RESSIGNIFICAÇÕES DO USO DE MEIOS MEDIACIONAIS NAS AÇÕES DE UM PROFESSOR EM SALA DE AULA
Leandro Antônio De Oliveira, Eliane Ferreira De Sá
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVIII
- Ano
- 2020
- Data
- 11/11/2020
- Linha de pesquisa
- Linguagem E Cognição No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## RESSIGNIFICAÇÕES DO USO DE MEIOS MEDIACIONAIS NAS AÇÕES DE UM PROFESSOR EM SALA DE AULA
## RE-SIGNIFICATIONS OF THE USE OF MEDIATIONAL MEANS IN THE ACTIONS OF A PROFESSOR IN THE CLASSROOM
## Leandro Antônio de Oliveira 1 , Eliane Ferreira de Sá 2
1 UFMG/FAE/Programa de Pós Graduação em Educação/, leandroquiufmg@gmail.com
2 UEMG/Ibirité/Departamento de Educação e Ciências Humanas/, elianefs@gmail.com
## Resumo
Este trabalho apresenta como objetivo central investigar como a utilização não usual que um professor faz de objetos mediadores possibilita novas ressignificações para esses objetos durante o compartilhamento de significados em sala de aula. Os dados foram gerados a partir da gravação em vídeo de uma aula sobre atividade óptica, ministrada em uma Instituição Federal de Ensino Superior. Inicialmente, produzimos mapas de episódios da aula e construímos diagramas de mapeamento do uso de meios mediacionais pelo professor. Posteriormente, realizamos uma microanálise de fragmentos de alguns episódios nos quais o professor utilizou os objetos, ressignificando-os nessas ações. Os resultados mostram que essas ressignificações são idiossincráticas, mas ampliam e potencializam as qualidades dos meios mediacionais no ato de ensinar. Acreditamos que esses resultados trazem contribuições pontuais, mas importantes para o entendimento das aulas de professores universitários, além de propiciar a discussão e reflexão sobre o uso de diferentes recursos materiais que potencializam o trabalho do professor.
Palavras-chave: ação mediada, meios mediacionais, ensino superior.
## Abstract
This article has as main objective to investigate how the unusual use that a professor makes of mediational objects possible new meanings for these objects during the sharing of meanings in the classroom. The data were generated from the video recording of a class on optical activity, taught in a Federal Institution of Higher Education. Initially, we produced episode maps of the lessons and constructed diagrams mapping the use of mediational means by the professor. Subsequently, we performed a microanalysis of fragments of some episodes in which teachers use the objects, re-signifying them in these actions. The results show that these resignificances are idiosyncratic, but amplify and potentiate the qualities of mediational means in the act of teaching. We believe that these results bring important contributions to the understanding of university teachers' lessons, as well as providing discussion and reflection on the use of different material resources that potentiate the work of a teacher.
Keywords: mediated action; mediational means; higher education.
## Introdução
Os professores, de maneira geral, usam objetos materiais na busca de facilitar o compartilhamento de significados em suas aulas. Partilhamos da ideia que objetos materiais possuem essa dimensão mediacional na ação do professor. Nessa direção, levamos em consideração os aspectos do que Wertsch (1998) denomina 'meios mediacionais' ou, outros autores, 'artefatos culturais' (Otero, 2003; Nakou, 2007; Tomasello, 2003).
Neste trabalho, nos referimos a esses objetos materiais principalmente como meios mediacionais. Essa denominação explicita nosso foco de análise nos meios mediacionais que possuem uma dimensão material e que são usados para auxiliar na construção de significados em ambientes de aprendizagem. Eles podem ser objetos comuns utilizados por professores em salas de aula, como o quadro de giz, retroprojetor, modelos concretos, aparatos experimentais, etc.
Para nossas reflexões, utilizaremos como base, alguns conceitos-chave de Werstch (1998), a fim de entender melhor a Teoria da Ação Mediada no processo de construção de significados. Wertsch (1998) apresenta dez propriedades que caracterizam a ação mediada, algumas delas com potencial para subsidiar a análise da ressignificação dos meios mediacionais, foco desta pesquisa. Além disso, também consideramos o conceito de affordances atribuídas à ação (Gibson, 1986). Contudo, acreditamos que os meios mediacionais utilizados por professores sempre apresentam novas possibilidades de significação ao serem usados. Nesse sentido, nos propomos a investigar como os meios mediacionais utilizados por um professor de física universitário são ressignificados nas interações com os estudantes em sala de aula.
