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A HISTÓRIA DA CIENTISTA BERTHA LUTZ PARA PROMOVER MAIOR ENGAJAMENTO DAS MENINAS COM AS CIÊNCIAS DA NATUREZA

Silvana Pavão T Papalardo, Fernanda Franzolin, Zaqueu Vieira Oliveira

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XVIII
Ano
2020
Data
10/11/2020
Linha de pesquisa
Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## A HISTÓRIA DA CIENTISTA BERTHA LUTZ PARA PROMOVER MAIOR ENGAJAMENTO DAS MENINAS COM AS CIÊNCIAS DA NATUREZA

## SCIENTIST BERTHA LUTZ'S STORY TO PROMOTE BIGGER ENGAGEMENT OF GIRLS WITH NATURAL SCIENCES

Silvana Pavão T Papalardo 1 , Fernanda Franzolin 2 , Zaqueu Vieira Oliveira 3

1 Universidade Federal do ABC/Mestranda em Ensino e História das Ciências e Matemática/silvana.papalardo@ufabc.edu.br

2 Universidade Federal do ABC/Centro de Ciências Naturais e Humanas/ fernanda.franzolin@ufabc.edu,br

3 Universidade Federal do ABC/Pós-doutorando em Ensino e História das Ciências e Matemática / z.oliveira@ufabc.edu.br

## Resumo

Este trabalho tem como objetivo investigar possibilidades de didatização da história da cientista Bertha Maria Júlia Lutz (1894-1976) com intuito principal de contribuir com referências historiográficas que possam promover maior engajamento das meninas com as ciências da natureza. Diversos estudos têm mostrado que a participação das mulheres torna a ciência mais inclusiva e abrangente. Essa é uma necessidade que a própria história e cultura tem reafirmado ao excluir as mulheres das carreiras científicas, seja por preconceitos ou estereótipos de gênero que contribuíram para a invisibilidade de grandes cientistas. Diante disso, como resultado, nosso estudo traz uma proposta de reflexão crítica e pedagógica sobre a carreira da Bertha Lutz. Lembramos, que são poucos os estudos que discutem sobre este tema, seja como referencial teórico para os professores ou como uma proposta didática de ensino. Em suma, propomos a abordagem de alguns episódios históricos sobre a sua carreira e suas contribuições na luta pelos direitos femininos. Também, discutiremos a metodologia usada para a reconstrução histórica e os aspectos pedagógicos que podem direcionar este estudo para futuras pesquisas.

Palavras-chave : História e ensino de ciências, Bertha Lutz, Mulheres na ciência.

## Abstract

This work aims to investigate possibilities for teaching the history of the scientist Bertha Maria Júlia Lutz (1894-1976) with the main purpose of contributing historiographical references that can promote greater engagement of girls with the natural sciences. Several studies have shown that women's participation makes science more inclusive and comprehensive. This is a need that history and culture itself has reaffirmed by excluding women from scientific careers, whether due to prejudices or gender stereotypes that contributed to the invisibility of great scientists. Therefore, as a result, our study brings a proposal for critical and pedagogical

reflection on Bertha Lutz's career. Remember, there are few studies that portray on this theme, either as a theoretical framework for teachers or as a didactic teaching proposal. In short, we propose to address some historical episodes about her career and her contributions to the fight for women's rights. We will also discuss the methodology used for historical reconstruction and the pedagogical aspects that can direct this study for future research.

Keywords : History and Science Education, Bertha Lutz, Women in science.

## Introdução

São vários os estudos que mostram as influências que os contextos sociais, culturais e políticos podem trazer para a construção do conhecimento científico. Estes contextos propiciam implicações que ao longo dos anos têm corroborado para um sistema social e educacional que excluiu as mulheres das carreiras científicas (UNESCO, 2018; LIMA, 2013; SARDENBERG, 2007). Entretanto, ao longo dos anos, têm sido fomentadas várias ações para lutar pelos direitos das mulheres em equidade de gênero, tais como: criação de organizações, mobilizações em congressos, e desenvolvimento de estudos pelas diversas linhas feministas (ALMEIDA, 2018, BRASIL, 2015). Porém, ainda há muito a se fazer diante dos desafios sociais, culturais e educacionais, para que de fato a participação das mulheres nas ciências seja significativa.

