AVALIAÇÃO DA COMPREENSÃO DO PROCESSO DE CONCEITUALIZAÇÃO EM CIÊNCIAS POR CEGOS CONGÊNITOS
Estéfano Vizconde Veraszto, Juliane Cristina Molena, Osório Augusto De Souza Neto, Eder Pires De Camargo, José Tarcísio Franco De Camargo, Fernanda Oliveira Simon
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVII
- Ano
- 2018
- Data
- 29/08/2018
- Linha de pesquisa
- Po-4 Educação Inclusiva
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## AVALIAÇÃO DA COMPREENSÃO DO PROCESSO DE CONCEITUALIZAÇÃO EM CIÊNCIAS POR CEGOS CONGÊNITOS*
## EVALUATING THE UNDERSTANDING OF THE CONCEPTUALIZATION PROCESS IN SCIENCES BY CONGENITAL BLIND
*Pesquisa financiada pela FAPESP
Estéfano Vizconde Veraszto 1 , Eder Pires de Camargo 2 , José Tarcísio Franco de Camargo 3 , Juliane Cristina Molena 4 , Osório Augusto de Souza Neto 5 , Fernanda Oliveira Simon 6
1 UFSCar/Depto. Ciências da Natureza, Matemática e Educação, estefanovv@gmail.com 2 UNESP, Ilha Solteira, camargoep@dfq.feis.unesp.br
3 Centro Regional Universitário de Espírito Santo do Pinhal, UNIPINHAL, jtfc@bol.com.br 4 UFSCar/Depto. Ciências da Natureza, Matemática e Educação, juliane\_molena@hotmail.com 5 UFSCar/Depto. Ciências da Natureza, Matemática e Educação, osorionet2003@gmail.com 6 Universidade Virtual do Estado de São Paulo, UNIVESP, fernanda.osimon@gmail.com
## Resumo
Esse trabalho finaliza uma pesquisa financiada pela FAPESP que buscou investigar como o processo de conceitualização em indivíduos cegos congênitos é percebido e compreendido por professores da área de ciências da natureza (em formação e atuantes) e alunos da educação básica do ensino fundamental e médio. No total participaram 561 respondentes. Em um primeiro momento, através de análise de conteúdo e análise estatística textual, foram analisadas as concepções de licenciandos em física, química e biologia, professores de ciências do ensino fundamental e médio e alunos cegos congênitos e videntes (170 sujeitos). A partir dos dados obtidos, uma escala de valores foi desenvolvida. Nessa segunda etapa, avaliada através de análise fatorial, participaram da pesquisa 391 sujeitos. Em todas as etapas da pesquisa, a análise mostrou que sujeitos investigados entendem que a sociedade deve fazer parte do processo de inclusão. Desta forma, o entendimento é de que as instituições de ensino precisam estar preparadas para atender demanda de alunos deficientes visuais ou com outras necessidades.
Palavras-chave : Educação inclusiva, ensino de ciências, conceitualização em ciências, análise fatorial.
## Abstract
This paper finishes a research financed by FAPESP that sought to investigate how the process of conceptualization in congenital blind is perceived and understood by teachers of the area of natural sciences (in training and acting) and elementary and high school students. The survey had 561 respondents. Initiatlly, through content analysis and textual statistical analysis, there were analysed the conceptions of undergraduates in physics, chemistry and biology, science teachers of elementary and high school and also congenital blind and not blind students (170 subjects). From the obtained data, a scale of values has been developed. In this
second stage, evaluated through factorial analysis, 391 subjects have participated. At all stages of the research, the analysis showed that the investigators understand that society should be part of the process of inclusion. Thus, the understanding is that educational institutions need to be prepared to attend the demand of students visually impaired or with other needs.
Keywords : Inclusive education, science education, science conceptualization, factor analysis.
## Introdução
Esse trabalho finaliza um projeto de pesquisa financiado pela FAPESP 1 que buscou investigar como o processo de conceitualização em indivíduos cegos congênitos é percebido e compreendido por professores da área de ciências da natureza (em formação e atuantes) e alunos do ensino básico fundamental e médio. De forma ampla, várias frentes de ações foram planejadas, executadas e as etapas serão mostradas de forma resumida ao longo desse artigo.
