionamento do sistema escolar, desenvolvimento do saberes docentes, em especial saberes experiências, articulação dos diferentes saberes construídos ao longo da formação, teste e avaliação reflexiva das propostas de ensino, desenvolvimento dos processos de reflexão-ação-reflexão.

- O processo reflexivo é um elemento primordial que permite o desenvolvimento do saber dos professores na formação inicial (CARVALHO; GILPEREZ, 1998; GAUTHIER, 1998). Ao propor momentos de reflexão sobre a ação pedagógica, o Estágio Curricular Supervisionado (ECS) pode se tornar uma fonte geradora que possibilita a construção de saberes (TARDIF, 2002; TARDIF; GAUTHIER, 2001). Assim sendo, quando se busca durante a formação inicial promover a reflexão por meio da ação docente inicial para que se investigue a própria prática, é possível formar para observar o fenômeno escolar por diversos olhares incluindo empaticamente o olhar do aluno, permitindo uma descentração de si que, como professor, acaba focalizando apenas o processo de ensino, muitas vezes esquecendo o processo de aprendizagem do outro.

Tal ação reflexiva e formativa pode auxiliar no desenvolvimento de conhecimentos da profissão professor que permita o uso de didáticas que beneficiem os diferentes alunos em uma sala de aula. Pode-se imaginar que será possível alcançar os esquemas cognitivos dos mais variados tipos de alunos e, destarte, poder ajudar no desenvolvimento dos conhecimentos dessa nova geração que frequenta nossa escola. Conforme nos ensina Darling-Hammond (2014), é necessário desenvolver a habilidade de sair de si, descentrando o processo de

ensinar além da própria perspectiva e saber se pôr no lugar do aluno entendendo, ou buscando entender, o processo de aprendizado.

Gauthier (1998) e Tardif (2002) nos alertam sobre currículos fundamentados na racionalidade técnica serem inadequados à realidade atual da prática profissional dos docentes. Frequentemente, tal modelo separa teoria e prática priorizando formação teórica em detrimento da prática, vista apenas como aplicação de conhecimentos teóricos. Nesse sentido, eles apontam que é preciso se formar com base numa racionalidade prática em que a reflexão contínua deva ser a base da formação docente.

Pereira (1999) entende que as atuais políticas para formação de professores têm um discurso consonante com esse novo modo de conceber a formação, rompendo com o modelo anterior. Tal entendimento recomenda práticas docentes já nos primeiros anos da formação inicial organizadas de tal modo que os problemas e questões decorrentes dessas práticas sejam levantados para discussões nas disciplinas teóricas. Esse também é nosso entendimento, mas lançamos a ressalva de que não basta existir oficialmente e não realizar um processo estruturado e interrelacionado com todo o corpo docente formador de novos professores, pois pode-se acabar na possibilidade de uma formação à semelhança da racionalidade técnica em que os formadores de estágio não têm nenhuma conexão com as outras disciplinas do curso.

- O Estágio Curricular Supervisionado (ECS) se configura como um componente curricular que, ao ser relacionado com o praticum reflexivo proposto por Schön (1992), promove o aprender fazendo refletindo sobre essa ação que, para nós, assevera que a experiência de ensino planejada e refletida é tão importante quanto os conhecimentos científicos da Ciência Natural ensinada. Consequentemente, o ensino dos professores tem sido foco de estudos, pesquisas que levantam questões para se clarificar e, com isso, contribuir na melhoria da formação de professores. Este trabalho é parte de uma investigação maior para uma tese de doutoramento em Educação para a Ciência, cujo tema versa sobre mobilização de saberes docentes e ECS, pois pretendemos contribuir com esta tentativa de aprimoramento da formação docente.

Atualmente, o ECS, conforme indica Pimenta (1999), deve ser um articulador entre teoria e prática na formação dos futuros profissionais docentes como um campo de aprendizagem e conhecimento. Isso pode tornar favoráveis as condições para que o docente em formação possa observar, realizar e repensar com critérios mais analíticos pautados em saberes profissionais a sua própria atuação. Isso se dá, pois, a partir de situações vivenciadas no cotidiano da prática pedagógica na escola, o licenciando pode fazer uma ressemantização das teorias e das propostas de práticas educacionais adquiridas via formação acadêmica (ou de outras fontes) até o momento dessa vivência.