Visando fomentar exemplos da inserção feminina nas ciências, este estudo tem como objetivo investigar possibilidades de didatização da história da cientista Bertha Maria Júlia Lutz (1894-1976), para contribuir com referências historiográficas que motivem as meninas a um maior engajamento nas disciplinas de Física, Química e Biologia. Dessa forma, pode-se dar maior visibilidade à 'atuação profissional, de uma líder feminista e sua projeção internacional que direcionaram sua carreira a reivindicar desde o início de seu ativismo os direitos à educação e profissionalização feminina' (SOMBRIO, 2014). Fatos históricos que tornam visível a trajetória mulher que contribuiu de maneira significativa para a construção da ciência com estudos em Biologia, Zoologia, Botânica, organização de museus e a atuação na política.

Entretanto, ainda que a participação das meninas seja baixa nas Ciências da Natureza estudos (AGRELLO; GARG, 2009; ALMEIDA, 2018; LIMA; BRAGA; TAVARES, 2015;), mostram que a participação feminina é mais alta nas Ciências Biológicas do que em outras áreas como na Física. Como exemplo disso, os dados (CNPq, 2015), sobre o percentual de bolsas-ano por sexo em 2014, evidenciam que a participação das mulheres em Ciências Biológicas foi de 61%, enquanto nas Ciências Exatas e da Terra foi de 35%. Uma diferença expressiva que mostra a relevância em se fomentar mais ações e políticas para maior crescimento feminino nessas áreas.

Segundo Agrello e Garg (2009), nos cursos de Física desde a entrada na graduação a porcentagem de mulheres não chega a 20%, e em relação aos homens é bem inferior passando dos 85%. Mesmo assim, quando matriculadas na graduação acabam desistindo já no decorrer do curso devido à diversos fatores como: sexo biológico, maternidade, pouco apoio da sociedade, extensivo empenho pessoal, entre outros (AGRELLO; GARG, 2009). Um contexto de exclusão significativo,

para refletir sobre as atitudes e comportamentos femininos que são observados desde a infância nas salas de aula de ciências. Tomemos como exemplo o fato de muitas meninas ao desenharem a figura de um cientista atribuírem a figura de um homem de óculos como Einstein e jamais a uma mulher. Certamente, esse simples fato já nos mostra que 'é necessária uma mudança na percepção das meninas sobre os cientistas e sobre as mulheres como cientistas' (AGRELLO; GARG, 2009).

Segundo Almeida (2018), desde os anos iniciais do ensino fundamental em sua grande maioria as meninas mostram-se desinteressadas pelos temas científicos. Sejam em situações de ensino que desenvolvam temas 'ditos de meninos' (temas de Física, colisões, força, etc.), discussões em grupo, manipulação dos equipamentos de laboratório, etc. Daí a necessidade, de que as situações em sala de aula desenvolvam uma educação científica mais inclusiva e abrangente com ações que estimulem a participação das meninas. Para isso, é fundamental que os professores além de desenvolverem estratégias de ensino diferenciadas, evitem atitudes sexistas, estereótipos e desigualdade de gênero (ALMEIDA, 2018; HEERDT, 2016; LETA, 2014; LOURO, 2003; ROSEMBERG, 2001).

Um retrato que tem se estendido ao longo da vida estudantil, seguindo para a profissional e acadêmica com os chamados tetos de vidro ou labirinto de cristal, que mostram as dificuldades das mulheres para se estabelecer em posição de liderança e nas carreiras científicas (AGRELLO; GARG, 2009; SAITOVITCH et al., 2015; SARDENBERG, 2007; LIMA, 2013). Por isso, dar maior visibilidade às cientistas femininas, suas dificuldades e méritos, suas experiências pessoais e acadêmicas podem mostrar uma ciência mais plural e heterogênea.' Contrariando a visão androcêntrica das ciências, mulheres precisam se sentir representadas nas ciências e tecnologia, e certamente, escrever sobre o seu passado é uma forma de tornar isso uma realidade' (FILHO; SILVA, 2019).

