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AS DUAS CULTURAS E UMA TERCEIRA LEITURA

André Ferrer P. Martins

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XVIII
Ano
2020
Data
10/11/2020
Linha de pesquisa
Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## AS DUAS CULTURAS E UMA TERCEIRA LEITURA THE TWO CULTURES AND A THIRD LOOK

AndrØ Ferrer P. Martins 1

1 Universidade Federal do Rio Grande do Norte/Centro de Educaçªo, aferrer34@yahoo.com.br

## Resumo

O objetivo desse trabalho Ø retomar a obra do físico e escritor inglŒs Charles Percy Snow (1905-1980), traduzida para o portuguŒs com o título de As duas culturas e uma segunda leitura , realizando uma 'terceira leitura' que visa contribuir à sua (re)interpretaçªo e à promoçªo de novas reflexıes para a Ærea de ensino de física. Para tanto, buscamos a aproximaçªo do texto de Snow com a sociologia do conhecimento de Ludwik Fleck (1896-1961). Em particular, a ideia da existŒncia de 'duas culturas' - a dos cientistas e a dos literatos - defendida por Snow, bem como a de um fosso entre elas, Ø interpretada com um olhar fleckiano a partir dos conceitos de estilo de pensamento, coletivo de pensamento, circulaçªo intra e intercoletiva de ideias. Ao final, tecemos algumas consideraçıes sobre a aproximaçªo entre os autores e propomos a problematizaçªo de certas questıes acerca da educaçªo e do ensino de ciŒncias/física face à temÆtica trazida por Snow e iluminada pelo referencial de Fleck.

Palavras-chave : C. P. Snow; Ludwik Fleck; duas culturas; estilo de pensamento.

## Abstract

The objective of this work is to resume the work of the English physicist and writer Charles Percy Snow (1905-1980), translated into Portuguese under the title As duas culturas e uma segunda leitura , performing a 'third look' that aims to contribute to its (re)interpretation and to the promotion of new reflections for the physics teaching area. For that, we sought an approximation of Snow's text with the sociology of knowledge of Ludwik Fleck (1896-1961). In particular, the idea of the existence of 'two cultures' - one of the scientists and one of the literary - defended by Snow, as well as a moat between them, is interpreted from a fleckian point of view using the concepts of thought style, thought collective, intra and intercollective circulation of ideas. At the end, we do some considerations about the approximation between the authors and propose the problematization of certain issues about education and science/physics teaching in face of the theme brought by Snow and illuminated by Fleck.

Keywords : C. P. Snow; Ludwik Fleck; two cultures; thought style.

## Introduçªo

O inglŒs Charles Percy Snow (1905-1980) se tornou conhecido na Ærea de ensino de física devido a uma palestra proferida na Universidade de Cambridge em

1959, intitulada 'Palestra Rede', posteriormente publicada na forma de livro ( The two cultures ). Após quatro anos, em 1963, Snow revisita aquele texto e realiza uma 'segunda leitura'. O conjunto (palestra original e releitura) ganhou uma traduçªo para o portuguŒs como As duas culturas e uma segunda leitura (SNOW, 1995).

Em nossa Ærea, um dos divulgadores desse texto de Snow foi o professor Joªo Zanetic, que faz referŒncia à ideia de 'duas culturas' em sua tese de doutoramento (ZANETIC, 1989) e, mais explicitamente, em trabalhos posteriores (p.ex. ZANETIC, 2006). Outros pesquisadores tambØm citam esse trabalho de Snow (p.ex. HARTMANN; ZIMMERMANN, 2007; AMARAL, 2019), que costuma quase sempre ser lembrado em trabalhos que tratam da aproximaçªo do ensino de física com outras perspectivas, tais como a literatura, o teatro, as artes em geral, ou mesmo a história e a filosofia da ciŒncia.

