UMA ANÁLISE DE DEBATE COM QUESTÃO SOCIOCIENTÍFICA POR MEIO DE MODOS DE DISCURSO
Daniel Freitas, Alexsandro Pereira
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVII
- Ano
- 2018
- Data
- 30/08/2018
- Linha de pesquisa
- Co-25 Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física / Ciência, Tecnologia, Sociedade E Ambiente No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## UMA ANÁLISE DE DEBATE COM QUESTÃO SOCIOCIENTÍFICA POR MEIO DE MODOS DE DISCURSO
## A DEBATE ANALYSIS OF SOCIOSCIENTIFIC ISSUE BY MEANS OF DISCOURSE MODES
## Daniel Freitas , Alexsandro Pereira 1 2
1 Instituto de Física, UFRGS, daniel.batista@ufrgs.br
2 Instituto de Física, UFRGS, alexsandro.pereira@ufrgs.br
## Resumo
Este trabalho é um ensaio de aplicação de um dispositivo de análise em 'modos de discurso', proposto pelo psicólogo norte-americano James V. Wertsch, para a identificação e o enquadramento de formas de pensar e falar usados por três estudantes de licenciatura em Física da UFRGS quando analisam uma questão sociocientífica. A ferramenta dos 'modos de discurso' é uma matriz, em duas dimensões, formada por quatro formas básicas de pensar e falar que surgem da escolha do falante por um escopo de identificação (universal/particularista) e uma forma de legitimação (contextualizada/descontextualizada) como sua perspectiva durante sua fala. O tema colocado em debate foi a participação do Brasil em experimentos realizados na Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (CERN) por meio da leitura de notícias veiculadas na internet seguida de perguntas para incitar o posicionamento de cada estudante com o intuito de suscitar debates. O objetivo foi o de analisar o uso de algum dos modos de discurso pelos indivíduos para defenderem perspectivas no debate, sendo que, dos enunciados introdutórios de cada um dos estudantes, obtivemos que dois deles foram classificados como particularista-descontextualizado e um como universal-contextualizado.
Palavras-chave : Modos de discurso. Questão sociocientífica. CTS.
## Abstract
This paper is an essay about the use of an analytic framework in 'modes of discourse', proposed by the American psychologist James V. Wertsch, for the identification, and the framing of forms of thinking and speaking used by three undergraduates in physics teaching of the Federal University of Rio Grande do Sul (UFRGS) when they analyze a socioscientific issue. The tool of 'modes of discourse' is a matrix, in two dimensions, formed by four basic kinds of thinking and speaking the emerges from the speaker's choice for a scope of identification (universal/particularistic), and a form of legitimation (contextualized/decontextualized) as your perspective during your speech. The theme that was put in debate was Brazil's participation in experiments realized in the European Organization for Nuclear Research (CERN) by the means of the reading of news published on the internet followed by questions to impel students' positioning with the intention to stimulate debates. The goal was to analyze the use of some of the discourse modes by the individuals to support their perspectives in the debate, obtaining from each
one of the students' first utterances that two were classified as particularisticdecontextualized, and one of them as universal-contextualized.
Keywords : Modes of discourse. Socioscientific issue. STS.
## Introdução
O estudo dos pressupostos do enfoque Ciência-Tecnologia-Sociedade (CTS) nos cursos de licenciatura das ciências naturais tem se tornado conteúdo indispensável para a superação do ensino de ciências hermético, ou seja, não relacionado com o contexto da sua produção, sua influência na sociedade e impacto ambiental, com seus prós e contras. Segundo Vaccarezza (2011), as considerações sobre as inter-relações CTS ocorreram primeiramente como um movimento em escala global no sentido de colocar em questão a neutralidade da ciência e da tecnologia e as implicações de seus usos para o conjunto da sociedade. As repercussões das discussões em torno das inter-relações CTS, portanto, chegam ao ensino como forma de preparar os cidadãos para uma nova etapa do desenvolvimento social onde a Ciência e a Tecnologia (C&T) participam cada vez mais da dinâmica social, embora, na prática, esse ideal entre em choque com as contradições do modo de produção capitalista marcado pela divisão internacional do trabalho, e sua consequente divisão do conhecimento, que também afetam o ensino.
