INTERLOCUÇÃO ESCOLA-UNIVERSIDADE: UMA EXPERIÊNCIA DE CONSTRUÇÃO COLABORATIVA DE SEQUÊNCIAS DIDÁTICAS
Douglas Grando De Souza, Eliane Angela Veit
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVIII
- Ano
- 2020
- Data
- 10/11/2020
- Linha de pesquisa
- Formação E Prática Profissional Do Professor De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## INTERLOCUÇÃO ESCOLA-UNIVERSIDADE: UMA EXPERIÊNCIA DE CONSTRUÇÃO COLABORATIVA DE SEQUÊNCIAS DIDÁTICAS
## SCHOOL-UNIVERSITY COLLABORATION: AN EXPERIENCE OF JOINT CONSTRUCTION OF DIDATICS SEQUENCES.
Douglas Grando de Souza 1 , Eliane Angela Veit 2
1 Universidade Federal do Rio Grande do Sul, douglas.grando@ufrgs.br 2 Universidade Federal do Rio Grande do Sul, eav@ufrgs.br
## Resumo
Promover espaços de interlocução entre Escola e Universidade é uma urgência para a Formação Continuada de Professores de Física, devido à necessidade de uma verdadeira dialética entre os saberes provenientes desses espaços educativos. Esse tipo de inter-relação pode ser oportunizado com o auxílio do referencial teórico de Comunidades de Prática - estruturas sociais sustentadas no tempo e capazes de produzir, reproduzir e transformar conhecimentos. Avaliar, à luz desse conceito, espaços que promoveram a interlocução desejada pode auxiliar a cultivar Comunidades de Prática para a Formação Continuada de Professores. Nesse trabalho, buscamos avaliar a experiência de construção colaborativa de sequências didáticas realizada no Núcleo de Pesquisas em Inovação Curricular da Faculdade de São Paulo, entre os anos 2003 e 2012. A análise de entrevistas com participantes do grupo de pesquisa permitiu identificar nessa produção colaborativa uma prática que promove o compromisso mútuo entre os participantes, o compartilhamento de um empreendimento conjunto e repertório compartilhado para negociação de significados, trazendo em si elementos que auxiliam na promoção de Comunidades de Prática.
Palavras-chave : Formação Continuada de Professores; Comunidade de Prática; Ensino de Física.
## Abstract
Promoting environments for collaboration between School and University is an urgency for In-service Physics Teachers Education, due to the need for a true articulation between the knowledge originated within these educational settings. This type of interrelation can be promoted with the help of the theoretical framework of Communities of Practice - social structures sustained over time and capable of producing, reproducing and transforming knowledge. To assess environments that promoted the aimed collaboration can help to cultivate Communities of Practice for In-service Teachers Education. In this work, we aim to assess the experience of collaborative construction of didactic sequences developed in Núcleo de Pesquisas em Inovação Curricular in the Universidade de São Paulo, between the years 2003 and 2012. We interviewed eight participants of this research group. The analysis of interviews allowed to identify in this
collaborative production a practice that promotes mutual commitment between the participants, the sharing of a joint enterprise and a shared repertoire for negotiating meanings, bringing elements that help in the promotion of Communities of Practice.
Keywords : In-service Teacher Education; Community of Practice; Physics Education.
## Introdução
As propostas que visam promover o desenvolvimento profissional docente, em específico aquelas voltadas à Formação Continuada de Professores (FCP), encontram desafios associadas ao relacionamento entre a Escola e a Universidade. Tradicionalmente, a prática profissional dos professores de Física poucas vezes é amparada pela pesquisa acadêmica; do mesmo modo, a produção de pesquisa acadêmica muitas vezes não tem como fundamento as situações e problemas vividos no chão da Escola (MCINTYRE, 2005). Não raras vezes a FCP de Física ocorre à margem do seu trabalho, consistindo na transmissão de atividades pedagógicas previamente preparadas por pesquisadores, com a expectativa de implantação por professores em sala de aula (i.e. BARCELOS; VILLANI, 2006; BORGES; GOI, 2018). Assim, promover a existência de espaços para o diálogo e aprendizagem mútua entre professores e pesquisadores, capazes de oportunizar uma dialética entre os conhecimentos de pesquisa acadêmica e da experiência em sala de aula, é uma necessidade urgente para a FCP de Física.