- O ECS é um componente curricular estruturante na formação de futuros professores que buscam materializar esses eixos articuladores, sendo indicada nos Projetos Pedagógicos de cada curso de licenciatura da universidade. Para o Ministério da Educação na Lei 11.788 de 25 de setembro de 2008 que dispõe sobre os ECS dos estudantes, o estágio é para educar no ambiente de trabalho. Esta lei indica que o estágio supervisionado faça parte do Projeto Pedagógico do Curso, sendo um caminho formativo cujo objetivo é a preparação para o trabalho dos futuros docentes. É realizado no futuro local de trabalho (escola) e busca

proporcionar aprendizado de competências docentes para o desenvolvimento das suas atividades profissionais (BRASIL, 2008).

Utilizamos o recorte metodológico da Análise de Conteúdo (AC) de Bardin (2009) para o processo de análise e de inferências dos conteúdos presentes no manual do Estágio do Curso de Licenciatura em Ciências com habilitação em Física e, assim, discutir as possibilidades formativas com base no desenvolvimento de saberes docentes. Realizamos a pré-análise com leitura flutuante, a exploração sistemática tendo em vista nosso objetivo sobre saberes docentes e o tratamento qualitativo dos conteúdos existentes no material nos permitiu inferências e conclusões que ora apresentamos.

A matriz curricular do Curso de Licenciatura em Ciências com habilitação em Física de uma universidade pública da Região Norte do País que ora analisamos tem uma organização de oito semestres letivos, funcionando por meio de regime semestral, com disciplinas de cunho científico-cultural, de prática de ensino, de estágios supervisionados, de Atividades Complementares de Graduação e Disciplinas Complementares de Graduação.

Tendo essa matriz sido feita ainda sob a orientação da Resolução CNE/CP nº 2/2002 (BRASIL, 2002) que versa sobre a duração e a carga horária dos cursos de licenciatura, de graduação plena, de formação de professores da Educação Básica em nível superior, o curso apresenta quatrocentas horas (400h) de Prática como Componente Curricular e quatrocentas horas (400h) de ECS a partir do início da segunda metade do curso, ou seja, no 3º e 4º ano de curso serão 400 h realizadas tendo como nomenclatura: Estágio Supervisionado I - 100h: Vivências em Espaços Não-Formais, Estágio Supervisionado II: Vivências no Ensino Fundamental - 120h, Estágio Supervisionado III: Vivências no Ensino Médio-Parte I- 100h (ECS III) e, por fim, Estágio Supervisionado IV: Vivências no Ensino Médio Parte II - 80h (ECS IV). Há uma grande distribuição de tempo com uma tendência maior para a formação do professor do Ensino Médio. Existem mais duas componentes curriculares de ECS também para o nível Fundamental e a inclusão de espaços não-formais.

Apontamos aqui, portanto, uma tentativa de se superar a dicotomia de saberes ou a hegemonia que prioriza conteúdos específicos da ciência a ser ensinada (Física), preterindo os conhecimentos didáticos e pedagógicos ou que articulem teorias e práticas. O curso de Licenciatura adota quase 1/3 ou 36% de disciplinas de cunho didático-pedagógico (36% é aproximadamente 1.260h do total do curso de 3.440h), espera-se nessas disciplinas a necessária relação entre teoria e prática formativa para a docência. A carga horária das disciplinas de ECS representa, pelo menos, 1/8 do total de horas destinadas à formação do futuro professor. Abrindo possibilidades de se realizar em diversas realidades institucionais ou em espaços alternativos a preparação oferecida no ECS. Isso permite uma variedade de práticas docentes acompanhadas e refletidas juntas com um professorformador.

Para isso, neste trabalho, questionamo-nos se o manual que orienta professor-formador e estagiários do curso de Licenciatura em Ciências com habilitação em Física já aponta para a superação da dicotomia '3+1' (3 anos de formação específica e mais 1 ano de formação pedagógica) fazendo do estágio um campo de desenvolvimento de saberes docentes.

