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ELEMENTOS PARA ANÁLISES DE TEXTOS QUE CIRCULAM CONHECIMENTOS CIENTÍFICOS: UMA PERSPECTIVA TEÓRICA A PARTIR DA RELAÇÃO ENTRE EPISTEMOLOGIA E LINGUAGEM

Joselaine Setlik, Henrique César Da Silva

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XVIII
Ano
2020
Data
10/11/2020
Linha de pesquisa
Ensino, Aprendizagem E Avaliação Em Física/Linguagem E Cognição No Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## ELEMENTOS PARA ANÁLISES DE TEXTOS QUE CIRCULAM CONHECIMENTOS CIENTÍFICOS: UMA PERSPECTIVA TEÓRICA A PARTIR DA RELAÇÃO ENTRE EPISTEMOLOGIA E LINGUAGEM

## ELEMENTS FOR ANALYSIS OF TEXTS THAT CIRCULATING SCIENCE KNOWLEDGE: A THEORETICAL PERSPECTIVA FROM THE RELATIONSHIP BETWEEN EPISTEMOLOGY AND LANGUAGE

Joselaine Setlik , Henrique César da Silva 1 2

## Resumo

Diversos textos sobre ciência perpassam todas as instituições de ensino, além do cotidiano dos indivíduos, pelas popularizações do saber. Sendo assim, o desenvolvimento de habilidades de leitura de textos também é um dos objetivos da Educação Científica. Compreender as formas dos diversos textos que circulam conhecimentos científicos pode potencializar a sua criação, seu uso e as práticas de leituras nos contextos de ensino-aprendizagem. Pensadores do campo da epistemologia acentuam uma relação entre a construção dos conhecimentos científicos e a linguagem, sobretudo, quando se compreende que a produção da ciência possui caráter social - os textos constituem os conhecimentos. Neste estudo, na perspectiva deste entremeio entre epistemologia e linguagem, buscamos diálogos entre as teorias de Ludwik Fleck e Mikhail Bakhtin para elaborar uma sequência de questões para análise de textos que circulam conhecimentos da Física. Esta abordagem teórica pode possibilitar a pesquisadores e professores, do Ensino Superior ou Educação Básica, melhor compreender os materiais textuais que circulam conhecimentos científicos para assim integrar tais materiais e reflexões às práticas de ensino, com mediações adequadas.

Palavras-chave : Fleck, Bakhtin, Epistemologia, Linguagem, Análise de textos.

## Abstract

Several texts on science permeate all educational institutions, beyond the daily lives of individuals, through the popularization of the saber. Thus, developing the ability to read texts is also one of the goals of Science Education. Understanding how forms of various texts that circulate scientific knowledge can enhance their creation and use in teaching-learning contexts. Thinkers in the field of epistemology concentrate a relationship between the construction of scientific knowledge and language, especially when it is understood that the production of science has social characters - the texts produced the knowledge. In this study, with the perspective of entering epistemology and language, we seek approximations between the theories of Ludwik Fleck and Mikhail Bakhtin to elaborate a sequence of questions for texts

analysis for the circulation physics knowledge. This theoretical approach can enable teachers and researchers, Higher Education or Basic Education, to better understand the textual materials that circulate scientific knowledge to integrate such materials and reflections in teaching practices, with appropriate mediations.

Keywords : Fleck, Bakhtin, Epistemology, Language, Texts Analysis.

## Introdução

A leitura de diferentes tipos de textos também constitui o ensino de Ciências da Natureza, inclusive da Física, na Educação Básica (ALMEIDA; RICON, 1993; SILVA, 1997) e no Ensino Superior (RODRIGUES, 2015; LIMA, ALMEIDA, 2012). No contexto atual, a literatura sobre leitura, uso e funcionamento de textos em Ciências é bastante diversificada e extensa (SILVA, 2013). Entretanto, poucos estudos integram à perspectiva da leitura no ensino a análise da materialidade dos textos que circulam conhecimentos científicos. Compreender as formas dos diversos textos da Ciência pode potencializar a sua criação, seu uso e práticas de leitura nos diversos contextos de ensino-aprendizagem. Como Silva (2013) coloca, com base em Orlandi, as formas dos textos não são indiferentes aos sentidos que podem ser gerados na leitura, assim a formação do leitor precisa ser pensada também para tais formas (também relacionadas a contextos).