## Meios mediacionais em salas de aula
O uso de meios mediacionais pode ser caracterizado como ação mediada, no sentido exposto por Vigotski (2001) e aprofundado por Wertsch (1998). Este autor considera, como propriedade fundamental da ação mediada, a tensão irredutível entre o sujeito e os meios mediacionais com os quais ele atua. Wertsch (1998) sugere, como unidade de análise, o sujeito-atuando-com-meios-de-mediação, pois não há como separar agente e meio mediacional. Isso porque, na ação mediada é difícil perceber o que é exclusivamente do sujeito e o que é próprio do meio mediacional. Portanto, a exemplo do que Wertsch afirma, os agentes não se configuram isoladamente, mas sempre como indivíduos atuando com meios mediacionais.
Outra propriedade dos sujeitos-agindo-com-meios-mediacionais, destacada por Wertsch (1998, 1991), está relacionada ao conceito de affordances (potencialidades e limites), cunhado por Gibson (1986) para designar as propriedades ambientais disponíveis a certo indivíduo ou espécie animal, que permitem ou restringem a sua ação. Gibson caracteriza a ideia das affordances como sendo uma implicação sobre o modo como vemos as coisas, como chegamos até elas e o que fazemos, ou não, com elas. Segundo ele, o que isso sugere é que 'a percepção visual que temos do ambiente serve ao comportamento e o comportamento é controlado pela nossa percepção' (Gibson, 1986, p. 223). Para Wertsch (1998), os indivíduos podem reconhecer e apropriar-se das affordances
inerentes aos meios mediacionais, mas também podem limitar a sua ação tendo em vista o modo de uso desses mesmos meios.
Outra propriedade da ação mediada proposta por Wertsch que nos auxiliará em nossas análises é denominada spin-off. Essa propriedade refere-se, dentre outras ideias, à noção de que os instrumentos de mediação são muitas vezes produzidos para outras finalidades que não as que estão sendo consideradas numa ação mediada específica. Wertsch (1998) considera que os usos de meios mediacionais se tornam 'acidentes', com potencial inesperado capaz de transformar a ação. Spin-off pode ser, segundo Wertsch (1998), a norma e não a exceção quando se trata de meios utilizados na ação mediada que passaram por tal processo. Isso significa que a maioria das ferramentas culturais que nós utilizamos não foram projetadas para os fins em que estão sendo empregadas. Isso sugere que elas podem passar por processos de ressignificação ao longo do tempo.
Esse processo de ressignificação dos meios mediacionais, que tem por base a noção de spin-off, pode ser caracterizado como uma mudança nas funções que esses meios assumem numa ação específica.
## Descrição Metodológica
Para a investigação aqui relatada realizamos uma busca, no banco de dados que serve ao nosso grupo, por videogravações de aulas que demonstrassem situações de uso, por professores, de recursos materiais com potencial inovador ou que apresentassem alguma característica, não usual, de ações em ambiente universitário. A partir da busca, selecionamos uma aula de Física em que o professor utilizava usa um transferidor, objeto normalmente utilizado para medir ângulos, com função diferente desta, nesse caso, como um prisma para reproduzir a dispersão da luz em uma demonstração experimental. A aula selecionada foi filmada em 2011 e teve a duração de 01 hora e 33 minutos. A unidade didática da qual a aula foi selecionada tratava do tema atividade óptica, em especial, a polarização da luz.
Após a seleção da aula, realizamos a etapa de macroanálise e com o auxílio do software Nvivo11, construímos o mapa de episódios de cada uma delas. Esses episódios são, de acordo com Mortimer e colaboradores, 'um conjunto coerente de ações e significados produzidos pelos participantes em interação, que tem início e fim claros e que pode ser facilmente discernido do episódio precedente e do subsequente' (Mortimer, et al., 2007, p. 61). Para dividir a aula em episódios, levamos em consideração os temas e conceitos introduzidos e finalizados pelo professor, as suas ações com os recursos, bem como as interações entre ele e os estudantes.
Após a produção dos mapas de episódio, realizamos a etapa de microanálise para identificarmos aqueles episódios nos quais o professor usava meios mediacionais de modo ressignificado. Com os episódios selecionados, realizamos a fragmentação de trechos em que essa ressignificação dos recursos acontecia. Desse modo, realizamos a descrição desses fragmentos complementando-os com a transcrição da fala do professor para posteriormente analisarmos as ressignificações.
- O fragmento que selecionamos para análise teve duração de 05 minutos e 12 segundos.
