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TERRAPLANISMO E ENSINO DE CIÊNCIAS: DEVERÍAMOS ESTAR PREOCUPADOS?

André Ferrer P. Martins

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XVIII
Ano
2020
Data
10/11/2020
Linha de pesquisa
Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## TERRAPLANISMO E ENSINO DE CI˚NCIAS: DEVER"AMOS ESTAR PREOCUPADOS?

## FLAT EARTH MOVEMENT AND SCIENCE EDUCATION: SHOULD WE BE CONCERNED?

## AndrØ Ferrer P. Martins 1

1 Universidade Federal do Rio Grande do Norte/Centro de Educaçªo, aferrer34@yahoo.com.br

## Resumo

A crença de que a Terra Ø plana e de que o conhecimento científico construído historicamente a esse respeito estÆ errado vem, aparentemente, crescendo no Brasil e no mundo. Recentemente, realizou-se em Sªo Paulo a primeira Convençªo Nacional da Terra Plana - FLAT CON BRASIL 2019. Inserido nesse contexto, esse trabalho, de cunho qualitativo, objetivou identificar elementos característicos do pensamento dessa comunidade, tomando como base os discursos proferidos nas diversas palestras ocorridas durante esse evento. Por meio da anÆlise das notas de campo de observaçªo, identificou-se um conjunto prØvio de seis características do discurso terraplanista, detalhadas no corpo do trabalho. A continuidade da pesquisa prevŒ a ampliaçªo e o aprofundamento da anÆlise com a adoçªo de um referencial teórico próprio da sociologia do conhecimento, a saber, o de Ludwik Fleck (18961961). Nossas conclusıes apontam para a necessidade de reflexªo por parte da comunidade de pesquisadores em ensino de ciŒncias/física em relaçªo a esse fenômeno social e seus significados e implicaçıes para o trabalho de professores. Destacamos, ainda, o importante papel que a História, a Filosofia e a Sociologia da CiŒncia (HFSC) possuem na problematizaçªo do terraplanismo.

Palavras-chave: Terraplanismo; Ludwik Fleck; História da CiŒncia; Sociologia da CiŒncia.

## Abstract

The belief that the Earth is flat and that the scientific knowledge historically constructed in this regard is wrong is apparently growing in Brazil and in the world. Recently, the first Flat Earth National Convention - FLAT CON BRASIL 2019 was held in Sªo Paulo. In this context, this qualitative study aimed to identify characteristic elements of the thinking of this community, based on the speeches given in the various lectures occurred during that event. Through the analysis of the observation field notes, a previous set of six characteristics of the flat earth supportes' speech was identified and detailed in the body of this work. The continuity of the research foresees the expansion and deepening of the analysis with the adoption of a theoretical framework specific to the sociology of knowledge, namely, that of Ludwik Fleck (1896-1961). Our conclusions point out to the need for reflection on the part of the research community in science/ physics teaching in relation to this social phenomenon and its meanings and implications for the work of teachers. We also highlight the important role that History, Philosophy and Sociology of Science (HPSS) play in the problematization of the flat earth movement.

Keywords: Flat earth movement; Ludwik Fleck; History of Science; Sociology of Science.

## Introduçªo

- O movimento terraplanista (ou, simplesmente, 'terraplanismo') vem ganhando algum destaque na mídia - e adeptos - nos œltimos tempos. Insere-se num conjunto de movimentos, concepçıes e proposiçıes que podem ser caracterizados, grosso modo, como característicos da chamada 'pós-verdade' 1 .

No caso específico do terraplanismo, trata-se de afirmar, basicamente, que o conhecimento científico estabelecido e atualmente aceito em relaçªo ao formato e movimentos da Terra, bem como sua posiçªo relativa a outros astros, estÆ errado. A afirmaçªo central desse movimento Ø de que 'a Terra Ø plana', o que traz uma sØrie de consequŒncias acerca de outros fenômenos relacionados e contestaçıes quanto ao que Ø aceito pela comunidade científica.

