O POSITIVISMO COMTIANO, A NÃO MODERNIDADE DE LATOUR E A CRISE DO PARADIGMA VIGENTE DE BOAVENTURA: O QUE A EDUCAÇÃO CIENTÍFICA DEVE PRESERVAR DA MODERNIDADE E O QUE DEVE CRITICAR
Pedro Antônio Viana Vazata, Nathan Willig Lima, Fernanda Ostermann
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVIII
- Ano
- 2020
- Data
- 12/11/2020
- Linha de pesquisa
- Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## O POSITIVISMO COMTIANO, A NÃO MODERNIDADE DE LATOUR E A CRISE DO PARADIGMA VIGENTE DE BOAVENTURA: O QUE A EDUCAÇÃO CIENTÍFICA DEVE PRESERVAR DA MODERNIDADE E O QUE DEVE CRITICAR
## COMTEAN POSITIVISM, LATOUR'S NOT MODERNITY AND THE CRISIS OF THE CURRENT PARADIGM OF BOAVENTURA: WHAT SCIENTIFIC EDUCATION SHOULD PRESERVE FROM MODERNITY AND WHAT IT SHOULD CRITICATE
## Pedro Antônio Viana Vazata¹, Nathan Willig Lima², Fernanda Ostermann³
- 1 Universidade Federal do Rio Grande do Sul/Instituto de Física/Programa de Pós-Graduação em Ensino de Física, profpedrovazata@gmail.com
- 2 Universidade Federal do Rio Grande do Sul/Instituto de Física/Programa de Pós-Graduação em Ensino de Física, nathan.lima@ufrgs.br
- 3 Universidade Federal do Rio Grande do Sul/Instituto de Física/Programa de Pós-Graduação em Ensino de Física, fernanda.ostermann@ufrgs.br
## Resumo
A descrença da humanidade na modernidade devido as guerras do século XX e o advento do aquecimento global antropogênico, gerou como consequência o surgimento da pós modernidade. Autores sugerem que este fenômeno possivelmente tenha sido usado como base para o desenvolvimento do relativismo e da pós verdade. Analisando este cenário, Bruno Latour estabeleceu algumas características da modernidade que deveriam ser salvas. Neste trabalho, buscamos caracterizar a visão de modernidade de outros dois autores, Augusto Comte e Boaventura, a fim de ampliarmos a resposta encontrada por Latour. Sintetizamos a visão de modernidade destes autores e analisamos criticamente quais elementos da modernidade deveriam ser mantidos na Educação em Ciências e quais deveriam ser rejeitados. Concluímos que devemos manter: a mediação do laboratório dos modernos para obtenção de dados; o conhecimento científico especializado. Em contrapartida concluímos que devemos rejeitar: uma visão de Ciência neutra, absoluta e linear; a negação da existência dos híbridos; a visão de mundo-máquina.
Palavras-chave : educação científica; positivismo; Latour; Boaventura; modernidade.
## Abstract
Humanity's disbelief in modernity due to the wars of the 20th century and the advent of anthropogenic global warming has led to the emergence of postmodernity. Authors suggest that this phenomenon may have been used as a basis for the development of relativism and the post-truth. Analyzing this scenario, Bruno Latour established some characteristics of modernity that should be saved. In this work, we seek to characterize the vision of modernity of two others authors, Augusto Comte and Boaventura, in order to expand the answer found by Latour. We synthesize these authors' vision of modernity and critically analyse which elements of modernity should be maintained in Science Education and which should be rejected. We conclude that we must mantain: the madiation of the modern laboratory to obtain
data; specialized scientific knowledge. In contrast, we conclude that we must reject: a neutral, absolute and linear vision science; the denial of the existence of hybrids; the machine-world vision.
Keywords : scientific education; positivism; Latour; Boaventura; modernity.
## Introdução
A visão de Ciência absoluta e salvacionista reinou durante o final do século XIX e o início do século XX. O advento do positivismo de Augusto Comte (COMTE, 1978) alavancou a soberania científica, que passou a ser referência para a sociedade. Sendo a fonte do conhecimento verdadeiro, livre de crendices, ideologias políticas e elementos sobrenaturais, portanto neutra. Os métodos de Bacon e Descartes garantiam a superioridade do conhecimento científico, fruto da observação e da experimentação, tendo o ser humano o papel de mero espectador e descobridor dos mistérios ainda não desvendados e devidamente explicados da natureza. Tal soberania do conhecimento científico começou a ser questionada, no entanto, com a deflagração das guerras mundiais na primeira metade do século XX e suas respectivas consequências geopolíticas: a Guerra fria e a corrida armamentista, na segunda metade do século (VIDEIRA, 2007).