No caso da ciência, estudos apontam que a produção textual pode ser compreendida como constitutiva do conhecimento e não apenas um meio de comunicação dos produtos da Ciência. Diversos pensadores do campo da epistemologia e estudos da ciência, entre eles, Bruno Latour, Thomas Kuhn e Ludwik Fleck, acentuam uma relação entre linguagem e construção de conhecimentos. Daí a importância de pensar os textos na Ciência e no Ensino de Ciências no entremeio entre teorias dos campos da epistemologia e da linguagem. Alguns trabalhos da literatura, centrados na Educação Científica, discutem articulações entre discurso e epistemologia. Silva (2017), por exemplo, articula o discurso em Foucault com a epistemologia de Kuhn, envolvendo a noção de textualização. O estudo supracitado propõe a textualização como uma categoria analítica central para a articulação entre abordagem discursiva e abordagem epistemológica, já que 'desloca as análises dos 'conteúdos' dos textos, para as relações entre forma textual, conteúdo e determinações socio-históricas' ( SILVA, 2017, p.3547). Outros estudos abordam o discurso (principalmente a partir da Análise de Discurso Francesa) e a epistemologia de Fleck (BARROS, 2011; NASCIMENTO, 2005). Outros ainda utilizam Fleck e Bakhtin conjuntamente, embora sem estreitar as relações das teorias, para realizar análises de materiais simbólicos (SANGIOGO; MARQUES, 2015).

A teoria de Bakhtin vem sendo utilizada, como base para propostas de 'caminhos analíticos', na pesquisa em Educação em Ciências para a análise de textos e interações em sala de aula (VENEU, FERRAZ, REZENDE, 2015; LIMA et al., 2019). Acreditamos que, quando pensamos especificamente textos sobre Ciência, inclusive da Física, tais dispositivos podem ainda incorporar elementos de teorias epistemológicas para melhor compreender a forma específica desses enunciados.

Neste estudo, almejando estreitar essas relações, pensamos a epistemologia de Ludwik Fleck, que enfatiza aspectos sociais na construção dos

conhecimentos científicos, em proximidade de uma concepção dialógica de mundo, convergindo com a teoria da linguagem de Mikhail Bakhtin. Mais especificamente, na perspectiva do entremeio linguagem-epistemologia, buscamos dois objetivos complementares: articular elementos das teorias de Fleck e Bakhtin, e derivar desta articulação questões-guia para análise e mediações de textos em situações de ensino.

## Possíveis diálogos entre elementos das teorias de Ludwik Fleck e Mikhail Bakhtin

Fleck e Bakhtin teorizam em distintos campos de conhecimento: aquele pensa a construção/produção do conhecimento científico, enquanto este o dinamismo da criação verbal. Contudo, ambos almejam uma abordagem com viés sociológico para o seu objeto de estudo, de tal forma que se tornam possíveis vários entrecruzamentos de conceitos entre as teorias.

Um dos pontos de semelhança entre estas duas teorias é a concepção de evolução dos conceitos por transformações que criam novos sistemas; no caso Bakhtin pensando explicitamente a língua e Fleck as nossas crenças científicas. Ambos os autores apontam que pode existir incomensurabilidade entre tais sistemas quando estes passam por transformações. Fleck (2010) enxerga na construção dos conhecimentos uma época clássica, onde há certa acumulação do saber que apenas reforça o estilo de pensamento vigente, todavia os deslizes e as complicações internas podem manifestar a época das complicações (na qual se enxergam as exceções ao estilo de pensamento). A partir das complicações pode ocorrer uma real ruptura com a época clássica, ou seja, uma transformação no sistema de crenças. Mesmo com o vínculo a ideias passadas (como as protoideias que podem persistir) é criado um novo sistema, que não se entende com o anterior. Assim também Bakhtin (2014) enxerga as transformações no sistema da língua. A criação de novas palavras, que podem inclusive advir de erros e desvios quando estes encontram um terreno favorável de analogia, mantêm uma relação com a história da língua ao mesmo tempo em que criam um novo sistema, isso porque o sistema criado não se entende com o anterior. Os sistemas se tornam essencialmente diferentes (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV, 2014). Dos dois autores, concluímos que não só a língua, mas também nossas crenças encontram-se num processo dinâmico, e não estático como possa parecer.

