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Multiculturalismo na educação básica: uma análise da astronomia cultural nos livros didáticos de física aprovados no PNLD 2018

Érica De Oliveira, Cristina Leite

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XVII
Ano
2018
Data
28/08/2018
Linha de pesquisa
Po-3 Livro Didático / Projetos
Tipo
Pôster

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Texto completo

## MULTICULTURALISMO NA EDUCAÇÃO BÁSICA: UMA ANÁLISE DA ASTRONOMIA CULTURAL NOS LIVROS DIDÁTICOS DE FÍSICA APROVADOS NO PNLD 2018

## MULTICULTURALISM IN BASIC EDUCATION: AN ANALYSIS OF CULTURAL ASTRONOMY IN DIDATIC BOOKS OF PHYSICS APPROVED IN PLND 2018

Érica de Oliveira , Cristina Leite 1 2

1 Universidade de São Paulo/Instituto de Física/erica2.oliveira@usp.br

2 Universidade de São Paulo/Instituto de Física/crismilk@if.usp.br

## Resumo

A escola é um espaço construído por meio de processos históricos, sociais e culturais e, por esta razão, é um ambiente que abrange uma gama de manifestações e saberes culturais que devem ser valorizados em forma de diálogo e respeito. É dentro da seleção de saberes que são veiculados na escola e a partir do referencial do multiculturalismo crítico proposto por Candau (2013) que realizamos esta pesquisa por meio do mapeamento da forma como a astronomia cultural é apresentada em livros didáticos brasileiros. A análise foi realizada nos livros de Física aprovados no Programa Nacional do Livro Didático de 2018. Ao todo, onze coleções foram analisadas em busca tanto da apresentação quanto da forma como são valorizadas as diversas produções do conhecimento em distintas culturas relacionadas à temática da astronomia. A partir do multiculturalismo crítico (CANDAU, 2013) e da leitura dos LD construiu-se duas grandes categorias de análise: 'Monocultural' e 'Menos valorizados socialmente'. A maioria das coleções (73%) aborda apenas os conteúdos da chamada cultura 'clássica', 'dominante' ou 'europeia ocidental'. Os conteúdos produzidos pelos grupos desvalorizados socialmente são apresentados em apenas 9% dos livros, mesmo assim, de forma reducionista. Os livros não parecem apresentar o caráter multicultural defendido por Candau (2013). A temática da astronomia, quando apresentado pelo olhar de diversas culturas, é apresentada em forma de 'crendice' e não como um conhecimento que deve ser valorizado. Com os resultados da análise dos materiais, percebe-se que a temática ainda é muito pouco explorada no contexto escolar, fazendo-nos concluir que o pouco que se chega a escola, não traz uma tomada de consciência acerca das relações de poder que influenciam nas escolhas políticas e éticas que envolvem a chegada destes conhecimentos dentro da escola.

Palavras-chave : Multiculturalismo; Astronomia; Livro didático; Indígena.

## Abstract

The school is a space built through historical, social and cultural processes and, for this reason, it is an environment that encompasses a range of manifestations and cultural knowledges that should be valued in the form of dialogue and respect. It is within the selection of knowledge that is transmitted in school and from the framework of critical multiculturalism proposed by Candau (2013) that we carry out

this research by mapping the way cultural astronomy is presented in Brazilian textbooks. The analysis was carried out in the Physics books approved in the National Program of the Didactic Book of 2018. In all, eleven collections were analyzed in search of both the presentation and the way in which the diverse productions of knowledge in different cultures related to the astronomy theme are valued. From the critical multiculturalism (CANDAU, 2013) and from the reading of the DB was constructed two categories of analysis: "Monocultural" and "Less valued socially". Most collections (73%) deal only with the contents of so-called "classical", "dominant" or "Western European" culture. The contents produced by the socially devalued groups are presented in only 9% of the books, even so, in a reductionist way. The books do not seem to present the multicultural character defined by Candau (2013). The theme of astronomy, when presented by the perspective of different cultures, is presented in form of "belief" and not as a knowledge that must be valued. With the results of the analysis of the materials, we can see that the theme is still very little explored in the school context, making us conclude that the little that arrives at school, does not bring about an awareness of the power relations that influence in the political and ethical choices that involve the arrival of this knowledge within the school.

