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OS TEXTOS E A LEITURA NA FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES DE FÍSICA: ANÁLISE DA VOZ DE UM PROFESSOR UNIVERSITÁRIO

Joselaine Setlik, Henrique César Da Silva

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XVIII
Ano
2020
Data
10/11/2020
Linha de pesquisa
Ensino, Aprendizagem E Avaliação Em Física/Linguagem E Cognição No Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## OS TEXTOS E A LEITURA NA FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES DE FÍSICA: ANÁLISE DA VOZ DE UM PROFESSOR UNIVERSITÁRIO

## TEXTS AND READING IN THE INITIAL TRAINING OF PHYSICAL TEACHERS: AN ANALYSIS OF THE VOICE OF A UNIVERSITY TEACHER

## Joselaine Setlik , Henrique César da Silva 1 2

- 1 Universidade Federal de Santa Catarina/Programa de Pós-Graduação em Educação Científica e Tecnológica, joselainesw@gmail.com

## Resumo

Existem diversos estudos sobre práticas de leitura e uso de textos diversos aos livros didáticos em aulas de Física, todavia poucos estudos focam a leitura em disciplinas de conhecimento físico em nível superior. Este estudo é um recorte de uma pesquisa mais ampla sobre a temática leitura e uso de textos, com foco sobre a física quântica, na formação inicial de professores de Física, na qual foram realizadas análises das diretrizes para formação de professores e dos cursos de física, planos de ensino e programas de disciplinas de um curso de licenciatura em Física, além de observações em aulas de três disciplinas, sendo duas específicas da física, a saber, Introdução à Física Moderna e Estrutura da Matéria. Estas duas foram ministradas por um mesmo professor que concedeu, posteriormente, uma entrevista para esta investigação. Aqui, analisamos a voz deste professor na entrevista, interpretando concepções, condições e resistências para a entrada de outros textos nas disciplinas. Para análise da entrevista partimos de teorias do campo da epistemologia e da linguagem - Fleck, Kuhn e Bakhtin - identificando nas concepções de leitura elementos de um estilo de pensamento e as diferentes vozes presentes no diálogo dos enunciados. Os resultados evidenciam uma concepção de hierarquia entre a linguagem matemática e a verbal, sendo a leitura em física relacionada, sobretudo, com a aprendizagem de um formalismo matemático para a resolução de problemas. Embora se verifiquem entradas possíveis para outros tipos de textos, essas condições privilegiam o uso do manual do ensino superior em disciplinas de física, e criam resistências para a inclusão de outros tipos de textos no ensino.

Palavras-chave : Leitura, Textos, Física, Formação de professores.

## Abstract

There are several studies on reading practices and use of texts other than textbooks in Physics classes, however few studies focus on reading in disciplines of physical knowledge at a higher level. This study is part of a broader research on the theme of reading and using texts, focusing on quantum physics, in the initial training of physics teachers, in which analyzes of the guidelines for teacher training and physics courses were carried out, teaching plans and subject programs of a Physics

degree course, in addition to observations in classes of three subjects, two of which are specific to physics, namely, Introduction to Modern Physics and Structure of Matter. These two were taught by the same teacher who subsequently granted an interview for this investigation. Here, we analyze the voice of this teacher in the interview, interpreting concepts, conditions and resistance to the entry of other texts in the course. For the analysis of the interview, we started with theories in the field of epistemology and language - Fleck, Kuhn and Bakhtin - identifying in the conceptions of reading elements of a style of thought and the different voices present in the dialogue of the utterance. The results show a conception of hierarchy between mathematical and verbal language, with reading in physics related, above all, to the learning of a mathematical formalism for solving problems. Although there are possible entries for other types of texts, these conditions favor the use of the higher education manual in physics subjects, and create resistance to the inclusion of other types of texts in teaching.

Keywords : Reading, Texts, Physics, Teacher training.

## Introdução

Desde pelo menos os anos 1990 estudos apontam potencialidades do uso da leitura de diferentes tipos de textos no ensino de Ciências da Natureza na Educação Básica, para tornar acessíveis aos estudantes conhecimentos de ciência não exclusivamente pela linguagem matemática (no caso da Física), além de auxiliar a desenvolver curiosidade científica, consciência crítica, o estabelecimento de relações entre a ciência e outras áreas do conhecimento, e a própria formação da autonomia do leitor em ciências, entre outras possibilidades (SILVA, 1997; ALMEIDA; RICON, 1993).

