AS REPRESENTAÇÕES DE CIENTISTA NAS QUESTÕES DE FÍSICA DO ENEM
Viviana Da Cruz Vicente, Gustavo Isaac Killner
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVII
- Ano
- 2018
- Data
- 30/08/2018
- Linha de pesquisa
- Co-25 Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física / Ciência, Tecnologia, Sociedade E Ambiente No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## AS REPRESENTAÇÕES DE CIENTISTA NAS QUESTÕES DE FÍSICA DO ENEM
## THE REPRESENTATIONS OF SCIENTISTS IN THE PHYSICS QUESTIONS OF ENEM
## Viviana da Cruz Vicente , Gustavo Isaac Killner 1 2
1 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo/Mestranda em Ensino de Ciências e Matemática/vivianavic@gmail.com
2 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo/Professor Doutor/ gustavoik@ifsp.edu.br
## Resumo
O presente estudo, caracterizado por uma pesquisa documental e também bibliográfica (GIL, 2008, p. 51), objetivou investigar as representações de cientistas nas questões de Física do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). A partir da leitura dos enunciados, foram selecionados trechos que mencionavam cientistas. Apoiando-se na técnica da análise discursiva de Fiorin (2016), os dados foram sistematizados conforme os gêneros encontrados possibilitando, assim, a criação de três categorias emergentes distintas: masculina, feminina e indeterminada. Baseando-se nestas, identificou-se uma representação de gênero binária apoiada em um modelo linguístico androcêntrico que invisibiliza a contribuição de mulheres e outras identidades de gênero. Pensando nos modos de subjetivação do sujeito, tais elementos reforçam a narrativa de uma Ciência masculinizada que ignora os feitos das mulheres no desenvolvimento da Física, podendo cooperar para o afastamento delas desse campo do conhecimento. Por meio deste estudo, fundamentado também nas ideias de Schiebinger (2011), Forato (2009), Pietrocola e Martins (2006), esperamos denunciar a concepção heteronormativa de Ciência presente em documentos oficiais e incentivar o desenvolvimento de pesquisas que incorporem os feitos femininos na elaboração de avaliações e materiais didáticos de Física.
Palavras-chave : Ensino de Física, História da Ciência, Gênero e ENEM.
## Abstract
The present study, characterized by documentary and bibliographic research (GIL, 2008, p.51), aimed to investigate the representations of scientist into the questions about Physic of ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio). Starting from a read of the statements, were selected clippings that mentioned scientist. Taking support in methodological described by Fiorin (2016), the date was systematized according to the gender encountered, making possible, thus, the creation of three distinct emerging categories: masculine, feminine and undetermined. On the bases of this, was identified a binary representation underpinned in the linguistic androcentric model that made invisible the women contribution and others gender identity. Thinking in the manner of western subject, this elements reinforcing a narrative of masculinized science which ignore feat of their in the development of Physic, cooperating, in this way, for feminine absence in this area of knowledge. By means of this study, reasoned in the written of Schiebinger (2011), Forato, Pietrocola
e Martins (2006), we hope to stimulate the development of research that incorporate some historic female contributions in the production of evaluation and didactic materials.
Keywords : Teaching Physics, History of Science, Gender and ENEM.
## Introdução
As pesquisas relacionadas ao ensino de física, cada vez mais apontam a relevância de discussões que incorporem a História e Filosofia da Ciência (HFC) no cotidiano da sala de aula. De acordo com Pietrocola (2003), quando pensada de maneira adequada, a história concernente ao mundo científico se torna um importante recurso para a melhoria do aprendizado.
Entre as razões para a inserção da HFC, Matthews (1995), Hottecke e Silva (2011), destacam a humanização do conteúdo ensinado, a ajuda na compreensão dos conceitos científicos, o realce dado ao valor cultural da ciência, a ênfase atribuída ao caráter mutável do conhecimento científico e o melhor entendimento do método científico.