Fomentar esses espaços de interlocução entre Escola e Universidade implica reconhecer que a aprendizagem dos professores é parte de um processo de colaboração conjunta, entre si e com pesquisadores, na construção, negociação e valorização de saberes e práticas docentes e de sua identidade enquanto professores (IMBERNÓN, 2010). Essa perspectiva sobre a identidade e a prática profissional é central nas chamadas Comunidades de Prática (CoP) - configurações sociais capazes de produzir, reproduzir e transformar práticas, oferecendo oportunidades de aprendizagem aos seus membros através da legitimação de sua participação nesses processos (WENGER, 2001). No âmbito da FCP, a literatura mostra que essas estruturas sociais auxiliam a promover a inovação nas práticas didáticas, a construção da identidade profissional docente e criação de espaços de interlocução entre a Escola Básica e a Academia (, 2020, no prelo).
Investigar experiências bem-sucedidas de Formação Continuada de Professores de Física através da lente teórica das Comunidades de Prática pode auxiliar na promoção futura de modelos formativos voltados para o cultivo desse tipo de estrutura social. Por meio de uma pesquisa 1 de caráter histórico, ainda em andamento, buscamos investigar as vivências de participantes e antigos participantes do Núcleo de Pesquisas em Inovação Curricular (NUPIC). Este grupo de pesquisa da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), durante o período de 2003 a 2012, teve suas atividades
marcadas pela presença ativa de professores da Educação Básica (EB) em virtude da realização de dois projetos financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (FAPESP).
A pesquisa buscará avaliar práticas vividas e os respectivos valores atribuídos por participantes do NUPIC, de modo a propor bases capazes de auxiliar no cultivo de Comunidades de Prática para a Formação Continuada de Professores. No presente trabalho, apresentamos a análise de uma das práticas identificadas no NUPIC que consideramos promover adequadamente a Interlocução entre Escola e Universidade: a construção colaborativa de sequências didáticas. Em particular, respondemos à seguinte questão de pesquisa: quais fatores, à luz de referencial de CoP, sustentavam a atividade colaborativa de produção de sequências didáticas no NUPIC?
## Referencial Teórico
As Comunidades de Prática têm sua origem na tentativa de compreender os processos de aprendizagem ocorridos em ambientes educativos não-formais (MEGA et al., 2020). Conceito desenvolvido por Etienne Wenger (2001), as Comunidades de Prática sustentam uma concepção de aprendizagem, cognição e conhecimento enquanto fenômenos socialmente situados e intimamente relacionados à identidade da pessoa, sendo ligados a sistemas de relações interpessoais nos quais possuem significado e são valorizados.
Essa forma de organização social emerge ao redor das práticas - modos de agir, fazer e viver conjuntos, ganhando sentido no contexto social e histórico que outorga estrutura e sentido ao que se faz (WENGER, 2001). As práticas de uma CoP possuem três elementos constitutivos: (1) o compromisso mútuo entre seus participantes, caracterizando a forma de participação conjunta e valorizada mutuamente nas práticas da comunidade; (2) o empreendimento conjunto, que se refere aos objetivos compartilhados na CoP; e (3) o repertório compartilhado, compondo o conjunto de atalhos comunicativos partilhados pelos membros da comunidade, como por exemplo, a linguagem, os conceitos e as rotinas de ação, as formas de agir, os objetos e a histórias. Esses três elementos são reconhecidos como dimensões de uma Comunidade de Prática.