No campo da pesquisa em ensino de ciências, principalmente a partir da década de 1990, no Brasil, vem-se realizando, e aumentando, trabalhos com o enfoque do ensino de ciências ampliado, que extrapola o conteúdo específico e de aplicações imediatas para uma integração com questões sociais onde o conhecimento de ciências é fundamental como, por exemplo, em controvérsias científicas e em questões sociocientíficas (SANTOS, 2007; STRIEDER, 2003). Dentre esses trabalhos se encontram aqueles interessados na apropriação dos pressupostos CTS por estudantes do ensino básico ou por futuros professores de ciências e aqueles interessados na forma do discurso científico; como exemplo, os trabalhos de Auler (2003), Mortimer e Scott (2002), e Peruzzi e Tomazello (1999).
Este trabalho versa os discursos de três licenciandos em Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) sobre uma questão sociocientífica colocada em debate; qual seja, a participação do Brasil em experimentos realizados na Organização Europeia de Pesquisa Nuclear (CERN). O objetivo é estudar a forma de emprego dos discursos em um debate e observar quando os elementos característicos dos pressupostos CTS são utilizados na defesa de um ponto de vista. A ideia de 'modos de discurso' vem de Wertsch (1987) onde o autor propõe uma maneira de entender os 'pontos de vista' e as 'formas de legitimação' que alguns autores norte-americanos empregavam quando envolvidos no debate sobre armas nucleares, no período da Guerra Fria. O método de coleta de dados foi a captura de áudio durante a realização de um grupo focal.
O número reduzido de alunos que participaram do debate deve-se, pois, pelo universo, também reduzido, de dez alunos com o pré-requisito desejável -já ter cursado a disciplina do curso que aborda os pressupostos CTS -que aceitaram o
convite para participar do grupo focal. Tal disciplina é do penúltimo semestre do curso de Licenciatura em Física.
O método de coleta de dados por meio de grupo focal foi motivado pela asserção de Wertsch (1987) de que os pesquisadores nas diversas áreas da psicologia têm se dado conta de que quando um indivíduo está respondendo a uma tarefa, como, por exemplo, um questionário, ele o faz de acordo com sua 'definição da situação', a qual pode ou não corresponder ao que foi planejado pelo pesquisador e, portanto, conduzir a interpretações equivocadas. Assim, buscamos reduzir o direcionamento das perguntas para permitir rumos diferenciados para a exposição de perspectivas e proporcionar um ambiente de interação social entre pares que os mobilizassem a entrar em consensos ou divergências, comuns em debates.
## Modos de discurso
No trabalho de Wertsch (1987), o pressuposto fundamental que o permeou foi que o discurso representa um padrão de pensar e falar relativamente estável que os sujeitos empregam em situação. Essa noção está caracterizada nos estudos socioculturais à mente como sendo a de que todo discurso se apropria de características relativamente estáveis e de vozes (pontos de vista) que nos permitem reconhecer um gênero de discurso característico de um determinado grupo social (ou institucional), ademais, que o emprego de um gênero de discurso é inerente à ação humana comunicativa e reflexiva (WERTSCH, 1991). Naquele trabalho, Wertsch delineou um dispositivo de análise discursiva em duas dimensões: uma que se preocupa com a identificação do grupo com o qual o sujeito se identifica quando engajado no discurso, chamada de escopo de identificação , e outra que se preocupa com a estratégia de argumentação que ele utiliza, chamada de formas de legitimação .
Por escopo de identificação deve-se entender um espectro contínuo entre uma identificação com o conjunto da humanidade (universal) ou apenas individual (particularista). Assim, nesse intervalo Universal-Particularista , se encontrariam todos os outros grupos de identificação, tais como, o grupo familiar, o grupo disciplinar (e.g., os estudantes de Licenciatura em Física), o grupo de cidadãos brasileiros etc. A principal marca de uma identificação particularista é a defesa dos interesses de um grupo em detrimento de outros, uma espécie de 'nós vs. eles'. Já a identificação universal assume que não importa o grupo específico, e sim que o dilema atinge a todos, um sentimento do tipo: 'nós estamos todos juntos nessa' (WERTSCH, 1987, p. 104, tradução nossa).