No período pós guerra, a pesquisa em Educação em Ciências intensificou debates em torno da neutralidade científica e do salvacionismo tecnológico, com o advento do movimento Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) (AIKENHEAD, 1985; AULER; DELIZOICOV, 2001; SANTOS; MORTIMER, 2002). No campo da epistemologia (BACHELARD, 1996; FEYERABEND, 2011; KUHN, 1996; LATOUR; WOOLGAR, 1997), da filosofia (CHALMERS, 1993; RUSSEL, 1959) e da história da Ciência (MATTHEWS, 1995), diversos autores colocaram em suspeição o método científico e o processo de indução, buscando identificar os limites do conhecimento científico e a natureza da Ciência, questionando seus pressupostos basilares, como a racionalidade e a linearidade. Ademais, os horrores causados pelas bombas atômicas, os problemas ambientais surgidos no período do antropoceno devido a expansão capitalista e seu extrativismo extremo, assim como a ineficiência do socialismo soviético em expurgar a desigualdade, desencadearam uma profunda descrença na modernidade (LATOUR, 1994). Este vácuo intelectual abriu espaço para o surgimento da pós-modernidade. Alguns autores sugerem que os fundamentos do pensamento pós-moderno foram utilizados como base do relativismo e da pós-verdade (LIMA et al., 2019; MCINTYRE, 2018) e seus consequentes movimentos anti-vacina, terraplana e negacionismo climático. Esse novo cenário levanta a questão se não há algo da modernidade que devemos preservar.
Segundo BAKHTIN (2017), um trabalho filosófico se difere de um trabalho científico por ser interpretativo e expor o excedente de visão dos autores, este processo é denominado pelo autor como heterocientífico. Neste sentido, nosso objetivo é propor uma reflexão filosófica a partir das proposições sobre a modernidade de três autores, na busca de identificar quais elementos da modernidade devem ser criticados e quais devem ser mantidos, no intuito de desenvolver uma educação científica mais potente no sentido de viabilizar transformações sociais positivas e sustentáveis. Este questionamento já foi levantado por Bruno Latour (LATOUR, 1994), desejamos, portanto, traçar um
paralelo com sua proposta e explorar outras visões sobre a modernidade, a fim de complementar sua resposta.
## As diferentes modernidades
Nesta seção caracterizamos a modernidade segundo a perspectiva de três quadros teóricos: o positivismo Comtiano, a não modernidade de Bruno Latour e a crise do paradigma vigente de Boaventura.
## Positivismo Comtiano
Auguste Comte (1798-1857) foi um filósofo francês responsável por formular a doutrina Positivista (filosofia positiva) e considerado por muitos o pai fundador da Sociologia. Comte viveu no período pós Revolução Francesa, que segundo ele, foi de suma importância, pois as antigas instituições tanto sociais como políticas, eram fundamentadas pela teologia. A revolução, no entanto, não havia se dado por completo devido a suas bases metafísicas. A fim de reorganizar a sociedade francesa pós guerra, Comteh acreditava que as novas instituições deveriam estar sob o controle de uma nova elite científico-industrial positiva (CIVITA, 1978). Autor de diversos textos, o Curso de Filosofia Positiva (COMTE, 1978) é considerado sua principal obra, expondo as primeiras lições de sua filosofia e suas origens.
Segundo Comte (1978), os humanos e a própria humanidade passam por um desenvolvimento progressivo de sua inteligência, que se dão em três estados históricos: o estado teológico (fictício) como ponto de partida que avança para o processo de transição, o estado metafísico (abstrato), culminando por fim no estado científico (positivo). Sendo o estado positivo o 'verdadeiro estado definitivo da inteligência humana' (Comte, 1978, p. 6).
De acordo com o autor a revolução científica (positiva) ocorreu de forma lenta, gradual e progressiva, podendo ser remontada desde Aristóteles e da introdução das Ciências naturais na Europa ocidental pelos árabes. A fim de localizar historicamente quando esta revolução de fato se concebeu, Comte (1978) considera que as ideias do pensamento positivo se desprenderam de forma concisa de pensamentos teológicos e metafísicos pela '[...] ação combinada dos preceitos de Bacon, das concepções de Descartes e das descobertas de Galileu [...]' (Comte, 1978, p. 8). Segundo o autor, este período histórico marca a ascendência da filosofia positiva e a decadência das filosofias teológica e metafísica.