- O processo social de produção, reprodução e transformação de significados nas CoP é caracterizado pelo que Wenger (2001) chama de negociação de significados. Esse processo corresponde à convergência de duas dimensões diferentes: a participação e a reificação. A participação corresponde à intervenção ativa nas práticas das CoP, enquanto a reificação refere-se ao processo de criação de atalhos comunicativos para a negociação de significados. Como formas de atuação ao longo do tempo, a participação e a reificação são formas de esquecimento e de memória, constituindo duas fontes de continuidade e descontinuidade das práticas das comunidades sociais ao longo do tempo.
## Metodologia
A pesquisa desenvolvida, de caráter histórico (JOHNSON; CHRISTENSEN, 2008), centra-se na investigação das experiências vividas por participantes do NUPIC envolvidos nos Projetos de Ensino Público ocorridos entre 2003 e 2012. Escolhemos
como fontes históricas primárias entrevistas semiestruturadas realizadas com oito participantes do NUPIC no período investigado. As fontes históricas secundárias incluem diferentes documentos produzidos pelo grupo de pesquisa, como projetos de pesquisa, relatórios e trabalhos de pós-graduação. Interpretamos essas fontes de dados como elementos associados à participação e a reificação, trazendo contribuições distintas para compor uma interpretação das vivências dos participantes no NUPIC. As entrevistas foram realizadas em Porto Alegre (presencial e por ligação) e em viagem de campo à São Paulo, sendo gravadas em áudio. Todos os entrevistados assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Neste trabalho os entrevistados são identificados por nomes fictícios.
- O tratamento de dados foi conduzido pela transcrição e posterior codificação temática, realizada com o auxílio do software de análises qualitativas NVivo disponibilizado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Foram criados nós 2 correspondentes a categorizações prévias definidas a partir do referencial teórico e categorizações emergentes, úteis para a composição de narrativas históricas acerca das experiências do NUPIC. Este trabalho centra-se nas informações codificadas no nó Atividades, categorização emergente reservada aos elementos que auxiliam a descrever as práticas desenvolvidas no NUPIC. As informações foram complementadas pelas dos nós referentes às categorizações teóricas correspondentes aos elementos constitutivos das práticas de uma Comunidade de Prática - Compromisso Mútuo, Empreendimento Conjunto e Repertório Compartilhado.
## Resultados e Análise
A partir do final do ano de 2003, o NUPIC desenvolveu um trabalho junto a professores da Educação Básica no projeto Atualização dos Currículos de Física no Ensino Médio de Escolas Estaduais: a Transposição das Teorias Modernas e Contemporâneas para a Sala de Aula. Financiado entre os anos de 2003 e 2007 pela FAPESP e pertencendo à modalidade Ensino Público , o projeto tinha como objetivo a elaboração e aplicação de sequências didáticas para o Ensino de Física Moderna e Contemporânea no Ensino Médio. Entre 2009 e 2012, o NUPIC teve outro projeto financiado na mesma modalidade, intitulado A Física Moderna no Ensino Médio e a Formação de Multiplicadores para a Rede Pública de Professores de Física. Seu objetivo era a formação de professores multiplicadores na Rede Pública do Estado de São Paulo, capacitados a utilizar e reverberar as sequências didáticas desenvolvidas no NUPIC. Nesse período, os membros do grupo de pesquisa envolvidos nesse projeto voltaram-se para o desenvolvimento e realização de cursos para professores da Educação Básica (EB). Tais cursos versavam sobre as sequências didáticas desenvolvidas no projeto anterior, sendo ministrados pelos professores da EB membros do NUPIC.
Dado esse contexto geral, apresentado pelos entrevistados e corroborado pelos registros dos projetos, analisamos a atividade de produção e reprodução de materiais didáticos no NUPIC, um dos maiores exemplos de interlocução entre Escola e Universidade desenvolvidos no grupo de pesquisa.
