HISTÓRIA E NATUREZA DA CIÊNCIA EM TEMPOS DE PÓS-MODERNIDADE
Jasmim Andrade Ezequiel, Luciene Fernanda Da Silva
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVIII
- Ano
- 2020
- Data
- 12/11/2020
- Linha de pesquisa
- Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## HISTÓRIA E NATUREZA DA CIÊNCIA EM TEMPOS DE PÓSMODERNIDADE
## HISTORY AND NATURE OF SCIENCE IN TIMES OF POSTMODERNISM
## Jasmim Andrade Ezequiel 1 , Luciene Fernanda da Silva 2
1 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (campus Nilópolis), jasmimandrade@hotmail.com
2 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (campus Nilópolis), luciene.silva@ifrj.edu.br
## Resumo
O acesso às notícias tem sido cada vez mais facilitado devido ao uso da internet. De modo geral, essa acessibilidade tem muitos aspectos positivos, porém, pode ser perigosa, visto que muitos conteúdos sem credibilidade podem ser divulgados rapidamente. O questionamento feito nesse artigo busca compreender a relação entre a criação de fake news nas Ciências e a escassez de temas associados à História e Natureza da Ciência nas escolas e no cotidiano. Para entender como se dá essa relação, um questionário foi respondido por quarenta estudantes do ensino médio a fim de que eles justificassem 'qual a forma da Terra?', 'o motivo de existirem as quatro estações do ano?' e 'por que ocorre um eclipse lunar?', além de alguns dados sobre acesso e obtenção de informações. Nossos resultados apontam que esses estudantes não mostraram senso crítico ao construírem suas justificativas devido a estarem tão afastados de informações científicas confiáveis. O ensino de Ciências nas escolas está servindo para criar cidadãos conscientes do sistema em que vivem? A quem serve o conhecimento científico e para quê? Esta pesquisa nos permitiu esses e outros questionamentos que ajudarão a fomentar trabalhos futuros a respeito dessa temática, que tem se tornado cada vez mais necessária nesses tempos sombrios.
Palavras-chave : Fake News , Pós-verdade, História da Ciência, Terra Plana
## Abstract
Access to news have been increasingly facilitated due to internet usage. This accessibility has many positive aspects, however, it can be dangerous as well since many uncreditated content can be rapidly disseminated. The line of questioning presented in this article aims to understand the relationship between the creation of fake news and the absence of associated themes in schools as well as everyday life. To understand how this takes place, forty high school students were asked to answer a questionnaire in which they justify questions such as "what is the Earth's shape", "why are there four seasons?" and "why does the lunar eclipse occur?", in addition to some data. Our results indicate that these students did not show critical thinking when constructing theirn justifications due to a desconnect from reliable scientific information. Is school Science classes creating citizens aware of the system in which they live? Whom is scientific knowledge for and what for? This research studies
these and other questions that will help to promote future works on this theme, which has become increasingly necessary in these dark times.
Keywords : Fake News, Post-truth, History of Science, Flat Earth.
## Introdução
As mídias sociais estão presentes na vida das pessoas de forma tão natural que seu desuso, cotidianamente, se tornou improvável. De acordo com pesquisa divulgada no jornal Estadão, 79,9% dos brasileiros possuem acesso à internet . 1 Devido à facilidade de acesso, tal meio de comunicação pode se tornar a principal fonte de pesquisa, e é possível que a maioria desses brasileiros não se preocupe em conferir se as centenas de informações acessadas são de fontes confiáveis ou se possuem alguma base científica. De acordo com Paula, Silva e Blanco (2015), na sociedade contemporânea (ou "sociedade pós-moderna"), por encontrar-se globalizada e interconectada pela internet, as informações possuem alcance mundial quase instantâneo. Os autores apontam também que os conteúdos são consumidos de maneira aleatória sem muito questionamento crítico.
No contexto de uma sociedade pós-moderna, o processo de disseminação desenfreada de 'pós-verdades" 2 se torna rotineiro, pois qualquer informação acessada pode satisfazer o interesse de quem pesquisa. Esse fenômeno tem se tornado cada vez mais comum nos meios de comunicação, onde são divulgadas informações políticas, históricas e científicas descontextualizadas, mal fundamentadas em fatos ou, até mesmo, falsas. É o caso, por exemplo, da crença de que a Terra é plana - objeto de trabalho dessa pesquisa.