Como base teórica, temos Leontiev (1988) que aponta que embora os conceitos e fenômenos sensíveis estejam inter-relacionados por seus significados, psicologicamente são categorias diferentes de consciência. O conceito de funções psicofisiológicas (funções fisiológicas do organismo, como as funções sensoriais, mnemônicas e tônicas) aponta que nenhuma atividade psíquica pode ser executada sem o desenvolvimento dessas funções que constituem a base dos correspondentes fenômenos subjetivos de consciência. Nesse sentido,
se mentalmente excluirmos a função das cores, a imagem da realidade em nossa consciência adquirirá a palidez de uma fotografia branca e preta. Se bloquearmos a audição, nosso quadro do mundo será tão pobre quanto um filme mudo comparado com o sonoro. Todavia, uma pessoa cega pode tornar-se cientista e criar uma nova teoria, mais perfeita, sobre a natureza da luz, embora a experiência sensível que ela possa ter da luz seja tão pequena quanto aquela que uma pessoa comum tem da velocidade da luz (LEONTIEV, 1988, p.13).
Essas considerações permitiram a elaboração do instrumento de pesquisa que será apresentado na sequência juntamente com as etapas da investigação.
## Metodologia
A pesquisa apoiou-se em metodologia mista, amparada por pressupostos quali-quantitativos. As etapas serão descritas em tópicos subsequentes e as questões do instrumento de pesquisa são: [1] Acerca de uma pessoa totalmente cega de nascimento reflita e responda com toda tranquilidade e sinceridade. [1.1] É possível que ela se torne cientista? Explique.; [1.2] Ela pode compreender a natureza da luz? Explique. [2] A visão não constitui requisito para o conhecimento de alguns (ou muitos) fenômenos físicos (e de outras naturezas). Você concorda ou não com a afirmação apresentada? Explique. [3] A experiência sensível que um cego congênito (cego de nascimento) pode ter da luz é tão pequena quanto aquela que uma pessoa comum tem da velocidade da luz. Você concorda ou não com a afirmação apresentada? Explique.
Buscando criar um instrumento Likert, essas questões foram aplicadas para alunos de graduação, cursando o último semestre de cursos de licenciatura na área de Ciências da Natureza (Física, Química e Ciências Biológicas - tabela 1).
Tabela 1 - Caracterização da primeira amostra de alunos de cursos de licenciatura. Fonte: elaborado pelos autores.
Posteriormente também foram aplicadas para alunos e professores atuantes no ensino fundamental e médio regular (tabela 2).
Tabela 2 - Caracterização da amostra. Fonte: elaborado pelos autores.
A síntese de resultados, gerados a partir de análise de conteúdo (BARDIN, 2004) e análise estatística textual (VERASZTO, CAMARGO, CAMARGO, 2016a, 2016b, 2016c), originou a tabela 3.
Tabela 3 - Síntese dos resultados da primeira etapa da pesquisa. Fonte: elaborado pelos autores.
Antes de prosseguir, é importante destacar que resultados dessa etapa inicial foram apresentados em eventos da SBF, como o EPEF 2016 (VERASZTO, CAMARGO, CAMARGO, 2016a, 2016b, 2016c) e o SNEF 2017 (VERASZTO et. al , 2017a, 2017b). Assim, a partir das respostas organizadas e categorizadas nessa primeira etapa da investigação, o instrumento maior foi construído (tabela 4).
Tabela 4 -Assertivas do instrumento de pesquisa. Fonte: elaborado pelos autores.
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- É preciso que existam recursos especiais para que o cego venha a ser cientista
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- Diversas atividades científicas não dependem de boas condições visuais de um indivíduo.
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Recursos táteis e auditivos podem auxiliar na formação científica de cegos.
Esse instrumento foi finalizado com um grupo focal que contou com 6 especialistas na área: 1 física e 1 físico (ambos com bacharelado, licenciatura, doutorado em Educação e especialistas em métodos quantitativos); 1 licenciada em química doutoranda em Educação e que trabalha com ensino de química para deficientes visuais; 1 físico, doutorando em educação; 1 físico, doutor em educação e professor universitário e 1 física, doutoranda em educação que trabalha com ensino de física para deficientes visuais. Após o grupo focal foi realizado pré-teste com cerca de 21 indivíduos (8 estudantes de graduação, 11 professores do ensino médio e 2 professores do ensino superior) para a validação do instrumento.
Fechado o instrumento, participaram da nova etapa da pesquisa 391 respondentes distribuídos ao longo de todo o território brasileiro (gráficos 1 e 2). Em janeiro de 2017 o instrumento foi compartilhado no XXII SNEF (São Carlos-SP), com auxílio da organização do evento. Além disso, o instrumento (disponibilizado em formulário Google), foi enviado para diversas universidades nacionais que ofertam cursos relacionados com o público-alvo. Cerca de 257 são da Região Sudeste (65,7%), sendo que 188 são do Estado de São Paulo (48%).