## Elaboração Conjunta de Sequências Didáticas
Gregório: A gente chegava de manhã, cada um fazia um relato do que tinha... porque depois que começa a andar já tem atividade rolando, né? Então a gente pegava uma meia hora, cada professor chegava e relatava o que tinha feito... progresso no material que tava produzindo, a intervenção que tinha feito, se tivesse aula aplicada ele contava um pouco do que tinha acontecido com as atividades, tal, e aí, na segunda parte... tudo muda, tá? Porque enjoa, porque dez anos, né? A gente na verdade pegava algumas vezes era estudar, apresentar algum tema e depois do grupo se separavam para produzir. Tinha vez que era o contrário, tinha o relato, os grupos se separavam e tinha um fechamento no final. A gente mudava as dinâmicas, tá? Mas era basicamente três coisas que aconteceram em ordens diferentes: relatos do que tinha se feito no passado; trabalho coletivo, seja estudando, seja avaliando alguma coisa que alguém tinha produzido, mas que todo mundo queria ver; e estudo - ou estudava um texto, ou discutia uma, uma questão específica de Educação…
O trecho da entrevista com o professor Gregório, coordenador do grupo, mostra a rotina de trabalho semanal desenvolvida no grupo para o desenvolvimento dos projetos. Pode-se considerar a elaboração de sequências didáticas, com tema Física Moderna e Contemporânea, realizada em pequenos grupos e negociada no grande grupo, como uma prática integradora dos diferentes membros do NUPIC - mestrandos, doutorandos, estudantes da graduação que realizavam Iniciação Científica, os professores da Educação Básica participantes do projeto e professores universitários. As sequências, em primeiro lugar idealizadas por estudantes de pós-graduação, eram negociadas e construídas com o auxílio de professores atuantes na Educação Básica. Esses mesmos professores implementavam-nas em suas turmas, em Escolas Públicas. Os professores relatavam suas percepções e, junto com as gravações das aulas, os participantes avaliavam e reelaboravam as sequências didáticas. O desenvolvimento de sequências didáticas conectava grande parte das atividades realizadas no NUPIC - como o estudo de textos, a avaliação das produções, relatos de experiências, a gravação e avaliação das intervenções em sala de aula.
Ao longo do primeiro projeto, foram desenvolvidos colaborativamente cursos sobre Relatividade, Física de Partículas e Dualidade Onda-Partícula. Todos os cursos foram desenvolvidos nesse ritmo de contínua troca entre os diferentes membros do grupo de pesquisa, onde todos tinham espaço para expressar suas ideias e opiniões sobre o que deveria ser levado para a sala de aula. Após serem ministrados em salas de aula da rede pública, esses cursos eram continuamente ajustados e repensados com base nas dificuldades e oportunidades vividas.
Pesquisador: Os professores da Escola Básica participavam da discussão ativamente?
Gregório: Ativamente, quer dizer, todo esse material foi feito em parceria, não era uma coisa que eu... fazia ou um aluno de Mestrado... não, era uma produção coletiva, embora, se você fosse olhar, cada um tinha uma especificidade, né? Os alunos de Mestrado, que estavam desenvolvendo as sequências, eles tinham tempo para pesquisar, eles ficavam praticamente a semana inteira. Os professores... mas, a versão final... de toda intervenção, ela, ela tinha que ter passado por todo mundo.
A continuidade do relato do professor Gregório mostra como a forma de participação destacava-se pelo ativo comprometimento de todos os membros, em especial dos professores da Escola Básica. Sendo partilhado por todos eles e constituído conforme as especificidades da função de cada um, o desenvolvimento de sequências didáticas sobre Física Moderna e Contemporânea servia como contexto e objetivo para a colaboração entre os diferentes membros do NUPIC.
## Fatores que sustentam a prática de interlocução
Sofia: É que assim... tinha as reuniões semanais do Gregório com os orientados, então mestrado, doutorado, IC…
P.: Reuniões individuais?
Sofia: Não... eu frequentava essas reuniões do grupo, que é um diferencial, sem dúvida, né? Esse espaço... e aí como havia o Projeto FAPESP de Formação Continuada de Professores, alguns professores da rede tam*bém acabavam participando dessas reuniões, né? Então era uma... um momento muito rico, né? De interação, de crescimento para todo mundo ali.