A 'Palestra Rede' completou recentemente, em 2019, 60 anos. Uma evidŒncia de sua relevância e de seu impacto duradouro pode ser percebida em um pequeno texto publicado na Science em maio (mesmo mŒs em que a Palestra Rede havia sido proferida) de 2019 (McCRAY, 2019), assim como pela lembrança que havia sido feita em um Editorial da Nature 10 anos antes (tambØm em maio), por conta dos 50 anos da mesma palestra ([EDITORIAL], 2009).

Em funçªo dessa efemØride e de sua relevância em nossa Ærea, decidimos lançar um novo olhar sobre ela, focalizando alguns aspectos que, a nosso ver, poderiam ser interpretados à luz da sociologia do conhecimento de Ludwik Fleck (1896-1961). Esse Ø, portanto, o objetivo desse trabalho, que nªo pretende analisar pormenorizadamente a obra de Snow, mas, antes, promover uma 'terceira leitura' 1 que vise contribuir à sua (re)interpretaçªo e à promoçªo de novas reflexıes para a Ærea de ensino de física.

## C. P. Snow e suas 'duas leituras' das 'duas culturas'

De modo bastante sintØtico - e com todos os riscos decorrentes disso seria possível resumir o conteœdo da 'Palestra Rede' nos seguintes termos: hÆ um fosso entre 'duas culturas', a dos cientistas e a dos literatos, que se agravou ao longo do sØculo XX e cuja origem estaria situada no sistema de ensino (no caso, inglŒs), marcado pela especializaçªo. De modo interconectado a isso, a sociedade em geral - e parte da intelectualidade - nªo compreendeu o processo histórico da Revoluçªo Industrial e nªo compreende nem acompanha os impactos da Revoluçªo Científica mais recente, associada à sociedade industrial do início do sØculo XX 2 , e que Ø chave para o desenvolvimento científico e tecnológico do mundo contemporâneo e para a diminuiçªo de outro fosso, o que separa ricos e pobres 3 .

Snow deixa claro, desde o início, que Ø um cientista de profissªo e um escritor por vocaçªo. Aponta e existŒncia de 'duas culturas' e de um fosso entre elas:

Num pólo os literatos; no outro os cientistas e, como os mais representativos, os físicos. Entre os dois, um abismo de incompreensªo mœtua - algumas vezes (particularmente entre os jovens) hostilidade e aversªo, mas principalmente falta de compreensªo. Cada um tem uma imagem curiosamente distorcida do outro. Suas atitudes sªo tªo diferentes que, mesmo ao nível da emoçªo, nªo encontram muito terreno comum (SNOW, 1995, p. 21).

Ele próprio se questiona sobre a separaçªo em ' duas ' culturas: 'As tentativas de dividir tudo em dois devem ser recebidas com muita suspeita' (SNOW, 1995, p. 26), embora opte por manter a expressªo. Fornece algumas características da cultura científica e da dos literatos, dando destaque à incompreensªo total da ciŒncia por parte dos literatos (mais adiante aborda tambØm a falta de conhecimento dos cientistas quanto à literatura). Segundo Snow: 'Essa polarizaçªo Ø pura perda para todos nós. Para nós como pessoas, e para a nossa sociedade' (SNOW, 1995, p. 29).

- O autor atribui essa divisªo cultural a todo o mundo ocidental, embora localize na educaçªo especializada inglesa a razªo pela qual o fosso lhe pareça tªo agudo. Considera, ainda, que a distância entre cientistas e nªo-cientistas seria maior no momento em que escreve do que fora hÆ 30 anos. Defende que Ø preciso repensar a educaçªo se quisermos sair disso.

Passa, em seguida, a afirmar que a intelectualidade (relacionada à cultura humanística e literÆria) 'nunca tentou, quis ou conseguiu compreender a Revoluçªo Industrial, muito menos aceitÆ-la' (SNOW, 1995, p. 41), e, no entanto, 'a industrializaçªo Ø a œnica esperança do pobre' (SNOW, 1995, p. 45). Snow destaca a melhoria de vida, em geral, ocorrida nos países industrializados, em termos de aumento de expectativa de vida, diminuiçªo de doenças, mortalidade infantil etc., em relaçªo a um passado (nªo tªo distante) em que a maior parte da populaçªo vivia no campo em piores condiçıes de vida.