Keywords : Multicultiralism; Astronomy; Didactic book; Indigenous.

## Introdução

A escola apresenta um papel central na sociedade como sendo uma instituição de cruzamento de culturas. Por sua vez, pelo fato de ser construída histórica e socialmente, a escola possui uma função social fundamental, que é a de transmitir, oferecer e receber cultura e, por essa razão, escola e cultura estão fortemente entrelaçados (MOREIRA; CANDAU, 2003).

Essa intersecção profunda entre escola e cultura proposta por Moreira e Candau (2003) considera que haja um 'arco-íris de culturas', ou seja, é necessário que as instituições valorizem e levem em conta as belezas das diferenças culturais no contexto escolar. Essa concepção de valorização da pluralidade cultural, ressalta a proposta de Freire (2015) sobre a reconhecimento de todas as culturas. Em suas obras, Freire nos mostra que todas as culturas devem ser consideradas e que cada ser humano se desenvolve (liberta-se) dentro de sua compreensão de mundo. Ou seja, não podemos nos limitar apenas a compreensão e análise de mundo por meio de uma só cultura, mas sim pelas diversas interpretações culturais. Nicodem (2015) ao analisar o conceito de cultura nas obras de Paulo Freire, apresenta a partir do conceito 'antropológico de cultura', não uma cultura, mas 'culturas', defendendo então a ideia de que não existe distinção entre a cultura popular e a erudita, tornando a cultura, o resultado de toda criação humana.

Desta forma, acreditamos que valorizar a pluralidade cultural no contexto escolar é ir contra qualquer prática etnocêntrica, racista ou xenofóbica, que desrespeita os grupos minoritários, fazendo da escola, uma instituição mais democrática e que valoriza os saberes produzidos por todos que atuam no mundo.

Como salienta Candau (2013), a escola apresenta dificuldades em lidar com a pluralidade e a diferença. A autora afirma que o caráter monocultural e homogeneizador da escola cresce fortemente, da mesma maneira como a consciência da necessidade de se romper com esses ideais, construindo então, processos educativos no qual o caráter multicultural esteja presente. Com isso, a presença do multiculturalismo torna-se essencial na escola para que possamos unir

as diferenças culturais a práticas pedagógicas, promovendo àqueles que a frequentam, um lugar condizente com o mundo em que vivem.

'(...) não é possível conceber uma experiência pedagógica 'desculturalizada', isto é, desvinculada totalmente das questões culturais da sociedade. Existe uma relação intrínseca entre educação e cultura(s). ' (CANDAU, 2013, p.13).

Todavia, para que haja um ensino multicultural é necessária uma postura crítica do educador perante as relações de conflito presentes no contexto escolar. Por isso, é importante que o educador promova um diálogo entre os diversos grupos sociais e culturais de reconhecimento do 'outro', sem esconder as críticas presentes nos processos de dominação cultural, estimulando aos alunos, colocar-se no lugar/posição do outro pois, somente desta forma, seremos capazes de promover propostas didáticas e mudanças reais no currículo de forma a valorizar essencialmente a diversidade. Como ressalta Forquin (2000), 'um ensino pode estar endereçado a um público culturalmente plural sem ser, ele mesmo, multicultural. Ele só se torna multicultural quando desenvolve certas escolhas pedagógicas que são, ao mesmo tempo, escolhas éticas ou políticas'.

Com isso, acreditamos que a multiculturalismo deve permear todo o currículo e estar presente em diversas áreas do conhecimento, inclusive o das ciências naturais, tornando a astronomia cultural um tema importante a ser explorado no âmbito escolar. O estudo da astronomia cultural entrelaça várias áreas do conhecimento, enriquecendo a compreensão das diferentes relações entre o ser humano e o cosmos, integrada as manifestações sociais e culturais atreladas ao desenvolvimento de um determinado grupo. (JAFELICE, 2010).