O trecho acima é parte da entrevista realizada com a professora Sofia, que desenvolveu seu doutorado sob a orientação do professor Gregório entre os anos de 2005 e 2009. Ao caracterizar as atividades desenvolvidas no NUPIC, ela relata a existência de uma reunião geral do grupo de pesquisa envolvido no Projeto Ensino Público. Sofia menciona ser um diferencial do grupo a criação desse espaço de convivência tão rico, que também é descrito no relato do professor Gregório e de todos os outros entrevistados. Esse espaço de inter-relações era fundamental para a dinâmica de trabalho coletivo desenvolvido durante o projeto, e era reconhecido como tal pelos membros, vista a primazia e a recorrência da sua lembrança. Ele proporcionava o ambiente social e temporal para o trabalho colaborativo, onde eram valorizadas todas as opiniões. Permitia que os membros sentissem que sua participação fazia diferença nos seus trabalhos e de seus colegas. Era permeado por convergências, divergências, discussões - sendo assim um grande contexto de promoção de compromisso mútuo entre os membros participantes dos projetos de Ensino Público.
Esse espaço social tinha um condicionante físico específico; o NUPIC estava localizado junto ao Laboratório de Pesquisa em Ensino de Física (LAPEF), contando com uma estrutura física adequada para o trabalho de diferentes grupos de pesquisa. Em continuidade ao seu relato, a professora Sofia ressalta a importância desse ambiente físico para o funcionamento do grupo:
P.: Ter esse espaço [o LAPEF] fazia alguma diferença na dinâmica do grupo?
Sofia: Fazia muita diferença! Muita diferença!
P: Como... como?
Sofia: Tanto pela interação que a gente tinha ali, entre os próprios membros do grupo, né? Os professores da Escola Pública tinha um dia da semana que eles passavam o dia todo lá, se não me engano, reunidos, desenvolvendo a... as propostas para a Escola Básica... e o fato de ter todas aquelas ferramentas e
aquele material permitia que eles próprios construíssem muitas vezes o que ia ser usado.
O LAPEF providenciava um espaço físico para acomodar os trabalhos desenvolvidos em grupo, onde os participantes tinham acesso a recursos para negociar os significados envolvidos em uma sequência didática. Os espaços social e físico eram fonte e repositório de elementos que podem ser considerados constituintes de um repertório compartilhado das práticas de criação conjunta de sequências didáticas.
Um último elemento identificado capaz de sustentar essa prática de interlocução entre Escola e Universidade é o ideal geral que transpassa o NUPIC como um todo, que se materializou nos projetos de Ensino Público. A esse respeito relatam, em suas entrevistas individuais, o professor Pedro, estudante de mestrado e doutorado durante o período do projeto, e o professor Gregório:
Pedro: [...] a ligação da pesquisa com a sala de aula real, aí o que levou a gente a, a fazer o projeto FAPESP do Ensino Público, pra justamente… ter esse vínculo com a Escola, então inicialmente.
Gregório: É assim… é o grupo de professores, pesquisadores, alunos de mestrado, doutorado, iniciação científica que fazem pesquisa sobre Ensino então, né, você tem um olhar direcionado para a escola, mas que também agrega os profissionais que estão na escola, os professores que trabalham na escola. Então, nesse sentido, talvez o DNA do grupo seja isso: é um grupo que trabalha na ideia de uma pesquisa com intervenção, né, uma intervenção guiada por pesquisa.
As práticas de produção das sequências didáticas possuíam uma componente associada aos próprios objetivos gerais do NUPIC. Esse objetivo é traduzido como a ligação da pesquisa com a sala de aula real , ou seja, a própria prática de interlocução. No cerne da construção conjunta de sequências didáticas de Física Moderna e Contemporânea por professores da EB e estudantes acadêmicos está o 'DNA' do grupo, a percepção da necessidade de que aquele encontro ocorresse, e que ele contribuiria para que a ligação entre a Escola e a Universidade fosse efetivada.