Um processo árduo que vem de longa data, reivindicando a desmistificação de uma ideia errônea que a ciência é exclusiva para homens (FILHO; SILVA, 2019), e que somente alguns 'gênios isolados' (FORATO et al., 2011; MOURA, 2014), podem fazer ciência. Enfim, é um desafio muito grande propor trabalhos que visem 'transformar a invisibilidade histórica das mulheres em visibilidade já que é uma questão de darlhes voz e, principalmente, de emancipá-las. De fato, ficar sem história é estar presa em um presente no qual as relações sociais de opressão parecem naturais e inevitáveis' (FILHO; SILVA, 2019). Além disso, esse trabalho também pode contribuir com a História e Filosofia da ciência (ROSA, 2007), já que visa apontar possibilidades para a didatização historiográfica da cientista Bertha Lutz.

## Metodologia

Este trabalho envolveu como procedimento metodológico a Análise Documental. De acordo com a literatura (CARLOS, 2019; FORATO et al., 2011), para analisar documentos históricos é fundamental inicialmente ter uma reflexão sobre os objetivos do estudo. Por isso, para contribuir com referências historiográficas que possam promover maior engajamento das meninas com as ciências da natureza foram estudados os textos sugeridos na disciplina de Ensino e História das Ciências e Matemática proposta pelo Programa de Pós-graduação em Ensino e História das Ciências e da Matemática da UFABC. Essas referências iniciais trouxeram subsídios sobre a importância da História da Ciência e o ensino da Natureza da Ciência abranger a história das mulheres na Ciência.

Após as primeiras leituras sugeridas no curso, as referências sobre a carreira de Bertha Maria Lutz, mulheres nas ciências e a natureza da ciência foram encontrados com o auxílio da ferramenta de busca digital Google Acadêmico , em buscas na biblioteca eletrônica ScieELO (Scientific Electronic Library Online) , em Dissertações da Biblioteca UFABC e em Revistas acadêmicas (Caderno Brasileiro de Ensino de Física, Revista Brasileira de Ensino de Física). Investigou-se nessas fontes elementos sobre a história da Bertha Lutz que pudessem ser utilizados para a didatização e que permitissem a compreensão da inserção das mulheres nas Ciências da natureza. Portanto, trata-se de uma análise documental secundária, já que as referências bibliográficas sobre a trajetória científica de Bertha Lutz são provenientes de artigos acadêmicos e dissertações e não fontes primárias.

## Resultados

## Aspectos Históricos

Estudos sobre gênero tem sido desenvolvido desde os anos 80 (KELLER, 2006; LOURO, 2003; SCHIEBINGER, 2001), e contribuído com ações políticas e educacionais para dar maior protagonismo e visibilidade às mulheres na ciência. De acordo com esses estudos alguns aspectos na construção científica são relevantes para compreender que distorções conceituais com uma certa tendência 'sexista' ocorreram em muitas descrições técnicas devido a exclusividade do pensamento masculino na ciência (HEERDT, 2016; KELLER, 2006). São críticas relevantes que podem promover discussões construtivas sobre o fato 'das mulheres pensarem e fazerem ciência de maneira distinguível dos homens, seja culturalmente ou biologicamente' (SCHIEBINGER, 2001).

Neste sentido, abordar a participação das mulheres na ciência pode contribuir para uma historiografia mais representativa e inclusiva (FILHO; SILVA, 2019). Ademais, o trajeto acadêmico da cientista Bertha Maria Júlia Lutz (1894-1976) , tem potencial significativo para explorar a invisibilidade das mulheres, a luta pelos direitos políticos e sociais, o sexismo e a desigualdade de gênero (LOURO, 2003). Sendo assim, destacamos que a longa trajetória da cientista traz elementos potencializadores no ensino das Ciências da Natureza. Os dados históricos sobre sua carreira acadêmica e inserção na política são fatores relevantes para fomentar maiores discussões sobre o feminismo nas ciências em diferentes contextos sociais e educacionais.