Segundo Comte, os métodos teológicos e metafísicos já não eram mais utilizados para compreender fenômenos astronômicos, físicos, químicos e fisiológicos, mas ainda eram necessários para o estudo dos fenômenos sociais . A 1 incorporação dos fenômenos sociais na filosofia positiva caracterizaria a completude do sistema filosófico dos modernos. Todos os fenômenos observáveis estariam dentro de uma das cinco categorias. A física social somada as outras quatro Ciências compõem o sistema das Ciências naturais. Para Comte (1978), quando homogeneizadas todas as concepções fundamentais, a filosofia entraria em definitivo no estado positivo. Jamais mudaria sua fundamentação e somente se desenvolveria através de observações e meditações, tornando-se universal. Comte destaca, no entanto, que a junção das Ciências é complexa e possivelmente
inatingível. Logo, a unidade da filosofia positiva era o método, a unidade dos fenômenos naturais seria uma espécie de utopia da modernidade.
A obra de Augusto Comte influenciou profundamente o mundo ocidental, devendo ser reconhecido por sua vasta produção cultural. No entanto, sua visão de mundo imputa à Ciência poder absoluto, ao colocá-la não somente acima de qualquer outra forma de conhecimento, mas também por caracterizá-lo como estágio final do conhecimento humano. O positivismo comtiano entende a Ciência como neutra, absoluta e linear. Nenhuma destas descrições sobre a Ciência moderna deve ser mantida no ensino de Ciências.
## A não modernidade de Bruno Latour
Bruno Latour (1947 - ) é um epistemólogo, antropólogo e filósofo da Ciência que se dedicou a estudar a Ciência em ação a partir de estudos antropológicos em laboratórios (LATOUR; WOOLGAR, 1997), desenvolvendo o chamado Estudos das Ciências. Em uma de suas obras mais famosas Jamais fomos Modernos (LATOUR, 1994), o autor busca caracterizar a modernidade através de momentos históricos e fundamentos filosóficos que foram base deste movimento.
Segundo Latour, a característica fundamental da modernidade é a separação ontológica entre natureza e sociedade. Os modernos dedicaram-se a separá-las por meio de dois processos: a mediação (tradução) e a purificação. A mediação é o processo responsável pela criação dos híbridos, o cientista (sociedade) faz a tradução dos dados (natureza) obtidos através dos aparatos experimentais, ou seja, o cientista fala em nome do experimento que não tem capacidade de se comunicar com a sociedade. Finalizada a mediação, inicia-se o processo de purificação, na qual os modernos eliminam a dimensão social criada durante a tradução, permanecendo portanto, somente o que há de natural nos dados (LATOUR, 1994; LIMA; OSTERMANN; CAVALCANTI, 2018). Latour demonstra que o processo de purificação, no entanto, não ocorre, não há como eliminar a dimensão social do laboratório, os dados não podem ser obtidos e interpretados sem o intermédio do cientista. O advento da modernidade proliferou a quantidade de híbridos no mundo. Um híbrido é um quase-objeto, como os buracos na camada de ozônio: são resultado de interações entre moléculas de ozônio e gases antropogênicos, ao mesmo tempo foram traduzidos por intermédio dos cientistas, assim como é resultado da interação entre diversos humanos: cientistas, políticos, jornalistas, professores; e não humanos: livros, jornais e artigos científicos (LATOUR, 1994; LIMA; OSTERMANN; CAVALCANTI, 2018). Os buracos na camada de ozônio são, portanto, híbridos: são naturais, sociais e produto do discurso.
Latour ilustra o desenvolvimento dos modernos a partir do debate entre Hobbes e Boyle sobre a bomba de vácuo. Hobbes tem seu nome associado comumente a pensadores do mundo político/social, enquanto Boyle figura entre os cientistas. Shapin & Schaffer (1985) trazem à luz teorias políticas de Boyle e trabalhos científicos de Hobbes, ilustrando que ao mesmo tempo em que debatiam sobre a existência do vácuo, discutiam sobre a melhor forma de organização social/política na época. Boyle recorre ao empirismo e a criação artificial do vácuo no laboratório, à mostra para interpretação; Hobbes deseja expurgar as entidades transcendentes (como o vácuo) e não deseja que pessoas independentes possam obter suas próprias conclusões. Boyle fez uso de um preceito jurídico que garantia veracidade a um acontecimento observado por duas testemunhas confiáveis. Hobbes desejava que todo conhecimento científico fosse provido da argumentação
matemática unificada, sendo que o próprio Leviatã havia sido construído com base nesta lógica. Latour (1994) demonstra como o embate entre os dois deu início a assimetria moderna: Boyle e os cientistas passaram a representar os não humanos; Hobbes e os políticos, os humanos. A sociedade é representada por Hobbes, os demais políticos e o Leviatã, enquanto a natureza é representada por Boyle, os cientistas e o laboratório. Ambos venceram a disputa, em diferentes campos, dando início ao distanciamento sujeito/objeto.