## Sobre o manual de orientação de estágio supervisionado do curso de ciências naturais

Em relação à disciplina de ECS do Curso de Licenciatura em Ciências Naturais com habilitação em Física que representa o momento de formação na escola do ensino básico do futuro professor, algumas questões tácitas são formadoras de ações pedagógicas que constituem esse componente curricular. Por exemplo: contributos significativos para a formação do profissional professor; articulação orgânica que deve acontecer entre os conteúdos específicos da ciência e os saberes e procedimentos de ensino e de aprendizagem durante a disciplina; articulações presentes entre a teoria (diversas ciências) e prática professoral na ação do estagiário; reflexões feitas sobre saberes docentes, ações pedagógicas que foram de alguma forma trabalhadas nas disciplinas do curso de licenciatura.

- O próprio manual de ECS nos informa que o objetivo da disciplina é 'fornecer conhecimentos (competências e habilidades) práticos que auxiliem a desenvolver e aperfeiçoar os estagiários em preparação ao exercício da profissão de professor em espaços destinados para tal' (PARÁ, 2008, p. 7).

A conceituação de ECS fornecida pelo manual é:

- O Estágio Supervisionado é um componente curricular eminentemente prático que deve ser desenvolvida pelos alunos sob orientação permanente de professor(es) formador(es) com carga horária definida e forma de avaliação diversificada. Determinado e regido por lei devem ser de interesse pedagógico e entendido como uma estratégia de profissionalização que integra o processo ensino-aprendizagem a uma prática efetiva (id., p. 6).

Isso nos permite observar a tentativa de responder às novas exigências que esse componente curricular, qual seja, ser um campo de aprendizagem e de conhecimento para o futuro profissional docente.

Os termos 'inserção' em instituições, 'práticas' e 'vivência' são usados em diversos pontos do texto do manual o que nos indica um caráter de execução ou realização de situações professorais tão próximas quanto possível da realidade da profissão, sejam nos 'espaços de docência', sejam nos 'espaços voltados para a educação em Ciência'. Os objetivos específicos dos ECS tendem a corroborar com o objetivo geral quando apontam para um componente curricular eminentemente prático e que permitem vivenciar e utilizar estratégias metodológicas em instituições escolares ou espaços alternativos de ensino o exercício para a docência, pois pretendem inserir os estagiários em locais que permitam desenvolver o domínio da docência, bem como permitir a vivência de atividades e problemas cotidianos. Também fomentam o uso de estratégias metodológicas diferenciadas, assim como a inserção em instituições não-escolares (museus, planetário, laboratórios etc.).

- O manual aponta que os estagiários precisam lidar com uma prática docente em constante avaliação e com novas concepções sobre educação sendo incorporadas por meio da pesquisa de formação de professores.

Isso nos parece ser uma conseqüência das reformas introduzidas nas licenciaturas nas últimas três décadas de discussão sobre formação docente que buscam equilibrar o tempo de formação em Saberes dos conteúdos, Saberes pedagógicos dos conteúdos, Saberes pedagógicos gerais e Saberes curriculares. Já os Saberes da experiência são iniciados nas práticas de ensino e estágios supervisionados, tendo os Saberes da pesquisa inseridos de modo gradual em

programas de iniciação à docência ou em trabalhos acadêmicos que privilegiem tal saber.

Destarte o estágio nesta Instituição de Ensino Superior (IES) busca consolidar prática dos conhecimentos adquiridos ao longo do curso e 'oportunidade de familiarização com o futuro ambiente de trabalho com complementação da aprendizagem, tornando-se elemento de integração, em termos de aperfeiçoamento técnico, cultural e científico' (PARÁ, 2008, p. 4).

Destarte, com o intento de desenvolver saberes docentes, o manual preconiza como papel dos estagiários:

Ser assíduo, pontual, participativo e responsável no desenvolvimento de todas as atividades relacionadas ao Estágio Curricular; Apresentar relatório ao final do estágio Curricular; Trajar-se adequadamente, ter postura e compostura, pois é um representante da Instituição nas Unidades Concedente de Estágio; Cumprir as orientações do Professor de Estágio; Cumprir os preceitos éticos- profissionais durante a execução de suas atividades no estágio; Ter representação no Colegiado de Estágios Curriculares que deverão ser eleitos pelos Centros Acadêmicos da cada Curso e após esse processo de eleição, escolherão dentre os mesmos: um titular e um suplente por Centro, com mandato de um ano, com direito a uma recondução; Participar das atividades pertinentes às aulas instrumentais; Planejar e executar as micro aulas; Planejar e executar atividades relacionadas às Ciências Química, Física e Biologia em espaços não formais, como Museus, Planetários, Centros de Pesquisa e Instituições Comunitárias; Participar de eventos acadêmicos; Participar das atividades extra-curriculares desenvolvidas nos campos de estágio; Observar e participar das aulas de Química, Física e Biologia; Ministrar oficinas, cursos etc.; Participar de reuniões e/ou sessões de orientação e avaliação; Executar a regência de turmas (PARÁ, 2008, p. 11).

Tais deveres dos estagiários é, segundo o manual, 'objetiva a integração da aprendizagem acadêmica e a compreensão do cotidiano das Instituições' (id, p. 4). Assim, o futuro professor mostrará que ele terá capacidade de desenvolver suas atividades profissionais na escola ou em outros espaços. É nesse sentido a experiência dos licenciandos na sala de aula o modo preferencial de reorganização da própria percepção de ser professor. Gauthier, (1998) apontam que o saber pedagógico possui fragilidades e imprecisões e precisa ser confrontado com a experiência para validar ou não o saber pela ação pedagógica. Ao estipular alguns deveres do profissional em formação, o manual procura trazer a experiência dos códigos de conduta e afazeres de um professor no seu local de trabalho.

Temos, nesse ECS uma possibilidade de vivência, conforme o manual, do fazer docente num ambiente real - a escola, museus, planetários etc. -, um compromisso para promover o alargamento de visões dos novos professores. Duas atividades propostas parecem indicar a realização de um processo reflexivo durante o Estágio indicado no manual: elaboração de um artigo das intervenções didáticas e elaboração de relatórios analíticos da regência (PARÁ, 2008, p. 15). Isso porque o processo de escrita junto com outros momentos de reflexão em sala de aula, como rodadas de conversas após realizações de regências, podem desenvolver saberes ou, ao menos, explicitar a necessidade de desenvolvimento de saberes disciplinares, pedagógicos, curriculares etc. O manual nos parece, portanto, defender uma postura dentro do contexto do modelo de formação reflexivo, que busca mitigar os problemas apresentados no modelo técnico de formação. Se no modelo técnico o professor apenas é um transmissor eficiente de conteúdos, no modelo reflexivo,

conforme Schön (1992), o professor valoriza a reflexão como elemento importante de sua prática.

- O manual descreve as atribuições do professor-formador e do alunoestagiário: o professor deve, de modo geral, planejar, orientar, acompanhar e avaliar as atividades para o Estágio, e o estagiário deve se comportar adequadamente ao local de trabalho, planejar e executar aulas ou atividades pedagógicas afins à prática de ensino, participar de atividades no campo de estágio ou relativos à academia, bem como apresentar relatório de sua vivência no campo de estágio.

As atribuições descritas nesse manual nos parece considerar o ECS apenas uma parte eminentemente prática do curso. A maior quantidade de verbos empregados são de cunho prático, a saber: Registrar, Avaliar desempenho, Fazer cumprir carga horária, Distribuir alunos pelos campos, Acompanhar desempenho, frequência, atividades, Orientar atividades, elaboração de relatórios. Sendo a única exceção de atribuição se trata de 'Orientar na construção relação teoria x prática'.

Consideramos atribuir um caráter apenas prático uma visão limitante que é criticada por pesquisadores no campo da educação, como Pimenta (2010). Já assumimos aqui que o estágio necessita ser um momento de aprendizagem, de aquisição, retificação, ressignificação de saberes e não apenas de experiência, prática ou técnicas. Existe, evidentemente, a possibilidade da ação concreta do professor orientador de tornar o ECS um momento de reflexão e aprendizagem de saberes, mas dependerá de certa propensão diferenciada de formação de futuros professores.

Apesar de ser identificado como um tempo de aprendizagem e conhecimento, os objetivos tanto de professor quanto de aluno apontam para ser uma prática onde os saberes envolvidos não estão explicitados. As atribuições para os alunos ('ser', 'trajar-se', 'cumprir', 'participar', 'observar', 'planejar', 'executar') não trazem clareza na argumentação de estágio como espaço de aprendizagem, não indicam que saberes devem ser explicitados e desenvolvidos na execução do ECS. Não encontramos em nenhum outro ponto do manual algo do gênero.