A sociedade industrial da eletrônica, da energia atômica e da automaçªo tambØm nªo foi compreendida pelas pessoas bem-educadas. Mesmo cientistas 'puros' mostram-se desinteressados em relaçªo à pesquisa aplicada e à engenharia. Snow compara a educaçªo em vÆrios países quanto a esse aspecto, considerando que a Inglaterra estaria 'atrasada', por exemplo, em relaçªo aos Estados Unidos.

Na œltima parte da palestra, o autor destaca que o fosso entre ricos e pobres estÆ aumentando no mundo 4 , e que isso precisa mudar. Nesse ponto, Snow relaciona as questıes, dizendo que o Ocidente, com sua cultura dividida, tem dificuldade em ver a amplitude e rapidez que essa transformaçªo deve ter. Teme que, se o Ocidente nªo promover as mudanças necessÆrias, os países comunistas o farªo. Ao final, afirma que:

Fechar o fosso entre nossas duas culturas Ø uma necessidade tanto no sentido intelectual mais abstrato quanto no sentido mais prÆtico. Quando esses dois sentidos se desenvolvem separados, nenhuma sociedade Ø capaz de pensar com sabedoria (SNOW, 1995, p. 72).

Sua segunda leitura, efetuada quatro anos depois, possui quase o mesmo nœmero de pÆginas que a 'Palestra Rede'. Por questıes de limitaçªo de espaço, falaremos dela mais brevemente aqui. Snow deixa claro, de início, que sua intençªo original era a de 'dar uma espØcie de ferroada' que provocasse alguma açªo, com relaçªo à educaçªo e à preocupaçªo das sociedades ricas com as pobres. A repercussªo da palestra teria evidenciado que as ideias expostas talvez nªo fossem originais, mas 'estariam no ar', e que deveria haver algo importante nelas.

Diante das críticas que sofreu (algumas agressivas), retoma sua intençªo inicial, reiterando que pretendia destacar a falta de comunicaçªo entre o que havia batizado de 'duas culturas':

Entre esses dois grupos - os cientistas e os literatos - existe pouca comunicaçªo e, em vez de camaradagem, uma como que hostilidade (SNOW, 1995, p. 84).

Procura, em seguida, esclarecer o uso que fez do termo 'cultura', afirmando que o utilizou em dois sentidos: o da definiçªo encontrada no dicionÆrio e outro, mais tØcnico, usado por antropólogos:

(...) para denotar um grupo de pessoas que vivem no mesmo ambiente, ligadas por hÆbitos comuns e um modo de vida comum (...).

Pois os cientistas, de um lado, e os literatos, de outro, realmente existem como culturas dentro da esfera de açªo da antropologia. HÆ, como eu disse anteriormente, padrıes e formas comuns de comportamento, abordagens e postulados comuns (SNOW, 1995, p. 88).

Sobre o termo 'duas', Snow reconhece que hÆ 'subdivisıes e mais subdivisıes dentro, digamos, da cultura científica' (SNOW, 1995, p. 90), mas que procurou dar Œnfase ao contexto inglŒs, onde considera ser mais aguda essa divisªo cultural. Considera que poderia estar se formando uma 'terceira cultura' a partir de estudos em diferentes Æreas (história social, sociologia, demografia, ciŒncia política, economia, psicologia, medicina...).

Volta a tratar das desigualdades e de que a Revoluçªo Científica deveria ser disseminada por todo o mundo. Afirma que havia pensado em nomear a palestra original de 'Os ricos e os pobres', e que nªo deveria ter mudado de ideia (SNOW, 1995, p. 105), indicando claramente o foco principal de sua fala. A misØria no mundo nªo seria percebida por quem vive nas sociedades industriais desenvolvidas, e haveria um mito de um 'Éden prØ-industrial'.