Apesar dos aspectos positivos descritos anteriormente quanto à inclusão da HFC no ensino, a abordagem de tais assuntos no contexto da sala de aula também pode se apresentar como perigosa. De acordo com Martins (2006, p. 21):
(...) os livros científicos didáticos enfatizam os resultados aos quais a ciência chegou - as teorias e os conceitos que aceitamos, as técnicas de análise que utilizamos- mas não costumam apresentar outros aspectos da ciência.
Entre estes elementos da ciência não valorizados pelos livros didáticos, temos os assuntos relativos à participação feminina no desenvolvimento da Física. Assim como nos livros, as avaliações externas, que atingem milhões de crianças e jovens em idade escolar também poderiam apresentar indícios de uma ciência masculinizada que apaga da história os legados femininos.
Embora a invisibilidade feminina nos assuntos que tangem as áreas científicas seja uma realidade, isto não significa que elas nunca contribuíram para o desenvolvimento da ciência. Schiebinger (2011, p. 64) salientou que, na época da Revolução Científica, as mulheres se envolviam em atividades associadas às Ciências Naturais: 'damas observavam os céus através de telescópios, inspecionando a lua e as estrelas'.
O protagonismo feminino nas áreas de cunho científico não se restringiu as observações realizadas na época da revolução supracitada. Na História da Ciência temos algumas personagens que se destacaram, como a física polonesa Madame Curie (1867-1934) que recebeu o Nobel de Física e também Química, Lise Meitner (1878-1968) descobridora da Fissão Nuclear e Maria Mayer (1906-1972) física que ganhou o prêmio Nobel por pesquisas sobre a estrutura do átomo, entre outras.
No Brasil, conforme Forato (2009), a necessidade da inclusão de aspectos históricos nas aulas de Ciências foi apontada desde o começo do século XX. Na década de 90, a inserção da HFC ocorreu nos Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 2000).
Desta forma, essas narrativas construídas a partir de um modelo androcêntrico de desenvolvimento científico que permeia os livros didáticos, podem ser estendidas a outros recursos pedagógicos como, por exemplo, às avaliações externas. Sendo assim, atendo-se ao ENEM, realizou-se uma pesquisa objetivando investigar as representações de cientistas presentes nas questões de Física de tal avaliação e também resgatar assuntos vinculados à história das mulheres nas ciências.
## Fundamentação Teórica
O conceito relacional de gênero, sugerido por Scott (1995), possibilita a percepção de como o gênero compõe as relações sociais na ciência e como as relações de poder se estabeleceram entre homens e mulheres para a produção científica. Desta forma, dar visibilidade aos homens nos assuntos relativos às ciências, excluindo as mulheres das contribuições científicas, foi uma forma de salientar a soberania masculina no campo científico.
Entre outras causas para o apagamento feminino, Silva (2002) destaca aspectos vinculados com a construção de uma história distorcida. Assim, segundo o autor, as narrativas contadas sobre a ciência evidenciavam as ações masculinas e não as femininas.
De acordo com Lopes e Sousa et al (2004), no cenário internacional e nacional, muitos estudos relacionados à historiografia das ciências forçam o falso mito de que a ciência é uma espaço exclusivamente masculino. Ainda que de fato aconteça a disseminação de tais mitos, a presença das mulheres nas atividades científicas não é algo recente. O acesso delas nas áreas ditas científicas foi possibilitado pela aproximação que tinham com os homens da família, sendo eles pais, irmãos e maridos, entre outros.
No século XVIII, além de se dedicarem às observações de astros e análise de plantas, as oficinas artesanais também proporcionavam o acesso aos conhecimentos científicos. De acordo com Schibierger (2001, p.61): 'na oficina a contribuição das mulheres (como a dos homens) dependia menos de conhecimento livresco e mais de inovações práticas em ilustração, cálculo ou observação'.
Com a institucionalização de um modo de produção da atividade científica, no século XIX, houve a migração dos laboratórios localizados nos domicílios para as universidades e as mulheres, confinadas aos lares e a trabalhos pouco valorizados, foram impedidas de prosseguir com pesquisas científicas. Assim, até o inicio da década de vinte, apenas aos homens era permitido atuar nas ciências.