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Dos 391 respondentes, temos 178 do sexo masculino e 213 do sexo feminino. Também temos que 198 lecionam e 193 não lecionam (mas 91 deles já lecionaram). Sendo assim, temos que 289 dentre os indivíduos pesquisados lecionam ou já lecionaram. Por fim, temos a formação dos sujeitos participantes da pesquisa caracterizada na tabela 5.
Tabela 5 - Área de formação dos professores. Fonte: elaborado pelos autores.
Mestres em Ensino de Ciências da Natureza (física, química e ciências biológicas)
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Na sequência temos os dados analisados.
Os indivíduos que convivem com o aluno cego sempre devem mediar e intervir, proporcionando caminhos
alternativos para sua formação.
## Métodos e técnicas para análise fatorial
Os dados foram analisados segundo método de análise fatorial de componentes principais. Foi utilizado o método VARIMAX de matriz rodada com normalização de Kaiser através do software SPSS 20 ® ( Statistical Packet for Social Sciences ) (HAIR Jr. et. al. , 2005). Também foram realizados quatro tipos de testes: Kolmogorov-Smirnov , para verificar se os dados se comportaram como uma distribuição normal, teste KMO e o de esfericidade de Bartlett , para se determinar se o método de análise fatorial poderia ser utilizado. E, finalmente, o teste de confiabilidade interna dos dados ( Alfa de Cronbach ), para verificar se os dados não têm vieses significativos.
## Análise dos dados
O teste de Kolmogorov-Smirnov apresentou valores para a significância menores do que 0,0001 para todas as variáveis, o que sinaliza que as distribuições das variáveis não são normais ao nível de significância de 0,05. O teste de adequação de amostragem de Kaiser-MeyerOlkin ( KMO test ) apresentou valor de 0,843 que, de acordo com Pereira (2004), indica boa adequação à análise fatorial para valor acima de 0,800. A significância do teste de Esfericidade de Bartlett apresentou valor inferior a 0,001 indicando nível de probabilidade muito adequado para a correlação entre variáveis. Com esses resultados o método de Análise Fatorial é confirmado como possibilidade para o tratamento dos dados. Por fim, realizou-se o teste de Alfa de Cronbach para verificar o grau de consistência interna da escala. O valor encontrado foi de 0,833 (indica precisão de 83,3%), sugerindo que a tabela está adequada para o estudo proposto. Além da análise interna do instrumento foi feita a análise da consistência interna de cada um dos fatores interpretáveis obtidos pela análise fatorial: a seleção das cargas fatoriais mais significativas foi feita escolhendo cargas fatoriais com valores acima de 0,400 (corte das cargas fatoriais) que se mostra muito adequado para amostras maiores de 350 sujeitos (HAIR Jr. et al ., 2005). O resultado da análise está na tabela 6, após eliminação das assertivas 8, 15, 17 e 40 por não apresentarem cargas fatoriais significativas. As assertivas 37 e 43 permaneceram isoladas, não fazendo parte de nenhum agrupamento; por isso também foram eliminadas. Cabe assinalar que os nomes dos fatores foram definidos em função das categorias da tabela 3.
Também buscou-se descobrir quais variáveis que, se removidas, poderiam aumentar a consistência interna do instrumento. Nesse sentido, no caso do 5° fator, eliminando a assertiva 38, o valor do alfa passa para 0,683. Dessa forma, a variável 38 foi eliminada. No fator 9, eliminando a assertiva 24, o alfa assume o valor de 0,739. Assim, a variável 24 também foi eliminada. O fator 8, apesar do valor do Alfa de Cronbach baixo foi mantido pois apresenta conexão teórica entre as assertivas. Já o fator 10 foi eliminado da análise, uma vez que as suas duas assertivas não apresentam ideias para representar o fator. Após eliminação das variáveis sem representatividade, foi verificado que os resultados em nada diferem de análises feitas anteriormente (etapas iniciais da pesquisa). De maneira geral, o público-alvo de todas as etapas apresentam concepções parecidas.