Entretanto, apesar das potencialidades das práticas de leitura de textos na Educação Básica, na disciplina Física nem sempre estas são pensadas/ incentivadas pelos professores (ANDRADE, MARTINS, 2006; ASSIS, CARVALHO, 2008). A qualidade e a natureza da mediação de leituras estão relacionadas ao conhecimento do professor tanto sobre os conteúdos e quanto sobre os diferentes textos que os veiculam, que advém das suas experiências de leitura cotidiana e na sua formação básica e universitária. Promover formas de articular diferentes tipos de leitura na formação desse professor, enquanto estudante (como nas pesquisas de Machado (2001), Lima e Almeida (2012)) de forma transversal durante o curso de graduação pode ser um caminho para que tais práticas se tornem mais efetivas na Educação Básica.

A leitura na Licenciatura em Física foi objeto de investigações de algumas teses e dissertações (MACHADO, 2001; CORREIA, 2016), além de artigos em periódicos (RODRIGUES, 2015; LIMA, ALMEIDA, 2012; ALMEIDA, SORPRESO, 2010). Cabe destacar que essas investigações possuem diferentes abordagens, isto é, objetivos diferentes, relacionados a conhecimentos diversos que perpassam a leitura, pensando a formação do professor de Física. Estes estudos, apesar de enfocarem a física e a formação inicial, se centram em disciplinas específicas da licenciatura, que, embora envolvam conhecimentos físicos, têm foco nos conhecimentos pedagógicos. Assim, carecemos de aprofundamento e análises da

leitura e uso de textos em disciplinas cujo foco recai no conhecimento físico propriamente dito, presentes no núcleo comum.

Este estudo é um recorte de uma pesquisa mais ampla sobre a temática leitura e uso de textos, com foco sobre a física quântica, na formação inicial de professores de Física. Na pesquisa foram realizadas análises das diretrizes para formação de professores e dos cursos de física, planos de ensino e programas de disciplinas de um curso de licenciatura em Física, observações em aulas de três disciplinas, sendo duas específicas da física (Introdução à Física Moderna e Estrutura da Matéria). No semestre desta investigação, estas duas disciplinas foram ministradas por um mesmo professor que concedeu, posteriormente, uma entrevista para esta investigação. Aqui, buscamos analisar a voz deste professor na entrevista, interpretando concepções, condições e resistências para a entrada de outros textos no curso, diversos aos manuais adotados no ensino superior. Para a análise, partimos de teorias dos campos da epistemologia e da linguagem - Fleck, Kuhn e Bakhtin - identificando nas concepções de leitura elementos de um estilo de pensamento e as diferentes vozes presentes no diálogo dos enunciados.

## Referencial Teórico-Metodológico

Tomamos como referencial teórico-metodológico as teorias epistemológicas de Ludwik Fleck e Thomas Kuhn, como complementares, já que possuem similaridades em suas formas de compreender o fato científico (CONDÉ, 2005). Com essas bases teóricas, pensamos o treinamento de físicos e professores de física dentro de uma tradição, ligada a especificidades do conhecimento físico. Embora com outro foco, tomamos a teoria de Bakhtin também como complementar para as análises dos dados, pois estamos preocupados com as percepções e ações de sujeitos relacionados a este campo de saber.

Para Fleck (2010), estilo de pensamento (EP) e coletivo de pensamento (CP) são categorias essenciais na compreensão da construção de fatos científicos, que necessita da circulação dos conhecimentos. É o movimento de ideias e práticas que promove a instauração, manutenção, extensão e transformação de EP. O EP pode ser compreendido como uma resistência ao livre arbítrio do pensamento, isto é, uma percepção direcionada sobre as formas da realidade, que está vinculada a um coletivo de pensamento (CP) que compartilha este EP. Nesta teoria epistemológica, o que diferencia sujeitos dentro do CP - os que pertencem ao círculo esotérico (especialistas) ou exotérico (leigos mais ou menos instruídos) daquele conhecimento - é o grau de especialidade naquele saber. Dentro da estrutura da ciência moderna, Fleck (2010) discute as chamadas ciência popular, ciência dos livros didáticos, ciência dos manuais - como a coluna central da ciência - e ciência dos periódicos. Kuhn (1978) aprofunda o papel dos manuais (livros do ensino superior) na formação de físicos; ele descreve características como a resolução de problemas e exemplares que caracterizam a formação destes profissionais - o que até certa medida ele considera eficiente para a produção da ciência na medida em que, entre outros aspectos, potencializa a comunicação entre seus praticantes e lhes fornece modelos para resolução para novos problemas que enfrentarão como profissionais praticantes da ciência normal.