No entanto, somente o escopo de identificação não é suficiente para diferenciar os tipos de raciocínios empregados. Wertsch (1987) nos dá um exemplo, dentro do debate de armas nucleares, de que mesmo dois grupos que se utilizam de um escopo de identificação universal, tais como, os religiosos e os cientistas, podem usar de argumentos diferentes para defenderem o desarmamento, o primeiro evocando a perspectiva do amor entre irmãos e o segundo pela conclusão oriunda da simulação computacional de vários cenários possíveis. Assim, para entender essas diferentes perspectivas, utilizamos as formas de legitimação Contextualizada
- e Descontextualizada . A legitimação que Wertsch se refere é quanto aos processos de reflexão, explicação, defesa de decisões etc., isto é, a argumentação das ações. Basicamente, a forma descontextualizada privilegia o uso da lógica formal, representando a realidade em termos abstratos para o uso com operações lógicas e pouco faz considerações apelando para especificidades concretas do contexto. Já a forma contextualizada privilegia fatores do contexto específico, recorre a aspectos emocionais e, por vezes, procura enfatizar aspectos específicos da situação.
Dessa forma, na Figura 1, temos o quadro interpretativo que se obtém que é uma matriz com quatro modos de discurso que podem ser empregados num debate de maneira geral.
## Figura 1: Modos de discurso.
Fonte: Transcrito de Wertsch (1987, p. 106, tradução nossa).
Vale ressaltar que o processo de escolha de um ou outro modo de discurso pelo sujeito, embora seja um problema de pesquisa na psicologia, não foi levado em conta nessa construção de Wertsch. Também, o modo de discurso não é uma posição específica tomada no debate ou uma doutrina. 'Modos de discurso são maneiras de enquadrar um pensar e um falar, e, como tal, eles limitam uma posição que é provável de ser aceita.' (WERTSCH, 1987, p. 109, tradução nossa). Por fim, os modos de discurso são mutuamente exclusivos. Não é possível combiná-los ou coordená-los. O que o sujeito pode fazer é mudar de um modo para outro, mas não usá-los simultaneamente.
## Contexto da pesquisa
Este ensaio faz parte da pesquisa de mestrado (em andamento), do primeiro autor deste trabalho, sobre os modos de discurso empregados por licenciandos em Física quando debatem sobre questões sociocientíficas do contexto brasileiro de desenvolvimento da ciência e da tecnologia. Por aspectos sociocientíficos, entendemos que são as questões ambientais, políticas, econômicas, éticas, sociais e culturais relativas à C&T (SANTOS, 2007).
Os temas que foram escolhidos tratam: da participação do Brasil nos experimentos do CERN e do Projeto Gráviton da USP. No entanto, o que abordaremos aqui serão os resultados obtidos com três estudantes que debateram o primeiro tema, em dezembro de 2017.
A escolha do tema tem a ver com a repercussão, dentro do Instituto de Física da UFRGS, da adesão da instituição a um programa de cooperação institucional ALICE/CERN-UFRGS - onde ALICE é um acrônimo para A Large Ion Collider Experiment ('Um experimento de grande colisor de íon', tradução nossa); uma colaboração internacional para a pesquisa em física da estrutura da matéria -, embora não tenha sido esta, especificamente, a problemática.
- O que foi posto em debate com mais proeminência foram os prós e os contras do Brasil realizar um investimento permanente e de valor considerável para
participar de uma colaboração internacional onde o potencial de retorno econômico é reduzido. Por exemplo, existe uma cláusula contratual que obriga que as tecnologias desenvolvidas para a colaboração, se gerarem direitos de propriedade intelectual, deverão ter seus futuros royalties reinvestidos no CERN, permanecendo como atrativo econômico apenas a prioridade para os países participantes concorrerem às licitações necessárias (CERN, 2013).
Como material para debate, selecionamos cinco reportagens veiculadas por agências de notícias na internet, e fizemos a leitura desses textos intercalados com debates sobre cada um deles. Para iniciar o debate sobre um texto era feito perguntas para incitar a tomada de posições discursivas.
## Um exemplo de aplicação do dispositivo de análise
O primeiro texto que foi lido para os alunos foi: 'CERN passa a aceitar países-membros de fora da Europa' (REUTERS, 2010). Esse texto noticia a intenção do CERN de permitir que países de fora do grupo de financiadores permanentes e europeus possam integrar a eles por meio de contratos internacionais entre as nações pretendentes com a Organização.
- A primeira pergunta feita para incitar o debate foi: Como vocês avaliam a importância da participação do Brasil em pesquisas no CERN?
- O primeiro a responder foi o aluno João , aluno da 7ª etapa do curso (de 8 etapas), que já havia cursado a disciplina do curso que aborda os estudos CTS. Ele respondeu
Eu acho que o Brasil tem vários centros de pesquisa dentro das universidades ligados à área de física de partículas que publicam constantemente e, tratando-se o CERN do maior laboratório, é . . . , maior equipamento nesse sentido, obviamente, é necessário que o Brasil esteja lá de alguma forma, do contrário, esses centros todos de pesquisa do Brasil vão ficar sempre aquém de outros centros de pesquisa ao redor do mundo. Eu vejo essa necessidade para se manter na ponta, digamos assim, da pesquisa. Não ficar muito atrás de outros países que pesquisam nessa área.