## Metodologia

Com o propósito de se obter um panorama acerca de como as múltiplas abordagens que envolvam Astronomia e Cultura vem sendo expostas nos livros didáticos de Física, realizou-se uma análise dos materiais aprovados no Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) de 2018. Essa análise nos auxiliará a compreender de que forma e qual a frequência que o tema da astronomia cultural vem sendo levado para as escolas, uma vez que, o livro didático adquire múltiplos papéis, que vão desde uma mercadoria como simples objeto de indústria, mas também, como um importante meio portador de um sistema de valores, ideologia, relações de poder e, por fim, uma cultura (BITTENCOURT, 2003). A autora também ressalta que o livro didático tem sido o principal instrumento de trabalho utilizado por professores e alunos e, portanto, acreditamos que seja de grande importância considerar como a diversidade se apresenta dentro da discussão de astronomia neste tipo de material, para se compreender como o tema vem sendo explorado no contexto escolar.

Os preceitos de análise utilizados têm como base a análise textual discursiva qualitativa (MORAES, 1999). De maneira ampla, esta metodologia envolve ler em detalhes e interpretar uma classe de documentos, bem como, buscar as intenções do material de análise, criação de categorias, descrição e interpretação dos resultados.

As obras consideradas resumem-se em coleções compostas por três livros cada uma. Todas as coleções possuem em seu sumário ao menos um capítulo dedicado a conteúdos de astronomia. Algumas destas, apresentam grandes unidades para explorar o tema, envolvendo muitas vezes a história da astronomia,

viés artístico como, por exemplo, obras de arte e o desenvolvimento do trabalho científico. Vale ressaltar que os livros foram explorados e analisados em sua totalidade, considerando-se toda a parte textual, de imagens, exercícios propostos e resolvidos, boxes e manual do professor. Além da análise dos capítulos ou unidades relacionadas exclusivamente para a área da astronomia, exploramos também as unidades que abordam temas como a origem do universo e a construção do conhecimento científico, uma vez que, como percebido durante a análise, há elementos de diversas culturas que são importantes para compor a análise das obras como um todo.

Os livros aprovados no PNLD de 2018 que compõem a amostra, encontra-se abaixo na tabela 01.

Tabela 01 : Catálogo de livros - PNLD 2018

*A Coleção de número 7 ainda não foi analisada e, por isso, não entra nesta amostra.

Na tentativa de mapear como a temática da diversidade na perspectiva intercultural -ou multiculturalismo crítico (CANDAU, 2013) - está presente e

valorizada nos livros didáticos de física aprovados no PNLD 2018, analisamos 11 coleções em busca das diversas produções do conhecimento em múltiplas culturas como, por exemplo, a astronomia maia, grega, indígena e outras. Por esta razão, os livros foram explorados por meio de duas categorias de análise. São elas: 'Monocultural' e 'Menos valorizados socialmente', ambas são termos nominados a partir de Candau (2013).

A primeira delas engloba tudo de Astronomia que é exposto do conhecimento produzido pela cultura dominante, sendo ela, a ciência ocidental composta por grandes gênios - 'donos do conhecimento científico'. Ainda dentro desta perspectiva, fez-se uma subdivisão para aqueles livros que não apresentam nada em seus conteúdos com relação ao desenvolvimento astronômico realizado por aspectos históricos e culturais. Por último, a segunda categoria inclui todos os grupos que são socialmente desvalorizados por seus conhecimentos acerca da ciência, sendo eles os indígenas, árabes, maias e outros.

Um olhar mais específico foi dado aos elementos culturais indígenas, em função da valorização da cultura local no qual ressaltamos temáticas da astronomia relacionadas especificamente as culturas indígenas presentes nos livros didáticos.

