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ANÁLISE DO MODO DE RACIOCÍNIO CIENTÍFICO NA ARGUMENTAÇÃO DA PESQUISA EM ENSINO DE FÍSICA

Thales Mendes, Moacir Souza Filho

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XVIII
Ano
2020
Data
12/11/2020
Linha de pesquisa
Didática, Currículo E Inovação Educacional No Ensino De Física/Políticas Públicas Em Educação E O Ensino De Física/Questões Teórico-Metodológicas E Novas Demandas Na Pesquisa Em Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## ANÁLISE DO MODO DE RACIOCÍNIO CIENTÍFICO NA ARGUMENTAÇÃO DA PESQUISA EM ENSINO DE FÍSICA

## ANALYSIS OF THE SCIENTIFIC REASONING MODE IN THE ARGUMENTATION OF RESEARCH IN PHYSICS TEACHING

Thales Mendes 1 , Moacir Souza Filho 2

1 UFMS, thales.mendes@ifbaiano.edu.br

2 UNESP, moacir@fct.unesp.br

## Resumo

Vários pesquisadores adotam, preferencialmente, como modo de raciocínio indutivo a metodologia da pesquisa qualitativa. Atribuem um conceito de indução que emerge da parte para o todo a fim de justificar essa ligação. Contrapondo essa visão indutivista, por meio de análise de conteúdo, buscou-se nos artigos do Caderno Brasileiro de Ensino Física, da seção de Pesquisa em Ensino de Física, emergir aspectos dedutivos nas pesquisas explicitamente definidas como qualitativas pelos autores. Foram analisados 24 artigos que representam 51% do universo. Destes, 9 explicitavam serem qualitativos (30% dos analisados) e apresentaram aspectos dedutivos nas argumentações que subsidiam seus objetivos.

Palavras-chave : Metodologia, epistemologia, dedução, indução.

## Abstract

Several researchers prefer, as a way of inductive reasoning, the qualitative research methodology. They attribute a concept of induction that emerges from the part to the whole in order to justify this connection. Contrasting this inductivist view, through content analysis, it was sought in the articles of the Brazilian Physical Education Notebook, of the Physics Teaching Research section, to emerge deductive aspects in the research explicitly defined as qualitative by the authors. 24 articles were analyzed, representing 51% of the universe. Of these, 9 stated that they were qualitative (30% of those analyzed) and presented deductive aspects in the arguments that support their objectives.

Keywords : Methodology, epistemology, deduction, induction.

## Introdução

Alguns autores que estudam metodologia científica com rigor epistemológico ao descreverem a pesquisa qualitativa, remetem-na ao método indutivo (GUERRA, 2006; GIBBS, 2009; ESTEBAN, 2010; BORBA et al , 2013; LÜDKE e ANDRÉ, 2013; PRODANOV e FREITAS, 2013). Outros, seguindo no mesmo sentido, fazem uma

justificativa histórica com citações a outros autores (FLICK, 2009; ROSA e ARNOLDI, 2014).

Não é sempre que os autores deixam explicito a correlação da pesquisa qualitativa com o método indutivo. Há quem faça uma definição da indução e da dedução e deixa o pesquisador-leitor inferir a adequação ao método (DEMO, 1985; MAGALHÃES, 2005; SEVERINO, 2010). Ainda, há autores que não descrevem as questões epistemológicas do método e não citam as implicações da indução e da dedução nas pesquisas científicas (DEL-MASSO, 2012; STAKE, 2011).

Conforme a revisão da literatura realiza nessa vertente, os autores que descrevem a pesquisa qualitativa a inferem, preferencialmente, como indutiva. Em contraponto a essa inferência, buscar-se-á aspectos dedutivos em artigos da seção de Pesquisa Ensino de Física do Caderno Brasileiro de Ensino de Física.

## O raciocínio indutivo e o dedutivo

A argumentação científica pôde se basear em dois modos de raciocínio: o dedutivo e o indutivo. O raciocínio dedutivo é quando se usa premissas para implicar uma conclusão unicamente correta. O raciocínio indutivo é quando se usa premissas para apoiar a conclusão, mas sem garantir a sua veracidade (CHALMERS, 1993).

Alguns autores descrevem a dedução como partir de premissas gerais para chegar a conclusões específicas ou raciocínio 'top-down' e a indução como partir de premissas específicas para chegar a conclusões gerais ou raciocínio 'bottom-up'. Entretanto, esse é um conceito simplificado e não menciona o mais importante (ABRANTES, 1994).