Iniciamos a exploração historiográfica de Bertha Lutz, especificando que sua formação inicial foi em Ciências Naturais, nasceu em São Paulo, filha da enfermeira inglesa Amy Marie Gertrude Fowler e de Adolpho Lutz (1855-1940), o conhecido microbiologista suíço radicado no Brasil. Trabalhou no Museu Zoológico como tradutora de inglês, francês e alemão, no Instituto Oswaldo Cruz, de 1º de setembro de 1918 a 3 de setembro de 1919, quando assumiu, em 4 de setembro de 1919, o cargo de secretária no Museu Nacional, para o qual havia sido aprovada em concurso público (LOPES; SOUZA; SOMBRIO, 2004).

Em seus 46 anos de pesquisas científicas divididos entre o Museu Nacional do Rio de Janeiro e o Instituto Oswaldo Cruz, Bertha Lutz desenvolveu trabalhos em 'zoologia e em botânica, tanto em laboratório quanto em campo, que ainda não foram analisadas em profundidade' (LOPES; SOUZA; SOMBRIO, 2004). Lembramos, que no início do século XX, era uma época em que a forte institucionalização da ciência

dificultava a participação das mulheres nas práticas científicas (SOMBRIO, 2014).Neste contexto, Bertha Lutz 'conviveu em ambientes considerados majoritariamente masculinos, produzindo pesquisas e participando de comunidades científicas, estabelecendo relações de trabalho, integrando instituições e produzindo ciências' (SOMBRIO, 2014).

Além disso, segundo Lopes (2008), no que diz respeito a suas contribuições para os Museus o pensamento de Bertha Lutz pode ser resumido da seguinte maneira: 'uma verdadeira e atualíssima provocação, um questionamento positivo aos estudos teórico-metodológicos da museologia, da educação em museus, dos estudos de público. É o mais insistente convite à necessária reflexão sobre as possibilidades analíticas que os museus oferecem aos historiadores em geral, aos historiadores das ciências, aos estudiosos de gênero, para nos ajudar a pensar o século XXI '(LOPES, 2008). Uma tendência que se consolidou depois de algumas décadas e que ainda hoje reflete a falta de ações e políticas públicas para a preservação dos Museus como espaço científico, cultural e educativo.

Com argumentos naturalistas que inundavam seus textos (LOPES; SOUZA; SOMBRIO, 2004), próprios de sua 'experiência profissional articulados a situação funcional, fez um discurso no Plenário sobre a transmissão da Lepra associada ao mosquito indicado pelas pesquisas de seu pai, Adolpho Lutz, e sobre o combate à Malária no então Distrito Federal. Mesmo os '13 Princípios Básicos . Sugestões ao ante-Projecto da Constituição', considera também as questões referentes aos monumentos naturais, à proteção da natureza e à conservação da flora e fauna do país' ( LOPES et al., 2004; SOUZA et al., 2005).

Notamos, que a carreira científica de Bertha Lutz se articulou a uma atuação política ativa para a emancipação e educação feminina. Essa luta direcionou Bertha Lutz a fundar a liga pela Emancipação Intelectual da Mulher em 1919 (KARAWEJCZYK, 2018), que a levaram a lutar e conquistar o direito pelo voto feminino. Sua carreira acadêmica ativa e seu envolvimento com a política corroborou para mudanças significativas na legislação trabalhista à frente da Federação Brasileira para o Progresso Feminino (KARAWEJCZYK, 2018; LOPES et al., 2004; SOMBRIO, 2014). Como exemplo disso, algumas autoras (SOUZA et al., 2005), discutem que a cientista 'mesclou' seus conhecimentos científicos a causas femininas.