Nesse enunciado, o escopo de identificação que ele usou foi o particularista porque ele argumenta que o Brasil corre o risco de 'ficar muito atrás de outros países que pesquisam nessa área' , o que remete a uma postura de 'nós vs. eles'. Também, a forma de legitimação, ou seja, o raciocínio que ele desenvolve, é o de premissas assumidas verdadeiras que geram uma consequência inexorável; quais sejam: a existência de centros de pesquisa atuantes nas universidades brasileiras ligadas à área de física de partículas e a existência de centros similares ao redor do mundo que também realizam pesquisas nessa área, e que, portanto, não participar de um dos principais laboratórios de pesquisa nesse sentido provocaria um atraso para o país. Assim, percebemos que essa forma de legitimação é característica da forma descontextualizada .
- O segundo participante, aluno Pablo , da última etapa, respondeu
É, eu acho que por um lado é importante para o Brasil de sair dessa posição sempre de segundo lugar em pesquisa e tal, né? De sempre estar usando tecnologias que são criadas em outros países e tal; ser mero replicador dessas tecnologias, mas não desenvolvedor de novas tecnologias mesmo.
Nesse quesito, seria importante eles estarem lá na criação e na aplicação nos experimentos do CERN. Por isso seria importante, mas não sei se já dá pra dizer da outra . . . (se referindo à próxima pergunta que seria feita). Então, sim, seria importante para o Brasil ganhar autonomia nessas pesquisas.
Nesse enunciado, o escopo de identificação usado também foi o particularista porque ele argumenta que 'é importante para o Brasil de sair dessa posição sempre de segundo lugar em pesquisa' , além disso, denota um estado de competição na ciência e que a posição de mero replicador de tecnologias -em sua opinião, ocupada pelo Brasil -, poderia ser superada pela presença de pesquisadores brasileiros 'lá na criação e na aplicação' de novas tecnologias no CERN. Quanto à forma de legitimação, ele conduz seu raciocínio numa lógica um tanto quanto compatível com a de João ( descontextualizada ), assumindo que existe uma corrida científica na qual o Brasil está sempre em segundo lugar, usando tecnologias que foram criadas por outros países, mas que seria importante o país ganhar autonomia nessa área de pesquisa.
- O terceiro participante foi o aluno Eduardo , da 4ª etapa, o qual também já havia cursado a disciplina que aborda os estudos CTS. Além disso, dos três, era o único que já havia trabalhado como professor no ensino básico. Ele respondeu
Eu acho que essa universalização ajuda muito que, nesse caso, tu não precisa sair do Brasil para fazer a bendita pesquisa que tu quer, que muita gente faz isso desesperadamente, de 'Ah, aqui no Brasil não tem exatamente o que eu quero, então vou buscar fora do Brasil.'. Ia ser muito mais simples se os países gerais assim da vida, todos, tivessem todas as possibilidades. Ia ser muito mais simples que não ia precisar fazer mil viagens, coisas diferentes. Eu acho que cada cultura consegue dar diferentes visões para as mesmas coisas, sei lá, vai saber se alguma pessoa, sei lá, da Índia, vai saber resolver em segundos o que as pessoas ficam quebrando a cabeça dois anos, sabe? Porque o modo de pensar é completamente diferente que a cultura em si já modificou a forma como ela pensa, enfim . . . Eu acho que quanto mais mistos melhor. Eu acho que a salada de frutas às vezes é melhor do que comer a banana, depois comer a maçã, . . . Só joguei aqui.