Um argumento é dedutivo quanto a sua intenção é ser logicamente válido, isso quer dizer que se as premissas forem verdadeiras a conclusão necessariamente tem que ser verdadeira. Uma conclusão dedutiva válida só pode ser falsa se uma das premissas também por falsa, porque a veracidade das premissas implica na veracidade da conclusão. Na dedução a conclusão é uma consequência lógica das premissas, então não é possível dizer nem descobrir nada novo pois a conclusão é apenas uma consequência do que já se conhece (CHALMERS, 1993).

Para gerar novo conhecimento e argumentar sobre algo que não é inteiramente conhecido o método usado é o indutivo. No argumento indutivo a intenção é ser convincente, as premissas não explicam a conclusão, elas são usadas para dar força ao argumento de que a conclusão pode ser verdadeira. Porém, mesmo que todas as premissas sejam verdadeiras não é possível garantir a veracidade da conclusão, apenas se convencer ou não disso. A indução é uma inferência e apesar de não garantir que seus argumentos são corretos, permite chegar a conclusões sobre algo que não se conhece inteiramente ou ainda não foi observado, o que não pode ser feito com o método dedutivo (CHALMERS, 1993).

Dedução e indução não são opostos. São conceitos fundamentalmente diferentes e parte inerentes do método científico. Um ciclo constante em que se usa as evidências como argumentos, a favor ou contra a hipótese, e se baseia na teoria para deduzir e aplicar suas consequências no dia-a-dia. Ao observar uma conclusão falsa, criam-se novas hipóteses para substituir o conhecimento antigo. Mas isso ainda é uma simplificação. Existem muitas regras sobre como se deve montar um

argumento lógico válido e a indução não teve uma definição estabelecida, ainda é um conceito aberto que gera muita discussão, a exemplo da proposta do método hipotético-dedutivo de Popper (2004).

## Metodologia

Essa pesquisa é qualitativa com características de uma análise documental (LÜDKE e ANDRÉ, 2013). Porém, discorda-se de Lüdke e André (2013) e de outros autores quando afirmam que essa pesquisa seria indutiva. Pode até ter característica indutiva, mas a dedução é mais representativa. Por meio da análise de conteúdo (BARDIN, 2009) se emergirá aspecto dedutivos em artigos de pesquisa qualitativa. A indução estará presente no processo da análise textual e nas considerações feitas, porém são as definições que baseiam o método dedutivo que serão procurados na análise. Se já existe algo definido (a dedução) e aceito pela comunidade científica não pode ser indução.

- O Caderno Brasileiro de Ensino, de onde se escolherá os artigos, é um referencial no ensino de Física e contribuiu desde a sua primeira publicação em 1984 para a mudança nesse cenário educacional. A criação da seção de Pesquisa em Ensino de Física na revista foi em 2011. Até essa pesquisa, foram publicados 8 volumes com o total de 24 números e 47 artigos. Cada artigo recebeu um índice (de 1 até 47) conforme quadro 1 .

Quadro 1: Indexação dos artigos .

Fonte: os autores.

Para notação utilizar-se-á art.1 para denotar o artigo com índice 1 que é o primeiro artigo da seção de Pesquisa em Ensino de Física, do volume 28, número 1, do ano de 2011, do Caderno Brasileiro de Ensino de Física.

Depois foi realizado um sorteio para se obter uma amostra e a ordem da análise dos artigos. A primeira análise foi verificar se o autor do artigo explicita que a pesquisa é qualitativa e somente com essa confirmação se passou para análise em busca dos aspectos dedutivos no texto.

A saturação se deu com a análise de 24 artigos (51% do universo). Desses 9 explicitavam serem de abordagem qualitativa (38% dos analisados).

## Análise dos artigos e os aspectos dedutivos

Por questões de espaço na escrita desse trabalho, o quadro 2 explana somente os 9 dos 24 artigos analisados. Estes apresentaram abordagem qualitativa explicitamente pelos seus autores.

Quadro 2: Artigos analisados .Fonte: os autores.

Para demonstrar como foi realizada a análise de conteúdo para emergir os aspectos dedutivos foi selecionado 5 dos 9 artigos que estão a seguir.

O art.11, que é qualitativo, os autores afirmam que são 'levados a considerar que uma das soluções para escassez de professores de Física no Ensino Médio e a

baixa motivação na disciplina está na melhoria da instrução oferecida neste nível (CUSTÓDIO et al, 2013)' e logo após complementam 'tal como assinalaram recentemente Brock e Rocha Filho (2011) (CUSTÓDIO et al, 2013)'. Quando os autores citam Brock e Rocha Filho informam que eles já tinham chamado atenção para a conclusão que chegam: que para solucionar a falta de professores e desmotivação é preciso melhorar a instrução. Se Brock e Rocha Filho já chegaram essa conclusão e os autores do artigo também chegam a mesma conclusão (mesmo em situações distintas), não é indutivo. É dedutivo. Nova é somente a situação de aplicação, porém o que rege aquela situação é a conclusão de Brock e Rocha Filho.