- O movimento tem carÆter mundial, com certo protagonismo norte-americano dado pela Flat Earth Society 2 . JÆ foram realizadas trŒs conferŒncias internacionais voltadas ao tema 3 . No caso brasileiro, tivemos recentemente a realizaçªo da primeira Convençªo Nacional da Terra Plana - FLAT CON BRASIL 2019, que reuniu parte significativa da 'comunidade' terraplanista nacional 4 .
- O objetivo central desse trabalho Ø identificar elementos característicos do pensamento dessa comunidade, tomando como base os discursos proferidos nas diversas palestras ocorridas durante a Flat Con Brasil. Tecemos, em seguida, alguns comentÆrios acerca da possibilidade de analisar tais elementos à luz de um referencial teórico em particular e, ao final, apontamos questıes que, a nosso ver, deveriam ser objeto de atençªo da Ærea de ensino de ciŒncias/física no que diz respeito a essa temÆtica.

## Aspectos do evento e a metodologia da pesquisa

A 1' Convençªo Nacional da Terra Plana ocorreu em um teatro no bairro da Liberdade, em Sªo Paulo (SP), em 10 de novembro de 2019. Segundo os organizadores do evento, contou com a participaçªo de cerca de 400 pessoas 5 . Dez

palestrantes se revezaram no palco ao longo do dia. A quase totalidade deles era formada por Youtubers e detinha um canal específico nessa rede social.

A imprensa foi proibida de adentrar ao salªo principal para gravar ou filmar as palestras, limitando-se a fazer entrevistas e tirar fotos na parte externa. Houve, no entanto, filmagem das palestras por parte da organizaçªo do evento, sendo que algumas das falas podem ser encontradas em canais no Youtube. Aos participantes registrados no evento, tambØm nªo era permitida a realizaçªo de filmagens, mas apenas de registro fotogrÆfico.

Como participante, procurei construir um 'diÆrio de campo' de observaçªo, tomando nota de tudo que foi possível ao longo das palestras. A ideia foi a de registrar o mais fielmente possível os aspectos centrais daquilo que estava sendo exposto sem, contudo, promover qualquer tipo de 'anÆlise' naquele momento. Embora saibamos que uma atitude ou postura completamente neutra seja impossível, minha intençªo foi a de, deliberadamente e desde o início, assumir uma postura de 'observador isento', cuja finalidade era apenas a do registro escrito. Dadas tais características, esse estudo se insere no contexto de pesquisas de cunho qualitativo (LÜDKE; ANDRE, 1986; ALVES-MAZZOTTI; GEWANDSZNAJDER, 1999) e assemelha-se ao que Mayring (2002) denomina de 'pesquisa de campo', com aspectos de observaçªo naturalística.

A partir do conteœdo desse diÆrio de campo procurou-se identificar, em cada uma das palestras: o tema central; as principais ideias defendidas, e os argumentos utilizados. Temas e ideias recorrentes tambØm foram apontados. Assim, chegamos a um conjunto de elementos característicos que sugerem uma primeira aproximaçªo ao pensamento terraplanista, tal qual exposto no evento. Como se trata de um trabalho em andamento, uma anÆlise posterior mais refinada torna-se necessÆria, acrescendose outras fontes de dados que venham a reforçar, modificar e/ou ampliar as conclusıes prØvias delineadas aqui.

## Terraplanismo (TP) em açªo

Por questıes de limitaçªo de espaço, apontaremos na forma de uma lista, a seguir, algumas características identificadas no discurso terraplanista, oriundas de nossa anÆlise preliminar:

- 1) O TP estaria fora de um 'sistema' que esconde a verdade.
- 2) Estabelecimento de uma relaçªo bipolar com o conhecimento científico.
- 3) Uso 'particularizado' de termos e conceitos da ciŒncia.
- 4) Seletividade no uso de dados e informaçıes.
- 5) Vínculo com questıes de natureza religiosa.
- 6) Crítica à escola e ao ensino de ciŒncias.

Passemos a uma breve descriçªo de cada item.

Diversos palestrantes fazem mençªo a um 'sistema' que esconde das pessoas (aparentemente, de modo deliberado) a 'verdade'. Esse sistema Ø identificado com diversos setores e prÆticas da sociedade, tais como a política, a ciŒncia, a escola, a mídia. A NASA (agŒncia espacial norte-americana) Ø citada vÆrias vezes como fazendo parte desse sistema e, em particular, propagadora de falsas ideias como, por exemplo, a de que o ser humano jÆ foi à Lua.

O sistema tende a manter o status quo (principalmente em relaçªo ao conhecimento estabelecido e propagado nas escolas), e aqueles que duvidam ou questionam o que diz o sistema sªo perseguidos e/ou ridicularizados (caso do TP e seus defensores). Assim, o 'encontro' com o TP Ø relatado por muitos como uma busca por uma verdade escondida, havendo uma valorizaçªo da açªo individual nessa busca genuína por conhecimento. Afirmou-se, por exemplo, que devemos crer no que podemos observar e medir por nós mesmos.