Esse enunciado já apresenta uma perspectiva diferente. O escopo de identificação que ele assume não é o de competição entre grupos de pesquisa onde uns estão mais avançados e outros atrasados. No trecho 'Ia ser muito mais simples se os países gerais assim da vida, todos, tivessem todas as possibilidades.', ele coloca que seria desejável que existissem recursos para todos, pois, assim, um pesquisador no Brasil não precisaria deixar o país 'para fazer a bendita pesquisa' que ele quer. Esse escopo de identificação é característico do universal , pois mesmo que o Eduardo identifique personagens nesse cenário (i.e., Brasil e Índia), o sentido que ele dá é de interdependência ('nós estamos todos juntos nessa'), como se nota no trecho 'vai saber se alguma pessoa, sei lá, da Índia, vai saber resolver em segundos o que as pessoas ficam quebrando a cabeça dois anos' . Quanto à forma de legitimação, ele optou pela contextualização . No trecho em que ele afirma que seria desejável que todos tivessem condições de desenvolver pesquisas em seus países, ele traz como perspectiva que isso evitaria de 'fazer mil viagens, coisas diferentes' porque 'muita gente faz isso desesperadamente'. Também, Eduardo
muda o enfoque da competição e traz o enfoque da cooperação. No trecho em que ele levanta a positividade das diferenças culturais na resolução de problemas, devido ao desenvolvimento socio-histórico-cultural de pessoas com modos de pensar diferentes, ele fala que 'quanto mais mistos melhor', e termina embasando esse entendimento com uma metáfora: 'Eu acho que a salada de frutas às vezes é melhor do que comer a banana, depois comer a maçã' , o que representa um argumento muito mais sensorial, emocional, do que lógico, no sentido da lógica formal. Todos esses elementos de apelo à construção de cenários com componentes emocionais envolvidos são característicos de uma forma de legitimação contextualizada.
## Considerações Finais
Apresentamos neste ensaio uma aplicação do dispositivo de análise em modos de discurso proposto por Wertsch (1987) para enquadrar formas de pensar e falar em debates de temas controversos. Observamos que os alunos João e Pablo, em linhas gerais, nesse primeiro momento, entenderam que sim, é importante para o país participar dos experimentos do CERN, como forma de não ficar para trás em pesquisas na área em que o laboratório atua, ainda, para podermos nos tornar criadores de novas tecnologias, e não replicadores das mesmas. Já o posicionamento do aluno Eduardo foi neutro com relação à questão posta. Ele se limitou a dizer que a universalização ajuda, mas o ideal seria que todos os países tivessem todas as possibilidades. Eduardo, também, levantou outros aspectos como o bem-estar do pesquisador e a cooperação entre pesquisadores de origens socioculturais diferentes. O bem-estar, no nosso entendimento, foi quando ele argumentou que muitos pesquisadores procuram desesperadamente condições fora do país para realizarem suas pesquisas, mas que seria bom que tivéssemos condições internamente, até para evitar muitas viagens; e a cooperação, foi quando ele argumentou que o modo de pensar diferente, devido as diferentes culturas, pode ajudar a resolver problemas, portanto, sugerindo um clima de cooperação e não de competição, o que é característico do escopo de identificação universal ('estamos todos juntos nessa').
Estes sentidos gerais dos enunciados dos estudantes apontam para nossa conclusão de que, em princípio, eles não veem como controversa a questão sociocientífica apresentada, nesse primeiro momento. Já, do ponto de vista dos pressupostos CTS, os alunos João e Pablo trazem a voz do senso comum das comunidades científicas periféricas (como a latino-americana) de que precisam se integrar à comunidade científica internacional como forma de sair de uma posição marginal, perseguindo tal objetivo por si só e não vinculado e legitimado pelos problemas internos das sociedades às quais pertencem, além de não levarem em consideração a baixa capacidade de se integrarem ao 'contexto de aplicação que é dominado pelas correntes de inovação e produção do capital internacional' (VACCAREZZA, 2011, p. 46, tradução nossa). E o aluno Eduardo, por fim, mantevese na perspectiva idealizada de que o desejável seria que todos os países tivessem todas as condições necessárias para conduzirem suas pesquisas, destacando o lado positivo da colaboração de pessoas de culturas diferentes em torno de um
problema. No entanto, ele não leva em consideração a possibilidade do conflito de interesses entre essas mesmas pessoas com relação à produção do conhecimento.
Por fim, vale ressaltar que essas posições não são estáticas, assim como não o são as escolhas dos modos de discurso que utilizaram. Os sujeitos, ao longo do debate, podem mudar de um modo para outro e trazer outras vozes para sustentarem seus argumentos, de modo que, as vozes dos pressupostos CTS com as quais eles já tiveram contato, podem de uma hora para outra virem à tona durante o debate.
## Referências
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STRIEDER, R. B. Abordagens CTS na educação científica no Brasil: Sentidos e perspectivas. 2012. 283 f. Tese (Doutorado em Ciências) - Instituto de Física, Instituto de Química, Instituto de Biociências, Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012.
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