Mais próximo ao final, aponta Snow:

É perigoso ter duas culturas que nªo podem ou nªo querem comunicar-se entre si. Numa Øpoca em que a ciŒncia determina grande parte do nosso destino, ou seja, se vivemos ou morremos, essa falta de comunicaçªo Ø perigosa nos termos mais prÆticos. Os cientistas podem dar maus conselhos e os tomadores de decisªo nªo terªo jeito de saber se sªo bons ou maus (SNOW, 1995, p. 126).

Fleck como chave de (re)leitura de Snow

A sociologia da ciŒncia de Ludwik Fleck (1896-1961) ficou esquecida por muito tempo e tem sido recuperada nas œltimas dØcadas, particularmente no Brasil. JÆ hÆ um bom nœmero de trabalhos em nossa Ærea que adotam Fleck como referencial (a esse respeito ver, p.ex., as revisıes de LORENZETTI et al., 2013; 2016; 2018; SOUZA et al., 2014). A principal obra de Fleck data de 1935 (FLECK, 2010) e um extenso trabalho contendo sete artigos publicados por Fleck, acrescidos de um conjunto de textos de comentadores, foi publicado em 1986 (SCHNELLE; COHEN, 1986). TambØm hÆ uma importante coletânea de trabalhos sobre Fleck organizada por Mauro CondØ (CONDÉ, 2012).

Obviamente, nªo hÆ espaço para apresentarmos o referencial fleckiano, cujas principais noçıes seriam as de estilo de pensamento, coletivo de pensamento, circulaçªo intracoletiva de ideias, circulaçªo intercoletiva de ideias, círculo esotØrico e círculo exotØrico, protoideias, dentre outras. O que nos interessa, aqui, Ø destacar que conceitos da sociologia de Fleck sªo œteis para reinterpretar o discurso de Snow.

Vejamos o que Fleck afirma a respeito do estilo de pensamento :

- O estilo de pensamento, assim como qualquer estilo, consiste numa determinada atmosfera ( Stimmung ) e sua realizaçªo. Uma atmosfera ( Stimmung ) possui dos lados inseparÆveis: ela Ø a disposiçªo ( Bereitschaft ) para um sentir seletivo e para um agir direcionado correspondente. Ela gera as formas de expressªo adequadas: religiªo, ciŒncia, arte, costumes, guerra etc, de acordo com a predominância de certos motivos coletivos e dos meios coletivos investidos. Podemos, portanto, definir o estilo de pensamento como percepçªo direcionada em conjunçªo com o processamento correspondente no plano mental e objetivo . Esse estilo Ø marcado por características comuns dos problemas, que interessam a um coletivo de pensamento; dos julgamentos, que considera como evidentes e dos mØtodos, que aplica como meios do conhecimento. É acompanhado, eventualmente, por um estilo tØcnico e literÆrio do sistema do saber (FLECK, 2010, p. 149, grifos do autor).
- O coletivo de pensamento Ø o 'portador comunitÆrio do estilo' (FLECK, 2010, p. 154), e refere-se ao grupo de pessoas que compartilham determinado estilo de pensamento, num dado contexto histórico e social.
- JÆ a circulaçªo de ideias diz respeito ao processo pelo qual pensamentos sªo transmitidos, seja entre os membros de um mesmo coletivo (caso da circulaçªo intracoletiva), seja entre membros de coletivos diferentes (circulaçªo intercoletiva). Fleck enfatiza o papel da linguagem na constituiçªo e manutençªo dos estilos e, tambØm, que sempre hÆ 'desvios de significado' na circulaçªo de ideias, sendo esses desvios tanto mais intensos quanto mais afastados forem os estilos. Segundo ele:

(...) quanto maior a diferença entre dois estilos de pensamento tanto menor o trÆfego de pensamentos. Quando existem relaçıes intercoletivas, estas apresentam traços comuns, independentemente das particularidades dos respectivos coletivos. Os princípios de um coletivo alheio sªo percebidos se Ø que sªo notados - como arbitrÆrios, sua eventual legitimaçªo, como petiçªo de princípio. O estilo de pensamento alheio tem ares de misticismo, as questıes rejeitadas por ele sªo consideradas exatamente como as mais importantes, as explicaçıes como nªo comprovadas ou errôneas e os problemas, muitas vezes, como brincadeira sem importância ou sem sentido. Fatos particulares e conceitos particulares - dependendo do parentesco entre os coletivos -sªo vistos como invençıes livres, simplesmente ignoradas (como, por exemplo, 'fatos espíritas' por parte das

ciŒncias exatas), ou - no caso de coletivos menos divergentes - sªo interpretados de maneira diferente, isto Ø, traduzidos e adotados numa outra linguagem de pensamento (como, por exemplo, os fatos espíritas por parte dos teólogos) (FLECK, 2010, p. 161).

Assim, as 'duas culturas' de Snow poderiam ser reinterpretadas como dois grandes estilos de pensamento. Quem sabe isso evitaria, inclusive, certas críticas que Snow recebeu em relaçªo ao uso do termo 'cultura'. A forma como Fleck caracteriza o estilo de pensamento, como um ver, sentir e agir direcionados, correspondendo a certas prÆticas comuns e a uma linguagem própria, encontra ressonância com aquilo que apresentamos da visªo de Snow quando nos fala dos hÆbitos, padrıes e formas comuns de comportamento de cada uma das duas culturas. É interessante trazermos nesse ponto outro trecho de Snow que, ao defender o uso da palavra 'cultura', afirma:

(...) quero repetir o que pretendia ser minha mensagem principal, mas que de alguma maneira foi abafada: que nem o sistema científico de desenvolvimento mental , nem o tradicional, Ø adequado às nossas potencialidades, ao trabalho que temos pela frente e ao mundo em que devemos começar a viver (SNOW, 1995, p. 87, grifos nossos).

Nota-se, aí, uma aproximaçªo maior com a ideia de 'estilo de pensamento'.

O fosso entre as 'duas culturas' corresponde, exatamente, ao que Fleck descreve como dificuldade de comunicaçªo e afastamento em funçªo da diferença entre estilos. Nesse caso, haveria pouca circulaçªo intercoletiva de ideias e pouco interesse mœtuo, o que Snow havia caracterizado -como vimos -como incompreensªo mœtua, pouca comunicaçªo, certa hostilidade e aversªo. A esse respeito, inclusive, cabe destacar o alerta de Fleck para a 'intolerância característica' de qualquer comunidade fechada (FLECK, 2010, p. 156).

A busca pela reaproximaçªo entre as duas culturas e a diminuiçªo do fosso, defendida por Snow, significaria, do ponto de vista fleckiano, fomentar o trÆfego intercoletivo de ideias e, de algum modo, diminuir os desvios (inevitÆveis) de significado. Mais do que isso, Snow defende repensar a educaçªo e seu carÆter especializado. Embora Fleck nªo volte seu olhar para essas mesmas questıes, descreve o processo de introduçªo de um sujeito em um coletivo / estilo como sendo de uma 'conduçªo para dentro', uma 'suave coerçªo', em que, gradativamente, os valores, hÆbitos e prÆticas do coletivo, enfim, o 'olhar direcionado', vai sendo aprendido. Assim, nªo haveria como pensar em diminuiçªo do fosso sem levar em conta o processo educacional.

## Consideraçıes finais

Buscamos aproximar nossos dois autores, principalmente, a partir da ideia de 'duas culturas' e do fosso entre elas, deixando de lado a anÆlise de Snow quanto às desigualdades entre ricos e pobres que, numa primeira aproximaçªo, possui menos elementos que dialogam com Fleck. Acreditamos que alcançamos nosso objetivo central, embora os argumentos expostos aqui pudessem ser bastante aprofundados e detalhados. Cabe, por fim, tecermos algumas consideraçıes mais relacionadas à educaçªo e ao ensino de física.