Nªo Ø à toa que a imprensa foi impedida de registrar o evento. Afinal, eles fazem parte 'do sistema'. Nesse sentido, o TP acaba propagando um discurso do tipo 'nós contra eles' e criando um sentimento de comunidade, de comunhªo entre pares, entre aqueles que defendem sua tese central.

Uma segunda característica Ø o que denominamos de 'estabelecimento de uma relaçªo bipolar com o conhecimento científico'. A ciŒncia Ø sistema. Portanto, algo a ser criticado e deixado de lado. Afirmou-se, por exemplo, que aquilo que chamamos de ciŒncia nada mais Ø do que 'pseudociŒncia', e que Newton e Einstein nªo seriam verdadeiros cientistas. Cientistas profissionais sªo vistos como intolerantes e dogmÆticos. AlØm disso, a ciŒncia contribuiria para o declínio de uma perspectiva religiosa (hÆ relaçªo com o item 5, mais adiante).

Por outro lado, a ciŒncia, por meio de seus conceitos, leis, princípios etc. Ø referenciada praticamente o tempo todo no discurso de boa parte dos palestrantes. Abundam termos como energia, eletricidade, eletromagnetismo, fractal, campos, empirismo - dentre muitos outros -, provenientes do universo da ciŒncia estabelecida. Valoriza-se, em certa medida, a realizaçªo de experimentos na busca do estabelecimento de fatos , algo que costuma estar associado, socialmente, ao fazer científico. Buscam-se evidŒncias em favor da Terra plana o que, tambØm em certa medida, seria oposto ao simples discurso de uma autoridade (religiosa, por exemplo).

Daí, portanto, que a relaçªo com o conhecimento científico parece oscilar entre dois polos, entre 'o amor e o ódio'.

Vinculado ao anterior, surge o terceiro item de nossa lista: o uso 'particularizado' de termos e conceitos da ciŒncia. Refiro-me aqui ao uso descontextualizado de conceitos científicos, ou seja, o uso fora do contexto das leis e teorias aceitas pela ciŒncia. Nesse terreno, hÆ desde a simples apropriaçªo e uso de um termo ('magnØtico', p.ex.) que passa a ser associado a fenômenos diversos e heteróclitos, atØ o estabelecimento de conclusıes completamente diversas do pensamento científico, mas com o uso de seus conceitos (p.ex., a afirmaçªo de que Ø impossível o Sol produzir chamas, pois nªo possui oxigŒnio).

Tais afirmaçıes, por vezes, nªo se limitam a usar conceitos científicos para questionar a própria ciŒncia, mas, antes, denotam um desconhecimento puro e simples do que diz a ciŒncia (p.ex., a defesa de que seria impossível sabermos que hÆ hidrogŒnio e hØlio no Sol, uma vez que nªo se pode colher esse material 6 , mostra um desconhecimento da espectroscopia; a afirmaçªo de que os resultados negativos do experimento de Michelson-Morley 'provam' que a Terra Ø plana mostra um desconhecimento do que foi esse famoso experimento). Haveria muitos outros exemplos aqui.

A quarta característica Ø a seletividade no uso de dados e informaçıes. Chama a atençªo o fato de que algumas fotos sªo confiÆveis, enquanto outras nªo sªo. Por exemplo, fotos de aviıes e balıes, em que nªo se perceberia a curvatura da Terra, foram apresentadas como evidŒncias em favor do TP, enquanto fotos que mostram a chegada do homem à Lua foram descartadas como falsas e fruto de montagens. Da mesma maneira, as observaçıes tambØm adquirem esse carÆter de seletividade, como fica evidente na cØlebre experiŒncia do avistamento do navio que se afasta do porto.