A tabela 6 também mostra a média e o desvio padrão para cada constructo. Foram utilizados os valores das cargas fatoriais das assertivas como peso para os cálculos. Assim, o fator com o mais alto grau de concordância é o fator 3. Ou seja,
os sujeitos concordam fortemente que é imprescindível a utilização de recursos alternativos que possibilitem ao cego entender fenômenos essencialmente visuais. Expressaram também boa concordância com os fatores 2, 4, 6 e 8, sinalizando que a única limitação para a aprendizagem de conceitos científicos por parte do cego é aquela imposta pela sociedade (tal sujeito deve superar mais dificuldades do que os videntes para se tornar um cientista). Por outro lado, os dados apontam que mesmo não enxergando, os respondentes julgam que o cego pode se tornar cientista como qualquer outra pessoa. Finalmente, os sujeitos rechaçam veementemente a impossibilidade de um indivíduo cego tornar-se um cientista (fator 1 = 1,89). Nos fatores 5, 7 e 9 percebe-se polarização dentro do grupo: parte dos respondentes julga que a falta da visão não afeta sua aprendizagem e que estes indivíduos possuem raciocínio mais rápido e podem, inclusive, desenvolver ideias diferentes das convencionais e outra parte acredita que isto não seja verdade.
Tabela 6 - Análise fatorial. Fonte: SPSS 20.
## Considerações finais
Todas as etapas da investigação (análise qualitativa de conteúdo, análise estatística textual e análise fatorial) tiveram resultados convergentes. Isso confirma a confiabilidade dos resultados e destaca que grande parcela dos investigados considera fundamental a utilização de recursos de apoio e metodologias diferenciadas para atender as necessidades educacionais do indivíduo cego. Outro ponto importante que os investigados também atestam é que a sociedade/meio venha exercer papel mediador na formação básica e científica desses sujeitos. Tal colocação vem ao encontro do discurso da educação inclusiva, que apregoa que todos os indivíduos e setores da sociedade devem ser responsáveis pelo processo de inclusão, exercendo cada um o seu papel no ensino, seja de ciências ou de qualquer outra disciplina curricular, para indivíduos com ou sem cegueira. Nesse sentido, é importante colocar que, considerando as dificuldades elementares que o desafio da educação inclusiva impõe para alunos cegos, é fundamental que sejam adotadas metodologias alternativas, auxiliadas por recursos didáticos com características multissensoriais. Por fim, cabe destacar que os resultados da investigação já estão sendo utilizados como ponto de partida para desenvolvimento de atividades de ensino, fundamentados em ações metodológicas e práticas inclusivas, que se encontram em processo de aplicação e análise. Assim, novos desdobramentos da pesquisa voltarão a ser apresentados em outra oportunidade.
## Referências
BARDIN, L. Análise de Conteúdo . Trad.: Reto, L. A. e Pinheiro, A. 3a. Edição. Edições 70, Lisboa, Portugal. 2004.
HAIR, J. F., ANDERSON, R. E.; TATHAM, R. L.; BLACK, W. C. Análise multivariada de dados . Porto Alegre: Bookman, 2005.
LEONTIEV, A.N. Uma contribuição à teoria do desenvolvimento da psique infantil. In: VIGOTSKI, L. S., LURIA, A. R., LEONTIEV, A. N. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem . São Paulo: Cortez Editora, 1988.
PEREIRA, J.C.R. Análise de dados qualitativos : estratégias metodológicas para as ciências da saúde, humanas e sociais. 3ed. São Paulo: EDUSP, 2004.
VERASZTO, E.V.; CAMARGO, J.T.F.; CAMARGO, E.P. Trabalho científico por cegos congênitos: análise das respostas de licenciandos em cursos da área de ciências da natureza. In: Anais , XVI EPEF, Natal-RN, 2016ª. p. 1-9.
VERASZTO, E.V.; CAMARGO, E.P.; CAMARGO, J.T.F. A visão como requisito para conhecimento de fenômenos físicos: um estudo da opinião de licenciandos. In: Anais , XVI EPEF, Natal-RN, 2016b. p. 1-8.
VERASZTO, E.V.; CAMARGO, E.P.; CAMARGO, J.T.F. A percepção de licenciandos na área de Ciências da Natureza acerca da compreensão do conceito de luz por cegos congênitos. In: Anais , XVI EPEF, Natal-RN. 2016c. p.1-9.
VERASZTO, E.V.; YAMAGUTI, M.X.; CAMARGO, J.T.F.; CAMARGO, E.P.; BAIAO, E.R.; SIMON, F.O. Análise das concepções de professores e alunos do Ensino Médio sobre a formação de conceitos físicos em indivíduos cegos. In: Anais : XXII SNEF 2017, São CarlosSP. 2017a. v.1. p.1-8.
VERASZTO, E.V.; YAMAGUTI, M.X.; BAIAO, E.R.; CAMARGO, E.P.; CAMARGO, J.T.F.; SIMON, F.O. Estudo com professores e alunos do Ensino Médio acerca da conceitualização em Física por indivíduos cegos congênitos. In: Anais : XXII SNEF 2017, São Carlos-SP. 2017b. v.1. p.1-8.
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