## Apresentação e análise dos dados
No decorrer da aula, o professor utilizou três recursos para compartilhar significados com os estudantes: o projetor multimídia, o quadro branco e um aparato experimental.
O projetor multimídia foi utilizado pelo professor para resumir e destacar alguns conceitos abordados nas aulas anteriores e aqueles que ele abordava durante a aula. O quadro branco, por sua vez, foi utilizado para desenhar um esquema para representar o que ocorre durante fenômeno de polarização dielétrica. Por último, como aparato experimental, o professor utilizou um retroprojetor e dois filtros polarizadores, no qual desenvolveu uma demonstração experimental sobre polarização da luz.
Devido ao desenvolvimento tecnológico, o retroprojetor vem perdendo espaço no cotidiano das salas de aula, e praticamente tem sido substituído por meios de projeção mais sofisticados, como o projetor multimídia. Entretanto, nesta aula, esse recurso foi utilizado paralelamente com o projetor multimídia. Porém, os dois suportes de projeção possuíam funções bem distintas. Isso porque o professor utilizou o projetor multimídia com a finalidade de projetar textos e imagens, enquanto o retroprojetor foi utilizado para reproduzir e projetar o fenômeno da polarização da luz.
Para realizar a demonstração experimental o professor utilizou, além do retroprojetor, um conjunto de materiais colocados sobre filtros polarizadores e explorou os fenômenos reproduzidos para cada um deles. Esses materiais são uma peça retangular de acrílico, um transferidor meia-lua, uma fita adesiva transparente, um pedaço de papel celofane amassado e um pedaço de mica. Para melhorar a visibilidade do experimento, o professor o projetou na tela em frente ao quadro branco, por meio do retroprojetor.
Alguns desses materiais são comuns no cotidiano escolar, como o transferidor meia-lua, a fita adesiva e o papel celofane. Porém, o professor explorou outras funções nesses objetos, diferentes das usuais justificando da seguinte maneira:
Isso aqui é um transferidor fabricado em acrílico / também de plástico / quando você olha isso aí / sobre luz polarizada / você vê também regiões onde antes não passava luz / nem a luz do polaróide estava cruzada e aqui / nitidamente está passando luz de frequências diferentes e em regiões diferentes / isso aqui então / é um tipo de atividade óptica / que depende da frequência da luz / quer dizer / diferentes cores são geradas / tem a ver com a direção de polarização / porque o campo elétrico é gerado em ângulos diferentes.
O professor fez vários giros na lâmina polarizada em cima do transferidor de forma a evidenciar o aparecimento e o desaparecimento do fenômeno físico, na projeção (Figura 1).
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Figura 1: Uso do aparato experimental para verificar a atividade óptica transferidor.
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Após a ação com o transferidor no aparato experimental, o professor utilizou uma placa de vidro onde foram coladas sucessivas camadas de fita adesiva transparente, de modo a formar duas figuras: um raio e a uma estrela. Ele explicou o uso da fita adesiva da seguinte maneira:
A fita adesiva também é um polímero / o material usado na fabricação dele é esticado / deformado / e aí / apresenta também atividade óptica / quando você olha isso sobre uma luz polarizada / independente aqui da direção de polarização da luz / você não vê efeito nenhum / porém se você usar os dois polaróides cruzados / ((veja)) aí que maravilha né / aí você vai ver diferença / a luz que atravessa o material / tá / dependendo se antes não estava passando luz porque os campos elétricos estão cruzados / agora passa em certas regiões / luzes de frequências diferentes. Então você tem uma atividade óptica / quer dizer / tá passando luz. É porque a direção de polarização da luz foi mudada / ao passar / ao atravessar esse material / esse giro na direção de polarização depende da espessura / depende do tanto que a luz atravessa um material / esse material que produz cores diferentes e também apresenta uma dependência com a frequência. Quer dizer / diferentes cores de luz / diferentes frequências são geradas de ângulos diferentes / por isso / então / o efeito de cor.
A fita adesiva é constituída por uma superfície coberta por uma substância colante, sendo usada para juntar duas superfícies, mas também é um polímero que apresenta atividade óptica. Desse modo, o professor utilizou este objeto com a função de evidenciar o mesmo fenômeno óptico de polarização obtido com o transferidor, só que agora, formando múltiplas cores que se alternavam no desenho projetado, dependendo do giro feito nos filtros polarizadores. Como anteriormente, ele fez giros sucessivos nos filtros de modo a evidenciar o aparecimento e desaparecimento da atividade óptica (Figura 2).