- O vínculo com questıes de natureza religiosa (item 5) Ø uma característica clara do discurso terraplanista, muito embora nªo esteja presente na totalidade das palestras. Mas houve palestras específicas sobre esse tema (p.ex., sobre a 'cosmologia das sagradas escrituras') e, mesmo nas demais, nªo era incomum algum tipo de referŒncia a questıes religiosas.
- O aspecto mais óbvio, aqui, Ø o estabelecimento da relaçªo entre o TP e aquilo que estÆ exposto na Bíblia, particularmente, no livro do GŒnesis. A ideia de 'domo', de Æguas inferiores e superiores, Ø evocada em favor da concepçªo da Terra plana. Mas hÆ outros elementos importantes. Um deles Ø a centralidade do homem que, como criaçªo divina, deve situar-se no centro de todo o Universo, que coincide com a posiçªo da Terra. Outras ideias sªo elencadas para reforçar essa visªo, em particular, a noçªo de que existe um propósito na criaçªo, a própria ideia de criaçªo , assim como a autoridade da Bíblia. JÆ as concepçıes científicas, como o Big Bang e o evolucionismo, sªo trazidas como perspectivas que negam a existŒncia de Deus e gerariam apenas destruiçªo, guerras e desgraças.
- O próximo item da lista (item 6), que tem relaçıes com os itens 1 e 2, Ø a crítica à escola e ao ensino de ciŒncias. Foi listado propositadamente por œltimo, pois, Ø algo que aparece menos explicitamente do que todos os demais itens. Ainda assim, surge com clareza em algumas das falas e tem bastante relevância para a reflexªo que trazemos aqui.

A escola e o ensino de ciŒncias tambØm sªo vistos como fazendo parte do 'sistema' que aliena e mantØm todos na mentira. Tanto uma quanto o outro sªo vistos como possuidores de um carÆter doutrinador. Questionou-se, por exemplo, por que hÆ um globo terrestre nas escolas e por que nªo se apresentam as evidŒncias em favor da esfericidade da Terra, desde o ensino fundamental.

Mas hÆ, aqui, um aspecto absolutamente crucial: por diversas vezes foi ressaltado o carÆter de simplicidade que o TP tem, ou seja, sua fÆcil compreensªo por qualquer pessoa. Dificuldades com o ensino de ciŒncias, com a abstraçªo, foram relatadas por alguns palestrantes. Por exemplo, a dificuldade em lidar com termos como ano-luz e com a ideia de escalas e grandes nœmeros ('bilhıes' de estrelas etc.). A falta de compreensªo das aulas de ciŒncias, na escola, era algo compartilhado.

Um œltimo aspecto merece destaque, embora nªo diga respeito diretamente ao discurso (registrado) do TP, mas a certas prÆticas que foram observadas ao longo do evento e que auxiliam na caracterizaçªo da perspectiva terraplanista como um todo. Apontamos, aqui, para o próprio formato do evento, composto por um conjunto de apresentaçıes sem direito de manifestaçªo por parte da plateia. Nªo houve perguntas em nenhum momento. Esse aspecto, somado à proibiçªo da presença da imprensa, destoa das prÆticas acadŒmicas da comunidade científica estabelecida, onde a exposiçªo ao debate e à crítica nªo apenas faz parte, mas Ø estimulada, de modo geral.

Antes de passarmos à seçªo final, gostaríamos de relembrar que se trata de uma anÆlise em andamento. Considerando o TP um fenômeno social contemporâneo, com características próprias de pensamentos que se formam em torno de um grupo com certo fechamento, acreditamos que seja oportuno estudÆ-lo a partir do campo da sociologia do conhecimento. E, nesse terreno, pretendemos considerar, para a continuidade da pesquisa, o referencial teórico oferecido por Ludwik Fleck (18961961).

Nªo seria aqui o espaço, certamente, para apresentarmos esse referencial. Sinalizamos, apenas, que as ideias de Fleck no terreno da sociologia da ciŒncia (SCHNELLE; COHEN, 1986; FLECK, 2010) nos parecem frutíferas para estabelecer um olhar crítico para nosso objeto de pesquisa. Conceitos fleckianos como estilo de pensamento, coletivo de pensamento, circulaçªo intra e intercoletiva de ideias, harmonia das ilusıes, círculos eso e exotØrico, dentre outros, poderªo ser œteis na caracterizaçªo do pensamento terraplanista.

## Fechamento: uma reflexªo para o ensino das ciŒncias/física

Diante do que foi apresentado anteriormente, da minha experiŒncia de estar presente, fisicamente, na Flat Con Brasil, e da temÆtica central do XVIII EPEF ('A Pesquisa em Ensino de Física e as Tensıes Político-DemocrÆticas da Atualidade: Para onde vamos?'), gostaria de retomar a pergunta formulada no título desse trabalho: deveríamos estar preocupados?