É importante, antes, nªo perdermos de vista que ambos - Snow e Fleck precisam ser situados em seus respectivos contextos históricos e que suas obras

devem ser lidas de modo crítico 5 . Concordamos com Zanetic quando afirma, sobre o texto de Snow, que:

Embora muitas das premissas contidas no seu ensaio precisem ser reavaliadas em funçªo do desenvolvimento cultural das œltimas quatro dØcadas, creio que parte significativa de suas idØias deveria permanecer na agenda de educadores, cientistas e humanistas. Snow defendia que uma aproximaçªo entre os dois universos intelectuais era essencial para possibilitar um eficaz diÆlogo inteligente com o mundo (ZANETIC, 2006, p. 46, grifos nossos).

Da mesma forma, consideramos oportuna a aproximaçªo entre esses 'dois universos intelectuais' (ou 'duas culturas', ou 'dois estilos de pensamento'). De certo modo, a defesa de uma 'alfabetizaçªo científica' da populaçªo, como tem sido discutido hÆ dØcadas em nossa Ærea (ou de uma 'formaçªo científica para a cidadania') ressoa o discurso de Snow. Todo o debate acerca da interdisciplinaridade envolve, em certo grau, aspectos problematizados pela 'Palestra Rede' (e, tambØm, pela sociologia do conhecimento de Fleck). O investimento e a educaçªo em C&T continuam sendo referenciados, atualmente, como meios promotores do desenvolvimento econômico e social das naçıes, o que era, essencialmente, o cerne do argumento de Snow. Por outro lado, o domínio global do neoliberalismo e do capitalismo financeiro, na atualidade, tem levado a um aprofundamento do fosso entre ricos e pobres, apesar de quaisquer esforços em prol do setor industrial em países em desenvolvimento.

Como situarmos, hoje, a divisªo entra as 'duas culturas' em nossa sociedade e na educaçªo em geral? De que modo convivem e dialogam esses diferentes estilos de pensamento? Que escolhas curriculares devemos fazer se quisermos diminuir o fosso? Essa Ø uma questªo relevante se lembrarmos o contexto atual de reforma do ensino mØdio e de implementaçªo da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e dos itinerÆrios formativos. O que ganhamos e o que perdemos ao tratar as ciŒncias da natureza como uma 'grande Ærea' do conhecimento? Como promover o diÆlogo entre Æreas? Seria suficiente apresentar aos jovens a 'ciŒncia' como um grande estilo de pensamento, sem considerar suas especificidades (a Física, por exemplo), as tais 'subdivisıes e mais subdivisıes' de Snow?

Especificamente em relaçªo aos itinerÆrios formativos, abriu-se a possibilidade de que, na prÆtica, boa parte dos cidadªos nªo tenham acesso ao conhecimento das ciŒncias da natureza (p.ex.) para alØm do que estÆ na BNCC, uma vez que esse itinerÆrio pode nªo ser ofertado. Assim, nªo estaríamos prejudicando a 'formaçªo científica para a cidadania' e contribuindo para aumentar o fosso entre as duas culturas? Nªo estaríamos privando parte da populaçªo de compreender e participar do estilo de pensamento da ciŒncia (e suas subdivisıes) e, com isso, estabelecer um 'diÆlogo inteligente com o mundo'? Nªo estaríamos prejudicando o próprio desenvolvimento científico e tecnológico do nosso país, contribuindo para aumentar o fosso entre (países) ricos e pobres? O alerta de Snow e o referencial de Fleck podem ser bœssolas que orientem nossas escolhas curriculares e didÆticas.

Nesse sentido, estamos diante de uma problemÆtica semelhante à de Snow: repensar a educaçªo tendo que levar em conta a existŒncia de diferentes formas de pensamento e prÆticas culturais que, historicamente, foram se afastando, especializando-se e ganhando certa independŒncia, ou seja, consolidando-se enquanto diferentes estilos de pensamento.

## ReferŒncias

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