Fleck quando tece reflexões sobre a transformação de estilos de pensamento traz referências explícitas à linguagem. Para ele existe uma 'matização das palavras' (vocabulários específicos) (FLECK, 2010, p.98) relacionada ao estilo de pensamento, além das formas específicas de textos que movimentam as ideias dentro e fora do coletivo de pensamento - pelas trocas intra e intercoletivas. A palavra, para Fleck, é um bem intercoletivo, que adquire sentido apenas em relação a um campo, no qual recebe uma orientação específica, distinta dos outros campos. A circulação das palavras em diferentes coletivos (tráfego intercoletivo) pode trazer uma 'alteração dos valores de pensamento' (FLECK, 2010, p.161). Nos deslizes e deslocamentos das palavras pode surgir o novo. Isso porque, o receptor nunca entende as palavras da forma que o emissor quer que tais palavras sejam entendidas.

Essa ideia parece se aproximar da teoria bakhtiniana que compreende existir uma assimetria entre os sujeitos e, portanto, a compreensão ser essencialmente 1 ativa, responsável, já que implica sempre uma contrapalavra (interpretação) à palavra do emissor. Para Bakhtin as palavras são neutras. Isso porque o sentido apenas aparece se houver uma orientação específica de um campo (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV, 2014). As palavras se movimentam em diferentes campos e, por isso, estão repletas de fios ideológicos, tornam-se arena de disputa entre diferentes índices de valor (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV, 2014).

Outro ponto de diálogo entre as duas teorias está diretamente relacionado ao aspecto social, que ambas enfatizam. Fleck destaca a importância do coletivo e estilo de pensamento, como categorias inter-relacionadas, para se compreender a construção de fatos científicos. Para isso, ele toma a ideia de coletivo de pensamento não como uma categoria substancial, já que ela não se confunde com um grupo ou classe fixa, mas como uma categoria funcional, pois qualquer troca entre indivíduos que compartilham uma forma de pensar pode ser considerada um coletivo de pensamento. Assim o aspecto definidor do que se trata um coletivo está em os indivíduos de uma interação concordar sob uma inclinação específica ao pensar algo, ou melhor, necessariamente os indivíduos precisam compartilhar um estilo de pensamento. Não obstante, Fleck (2010) acredita existir dois tipos de coletivos: os momentâneos (das trocas rápidas e cotidianas) e os relativamente estáveis, este último formado em torno de organizações sociais e, por isso, mais propícios para a análise dos estilos de pensamento. Ele menciona também a existência de círculos, sendo o esotérico composto por profissionais e especialistas, enquanto o exotérico composto por leigos mais ou menos instruídos.

Bakhtin (2011), por sua vez, não usa o termo 'coletivo de pensamento', mas ao pensar os gêneros discursivos, ele pontua a existência de dois tipos de 'esferas': a esfera do cotidiano (das trocas rápidas e cotidianas) e a esfera ideológica, que pode ser da arte, ciência, moral, religião, etc. Daí Bakhtin (2011) desenvolve a ideia de gêneros primários e secundários, de tal forma que estes últimos absorvem e transmutam os primários. A esfera ideológica necessita da esfera do cotidiano para cristalizar os seus conceitos, ao mesmo tempo em que a esfera do cotidiano é influenciada pelas esferas ideológicas (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV, 2014).

Enquanto os gêneros do cotidiano, em sua maioria, estão inseridos em alternâncias reais de sujeitos, no diálogo real, nos diversos gêneros secundários não há uma alternância real/imediata dos sujeitos dos discursos - esta se aproxima mais de uma abstração. Os gêneros secundários do discurso, principalmente os retóricos, podem inclusive incorporar aspectos dos gêneros do cotidiano, e isso acontece em algumas modalidades de popularização científica: frequentemente o autor coloca questões em seu enunciado que, em seguida, ele mesmo responde, 'faz objeções a si mesmo e refuta suas próprias objeções, etc.' (BAKHTIN, 2011, p.276). Bakhtin pontua a esfera do cotidiano (psicologia social) como a fonte da criatividade da esfera ideológica, além de ser responsável pela cristalização dos conceitos ideológicos. Por sua vez, Fleck pontua que o conhecimento que circula entre diferentes coletivos de pensamento, através da forma do saber exotérico, é fonte

para a construção do saber dos cientistas nos círculos esotéricos, além de que na ciência popular o saber se torna 'carne' (FLECK, 2010, p.179). Fleck (2010) enxerga um fluxo em ambos os sentidos entre o círculo esotérico e o exotérico, que ele gradua em uma hierarquia entre os diferentes graus de iniciação ao saber, sendo os dois interdependentes, além da necessidade do movimento de ideias com os outros coletivos de pensamentos.