Em Bakhtin (2011) compreendemos a linguagem como sendo essencialmente dialógica, os enunciados são permeados por muitas vozes que se fundem para formar outros enunciados. Por esse viés, o outro é fundamental na

constituição do sujeito e das enunciações (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV, 2014). O endereçamento é característica constitutiva dos enunciados. Ao falar, sempre levamos em consideração o fundo aperceptivo da percepção do enunciado pelo destinatário (BAKHTIN, 2011) ao mesmo tempo em que dialogamos com diferentes vozes que constituem a nossa história.

Para análise desta entrevista seguimos os seguintes passos, adaptados a partir do caminho analítico proposto por Veneu, Ferraz e Rezende (2015): 1) Identificação e seleção de enunciados acerca de concepções da leitura em aulas de física e resistências para a entrada de textos diversos no ensino da disciplina; 2) leitura atenciosa do enunciado grafando palavras e elementos linguísticos; 3) articulações entre contexto interacional imediato; extraverbal mais amplo; conceitos bakhtinianos (encontro vocal; discurso citado, dialogismo, etc.) e os objetivos deste estudo para se construir possíveis interpretações dos enunciados.

## Professor Participante

No semestre desta investigação, o professor participante estava ministrando disciplinas relacionadas à física quântica, em uma universidade federal da região Sul, e por isso foi convidado a participar deste estudo. O professor se mostrou sempre aberto e disposto a colaborar com a investigação, assinou um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) acerca de observações em algumas das suas aulas e de uma entrevista. Para preservar o anonimato, neste estudo ele será 1 chamado de Sérgio. Este professor é bacharel em Física, com mestrado e doutorado em Física Nuclear teórica. Além do doutorado no exterior, o professor Sérgio cursou pós-doutorados em diferentes países (trabalhou e viveu 12 anos fora do Brasil) e mantém interações com pesquisadores da França e dos Estados Unidos. Ele atua em pesquisas relacionadas à teoria quântica de campos, sendo um dos fundadores do seu grupo de pesquisa. Exerce a docência universitária há 22 anos e estruturou disciplinas do departamento de física da graduação e da pós-graduação relacionadas à sua área de pesquisa.

Para este trabalho, pela limitação de espaço, trazemos apenas alguns recortes de falas do professor em uma entrevista acerca de sua compreensão sobre a leitura e os textos no ensino de física.

## A leitura e os textos na aprendizagem de Física pela perspectiva do professor participante

- O professor Sérgio ao ser questionado, durante a entrevista, sobre o que compreendia por leitura de textos, relacionou seu enunciado-resposta à leitura 'em física' (da matemática), com as suas especificidades. A leitura é compreendida, sobretudo, como leitura de equações e deduções matemáticas presentes nos manuais do ensino superior.

PESQUISADORA: O que o professor compreende por leitura de textos?

PROFESSOR SÉRGIO: A leitura do texto, eu entendo que o aluno vai ler o texto, vai ler o texto, do livro texto e a partir dali refaz… porque é um curso de física, então se trata de matemática, ele refazendo os exemplos e fazendo cada passo que leva de uma equação a outra, é talvez até mais

importante que a parte conceitual, ele vai compreender a matéria. Eu entendo que a leitura do texto em física é diferente da leitura do texto em direito ou outra coisa. A leitura do texto em física decorada: a lei quer dizer isso e no ano de 1800 e coisa descobriu não sei quem, pouco importa. Importa se o aluno sabe fazer todos os detalhes matemáticos que levam da equação 1 a 2. [...] Eu não fui a primeira pessoa a falar isso. O Feynman quando ele esteve no Brasil ele detectou esse problema. Ele viu que os alunos sabiam as leis e não sabiam aplicar. E eu acho que principalmente num curso de mecânica quântica o aluno tem que saber isso, por isso eu sempre incentivo a refazer os exemplos. Então acho que é isso que eu entendo, é ler o texto e compreender não só os conceitos, mas também todas as passagens matemáticas, todas.

A pergunta da entrevista, anteriormente transcrita, foi aberta. É preciso considerar o contexto de interação da entrevista, que influencia na compreensão dos enunciados (BAKHTIN, 2011). No momento da entrevista, o professor Sérgio sabia dos objetivos e temática da investigação mais ampla, além de que a pesquisadora acompanhou algumas das suas aulas. Ao início do seu enunciado resposta, ele associa leitura ao 'livro texto' que é o principal material escrito usado na formação de físicos, em outro trecho ele irá ressaltar que compreende que a 'leitura do texto em física é diferente da leitura do texto' em outras áreas.