Contudo, no século XX, a partir das lutas que reivindicavam a igualdade de direitos entre homens e mulheres, o acesso à educação científica e a inserção em algumas carreiras, foi conquistado pelas mulheres. Na época mencionada, a ciência tornou-se alvo de várias críticas alicerçadas nos pensamentos de teóricos tais como Karl Popper, Gaston Bachelard e Bordieu, entre outros. As feministas, além dos questionamentos referentes à naturalização de papéis sociais que promoveram, também se manifestaram em relação aos elementos associados com a história da ciência.
Na concepção de Haraway (1989), feminista que emprega os métodos de investigação dos estudos culturais às ciências, não existe uma história da ciência, mas sim diversas histórias que deveriam ser analisadas do ponto de vista da
construção do conhecimento científico. De acordo com ela, em muitos momentos, para favorecer certos interesses sociais, econômicos ou políticos, se contam determinadas histórias e não outras.
Leta (2003, p.271) menciona que 'a primeira obra mais detalhada sobre a participação e realização de mulheres na ciência foi Women in Science , escrita, em 1913, por H. J. Mozans, um padre católico'. Baseando-se nesta, as literaturas que diziam respeito a gênero e Ciência aumentaram progressivamente, adquirindo notoriedade no meio acadêmico a partir da década de 80.
## ENEM
Criado em 1998, o ENEM consistia em uma avaliação individual, para a qual as pessoas se candidatavam de maneira voluntária. O objetivo do exame era possibilitar uma referência para auto-avaliação a partir das competências e habilidades que o estruturavam (BRASIL, 2008, p.14).
De acordo com o Documento Básico inicial do ENEM, a intenção era avaliar o desempenho da pessoa participante e, também, mensurar o desenvolvimento das competências fundamentais ao exercício pleno da cidadania (MEC/INEP, 1998, p.5).
No ano de 2009, com a reformulação, o exame começou a ser empregado como forma de acesso ao Ensino Superior das Instituições Federais. A inscrição nessas passou a ocorrer por meio de um cadastro realizado numa plataforma virtual denominada SiSU (Sistema de Seleção Unificada). Deste modo, o ENEM teve mudanças significativas, envolvendo desde o aumento da quantidade de questões (de 63 para 180 itens), enfoque destas e o tempo para realização da prova.
Adicionalmente às pessoas que participam dos dias de prova do ENEM, tantas outras dedicam parte do tempo na resolução de questões por meio de cadernos de anos anteriores. Docentes, por diversos motivos, também fazem uso das questões contidas no exame inclusive para preparar provas. Assim sendo, o exame é um bom instrumento para disseminar ideologias de forma direta para uma população de mais de dez milhões de pessoas por ano, entre discentes e docentes.
Por conseguinte, com a finalidade de delinear quais foram os gêneros envolvidos aos elementos da história da ciência mais destacados, a análise de discurso foi utilizada e será discutida na próxima seção.
## Metodologia
Neste estudo foi realizada uma pesquisa de caráter documental e também bibliográfica, conforme Gil (2008, p. 51). As questões de Física, apresentadas nos blocos de Ciências da Natureza do ENEM, do período compreendido entre 2009 e 2016, tiveram seus conteúdos lidos e analisados. A partir da leitura minuciosa de aproximadamente setecentos e vinte itens das dezesseis aplicações da prova do ENEM, foi possível identificar quais questões retratavam cientistas. Desta forma, por intermédio dos enunciados, foram selecionados vinte e dois recortes para compor o Corpus da análise.
Como referencial metodológico de análise de discurso, esta pesquisa se desenvolveu por intermédio das ideias difundidas por Fiorin (2016, p. 20). De acordo com ele, este tipo de análise se estrutura a partir do Percurso Gerativo de Sentido. Composto por três níveis, fundamental, narrativo e discursivo, o percurso apresenta
a forma como se produz e interpreta o sentido de um texto em um determinado processo.