Na teoria bakhtiniana é diferenciado o autor-criador e o autor-pessoa, isso porque sempre que um sujeito cria algo, ele necessita assumir uma posição axiológica dentro de um campo. Retomando brevemente a questão das palavras, os sujeitos possuem uma heteroglossia, ou seja, a capacidade de estar em uma posição axiológica e, por isso, deslocar o significado das palavras. Com isso, em outros momentos, em outros campos, consegue usar uma mesma palavra com outros significados, o que entendemos também estar presente na teoria de Fleck (2010), já que o indivíduo pode ser portador de mais de um estilo de pensamento. O indivíduo de uma posição axiológica fala para alguém, que pode ser considerado o representante de um grupo social. É por esse viés que Bakhtin enfatiza que o estilo é, sobretudo, coletivo. Claro, no diálogo cotidiano, real da vida, cada autor pode incorporar seus juízos de valor, sentimentos e particularidades na forma do seu enunciado, mas cada organização social busca conservar algumas formas 'tradicionais'. Por isso, cada época possui os seus estilos de linguagem e de elaboração de enunciados, que vão se transformando pelos atos particulares dos indivíduos.

Bakhtin (2011) busca avançar sobre os estudos da estilística, que até então considerava em suas análises dos estilos, primeiramente, o objeto-sentido e, posteriormente, a expressão do autor sobre este primeiro, acrescentando, para além desses dois aspectos já considerados pela estilística, a importância do ' outro ', que é essencial na constituição dos sujeitos, e do estilo da nossa criação sobre o mundo. Todo enunciado mantém tonalidade dialógica com enunciados anteriores, aos quais responde, ao mesmo tempo em que é determinado por seu interlocutor. Para Bakhtin (2011) o endereçamento é um dos aspectos constitutivos do enunciado.

Nossa leitura é a de que Fleck (2010) também compreende, embora não use esta palavra, que o 'endereçamento' de um texto pode constituir a sua forma. Isso porque ele exemplifica quatro formas de constituição de textos - ciência dos periódicos, ciência dos livros didáticos, ciência dos manuais e ciência popular -, dentro do coletivo de pensamento que são determinadas por certa hierarquia (posição e endereçamento) entre os iniciados.

Fleck (2010) descreve marcas específicas dos textos dentro dos coletivos da ciência: I) O texto criado pelos especialistas para seus pares especialistas, denominado como 'ciência dos periódicos', necessita que o autor possua um grande volume de conhecimentos e experiência no campo científico. O cientista-especialista em contato até mesmo com conhecimentos que circulam em outros campos, pela popularização da ciência, possui espaço para a criatividade, para cometer deslizes e erros, incorporando a sua individualidade no estilo da 'ciência dos periódicos'. Daí as marcas da incerteza, pessoalidade, além de ser não aditiva.

II) O texto criado pelo especialista para os profissionais gerais, denominado como 'ciência dos manuais', representa a cultura do estilo referente a um campo. Isso porque, o fato científico existe nos manuais - enquanto resistência de um estilo de pensamento. O estilo do gênero manual é autoritário, dogmático, poderíamos

pensar como monovocal, já que não há espaço para a polêmica e para a criatividade. Esse estilo é a coluna central da comunidade científica, pois representa a tradição, o repetível, o plano teórico que direciona a visão de muitos especialistas. Daí as marcas da linguagem impessoal, com certa segurança e um caráter mais fixo (a cultura não deve ser vista como totalmente fechada).

III) O texto criado pelo especialista para o público geral (que também pode ser graduado de acordo com seu volume de conhecimentos), denominado como 'ciência popular', difunde uma visão de mundo, com os traços de um estilo de pensamento, não é o estilo de pensamento em si, com todo o seu rigor, já que o saber ganha um alto grau de plasticidade. No popular (cotidiano) também há espaço para os deslizes, e diferentes significações, embora pautadas no estilo de pensamento vigente ou sobre o qual trata. Na 'ciência popular' o especialista busca a cristalização dos conceitos, isto é, que o saber se mantenha vivo, ao mesmo tempo em que traz elementos de outros campos para o seu campo. A 'ciência popular' é uma fonte de inspiração e criatividade para os diversos especialistas, em seus diferentes campos. Nessa ciência o conhecimento é marcado como simplificado, ilustrativo e apodítico. Entendemos que a 'ciência popular' e a 'ciência dos periódicos' são mais propícias ao estilo individual de um autor-criador.