Seu enunciado reforça especificidades do curso de física, 'porque é um curso de física, então se trata da matemática'; física e matemática são vistas como inseparáveis. Interpretamos por expressões como 'cada passo que leva de uma equação a outra', 'saber fazer todos os detalhes matemáticos que levam da equação 1 a 2' e 'todas as passagens matemáticas, todas' que existe uma lógica matemática ligada à física que precisa ser aprendida pelo estudante nas disciplinas do curso - e que constituem práticas de leitura. Neste curto enunciado, Sérgio repete a necessidade de compreensão dos detalhes das passagens de uma equação a outra três vezes, além de, nessa última expressão que destacamos, usar duas vezes a palavra 'todas' em relação à aprendizagem das passagens matemáticas. A física estrutura seus conhecimentos, sobretudo, pela linguagem matemática, se diferenciando desta última pelas especificidades dos campos de conhecimento (REDISH, KUO, 2015). Ler em física parece ser aprender a significar a natureza também tomando como base uma nova linguagem, a matemática.

Aparentemente o professor estabelece uma hierarquia entre o conceitual (estamos interpretando que saber um conceito também pode estar relacionado à sua expressão na forma verbal) e saber as deduções matemáticas usadas na solução de um problema, ou seja, nos 'exemplos'. Na voz do professor, este último é mais importante, já que é por meio deste que o estudante 'vai compreender a matéria'. Kuhn (1978), indiretamente, argumenta a existência de uma interpretação silenciosa na resolução de problemas da Física, feita subliminarmente sem o verbal, apenas pela prática matemática e dedução (generalizações simbólicas) e resolução de problemas aceitos como exemplares.

- O professor expressa essa ideia de hierarquia entre o conceitual e a resolução de problemas de forma cautelosa usando a dúvida em 'talvez até mais importante que a parte conceitual'. Quando o professor se refere à leitura de textos decorada, ele enfatiza aspectos ligados à linguagem verbal 'a lei quer dizer isso e no ano de 1800 e coisa [...]' (talvez pelo contexto da entrevista relacionado a uso de textos diversos no ensino de física, uma forma de justificar o uso de um tipo de texto) - nestas falas ler não tem relação com interpretar -, a entonação da sua voz,

no contexto de interação da entrevista, enfatiza o sentido de coisas desnecessárias. E ao final dessa frase, ele é enfático sobre isso: 'pouco importa', o que importa são 'os detalhes matemáticos'.

Por estas interpretações, evidenciamos o que consideramos uma resistência, que advém de uma comunidade, à entrada de discussões relacionadas a outros aspectos filosóficos, históricos ou sociais do conhecimento - saberes que não devem ser decorados, como o próprio professor Sérgio enfatizou. A entrada de outros textos escritos, para além da forma do livro didático, também parece não encontrar sentido segundo essa tradição de formação descrita. Enfatizamos que a fala do professor Sérgio é determinada por sua história, regras institucionais e da comunidade (KUHN, 1978), por uma cultura que não nasce e nem depende apenas dele (BAKHTIN, 2014). Essa resistência, relacionada à importância do formalismo matemático, que advêm de uma forma de pensar compartilhada por um coletivo de pensamento [trata-se de elementos de um estilo de pensamento] (FLECK, 2010) reaparece em outros enunciados respostas nesta mesma entrevista, que não iremos aprofundar aqui pela limitação de espaço.

Ao final do enunciado transcrito anteriormente, há a incorporação indireta da voz do físico teórico Feynman, que é bastante reconhecido na comunidade da física, para criticar, o que o professor Sérgio chama de 'falhas' do sistema de ensino brasileiro. Essa incorporação, tomando a voz do outro para si, reforça o ponto de vista do professor, 'não fui a primeira pessoa'. A principal falha que o professor aponta no processo de ensino-aprendizagem é decorar conceitos ou aspectos relacionados ao saber de forma desconexa com a prática, 'os alunos sabiam as leis e não sabiam aplicar'. Ele aponta que 'principalmente' na mecânica quântica, que é um conhecimento menos intuitivo, 'o aluno tem que saber isso', além dos conceitos, 'todas as passagens matemáticas' e aplicar este conhecimento.

Em um momento posterior da entrevista, por exemplo, ficam mais claras algumas das ressonâncias dialógicas presentes na fala deste professor. As falhas as quais ele se refere estão relacionadas também às suas experiências enquanto estudante de física. Após elogiar os livros-texto base da física, que o professor considera que são 'extremamente bem escritos' (é preciso atenção ao contexto de interação da entrevista sobre a temática específica, além de que existe toda uma comunidade e tradição por trás da construção destes textos didáticos do ensino superior (FLECK, 2010)), já que trazem muita informação e exemplos, Sérgio aponta essa falha como sendo algo pessoal do leitor enquanto estudante perante o texto.