Figura 2: Uso do aparato experimental, para verificar a atividade óptica na fita adesiva.
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O professor também realizou ações semelhantes usando um pedaço de papel celofane amassado e pedaços de mica, material cristalino natural que se forma por meio de lâminas, discutindo o mesmo fenômeno de polarização.
## Discussão
No caso dessa aula, despertou nossa atenção o modo como o professor utilizou o aparato experimental (retroprojetor e filtros polarizadores) para reproduzir o fenômeno da atividade óptica com os objetos: transferidor meia-lua, fita adesiva, papel celofane e mica.
O retroprojetor é um artefato cuja função original é a de projetar imagens, tendo sido muito utilizado em salas de aula para projetar textos e figuras. Entretanto, essa função foi sendo substituída paulatinamente pelo projetor multimídia, que cumpre tal função com mais qualidade e mais versatilidade. Por exemplo, nesse novo recurso de projeção, os textos dos slides são produzidos no próprio computador, as imagens são retiradas da internet com qualidade e nitidez e existe a
possibilidade de usar animações e vídeos. Entretanto, o retroprojetor conserva a função de projetar fenômenos, que o projetor multimídia não cumpre. Uma maneira de fazer isso, com o projetor multimídia, seria por meio da filmagem do fenômeno. Entretanto, com o retroprojetor, a imagem projetada é real, está acontecendo no momento da ação, enquanto a imagem projetada pelo projetor multimídia é virtual, pois o fenômeno aconteceu em outro momento. Acreditamos que o retroprojetor ainda não se tornou obsoleto porque ele tem essa função de projetar fenômenos de interesse das ciências naturais. Por isso, mesmo sendo substituído pelo projetor multimídia, suas funções não foram esgotadas por esse outro recurso.
No caso do uso específico do retroprojetor no fragmento descrito, o recurso permitiu ao professor produzir na sala de aula fenômenos ópticos que ele estava apresentando conceitualmente, por meio de textos e fórmulas, no projetor multimídia. Além disso, nos chama a atenção a função que ele atribuiu ao uso do transferidor e da fita adesiva em suas ações.
- O retroprojetor deixa de ter a função de um suporte material para projeção e passa a se constituir como um aparato experimental capaz de reproduzir o fenômeno de atividade óptica. Nesse contexto, podemos afirmar que, como há uma forma nova de mediação, ampliam-se as possibilidades de compartilhamento de significados quando o retroprojetor é usado dessa forma na aula. Desse modo, a ação de professor com o retroprojetor e os objetos de acrílico produziram ressignificações na aula e potencializaram as qualidades desses objetos no ato de ensinar.
- O mesmo pode ser pensado ao se analisar as funções preestabelecidas do transferidor meia-lua e da fita adesiva, por exemplo. No caso do transferidor meialua, esse objeto é muito utilizado na atividade de resoluções de problemas de geometria, pois auxilia, por exemplo, na medição de ângulos de figuras. Nesse sentido, ele normalmente pode ser classificado como objeto mediador metrológico. Por outro lado, a fita adesiva é utilizada pelas funções normalmente atribuídas a ela de juntar superfícies. Porém, durante a aula, esses dois recursos materiais se configuram como objetos importantes para complementar o aparato experimental no sentido de reproduzir o fenômeno de polarização da luz. Desse modo, podemos classificá-los, em função de sua utilização nas ações do professor, como objetos mediadores ressignificados.
- O aparato experimental não é estático e também sofreu modificações ao longo da ação. Por exemplo, como resultado do uso do transferidor, apareceu na projeção um espectro com todas as cores. A representação de um fenômeno por meio de um conjunto de objetos expandiu as formas de mediação e construção de significados.
Visualizamos, na Figura 3, um resumo de como as ressignificações dos meios mediacionais causaram transformações em suas funções, nas aulas.
Figura 3: Síntese dos meios mediacionais utilizados e as transformações que as ressignificações nos seus usos causaram.
Essas ressignificações produzidas pelo professor se relacionaram com a propriedade que trata da transformação da ação mediada: os spin-off's . Quando Wertsch (1998) relata que a maioria das ferramentas culturais que nós empregamos não foi projetada para os fins para os quais estão sendo empregadas, ele busca em Vigotski (2001) a ideia chave para esta afirmação: o significado construído e a ressignificação permitida pelos meios mediacionais. Nesses casos, em específico, consideramos que o espaço da sala de aula é um ambiente propício para que ocorram tais spin-off's porque, por ser um espaço de compartilhamento de significados, possibilita que o professor faça uso de artifícios para promover a construção de conhecimentos. Muitas vezes, para isso, ele pode mobilizar alguns recursos de modo a explorar as possibilidades que permitem ressignificar seu uso.