Será que todas as pessoas que têm acesso às informações divulgadas na internet possuem clareza para identificar os desacordos compartilhados? Será que todos pesquisam diferentes fontes de notícia, livros ou artigos científicos para verificar o que estão consumindo? Independente das formas como essas informações são recebidas, é importante que todos tenham um senso questionador para que qualquer dado recebido não se torne uma verdade absoluta. No contexto das Ciências, 'a compreensão da natureza da ciência é considerada um dos preceitos fundamentais para a formação de alunos e professores mais críticos e integrados com o mundo e a realidade em que vivem' (MOURA, 2014, p. 32).
Visto isso, na intenção de entender e analisar como reduzir os efeitos que a pós-verdade pode causar na divulgação de notícias e conhecimentos científicos, o intuito do trabalho é buscar a possível relação entre a falta de contextualização histórica e de Natureza da Ciência na educação básica e a disseminação de fake news 3 na área.
## Janelas abertas para as fake news
É rotineira a especulação acerca de qualquer tema, e quando se trata de Ciências, as pessoas nem sempre têm as informações necessárias, podendo assim, dar credibilidade a qualquer informação recebida. Soares et al. (2018), em uma pesquisa entre alunos do ensino médio de duas escolas estaduais de UberlândiaMG, constataram que "apesar de 90 % dos estudantes terem considerado que uma notícia pode ser falsa, apenas 22 % deles informaram que sempre buscam por fontes no caso de compartilhar a notícia" (p. 10). A maioria dos alunos que participaram da pesquisa tende a verificar só o site que traz a matéria, atribuindo confiabilidade de acordo com a popularidade do site. Em relação à notícias que chegam a eles pelas redes sociais, 66,7 % indicam ler a matéria. Assim, notícias não confiáveis correm risco de serem propagadas e terem alcances inimagináveis.
Somado a isso, a desvalorização de fatos históricos e científicos em prol de interesses pessoais é cada vez mais nítida, assunto amplamente discutido nas Ciências Políticas há um tempo. Esse fenômeno da pós-modernidade também coloca em xeque as Ciências Naturais. Moraes (2014) discorre em seu artigo que
A rigor, embora propondo voltar-se para o presente e para o futuro, o discurso pós-moderno mantém seu horizonte fixado por este passado. Assim, coloca sob suspeita a confiança iluminista em uma razão capaz de elaborar normas, construir sistemas de pensamento e de ação e da habilidade racional de planejar de forma duradoura a ordem social e política (2014, p. 46).
O autor define, ainda, que o discurso pós-moderno se trata de um conceito 'guarda-chuva' pois dá, ao sujeito a capacidade de falar sobre qualquer assunto e debater qualquer argumento, seja científico ou não, com base em suas crenças. Assim, pois o sujeito pós-moderno, em seu discurso:
Questiona o sentido de uma racionalidade que se proclama fonte do progresso, do saber e da sociedade, racionalidade vista como locus privilegiado da verdade e do conhecimento objetivo e sistemático. Critica a representação e a idéia de que a teoria espelha a realidade, bem como a linguagem como meio transparente para idéias claras e distintas. (…) Crítica pertinente, como se vê, mas de inegável caráter idealista: o complexo de forças históricas que determinam o desenvolvimento social é omitido e na balança só figuram idéias difusas da ilustração (MORAES, 2014, p. 47).
É importante destacar como a pós-verdade entra em cena nas Ciências da Natureza, por exemplo, com a crença da Terra Plana, que já foi contestada há séculos, e ainda assim, tomam cada vez mais força, devido às divulgações nas redes sociais, ganhando adesão principalmente do público leigo. Em 2019, uma pesquisa da Datafolha indicou que 7 % dos brasileiros (cerca de 11 milhões de pessoas) consideram a Terra plana . 4
Silveira (2017) descreve como pode ter sido o surgimento do terraplanismo e a forma que se põe como o resgate de uma visão socioreligiosa, na qual se cria um ordenamento social a partir de uma determinada cultura:
A ressurreição - já no século XIX - da anacrônica concepção da Terra Plana, concepção esta que vigia em épocas remotas nas sociedades précientíficas (na China ela vigorou até o século XVII), é devida a Samuel
Rowbotham (1816-1885). Em seu livro de 1865, escrito sob o pseudônimo de Parallax, intitulado " Astronomia Zetética: A Terra não é um Globo! ", ele desenvolve a concepção da Terra Plana, apresentando pretensos resultados experimentais que a comprovam. O vínculo dessas ideias com um tipo de fundamentalismo religioso cristão está evidente na Fig. 10, uma representação de 1897 do terraplanista Orlando Ferguson. Na parte inferior da figura há um texto cujo título é 'Escrituras condenam a teoria do globo', seguida de diversas citações bíblicas (SILVEIRA, 2017, p. 8).
A seguir, encontra-se a figura 1, citada por Silveira (2010) acima:
Figura 1: Imagem da Terra Plana.