Nesse sentido, alguns autores (LIMA; BRAGA; TAVARES, 2015), destacam que as carreiras científicas femininas foram fortemente influenciadas por obstáculos que a cultura científica foi impondo às mulheres, seja por desigualdades de gênero, 'escolhas entre a maternidade e a produção científica, ou a oposição dos modelos de ser mulher e cientista (LOPES; SOUZA; SOMBRIO, 2004). Enfim, são muitas as contribuições de Bertha Lutz para a ciência, com discussões que desde a década de 1970, já se iniciavam entre as diversas linhas feministas impulsionando pesquisas a um novo tipo de crítica às ciências.

## Aspectos Pedagógicos

O desenvolvimento da Ciência trouxe muitos avanços para a humanidade, com contribuições tanto no campo dos conhecimentos científicos, quanto à sua função social com o desenvolvimento de atitudes e valores (ALMEIDA, 2018). Suas contribuições mais específicas para a cidadania têm corroborado com soluções para problemas ambientais, educacionais, éticos, entre outros. Por isso, o grande desafio na renovação do ensino de ciências, tem sido contextualizar o ensino de ciências

como uma enculturação científica, numa prática epistemológica que articula a linguagem científica e a natureza da ciência (SANTOS, 2009; MOURA, 2016). Por isso, propiciar estratégias que desenvolvam, atitudes e valores entre meninos e meninas, em equidade de gênero (KAHLE, 1983; ALMEIDA, 2018), pode tornar a ciência mais abrangente e inclusiva.

Além disso, podem dar suporte aos professores para incluir discussões sobre a natureza da ciência e mostrar ' a importância da História e da Filosofia das ciências para a formação científica de qualidade' (ROSA, 2007; MOURA, 2007). Segundo Matthews (1995), 'o feminismo é um dos temas que seriam beneficiados pelo uso da filosofia das ciências em sala de aula, uma preocupação de professores que representa um grande desafio aos pressupostos do ensino de ciências e filosofia da ciência' (MATTHEWS, 1995). Estudos mostram que as mulheres não dão continuidade aos estudos em ciências devido aos obstáculos e dificuldades para o progresso nas carreiras científicas (ALMEIDA, 2018; AGRELLO; GARG, 2009; LAZZARINI et al., 2018; LIMA, 2013; LIMA et al., 2018).

Na História das ciências encontramos autores (MATTHEWS, 1995), discutindo sobre essa descontinuidade ser persistente por uma tendência machista na própria epistemologia da ciência ocidental. Portanto, dentre as diversas possibilidades pedagógicas para explorar, sugerimos que indagações sobre o que poderia ter levado a cientista Bertha Lutz a se envolver com a política feminina também são relevantes para o ensino. Certamente, surgirão possíveis hipóteses na sala de aula para serem discutidas com os alunos como: possíveis motivos que levaram a cientista a se envolver com a política, ou mesmo, se o percurso na política se deve pelos enfrentamentos e barreiras em sua carreira acadêmica.

A história de outras cientistas também podem 'nos ajudar a refletir sobre ações políticas que tornam a ciência um ambiente mais convidativo para as mulheres' (FILHO; SILVA, 2019). Alguns autores (SAITOVITCH; FUNCHAL; BARBOSA; PINHO; SANTANA, 2015), tem abordado sobre a historiografia feminina na ciência e contribuído com suporte teórico para o professor. Como exemplo, citamos um artigo sobre 'a física experimental sino-estadunidense Chien Shiung Wu, que é considerada uma das mais proeminentes cientistas do século XX na área de física nuclear, mas que sua historiografia ainda não foi explorada na história das ciências' (FILHO; SILVA, 2019). Certamente, são aspectos históricos extremamente ricos para explorar diversos aspectos pedagógicos como a motivação, a participação e o engajamento das meninas e que podem contribuir para desmistificar o sexismo na física (AGRELLO; GARG, 2009).