Por fim, ao usar objetos do cotidiano do aluno (transferidor e fita adesiva) para indicar que os materiais de que eles são feitos possuem atividade óptica, o professor trouxe esse tema para o dia-a-dia do estudante. Dessa maneira, as ressignificações, tanto do retroprojetor quando do transferidor e da fita adesiva, auxiliaram o processo de contextualização da Física de curso superior.
Quando consideramos o professor agindo com meios mediacionais, isso exclui qualquer tendência em analisar parcialmente, ou separadamente, as contribuições que são produzidas pelo professor e as que são produzidas pelos recursos. Por exemplo, quando ele manipulou objetos no retroprojetor, o aparato experimental foi incapaz de possibilitar, sozinho, o entendimento dos conceitos abordados na ação. Por outro lado, sem os objetos mediadores citados, talvez o professor tivesse dificuldade em discutir os conceitos, ou até mesmo, não conseguisse ensiná-los e atingir os objetivos programados. Novamente, isso é um exemplo do que Wertsch (1998) denomina tensão irredutível entre agentes e meios mediacionais. Nessa perspectiva, é quase impossível ocorrer qualquer forma de ação mediada sem um meio mediacional adequado e um usuário desse meio com habilidade necessária para manipulá-lo.
## Considerações Finais
De modo geral, quando focamos nossos olhares sobre os objetos mediadores ressignificados, percebemos que eles causaram transformações nas ações dos professores observadas durante as aulas. Os objetos mediadores ressignificados utilizados pelos professores ofereceram affordances às ações, na medida em que definiram a dinâmica da aula e possibilitaram e ampliaram a discussão de conceitos.
O ensino de Ciências é promovido, na maioria das vezes, por um conjunto de ações mediadas que são variadas e dependentes de vários fatores, como a formação dos professores, o planejamento prévio das aulas, a disponibilidade de recursos, o espaço físico e a sensibilidade do professor. Esses fatores garantem a idiossincrasia das ações em situações de ensino em salas de aula. O professor, os meios mediacionais e os estudantes assumem papéis diferenciados, mas ao mesmo
tempo interligados. Para que os professores tenham sucesso quando em uso dos meios mediacionais é necessário que eles ofereçam oportunidades reais de produção de sentidos e compartilhamento de significados. Mesmo sem investigar a aprendizagem dos estudantes, nem como eles avaliam a performance do professor, vimos que o professor valoriza os objetos nas ações ao materializarem fenômenos. Acreditamos que as ações dos professores com os meios mediacionais potencializam a capacidade real dos recursos em participar do processo de construção do conhecimento.
Embora as ações do professor com meios mediacionais descritos neste trabalho sejam eventos isolados do contexto geral das aulas, de um modo geral, essas análises podem ser bastante úteis para evidenciar o poder e a importância e, até mesmo, a complexidade, que o uso de recursos materiais apresenta para a construção de conhecimento. Isso sugere um tema importante para o desenvolvimento profissional de professores, pois essa sensibilidade pode ser educada desde que sejam mostradas possibilidades concretas de uso ressignificado de objetos.
## Referências
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MORTIMER, E.F.; MASSICAME, T.; BUTY, C.; TIBERGHIEN, A. Uma metodologia para caracterizar os gêneros de discurso como tipos de estratégias enunciativas nas aulas de ciências. In NARDI, R. A pesquisa em ensino de ciência no Brasil: alguns recortes. São Paulo: Escritura, 2007.
NAKOU, I. Educação Histórica: o uso de ferramentas culturais relacionadas com a diversidade de experiências e atitudes dos estudantes. Currículo sem Fronteiras, 7(1), 137-159. 2007.
OTERO, V. Cognitive processes and the learning of physics part II: mediated action. Paper presented at the International school of physics 'Enrico Fermi': Course CLVI Research on Physics Education, Varenna, Italy, 2003.
TOMASELLO, M. Origens Culturais da aquisição do Conhecimento Humano. São Paulo, 2003.
VIGOTSKI, L.S. (2001). A construção do Pensamento e da Linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
WERTSCH, J. Mind as action. New York: Oxford Uni Press, 1998.
WERTSCH, J. Voices of the mind: A sociocultural approach to mediated action. Cambridge: Harvard University Press, 1991.
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