Segundo Latour, Hobbes e Boyle causaram apenas a distinção entre natureza e sociedade, foi Kant que propiciou sua ruptura. Kant afirmava que as coisas-em-si são inacessíveis e independentes do sujeito transcendental. Os sujeitos só tem acesso as coisas por meio dos fenômenos, ponto intermediário entre os polos (LIMA et al., 2019). A dialética Hegeliana pensou ter superado os problemas da filosofia kantiana, assim como a fenomenologia, no entanto ambas só aumentaram o distanciamento entre os polos. De acordo com Latour, todos estes pensadores, mesmo equivocados por distanciarem progressivamente os polos, o faziam no campo teórico; na prática faziam o movimento contrário, ao passo que aumentavam o número de híbridos, mas aumentavam também o número de mediadores, anulando os efeitos da separação ontológica. Os pós-modernos, contudo, abandonaram a prática da hibridização e focaram todos seus esforços na purificação, rompendo de vez o elo entre os sujeitos e os objetos. Na lógica pósmoderna, não há mais mediadores, os sujeitos interpretam-se a si mesmos. Para LATOUR (1994), a pós-modernidade é na verdade o fim da era dos modernos, pois o distanciamento entre natureza e sociedade chegou em seu limite, visto que a ligação foi rompida.
Segundo Latour, como jamais conseguimos purificar os dados obtidos em laboratórios jamais fomos modernos, porem acreditamos que fomos. A modernidade se constitui na invisibilização do processo de mediação e consequentemente na negação da existência dos híbridos. Segundo o autor, a ideia de revolução científica é somente um artifício dos modernos para explicar o surgimento dos quase-objetos sem ter a necessidade de revelar o processo de tradução, alterando a real história da Ciência por trás dos avanços científicos (LATOUR, 1994). Latour não se enquadra, portanto, nem no grupo dos modernos, nem dos pós-modernos. Autointitula-se um não-moderno, pois não deseja renunciar aos avanços dos modernos, entretanto não nega a existência dos híbridos.
A visão de Ciência latouriana reforça as potencialidades da Ciência, ao mesmo tempo em que aponta suas inconsistências ontológicas. A partir dos escritos de Latour, apontamos que o ensino de Ciências deve explicitar a mediação do laboratório dos modernos. Em contrapartida, entendemos que o ensino científico rejeite a negação da existência dos híbridos e a separação ontológica entre natureza e sociedade.
## A crise do paradigma vigente de Boaventura
Boaventura de Souza Santos (1940 - ) iniciou sua trajetória acadêmica no Direito, mas ao longo de sua carreira produziu trabalhos sociológicos e epistemológicos. Boaventura se dedicou ao longo de sua vida a explorar conhecimentos fora do espectro da Ciência moderna. Em uma de suas obras Um discurso sobre as ciências (DE SOUZA SANTOS, 2008) o autor busca sintetizar sua visão sobre a Ciência moderna e a crise em que esta se encontra.
Segundo DE SOUZA SANTOS (2008), a Ciência praticada na contemporaneidade nasceu na revolução científica do século XVI, tendo como base as Ciências naturais. Sua racionalidade foi somente estendida às Ciências sociais nos séculos XVIII e XIX. De acordo com o autor, os preâmbulos da Ciência moderna se iniciaram com o Heliocentrismo de Copérnico, as leis de Kepler sobre os planetas, as leis de Galileu sobre a queda dos corpos e o grande conjunto de leis elaborados por Newton, que sintetizou todas as leis anteriores. Todos estes conhecimentos foram chancelados pelas filosofias de Bacon e Descartes.
Boaventura elenca uma série de características do conhecimento científico, assim como algumas incoerências internas. O autor afirma que o primeiro ponto de ruptura entre a Ciência e as formas anteriores de obtenção de conhecimento é seu modelo totalitário, pois nega racionalidade a qualquer conhecimento que não passe pelo crivo do método científico. Além disso, Boaventura ressalta a impossibilidade da observação ser a primeira etapa do método científico, devido a necessidade de uma 2 teoria prévia. Segundo o autor, esta lacuna seria preenchida com as ideias matemáticas, tornando-a, portanto, o pilar da Ciência moderna. Em decorrência do papel preponderante da matemática na Ciência, a quantificação, a medição e a simplificação acabam por apresentar papel central em todo o processo. Ademais, o autor menciona diversas outras características do pensamento científico, como: a capacidade de prever o futuro sabendo-se as condições iniciais; pressupostos filosóficos estabelecidos por Newton como tempo e espaço absolutos; sua preocupação com o funcionamento dos fenômenos e sua omissão frente a causa e as consequências destes fenômenos. DE SOUZA SANTOS (2008) denomina este último item mencionado como expulsão da intenção . Segundo o autor, seria este o fator que causou a ruptura entre o conhecimento científico e o conhecimento de senso comum. Este processo causou também a ruptura entre natureza e ser humano. O conhecimento científico é o conhecimento da natureza, o conhecimento de senso comum do ser humano.