A escolha por aprofundarmos nos elementos que constituem esses conhecimentos se deu, visto que, pela Lei Federal nº 11.654, vigorada desde março de 2008, é obrigatório o estudo de história e cultura afro-brasileira e indígena em todas as instituições no ensino fundamental e médio e, uma vez que defendemos a proposta de uma educação multicultural, de troca de conhecimentos e diálogo entre culturas, a escola deve reconhecer essas sociedades indígenas em escala histórica, social e cultural, superando a invisibilidade que essa população adquire até o presente (BERGAMASCHI & GOMES, 2012).

## Resultados

Por meio da análise textual discursiva, os livros foram analisados em detalhes, envolvendo textos, imagens, exercícios e manual do professor e, por meio das denominações de Candau (2013), criou-se as categorias de análise do material e, com isso, pudemos traçar as maneiras como os conteúdos de Astronomia são apresentados nos livros.

Com o intuito de traçar as características gerais dos materiais em busca da diversidade cultural presente na temática da astronomia, percebemos por meio de uma análise inicial, certa constância em relação aos temas abordados dentro dos capítulos/setores que abordam a temática. A maioria dos livros resume o estudo da astronomia em 'Leis de Kepler' e 'Lei da Gravitação Universal', com suas respectivas fórmulas e breves explicações. Outras coleções, além de apresentarem estes conteúdos, trazem os elementos de astronomia por meio da história da ciência. Todavia, como na maioria dos livros didáticos de Física ou Ciências, encontramos uma abordagem histórica de forma problemática, pois é composta exclusivamente por datas, de modo factual e construída por grandes gênios. Essa exposição da história da ciência acarreta numa desvalorização de outras culturas e um desentendimento profundo de como a ciência é construída, provocando idealizações exageradas acerca de seu desenvolvimento (MARTINS, 1990).

Foi possível perceber também que alguns temas são mais propícios a ter um viés cultural como, por exemplo, algumas coleções apresentam em seus capítulos

iniciais, as primeiras visões de mundo, origem do universo e construção do método científico, onde apresentam elementos/olhares de outras culturas.

Com essa primeira análise, em busca de elementos que exploram a diversidade presente nos livros por meio das duas categorias citadas, temos os resultados descritos a seguir. É importante ressaltar que alguns livros podem se encontrar em mais de uma das categorias especificadas.

- -'Monocultural' : Nesta categoria, agrupam-se cerca de 73% das coleções analisadas, sendo elas: 1,2,3,4,6 ,8,9 e 11. Todas estas coleções apresentam o 1 conhecimento astronômico produzido pelos viés histórico-cultural dos cientistas precursores da ciência europeia ocidental.

Dentro desta perspectiva, também classificamos um outro grupo de livros que não apresentam nenhum viés cultural na abordagem da astronomia, mas sim, fórmulas e matematização dos conteúdos pertencentes ao grupo da ciência ocidental. Nesta categoria, encontram-se as coleções 5, 6¹, 10 e 12, o equivalente a aproximadamente 36%. A coleção 'Física - Contexto e Aplicações' - coleção de número 6 - por exemplo, não faz nenhuma contextualização histórica, social ou cultural sobre qualquer elemento relacionado a conhecimento astronômico. Em sua abordagem, não há elementos históricos nem sobre as culturas dominantes, que são encontrados na maior parte dos livros. O conteúdo é regido por tabelas e fórmulas somente.

- -'Menos valorizados socialmente' : Somente três coleções se encaixam nesta perspectiva. Aqui, encontram-se os livros que, de alguma forma, trazem elementos das culturas menos viabilizadas dentro do contexto social e científico. Como dito anteriormente, nesta classificação se encontram os conhecimentos árabes, indígenas, maias, entre outros. É importante ressaltar que, mesmo que alguns livros se agrupem nesta categoria, todos somente citam o conhecimento de outra cultura para o desenvolvimento e construção do conhecimento, o que torna o assunto pouquíssimo explorado e sem nenhuma profundidade e significado.
- O conhecimento árabe, por exemplo, só é encontrado na coleção 2. Nesta coleção, especificamente, uma parte do primeiro capítulo do livro 1, é dedicado ao método científico. O que nos chama a atenção é que, apesar dos autores apresentarem este tópico com a explicação do termo 'epistemologia' e o início das formas de se pensar em Ciência por meio do mundo islâmico, trazendo no texto, o nome de três cientistas árabes e suas contribuições para este estudo, não há nenhum debate, atividade ou orientação no caderno do professor que promova a valorização deste conhecimento, do quanto o conhecimento desta cultura não é viabilizado mundialmente e as relações de poder para que esse preconceito e desvalorização da cultura árabe ocorra.