PESQUISADORA: É, eu iria perguntar como que a leitura fez parte da formação do professor. O professor já comentou que teve uma diferença...

PROFESSOR SÉRGIO: Então a leitura quando eu vim para a universidade, desses textos, me ajudou muito... mas eu falhava , no que eu falhei , no meu caso, estou falando bem particular meu , é que eu não me preocupava em refazer todas as passagens matemáticas . Eu via a fórmula ali no final, mas às vezes eu não tinha entendido como ia da equação três para a quatro, e isso é falho, porque a linguagem da física ela é a matemática . Então mais importante que você entender o palavreado e a lei e quem descobriu a lei e em que ano que também é legal, é interessante, mais importante é você saber passar de uma para a outra e melhor se você souber relacionar aquilo com uma aplicação do dia-a-dia

O próprio contexto interacional da entrevista pode influenciar o professor a ressaltar o papel da leitura do livro texto na sua formação ('me ajudou muito'). O professor Sérgio aponta falhas apenas que partiam dele ('eu falhava', 'eu falhei',

'no meu caso, estou falando bem particular meu', 'eu não me preocupava', 'eu via a fórmula ali no final', 'eu não tinha entendido'), enquanto estudante de física, já que os livros trazem o passo a passo matemático e vários exemplos. Interpretamos que o professor usa da cautela pelo próprio contexto da entrevista, alertando que é um caso particular seu, mas ao mesmo tempo sua fala ressalta que a 'falha' não está no livro texto base, na sua abordagem (que anteriormente ela já apontou como um material 'extremamente' bem escrito e que ajuda 'muito'), o problema está na forma do estudante estudar este texto, ler este conteúdo [de forma 'decorada'], é um problema do tipo de leitura do texto. A colocação 'a linguagem da física ela é a matemática' é seguida pela ideia de que o verbal e outros aspectos como os históricos, 'o palavreado e a lei e quem descobriu a lei [...]', que 'também é legal, é interessante' (o contexto da entrevista pode influenciar nessa ressalva do professor, uma resposta presumida do julgamento de seu interlocutor), são menos importantes do que a matemática. Aqui entendemos que aparece de novo a resistência à entrada de outros textos na formação. Por mais que o professor localize um problema da formação dos físicos, a 'falha' não está no tipo de texto usado, mas na atitude do indivíduo perante o texto.

## Considerações Finais

Este trabalho é um recorte de uma pesquisa mais ampla sobre a temática leitura e uso de textos, que envolve observações de aulas e entrevistas com professores de disciplinas do curso de Licenciatura em Física, entre outros procedimentos e análises. O recorte deste estudo está em disciplinas de conhecimentos físicos da parte comum do currículo. Consideramos a voz do professor nesta investigação, pois embora exista uma tradição de ensino dentro da Física, além das repetições das formas de tal tradição, que prevalecem, no acontecimento das aulas é possível encontrar particularidades, pelas assimetrias e histórias dos sujeitos envolvidos (BAKHTIN/ VOLOCHINOV, 2014). Há encontros entre o institucional e as histórias dos sujeitos que participam destes espaços formativos.

O professor participante deste estudo possui uma visão da leitura na física vinculada, sobretudo, com a compreensão da linguagem matemática. Por esta visão, o ensino deve se preocupar não só com a apresentação dos conceitos, mas principalmente que o estudante compreenda as deduções matemáticas e seja capaz de operar com elas em aplicações e problemas. Pode se depreender que há uma concepção específica do que é ler um texto em física (ou seja, nesta comunidade científica), o que caracteriza um estilo de pensamento sobre leitura. As dificuldades de leitura também estão relacionadas à história de leitura dos estudantes e como eles compreendem o que é importante na disciplina dentro da tradição (comunidade) da física.

Há uma concepção de hierarquia entre a linguagem matemática e a verbal na construção dos conhecimentos de Física Quântica, sendo que aquela é a forma privilegiada, todavia não anula a necessidade de expressão verbal em algum sentido. Esta concepção, também relacionada ao institucional das disciplinas - um estilo de pensamento (FLECK, 2010) -, cria resistências para a entrada de outros textos, diversos aos livros de ensino superior, na formação comum dos físicos. Ressalta-se a importância de se pensar o que significa ler dentro da física, almejando melhor compreender aspectos fundamentais da Educação Científica -

tura e os textos -, que podem estar determinando o tipo de formação em relação à disciplina, nos diversos níveis educacionais.

## Referências

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