Além disso, segundo Boaventura, o poder de previsibilidade da mecânica Newtoniana inferiu a Ciência o poder de transformação do real. O mundo passa a ser, portanto, uma espécie de máquina, na qual sabendo-se as leis que regem seu funcionamento posso manipulá-la. Como indica o autor 'Esta ideia do mundomáquina é de tal modo poderosa que se vai transformar na grande hipótese universal da época moderna, o mecanicismo.' (DE SOUZA SANTOS, 2008, p. 31). De acordo com o autor, esta visão de mundo mesclou-se com a ascensão da burguesia, moldando a ideia do que é progresso no mundo moderno. O modelo mecanicista seria transplantando nos séculos posteriores para o estudo da evolução da sociedade nos trabalhos de Augusto Comte (positivismo), Spencer (sociedade industrial) e Durkheim (solidariedade orgânica). Se os cientistas naturais descobriram as leis que regem a natureza, os cientistas sociais deveriam descobrir as leis que regem a humanidade. O autor evidencia que a ineficiência do modelo mecanicista para explicar a humanidade foi logo exposta e modificações nas Ciências sociais foram executadas sem, no entanto, modificar o caráter racionalista herdado das Ciências naturais. A distinção que outrora se fazia presente entre natureza e ser humano foi, portanto, expandida com o advento das Ciências sociais,
tomando outras formas: como a distinção natureza/cultura e humano/animal. Tais distinções culminaram no entendimento de que os seres humanos detêm um caráter único não compartilhado com a natureza.
Para Boaventura, o paradigma vigente entrou em uma crise profunda e 3 irreversível no começo do século XX: primeiramente pela subjetividade do ser humano, que ficou evidenciada nos primeiros trabalhos sociológicos, expondo as limitações da universalização do pensamento mecanicista; em segundo lugar pelos trabalhos de Einstein e pelo desenvolvimento da Mecânica Quântica (MQ), colocando em suspeição as bases da Ciência moderna. Einstein rompeu com a ideia de espaço/tempo absoluto e o caráter local da medição; enquanto a MQ, com Heisenberg e Bohr, introduziu o problema do observador não neutro, que interfere nos resultados ao realizar medições e/ou observações. Tais concepções, segundo o autor, romperam não somente com o absolutismo científico (relatividade de Einstein), como com a distinção entre sujeito e objeto (MQ). De acordo com Boaventura, tanto a relatividade quanto a MQ deram início a uma nova revolução científica, que fará emergir um novo paradigma.
Destaca-se na obra de Boaventura a inviabilidade do reducionismo mecanicista para explicar a totalidade do mundo, ou seja, a impossibilidade de solucionar todos os problemas a partir de critérios tecno-científicos. A partir desta visão, compreendemos a necessidade de desenvolver uma Educação em Ciências crítica em relação a visão de mundo-máquina sem, no entanto, renunciarmos ao papel fundamental do conhecimento científico especializado, fruto da modernidade, para a sociedade.
## Conclusão
Neste trabalho sintetizamos a visão de três pensadores a respeito da modernidade e da Ciência moderna. Comte vê na modernidade o estágio final da inteligência humana, enquanto Latour afirma que a modernidade sequer existiu, por sua vez Boaventura acredita que a modernidade está em crise e estamos em meio a uma nova revolução científica, na véspera de novos tempos para humanidade.
A partir da visão de modernidade dos autores analisados, concluímos que devem ser mantidos na Educação em Ciências: a mediação do laboratório dos modernos para obtenção de dados; o reconhecimento da importância do conhecimento científico especializado para a sociedade. Em contrapartida concluímos que devem ser criticados na educação científica: uma visão de Ciência neutra, absoluta e linear; a negação da existência dos híbridos; a visão de mundomáquina. Nosso trabalho conversa com a literatura da área que aponta para a necessidade de inserção de elementos de epistemologia, filosofia e história da Ciência na educação científica básica e superior, no intuito de contemplar a totalidade, a complexidade e as limitações da Ciência. Em estudos posteriores pretendemos expandir o estudo sobre as diferentes modernidades e seu papel na Educação em Ciências.
## Referências
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