Ao tratarmos dos conteúdos indígenas presentes nos livros, a temática só se encontra em 9% das coleções, - 2, 4 e 8 - que, por sua vez, apresentam estes conteúdos em três seções dos livros: Interpretação do céu (2-8), Origem do Universo (2-8) e Constelações (4). Nestes livros, os autores incluem o conhecimento desenvolvido por essa cultura, muitas vezes envolvendo exercícios ou como forma de pesquisa nas tarefas de casa, de outras concepções indígenas e suas relações com o céu.

Porém, mais uma vez, nos deparamos com a problemática de como as culturas menos viabilizadas são apresentadas como pretexto do que de fato como um conhecimento importante a ser valorizado. A começar que em todos os livros, todo o conhecimento relacionado ás etnias indígenas estão como 'box' e não como parte dos textos. Em seguida, verificou-se que a maior parte das atividades que estão relacionadas à este viés, não fazem nenhum diálogo às condições de respeito e igualdade e a hierarquização presentes desse tipo de conhecimento.

A coleção 4, por exemplo, apresenta, em um de seus livros, a imagem da constelação da Ema - relacionada a cultura indígena - porém, nenhuma menção ou explicação da imagem é feita ao longo do texto. Para além desta problemática, a legenda desta imagem (á seguir) traz a ideia de que a ciência moderna (dominante) é mais correta e tratando como 'crendice' as outras concepções de mundo.

'Ao perscrutar o céu, nossos antepassados foram reconhecendo e nomeando as constelações. Hoje, com os recursos que dispomos, podemos 'recriar' as configurações do céu de qualquer época da nossa história ou até mesmo antes dela. ' (YAMAMOTO; FUKE. 2016, p.236)

É importante salientar que, por mais que o livro apresente conteúdos sobre os conhecimentos produzidos por diversas culturas, ele em si, não pode ser classificado como multicultural dentro da perspectiva do multiculturalismo crítico proposto por Candau (2013). Essa dimensão do multiculturalismo exige que haja uma valorização das identidades culturais que estão em contínuo processo de construção e reconstrução. Ademais, salienta que é indispensável que essa valorização se mostre por meio da consciência da existência das questões de poder, hierarquização e preconceitos de determinados grupos. Ou seja, tratar de perspectivas culturais nos livros, exige muito mais do que somente expor o conhecimento produzido de uma dada cultura.

Dentro da perspectiva do conhecimento indígena, por exemplo, por mais que alguns livros apresentem elementos desta cultura dentro das concepções científicas, a maioria de seus conteúdos está veiculado a uma imagem de 'crendice' ou 'antepassado' com relação ao conhecimento produzido por esta cultura. Como apontam Bergamaschi e Gomes (2012):

Essa visão deformada dos indígenas se perpetua justamente pelo fato da nossa história ser contada até hoje a partir da visão do colonizador, sem dar oportunidade para que os diferentes povos apresentem a sua visão em relação a si mesmo (...)

## Algumas considerações

Essa análise nos indica que esses livros escolares ainda não trazem à tona as perspectivas multiculturais que criticam e apresentam o mundo em que vivem, mesmo com leis e decretos que obrigam a presença destes conteúdos no âmbito escolar. Ou seja, o conteúdo apresentado no livro didático ainda retrata uma ciência produzida por pessoas privilegiadas, sem questionar os interesses políticos, econômicos e ideológicos e desvinculado dos contextos socioculturais e históricos (NETO; FRACALANZA, 2003), impactando diretamente naquilo que se é explorado nas salas de aula.