No art.3 os autores denominam seu trabalho como qualitativo e apontam como um resultado da sua pesquisa, em relação ao ensino teórico e experimental que 'os alunos compreendem a teoria de forma mais fácil e também a estrutura da aula resulta mais agradável (ARRIGONE e MULTTI, 2011)'. Adiante, escrevem citando Alves Filho:

'Experiências de cátedra, segundo Alves Filho (2000) [...] servem para complementar conteúdos tratados em aulas teóricas, facilitar a compreensão, tornar o conteúdo agradável e interessante, auxiliar o aluno a desenvolver habilidades de observação e reflexão e apresentar fenômenos físicos (ARRIGONE e MULTTI, 2011)'.

Alves Filho afirma que as experiências tornariam o assunto mais agradável e os autores do artigo chegam a uma conclusão preexistente, a não ser pela especificidade da situação. Pela mesma lógica do art.11, é um processo dedutivo e não indutivo.

Para o art.25, os autores denominam seu trabalho como qualitativo e sobre a atuação de um aluno em uma peça teatral conclui que 'o aluno apresentou uma notável melhora de atenção e conhecimento na disciplina de Física que se irradiou para todas as disciplinas (ASSIS et al , 2016)' e anteriormente faz uma citação onde descreve:

'De acordo com Oliveira e Zanetic (2004), o uso da atividade teatral pode permitir que a aprendizagem se dê de forma prazerosa, [...] de forma a motivar o aluno na busca do conhecimento, que pode incluir tanto aspectos científicos e culturais, quanto sociais e ambientais teatro (ASSIS et al, 2016).'

Mais uma vez a mesma lógica do art.11 e art.3 se repete. Oliveira e Zanetic, citado por Assis et al (2016), já havia exposto cientificamente os benefícios da utilização do teatro para motivar a aprendizagem. Assis et al (2016) chegam a mesma conclusão, só que posteriormente. Dessa forma, é dedução.

No art.14 os autores escrevem e citam na sequência:

'é possível constatar que o desprestígio com que os professores tratam os conhecimentos da didática, leva-os a considerar o

ensino '[...] uma tarefa simples, para a realização da qual basta conhecer a matéria, ter alguma prática docente e ter alguns conhecimentos 'pedagógicos' de caráter geral' (CACHAPUZ et al., 2001, p.157) (SILVA et al, 2013)'.

Nota-se que na mesma frase Silva et al (2013) coloca seus resultados (quando escreve que é possível constatar) e já justifica com a citação de Cachapuz. Se justifica seus resultados com o resultado que outra já tinha, não indução, o que remete à mesma lógica dos anteriores.

O art.47 tem como objetivo 'estudar os aspectos que conduzem à motivação para aprender Astronomia (LANGHI e MARTINS, 2018)' e na justificativa os autores afirmam que 'a literatura da área apontar com frequência que a Astronomia é considerada motivadora (LANGHI e MARTINS, 2018)'. Como resultado da pesquisa qualitativa realizada concluem que:

'Nossos resultados apontam que a Astronomia pode ser considerada motivadora para casos semelhantes ao aqui estudado, pois foram diagnosticados, em uma grande parte dos dados, indícios de motivação intrínseca nos participantes (LANGHI e MARTINS, 2018)'.

Pelos mesmos motivos dos artigos anteriores é possível perceber a ligação entre objetivo, a justificativa na literatura - mas sem citação - e o resultado que já está exposto na justificativa. No entendimento de que algo que já exista e que vai ser aplicado em uma situação é regido pela dedução, e não pela indução, esse aspecto, no artigo, é dedutivo.

Os artigos analisados na sequência (21, 38, 22 e 35) também apresentaram aspectos dedutivos que subsidiaram seus autores nas suas conclusões. Dessa forma, todos os artigos analisados (100% dos artigos com abordagem qualitativa) tiveram situações de raciocínio que podem ser categorizados como dedutivo.

## Considerações finais

Dos 24 artigos que foram analisados, em 15 os autores não declararam que sua pesquisa é somente qualitativa. Em todos os 9 artigos restantes, com abordagem qualitativa, foram encontrados aspecto dedutivos.

Não é intenção dessa pesquisa afirmar que a pesquisa qualitativa é dedutiva. Porém, tem por finalidade chamar a atenção dos pesquisadores em epistemologia e metodologia da pesquisa, especificamente a qualitativa. Duas situações são levantadas nesse trabalho que vislumbram estudos posteriores. Uma, se a pesquisa qualitativa é de fato indutiva. A outra, é que se adotar a primeira como verdade, então as pesquisas que tem sido desenvolvidas podem estar metodologicamente e/ou epistemologicamente descompassadas.

## Referências

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