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Fonte: Silveira (2010).
A primeira ideia consolidada sobre características físicas da terra foi denotada por Eratóstenes ( 275- 194 a.C.) quando, a partir de uma simples experiência e alguns conhecimentos de geometria, foi exordial ao deduzir com precisão a circunferência da terra. Segundo Sagan (2017), Eratóstenes analisou a sombra de um bastão num solstício de verão (dia mais longo do ano) e percebeu que ela diminuía, até que, ao meio dia não havia mais sombra. Tempos depois, ele colocou um outro bastão em uma cidade a 800 quilômetros de distância e no solstício do ano seguinte, ao meio dia, na primeira cidade não havia sombra, mas na segunda, sim (ver figura 2). Eratóstenes mediu a angulação da sombra do segundo bastão e com alguns cálculos inferiu, assim, a medida da circunferência terrestre.
Figura 2 : Esquematização proposta por Erastótenes.Fonte: SAGAN (2017).
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Esse não foi o único estudo histórico acerca do tema, mas o experimento de Eratóstenes é uma forma simples e direta de demonstrar a forma da Terra. Por que, então, existem tantas discussões negacionistas? Será que os conceitos básicos sobre características básicas do planeta em que vivemos são abordados na escola?
## Metodologia
Com o intuito de analisar a base que alguns alunos do ensino médio possuem acerca de temas que envolve a forma do planeta, a pesquisa foi realizada em uma escola estadual de Nilópolis-RJ, com quarenta alunos de duas diferentes turmas da segunda série do ensino médio que responderam a um questionário. No Quadro 1 encontra-se o questionário que foi apresentado ao grupo.
## QUADRO 1 - Questionário utilizado na pesquisa.
## QUESTIONÁRIO
Bloco 1: Responda as seguintes questões de acordo com os conhecimentos e experiências adquiridos até hoje.
- 1- Qual sua opinião sobre a forma da terra? Justifique sua resposta.
- 2- Por que temos quatro estações do ano?
- 3- De acordo com seus conhecimentos, como ocorrem os eclipses?
Bloco 2: Responda o que se pede em relação ao seu contato com divulgação científica.
- 1- Qual(is) tipo(s) de obra(s) de divulgação científica você utiliza para obter informações e sanar suas dúvidas sobre ciências?
- ( ) Livros;
( ) Revistas;
( ) Vídeos;
( ) blogs;
( ) Redes Sociais;
- ( ) Outros. \_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
- 2- Com qual frequência tem contato com essas obras?
- ( ) Pesquiso quando tenho dúvida;
- ( ) Leio apenas informações que vejo nas redes sociais;
( ) Nunca leio sobre.
- 3- Você recorda algum exemplo de aprendizado adquirido a partir de obras de divulgação científica? Se sim, cite o exemplo e o tipo de obra que adquiriu a informação.
- 4- O que lhe faz confiar que o conteúdo dessas obras sejam verdadeiras?
Bloco 3: Responda as perguntas de acordo com o que você conhece sobre história e natureza da ciência.
- 1- Em sua percepção, o que diferencia o conhecimento científico de qualquer outro tipo de conhecimento?
- 2- O que você conhece sobre história da ciência? Cite alguns exemplos
- 3- caso você tenha conhecimentos sobre história da ciência, qual(is) desse(s) meio(s) você utilizou como fonte de pesquisa?
- ( ) Livros;
( ) Livro didático;
( ) Aulas na escola; ( ) Programas de TV;
- ( ) Visitas em museus;
- ( ) Conversando com professores ou amigos;
- ( ) Outros: \_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
Fonte: as autoras.
- O questionário foi dividido em três blocos de perguntas abertas e fechadas. O primeiro bloco visava avaliar a justificativa dos estudantes para três temas que costumam estar nas redes de notícias. O segundo bloco teve o objetivo de analisar
os meios que esses alunos utilizam para obter informações e o terceiro bloco investigou o contato que tiveram com discussões da História e Natureza da Ciência.
A primeira autora do trabalho realizou o estágio obrigatório do curso de licenciatura em física em uma das turmas dessa escola, portanto os alunos já a conheciam. O questionário foi aplicado por ela nessas turmas após a apresentação dos objetivos da pesquisa e o esclarecimento de que os dados não seriam utilizados como avaliação dos alunos ou da escola. As questões foram lidas em voz alta e a pesquisadora pediu para que todos as respondessem a partir de seus próprios conhecimentos, sem consulta à internet ou aos colegas
Para a análise de dados, as respostas de todos os questionários foram tabelados em planilhas. Com essa organização, procedeu-se à análise em profundidade, tanto das respostas dadas em cada uma das perguntas quanto no cruzamento de respostas dadas em diferentes perguntas pelo mesmo aluno. A pesquisa completa poderá ser acessada na monografia de conclusão de curso defendida pela primeira autora do trabalho Apresentamos, neste artigo, os principais . resultados e pontos de discussão.