Por meio da análise, percebemos que os livros que apresentam uma perspectiva multicultural (27% da amostra), se encaixam numa dimensão assimilacionista (CANDAU, 2013), onde busca-se integrar os grupos discriminados

socialmente à cultura hegemônica, porém, sem que se coloque em questão a dinâmica social e o caráter homogeneizador da sociedade.

'Essa posição defende o projeto de afirmar uma 'cultura comum', a cultura hegemônica, e, em nome dele, deslegitima dialetos, saberes, línguas, crenças, valores 'diferentes', pertencentes aos grupos subordinados, considerados inferiores, explícita ou implicitamente. ' (CANDAU, 2013)

Ou seja, esses livros reconhecem a existência das múltiplas produções do conhecimento, mas não existe uma conscientização acerca da valorização desses conhecimentos produzidos. Para além disto, mostram as produções dos grupos menos valorizados socialmente como ultrapassados ou em forma de crendices, como se a ciência ocidental produzisse a 'verdadeira ciência'. Com isso, faz-se urgente a viabilização dos diálogos culturais nas escolas, pois a integração de diferentes grupos que apresentam uma gama de saberes e práticas distintas evitam que a escola reproduza os mesmos conhecimentos clássicos da cultura hegemônica. Com o multiculturalismo fora da escola, distanciamos ainda mais a formação de educandos para compreender e agir democraticamente para e com o mundo.

## Referências

BITTENCOURT, C. Livros didáticos entre textos e imagens. In: BITTENCOURT, C. (Org.). O saber histórico na sala de aula . 8 ed. São Paulo. 2003, p. 69-90.

BERGAMASCHI, M.A.; GOMES, L.B.A. A temática indígena na escola: ensaios de educação intercultural. Currículo sem fronteiras . v.12, n.1, 2012, p.53-69.

CANDAU, V. M. Multiculturalismo e Educação: desafios para a prática pedagógica. In: MOREIRA, A.F.; CANDAU, V. M. (Orgs.). Multiculturalismo: diferenças culturais e práticas pedagógicas . Petrópolis, RJ: Vozes, 2013, p.13-37.

FORQUIN, J.C. 'O currículo entre o relativismo e o universalismo '. Educação e Sociedade , vol.21, n.13, 2000.

FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido . 59 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2015.

JAFELICE, L.C. Abordagem antropológica: educação ambiental e astronômica desde uma perspectiva intercultural. In: JAFELICE, L.C. (Org.). Astronomia, educação e cultura: abordagens transdisciplinares para os vários níveis de ensino . Natal, RN: EDUFRN - Editora da UFRN, 2010. p.213-263.

MARTINS, R.A. Sobre o papel da história da ciência no ensino. Boletim da Sociedade Brasileira de História da Ciência. 1990, p. 3-5.

MORAES, Roque. Análise de conteúdo. Revista Educação , Porto Alegre, v. 22, n. 37, 1999, p.7-32.

MOREIRA, A. F. B.; CANDAU, V. M. Educação escolar e cultura (s): construindo caminhos. Revista Brasileira de Educação. Rio de Janeiro, n. 23, 2003, p.156-168, mai./ago.

NETO, J. M.; FRACALANZA, H. O livro didático de Ciências: problemas e soluções. Ciência & Educação. v.9, n.2 , 2003, p.147-157.

NICODEM, M. F. M. A inserção de Paulo Freire nos estudos culturais: O conceito de cultura na Pedagogia do Oprimido, da Esperança e da Autonomia. Revista Eletrônica Científica Inovação e Tecnologia . Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Paraná, v.01, n.11, 2015, p. 23-33.

YAMAMOTO, K.; FUKE, L.F. Física para o Ensino Médio. 4ª ed. Volume 1. São Paulo. Saraiva, 2016.

Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.