Bakhtin (2011) explicitamente, quando coloca que o fundo aperceptivo do interlocutor pode moldar o enunciado, cita um exemplo da ciência: gêneros da literatura popular científica, gêneros da literatura didática especial e os trabalhos especiais de pesquisa, que possuem interlocutores com diferentes níveis de conhecimento, públicos diferentes. Percebe-se certa semelhança às distinções (I, II e III que pontuamos anteriormente) das 'ciências' de Fleck, segundo uma hierarquia.

## Pensando uma sequência de questões para análise de textos que circulam conhecimentos da ciência

Fleck (2010) conceitua especificamente a construção dos conhecimentos científicos e não detalha como fazer uma análise dos textos da ciência, não menciona ideias como gêneros, discursos, interlocutor, tonalidades dialógicas, etc., que aparecem com detalhamentos na teoria bakhtiniana e que podem enriquecer uma análise sobre textos que circulam conceitos físicos. Sendo assim, propomos uma sequência de questões como dispositivo de análise de materiais textuais, que utiliza conjuntamente elementos das duas teorias para compreender o papel dos diferentes textos na construção e ensino do saber da ciência:

- 1. Qual é o objeto-sentido do texto?
- 2. Qual é a posição axiológica de quem fala sobre o objeto-sentido, ou seja, quem é o autor-criador?
- 3. Quem é o interlocutor do autor-criador?
- 4. Qual é a organização social a qual o enunciado está vinculado?
- 5. Dos elementos anteriores: qual é o gênero discursivo escolhido para o texto?
- 6. Ainda ligado à organização social: qual é o estilo em que o texto se realiza (dogmático, pessoal, qual posição sobre o objeto-sentido o autor assume, incorpora o diálogo cotidiano, etc.)? Quais são as particularidades/ sentimentos/ juízos do autor-criador no estilo (elementos de expressão na

escrita)? Quais as características relacionadas à tradição de uma esfera (matização das palavras, vocabulários específicos)?

- 7. É possível identificar tonalidades dialógicas no texto? Quais são as analogias e metáforas utilizadas, e com quais fins?
- 8. Pensando especificamente nas marcas descritas por Fleck para cada uma das 'ciências': qual o grau de simplificação, certeza, ilustração, plasticidade do conhecimento veiculado no texto?
- 9. Como as marcas anteriormente pontuadas implicam no conhecimento científico que está textualizado? Quais as diferenças para com o saber do cientista?
- 10. A partir dos elementos anteriores: qual é o discurso que está fundido no enunciado pelas formas gramaticais, de léxico e construção escolhida?

A resposta de cada uma das questões requer uma análise cuidadosa e auxilia a responder a próxima pergunta, deve-se buscar um olhar total para o conjunto da construção textual, com elementos verbais e extraverbais.

## Considerações Finais

Esta sequência de questões propostas pode auxiliar professores do Ensino Superior ou Educação Básica a melhor compreender os modos como os textos podem mobilizar sentidos e significados relacionados aos conceitos científicos, reconhecendo o caráter constitutivo do texto na construção/produção do conhecimento científico, que deve ser problematizado na Educação numa abordagem que não dicotomize linguagem e epistemologia, bem como as potencialidades, limitações e o papel dos diversos materiais textuais. Essas questões foram aplicadas em situações de ensino na formação inicial de professores de física, cujas análises serão objeto de outro trabalho.

Não obstante, trazer os dois autores, Fleck e Bakhtin, evidenciando diálogos que interpretamos entre suas teorias, é relevante para fomentar discussões entre epistemologia e linguagem, que defendemos como inter-relacionadas. Fleck (2010) ao discutir epistemologia perpassa a linguagem. Bakhtin (2014, 2011) ao discutir a linguagem perpassa a construção do pensamento e de conceitos a partir das experiências dos sujeitos no mundo, experiências que são necessariamente sociais e culturais. Com isso, fortalecemos a argumentação da inseparabilidade entre a linguagem e o conhecimento; para pensar um é imprescindível considerar o outro.

## Referências

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