O nível fundamental se constituiu a partir de itens com semânticas opostas. No nível narrativo, de acordo com Fiorin (2016), os trechos (que formaram o corpus da análise) poderiam sofrer 'mudança de conteúdo'. Na sequência o último nível, denominado discursivo, se caracterizou pelas possibilidades de ideologias por recorte. Apesar da técnica de discurso mencionada ser constituída em três níveis, neste trabalho ela foi adaptada conforme as necessidades e objetivo da pesquisa.
## Resultados
Realizada a triagem, dos recortes que formariam o Corpus , os trechos foram classificados quanto aos gêneros das pessoas cientistas. Conforme mencionado na metodologia, sobre a semântica da palavra, no nível fundamental foram criadas as categorias masculina, feminina e indeterminada. Apesar de tais delimitações, não foram encontrados itens que permitissem o enquadramento das representações na categoria feminino.
Dos enunciados descritos no Quadro 1, apenas duas categorias foram identificadas, sendo elas: masculina e indeterminada.
Quadro 1- Recortes selecionados a partir do ENEM
De modo geral, os nomes de cientistas masculinos se manifestavam associados a nomes de leis, às afirmações sobre aspectos da ciência e até ligados a nome de aparelhos (no caso do Gerador de Van de Graaff).
No nível discursivo, conforme Fiorin (2016), as ideologias são propostas de acordo com a afinidade da pessoa pesquisadora sobre o tema. Assim sendo, sobressaíram três possibilidades de ideologias. A primeira destas foi: 'os homens dominam nos assuntos relacionados à Física'. Corroborando a afirmação, a pesquisa desenvolvida por Garcia e Sedeño (2006) menciona que mundialmente a participação feminina na área supracitada está abaixo de 5%.
A segunda ideologia percebida destaca que: 'as contribuições femininas não são consideradas em materiais didáticos'. No que se refere a esta, Silva (2015, p. 3) observou que em alguns livros de Física (pesquisados quanto a presença de imagens de gênero) os homens são a maioria. Nos assuntos associados com a história da Ciência, em relação aos itens encontrados em tais livros, as mulheres apareceram aproximadamente em 6% dos dados.
A última ideia sugerida foi a de que 'as mulheres não possuem espaços em atividades científicas'. De acordo com Silva e Ribeiro (2011), há um aumento significativo de mulheres em muitas universidades do país como docentes, pesquisadoras e estudantes. No entanto, apesar do crescimento da presença
feminina na ciência, 'essa participação vem ocorrendo de modo dicotimizado ou ainda está aquém da masculina, bem como as mulheres ainda não avançam na carreira na mesma proporção que os homens' (SILVA; RIBEIRO, 2011, p.3).
## Considerações finais
Dialogando com os referenciais teóricos, a representação de cientista possibilitada por meio do ENEM reforça o pensamento de que a Ciência é masculina (SCHIEBINGER, 2001). A mulher, contribuindo para o pensamento da invisibilidade feminina nas ciências, não foi encontrada como cientista nas questões de Física. Contrastando com o que Schiebinger (2001) menciona sobre a presença feminina em atividades de observação.
Embora a História da Ciência possa proporcionar melhorias no aprendizado, conforme indicam Pietrocola (2003) e Matthews (1995), precisa-se tomar cuidado com qual imagem é transmitida por meio de representações. Enunciados que enfatizam os homens como cientistas, apagando as mulheres, podem reforçar estereótipos, como o de que as ciências somente são construídas a partir de grandes gênios masculinos, brancos e predominantemente europeus ou seus aliados, fato que não é verdade.
Apesar de a gramática normativa prever apenas duas possibilidades de representação de gênero, masculina (considerada o padrão universal) e feminina, alguns elementos da linguagem não sexista foram identificados.
Neste trabalho, por mais que a nossa pretensão tenha sido se desvincular da 'concepção binária' e mostrar outras formas de identidade de gênero, a normatização linguística que faz da masculinidade o padrão se mostrou um obstáculo. Esperamos que, com esta denúncia, possíveis esquecimentos de não considerar as múltiplas identidades na construção do ENEM sejam superados.
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