## Discussão de resultados
É essencial conhecer aspectos que englobam o planeta em que vivemos, como suas características físicas, a formação do ambiente que nos cerca - entre outros - para que possamos estar situados sobre nossa realidade. A evolução do conhecimento científico precisa estar ao acesso de toda a sociedade. Assim, o primeiro bloco de perguntas foi referente temas desse tipo. De acordo com a Base Nacional Comum Curricular, uma competência específica do ensino médio é compreender aspectos da natureza que nos cerca:
Construir e utilizar interpretações sobre a dinâmica da Vida, da Terra e do Cosmos para elaborar argumentos, realizar previsões sobre o funcionamento e a evolução dos seres vivos e do Universo, e fundamentar decisões éticas e responsáveis (BRASIL, 2017, p. 541).
A primeira pergunta deste bloco tinha o intuito de examinar o conhecimento desse grupo de alunos sobre a forma da Terra. Quatro alunos acreditam que a Terra seja plana, baseando suas justificativas no que podem ver diretamente. Um aluno respondeu que não pensa sobre o assunto, enquanto o restante (35 alunos) respondeu que é redonda. Nesse último grupo, alguns responderam que viram imagens da Terra redonda na internet ou que ouviram sobre isso de seus professores ou de pessoas especializadas. Nenhum deles de fato apresentou argumentos que justifiquem a Terra ser redonda. Como já exposto, isso foi demonstrado por Eratóstenes de maneira acessível, porém nenhum aluno justificou sua resposta utilizando tal experimento ou qualquer outro argumento científico. Isso reflete desconhecimento de fatos relacionados à História e Natureza da Ciência.
Com relação à segunda pergunta do primeiro bloco, associada às estações do ano, somente dois alunos justificaram que elas ocorrem devido a inclinação do eixo da Terra. Sete não sabiam ou não responderam e 31 justificaram que elas precisam existir para a sobrevivência do planeta, que são apenas 'mistérios da natureza' ou que são assim porque 'Deus quis'. Isso demonstra, além da falência de um senso questionador em relação ao meio que os cercam, um desentendimento a respeito de relações de causas e efeitos. A questão da pesquisa se concentrava no "porquê" da existência e não na necessidade das estações para o planeta.
Em relação à terceira pergunta, sobre os eclipses, todos os alunos que a responderam demonstraram saber de forma ampla o que era um eclipse e como ocorria, mesmo que não conseguissem diferenciar o solar do lunar nas respostas analisadas (por exemplo, 'É quando a Lua passa na frente do Sol' ou 'quando o Sol fica atrás da Lua ou o contrário' ou 'quando a Terra fica alinhada com o Sol'). Como os eclipses tendem a ser assuntos costumeiros na Internet e TV (fontes que são amplamente utilizadas pelos estudantes, de acordo com a pesquisa) eles tiveram mais facilidade em recordar uma explicação geral sobre o fenômeno. É nítido como um assunto periodicamente recordado nessas redes de comunicação é, de certa forma, compreendido pelos estudantes, já que existem diferentes fontes que explicam, ludicamente, como ocorre um eclipse e essa exposição sempre vem à tona quando o fenômeno astronômico ocorre.
Quanto às perguntas Bloco 2, 26 estudantes responderam utilizar vídeos na internet e/ou as redes sociais como fontes de pesquisa. Quase todos os alunos (36) disseram que pesquisam sobre um tema quando têm dúvidas. Entre os temas científicos que recordam, um citou a ida do homem à Lua, outro disse ter aprendido sobre fotossíntese, entre outros que relataram ter aprendido algo sobre outros planetas. Quanto à confiança em relação a veracidade das informações buscadas, 31 estudantes disseram que pesquisam diferentes fontes de notícias, enquanto 8 não responderam ou disseram que confiavam em nada. A tendência em buscar conhecimento quando se tem dúvidas mostra que os alunos não as tiveram ou não consideraram importante pesquisar sobre temas científicos (vide respostas do Bloco 1). O desconhecimento os torna possíveis iscas de divulgadores de fake news.