## Considerações para formação de professores

Sobre nosso questionamento que orientou nossa análise do manual do Estágio, podemos concluir que as conceituações, objetivos e orientações para realizar o ECS como componente curricular já apontam para uma tentativa de superar a dicotomia do modelo de '3+1', uma procura por formar profissionais mais completos e integrados com a presença de tempo formativo dentro da matriz curricular dedicado às vivências práticas para confronto e reflexões da teoria e prática da profissão docente. Sendo assim, existe a potencialidade de desenvolvimento de saberes docentes por meio de atividades propostas durante o ECS.

Com tal proposta formativa de uma epistemologia com vistas à prática, o ECS preconizado no manual procura evitar a monotonia cultural formativa de programas anteriores que foram criticados em inúmeras pesquisas por autores especializados na formação de professores. Assim se pode tentar superar por meio de experiências, percepções e bases de conhecimento que influenciam profundamente as abordagens para um aprendizado por parte dos alunos que seja muito mais rico de significado e mais adequado aos tempos atuais.

Questionamentos cada vez mais embasados em pesquisas podem dar um direcionamento de se buscar superar cada vez mais a dicotomia teoria e prática na formação de professores desenvolvendo saberes. Entendemos que o ECS analisado pode assumir pelos responsáveis e envolvidos por esse componente curricular, como um elemento integrador entre teoria e prática que permita aos estagiários a aplicação e a ressignificação da teoria aprendida ao longo de vários semestres de aprendizagem de saberes docentes.

## Referências

BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Resolução CNE/CP 2/2002 de 19 de fevereiro de 2002 . Institui a duração e a carga horária dos cursos de licenciatura, de graduação plena, de formação de professores da Ed. Básica em nível superior. Disponível em: <http://www.mec.gov.br>. Acesso em 13. fev. 2020.

\_\_\_\_\_\_\_. LEI Nº 11.788 - Dispõe sobre o estágio de estudantes; altera a redação do art. 428 da Consolidação das Leis do Trabalho - CLT. Brasília: MEC/SEB, de 25 de set. de 2008.

CARVALHO, A. M. P.; GIL-PÉREZ, D. Formação de Professores de Ciências: tendências e inovações. São Paulo: Cortez, 1998.

DARLING-HAMMOND, Linda. A importância da formação docente. cadernoscenpec | São Paulo | v.4 | n.2 | p.230-247 | dez. 2014. Disponível em: <http://cadernos.cenpec.org.br/cadernos/index.php/cadernos/article/view/293>. Acesso em 04. fev. 2020.

GAUTHIER, C. Por uma teoria da Pedagogia : pesquisas contemporâneas sobre o saber docente. Ijuí: Unijuí, 1998.

PARÁ. Manual de orientação de estágio supervisionado do curso de ciências naturais . Manual de Estágio Supervisionado, Coordenação do Curso de Ciências Naturais, Centro de Ciências Sociais e Educação, Universidade do Estado do Pará Belém-PA, 2008.

PEREIRA, Júlio E.. As licenciaturas e as novas políticas educacionais para a formação docente. In: Educação & Sociedade, ano XX, nº 68, Dezembro. 1999. Disponível em <http://www.scielo.br/pdf/es/v20n68/a06v2068.pdf>. Acesso em 17. mar. 2018.

PIMENTA, S. G. O Estágio na Formação de Professores: Unidade Teoria e Prática? São Paulo: Cortez, 2010.

PIMENTA, S. G.; LIMA, M. S. L. Estágio e Docência . 7. ed. São Paulo, SP: Cortêz, 2012.

SCHÖN, D. La formación de profesionales reflexivos . Hacia un nuevo desafío de La enseñanza y El aprendizaje en las profesiones. Barcelona. 1992.

TARDIF, M. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes, 2002.

TARDIF, M.; GAUTHIER, C. O professor como "ator racional": que racionalidade, que saber, que julgamento? In: PAQUAY, L. et al. (Org.). Formando professores profissionais: Quais estratégias? Quais competências? 2. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 2001.

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