Dessa maneira, é possível identificar, nos fatores que sustentam a atividade colaborativa de produção de sequências didáticas no NUPIC, elementos característicos que podem ser lidos à luz do referencial teórico de Comunidades de Prática. Destacam-se formas de sustentar um compromisso mútuo através do estabelecimento de um espaço social e físico comum e orientado para o diálogo; uma série de recursos compartilhadas, produzidas e negociados no próprio grupo, na forma de conhecimentos, instrumentos, ações e histórias, entre outros; e a valorização da relação entre Escola e Universidade como um objetivo próprio das atividades do grupo de pesquisa. Em especial, destaca-se nessa relação o papel de participação ativa dos professores da Educação Básica.
## Considerações Finais
Contemplamos uma visão geral sobre a atividade identificada como el aboração conjunta de sequências didáticas desenvolvida no NUPIC. Essa atividade permitiu a
existência de uma experiência de interlocução entre Escola e Universidade, proporcionando um vínculo integrador entre os diferentes membros do grupo e aprendizagem dos envolvidos no projeto de Ensino Público. A experiência descrita mostra, sobretudo, que o trabalho conjunto entre professores da Escola Básica e pesquisadores da Universidade, tão urgente em nosso sistema educacional, é possível e proveitoso para o crescimento intelectual e pessoal dos diferentes sujeitos.
Além disso, conhecer as especificidades dessa parceria de aprendizagem auxilianos a promover outras dessas experiências na FCP de Física, em especial no cultivo de Comunidades de Prática voltadas para esse objetivo. Os fatores que sustentavam essa atividade, identificados à luz do referencial teórico de Comunidades de Prática, apontam para: a necessidade de centrar grandes interesses comuns entre diferentes sujeitos do conhecimento, como no caso do interesse por inovação curricular em Física Moderna e o interesse por existir em uma linha entre Escola e Universidade; a necessidade de promover espaços sociais de compromisso entre diferentes sujeitos do conhecimento que, ainda que assumindo diferentes papéis institucionais, reconhecem a necessidade uns dos outros e de suas diferentes perspectivas para o desenvolvimento dos objetivos comuns; e o incentivo de construção e compartilhamento de recursos e espaços físicos adequados e significativos para os diferentes sujeitos da educação.
## Agradecimentos
O primeiro autor deste trabalho agradece à CAPES pela bolsa de mestrado e pelo financiamento de sua viagem à São Paulo, para pesquisa campo. Os autores também agradecem ao prof. Dr. Ives Solano Araujo pelo inestimável auxílio no trabalho de pesquisa e pelas valiosas discussões.
## Referências
BARCELOS, Nora Ney Santos; VILLANI, Alberto. Troca entre Universidade e Escola na Formação Docente: uma experiência de Formação Inicial e Continuada. Ciência & Educação (Bauru) , v. 12, n. 1, p. 73-97, 2006.
BORGES, Patricia; GOI, Mara. Revisão De Literatura Sobre Formação De Professores Em Ciências Da Natureza. Revista Ciência e Desenvolvimento , v. 11, n. 3, p. 561-584, 2018.
IMBERNÓN, Francisco. Formação Continuada de professores . Porto Alegre: Artmed, 2010.
JOHNSON, R. Burke; CHRISTENSEN, Larry B. Historical Research.In: \_\_\_\_\_\_\_, Education Research : Quantitative, Qualitative and Mixed Approaches. 3 ed. Thosand Oaks, CA: Sage, 2008. p. 421-440.
MCINTYRE, Donald. Bridging the gap between research and practice. Cambridge Journal of Education , v. 35, n. 3, p. 357-382, 2005.
MEGA, Daniel Farias; SOUZA, Douglas Grando de; VERAS REY; Elkin Adolfo; VEIT, Eliane Angela. Revista Brasileira de Ensino de Física , v. 42, 2020. No prelo.
WENGER, Etienne. Comunidades de Práctica : aprendizaje, significado e identidad. Trad. Genís Sánchez Barberán. Barcelona: Paidós, 2001.
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