No que se refere à primeira pergunta do Bloco 3, na qual buscávamos captar o que os estudantes entendiam como conhecimento científico, 25 alunos enxergam esse conhecimento de forma autoritária e absoluta. Nesse grupo, obtivemos respostas que reconheciam o conhecimento científico como aquele 'baseado em comprovações'; ou 'que parte de pessoas capacitadas'; ou, ainda, 'elaborados a partir de testes e provas' entre outras semelhantes que mostram uma visão ainda limitada de ciência. Um aluno respondeu que 'só acredito em Deus' e os outros 14 disseram que não sabiam ou deixaram a resposta em branco.
A segunda pergunta desse bloco buscava informações sobre o que conheciam sobre História da Ciência (HC). A maioria (34) não respondeu ou disse que não sabia. Os seis estudantes que disseram lembrar de assuntos relacionados à HC citaram como exemplo 'Darwin', 'fotossíntese', 'corpo Humano e os astros', 'Newton' e 'Revolução Industrial'. É importante salientar que a partir de tais respostas não é possível concluir se esses alunos se referem aos conteúdos científicos relacionados aos temas ou, de fato, à história associada à construção do conhecimento científico relacionado ao que escreveram. Ainda assim, essas respostas tornam nítida a escassez no acesso a conteúdos da HC. Porém, ao analisar a terceira pergunta do mesmo bloco, que busca dados referentes às fontes de pesquisa utilizadas para obtenção de informações sobre HC, os estudantes poderiam marcar mais de uma das opções (vide Quadro 1). Assim: 10 alunos marcaram ter visto temas de HC em Livros e/ou Livros Didáticos, 25 em aulas, 16 na TV. Doze não marcaram nenhuma das opções. Ou seja, 28 alunos disseram obter informações sobre HC- em diferentes meios, em especial, as aulas. Será que esse acesso foi eficaz?
Em função das respostas obtidas nessa pesquisa, é possível notar o escasso senso crítico entre esse grupo de estudantes e a facilidade em aceitar discursos de autoridade, já que eles parecem não pesquisar efetivamente sobre temas associados à natureza do mundo em que vivemos. Além disso, foi possível perceber que assuntos próximos as suas vivências (como eclipses, que sempre tem sua audiência nos meios de comunicação) se tornam mais naturais, visto que, entre as três perguntas do Bloco 1, a do eclipse foi melhor respondida pelo grupo. De toda forma, em geral, os estudantes se mostraram incapazes de responder questões referentes ao planeta que vivem e demonstraram um distanciamento do meio científico. Essa culpa cabe a eles?
## Conclusão
A pesquisa mostra que o acesso a assuntos associados a História e Natureza da Ciência é, ainda, distante para estudantes do ensino médio. Esses temas são importantes para aproximá-los da realidade que cerca as teorias e, assim, familiarizá-los sobre esses assuntos. A pesquisa foi feita com quarenta alunos de uma escola pública, mas pode ser um parâmetro para entender o motivo do surgimento de pós-verdades associadas à temas científicos, já que o sujeito pósmoderno tende a negar conceitos científicos, principalmente quando estes não fazem sentido imediato ao que observam na sua vida. As informações estão disponíveis e não são filtradas, o ato de aceitá-las como verdade depende de quem as recebe, mas a quem cabe a formação desses receptores? O ensino básico parece não proporcionar adequadamente essa base para os cidadãos. Qual papel do ensino de Ciências na conjectura atual? Construir senso questionador ou apenas informar teorias?
## Referências
MORAES, M. C. M. Os "pós-ismos" e outras querelas ideológicas. PERSPECTIVA. Florianópolis: UFSC/CED, NUP, n. 24. p. 45-59, 1996.
MOURA, B. O que é natureza da Ciência e qual sua relação com História e Filosofia da Ciência? Revista Brasileira de História da Ciência , v. 7, n. 1, p. 32-46, 2014
PAULA, L.; SILVA, T.; BLANCO, Y. Pós-verdade e Fontes de Informação: um estudo sobre fake news . Revista Conhecimento em Ação, v. 2, n. 1, p. 93-110, 2018.
POST-TRUTH. In : CAMBRIDGE Advanced Learner's Dictionary & Theasaurus. Cambridge: Cambridge University Press, 2020. Disponível em: < https://dictionary.cambridge.org/pt/dicionario/ingles/post-truth />. Acesso em: 20 abr
2020.
SAGAN, C. Cosmos. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
SILVEIRA, F. L. Sobre a forma da terra. Física na Escola , v. 15, n. 2, p. 4-14, 2017.
SOARES, J. et al. Incentivo à pesquisa nas escolas como estímulo ao pensamento crítico e seus impactos. In: ENCONTRO NACIONAL DAS LICENCIATURAS, 7, 2018, Fortaleza. Anais ... Fortaleza: Editora Realize, 2018.
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