Enfim, são muitas as possibilidades ao usar a historiografia de cientistas como a de Bertha Lutz nas Ciências da Natureza. O exemplo de uma cientista que atuou na linha de frente para a emancipação da mulher e na luta pelo direito ao voto feminino mostra acentuadamente a força e superação feminina em diversos aspectos. 'Permitem uma aproximação de sua carreira inicial de bióloga, de seus 46 anos de pesquisas científicas, repartidos entre o Museu Nacional do Rio de Janeiro e o Instituto Oswaldo Cruz, e a militância feminista na Federação Brasileira para o Progresso Feminino' (LOPES et al., 2004). Sua exemplaridade como cientista e política podem implicar em mudanças significativas nas atitudes e valores das meninas e meninos a respeito da ciência.

Como já discutimos, a ciência moderna é o resultado de muitos anos da exclusão feminina, portanto, um processo que exige profundas mudanças estruturais

na cultura, nos métodos e conteúdo da ciência (SCHIEBINGER, 2001). Utilizar estratégias como o uso da História da cientista Bertha Lutz em sala de aula é extremamente relevante no ensino das Ciências da Natureza, já que corrobora com argumentos para uma ciência mais inclusiva e dinâmica (MOURA, 2016). Ademais, nossos objetivos metodológicos e didáticos devem contribuir para 'a superação do 'mar da falta de significação' que se diz ter inundado as salas de aula de ciências, onde fórmulas e equações são recitadas sem que muitos cheguem a saber o que significam' (MATTHEWS, 1995).

## Conclusões e considerações Finais

A partir dessa pesquisa, concluímos que aspectos históricos da vida de Bertha Lutz, associados à abordagem de elementos contextuais e culturais, podem fomentar aos alunos a visão da atuação da mulher no ensino de Ciências. Para tanto, sugerimos maior explanação da abordagem sobre sua carreira científica, sua inserção na ciência, o conhecimento do contexto em que convivia e a sua consequente atuação política. Além da cientista Bertha Lutz, sugerimos que o uso da historiografia de outras cientistas femininas como ferramenta didática. Alguns exemplos que podem promover discussões em sala de aula sobre o fazer ciência e gênero tem sido explorado por autoras (SAITOVITCH; FUNCHAL; BARBOSA; PINHO; SANTANA, 2015), que certamente não são visíveis na literatura escolar, são elas: Emmy Noether, Lise Meitner, Mary Lucy Cartwright, Elisa Frota Pessoa, Alice Maciel, Sonja Ashauer, entre outras.

Um tema relevante, na medida em que pode ser explorado por diversas áreas que contemplam dar visibilidade às mulheres nas carreiras científicas e de acordo com pesquisas (UNESCO, 2018; BRASIL, 2013), apenas 28% dos pesquisadores no mundo, são mulheres, e segundo Almeida (2018), correspondem a 45% do total de docentes nas universidades. Sabemos que os desafios são imensos, em especial para a inclusão da História das ciências nas salas de aula, já que o currículo na maioria das escolas se mostra fechado. Notamos que nos livros didáticos há uma grande ausência da abordagem da história das mulheres nas ciências, refletindo a invisibilidade existente sobre cientistas femininas. Porém, numa época em que as perspectivas no ensino passam por mudanças, propostas como as discutidas nesta pesquisa podem possibilitar aos alunos construírem referências sobre a participação feminina da ciência.

Em suma, trazer uma proposta de ensino que aborde a História de cientistas femininas, pode ampliar as possibilidades para maior engajamento das meninas aos temas científicos. Ademais, 'a identificação entre o pensamento científico e a masculinidade está tão profundamente enraizada na cultura em geral que as crianças têm pouca dificuldade em internalizá-lo. Eles crescem não só esperando que os cientistas sejam homens, mas também percebem os cientistas como mais "masculinos" do que outras profissões de homens por exemplo, aqueles dedicados à arte' (KELLER, 1991). Por isso, conhecer os méritos e dificuldades de cientistas femininas contribui para a desconstrução de ideias tradicionais que consideram as ciências uma prática exclusivamente masculina. Salientamos, que este é um estudo preliminar, portanto, sugerimos a sua continuidade com estudos documentais mais minuciosos sobre a carreira desta e de outras cientistas, seja como referencial teórico para o professor ou didatização de ensino.

## Referências

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