A pergunta se coloca à comunidade de pesquisadores em ensino de física, dado o direcionamento desse trabalho, mas certamente deveria se dirigir a um pœblico mais amplo. A pergunta, ainda, tem sua origem na percepçªo das diversas reaçıes existentes na mídia desde que o movimento terraplanista ganhou mais notoriedade e, em particular, as reaçıes ao evento da Flat Con em si. Os tipos mais comuns de reaçªo parecem ser a ridicularizaçªo, de um lado, e o desprezo, por outro. Isso nªo tem impedido os defensores do TP de angariar mais adeptos - o que corresponderia a um terceiro tipo de reaçªo.

Muitos professores da nossa Ærea, inclusive, que lidam diretamente com o ensino de astronomia, parecem simplesmente nªo ligar para esse movimento. Seria a melhor reaçªo? A questªo me parece ganhar novos contornos quando percebemos que, na política brasileira atual, teorias conspiratórias, revisionismo histórico e outros aspectos da pós-verdade rondam as mais altas esferas de poder. O filósofo (sic) considerado 'guru' intelectual do governo, por exemplo, nªo chega a afirmar que a Terra Ø plana, mas diz que nªo se pode provar que nªo seja.

Gostaria de defender que a nossa comunidade esteja mais atenta ao TP e que leve mais a sØrio esse movimento, quem sabe, de modo anÆlogo ao que sempre foi feito acerca das chamadas 'concepçıes alternativas' dos estudantes. Embora eu nªo compartilhe das críticas à escola e ao ensino de ciŒncias feitas pelos terraplanistas, hÆ que se considerar que, de fato, elas nos lançam um alerta quanto ao carÆter nªo problematizador que o ensino de ciŒncias/física pode assumir em alguns momentos 7 . E, em complementaçªo a essa ideia, perguntaria: serÆ que todos

os professores de ciŒncias estªo preparados para explicar aos seus estudantes por que a Terra nªo Ø plana e por que devemos dar crØdito ao conhecimento cientificamente aceito hoje em dia a esse respeito?

E com isso chegamos a outra questªo fundamental: o papel da História, da Filosofia e da Sociologia da CiŒncia (HFSC) no ensino de ciŒncias. Tomada enquanto estratØgia didÆtica, essa abordagem tem sido defendida em nossa Ærea de pesquisa hÆ dØcadas (ver, p.ex.: ZANETIC, 1989; GIL PÉREZ, 1993; PEDUZZI, 2001; MARTINS, 2006; SILVA, 2006; MATTHEWS, 1994, 2014...), alcançando vasta produçªo acadŒmica em termos de publicaçıes (dissertaçıes, teses, artigos) e reconhecida como Ærea temÆtica de eventos (SNEF, EPEF, ENPEC, dentre outros).

Consideramos que a HFSC possui grande potencial no combate 8 ao TP. É preciso trazer à sala de aula PitÆgoras, Aristóteles, Eratóstenes, CopØrnico, Galileu, Newton etc., a partir da riqueza histórica de seus trabalhos, como meio problematizador do conhecimento físico e astronômico a ser ensinado, de modo a enriquecŒ-lo culturalmente e contextualizÆ-lo. Quem sabe a apresentaçªo, por parte dos professores, do caminho histórico percorrido desde a antiguidade atØ os dias de hoje em relaçªo ao nosso conhecimento sobre o planeta e sua posiçªo no universo contribua para que os estudantes percebam as razıes pelas quais se estabeleceu o conhecimento científico atual. AlØm disso, argumentos históricos usados contra e a favor dos diversos modelos, contra e a favor da esfericidade da Terra, podem ser resgatados e comparados com argumentos atuais, dando sentido histórico à superaçªo do geocentrismo e da concepçªo de Terra plana.

Tenho sØrias dœvidas se tal abordagem e os argumentos nessa direçªo convenceriam os atuais defensores do TP. No entanto, as futuras geraçıes (os jovens estudantes de hoje) certamente seriam beneficiadas.

## ReferŒncias

ALVES-MAZZOTTI, Alda J.; GEWANDSZNAJDER, Fernando. O mØtodo nas ciŒncias naturais e sociais - pesquisa quantitativa e qualitativa. Sªo Paulo: Pioneira, 2.ed., 1999.

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LIMA, NATHAN WILLIG; VAZATA, PEDRO ANTÔNIO VIANA; OSTERMANN, FERNANDA; CAVALCANTI, CLAUDIO JOSÉ DE HOLANDA; GUERRA, ANDREIA. Educaçªo em CiŒncias nos Tempos de Pós-Verdade: Reflexıes Metafísicas a partir

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