FUNÇÕES DAS FOTOGRAFIAS EM LIVROS DIDÁTICOS DE FÍSICA
Sheila Cristina Ribeiro Rego
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVII
- Ano
- 2018
- Data
- 30/08/2018
- Linha de pesquisa
- Co-23 Linguagem E Cognição No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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## FUNÇÕES DAS FOTOGRAFIAS EM LIVROS DIDÁTICOS DE FÍSICA THE ROLE OF PHOTOGRAPHS IN PHYSICS TEXTBOOKS
## Sheila Cristina Ribeiro Rego
Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET/RJ)/Departamento de Física (DEFIS)/Programa de Pós-Graduação em Ciência, Tecnologia e Educação (PPCTE), sheila.rego@cefet-rj.br
## Resumo
A popularização da fotografia, permitida pela difusão do uso dos aparelhos de telefonia móvel com tecnologia de câmera digital, tornou comum a atividade fotográfica, inclusive nas escolas. Especificamente no ensino de Física, a fotografia é um dos tipos de imagens mais presentes em algumas obras didáticas. Este trabalho buscou identificar funções desempenhadas pela fotografia em livros didáticos destinados ao ensino de Física dos níveis médio e superior. Examinamos fotografias presentes em três obras, referentes a conteúdos da mecância clássica e da física moderna e contemporânea. Para a análise das funções da fotografia nas obras, levamos em conta sua relação com o texto verbal que a complementava. A função representativa foi a mais frequente em nossa análise, mostrando que a mensagem imagética por meio da fotografia é mais usada para reforçar as informações contidas no texto verbal, repetindo de forma visual os elementos mencionados por ele. Tendo em vista a multiplicidade de funções que a imagem pode exercer, a análise indicou uma falta de diversidade em seus usos através da fotografia. Para além de identificar a quantidade e o tipo de imagens utilizadas no âmbito educacional, precisamos pensar no porquê usamos as imagens, de que forma e para que nos servimos delas.
Palavras-chave : Fotografia, Livro didático, Física.
## Abstract
Photography has gained popularity because of the widespread use of cellphones with digital camera technologies, thus making it common practice everywhere, especially in schools. Specifically in physics teaching, photographs are some of the most frequently used images in textbooks. The present work sought to identify the role of photographs in high school and college-level physics textbooks. We examine photographs present in three books that deal with classical mechanics and modern and contemporary physics. In order to analyze the role of photographs in these books, we take into consideration the photographs' relation to the accompanying written text that comes in the form of captions and references to the image in the body of the main text. Photographs were most often found to have a representative role in our analysis, demonstrating that sending a message through imagery by means of photographs is most commonly done to reinforce the information contained in the written text. Given that images perform various functions, the present analysis indicated a lack of diversity in how photographs are used in physics textbooks. In addition to identifying the quantity and type of images used in education, we also need to consider how, why, and for what purpose we use them.
## Keywords : Photography, Textbooks, Physics.
## Introdução
Durante toda a nossa vida estamos nos relacionando. Estabelecemos relações diárias com pessoas, objetos, pensamentos, emoções, plantas, outros animais, enfim, com o ambiente que nos cerca. Nossas relações são construídas por meio de linguagens que utilizamos para nos expressar. Dentre elas podemos mencionar as linguagens gestual, sonora, verbal, imagética, e, de várias áreas do conhecimento, como a linguagem das artes, das ciências, da matemática etc. Longe de serem excludentes, podemos ter diversas linguagens complementares numa mesma mensagem.
Cloutier (1975 apud CALADO, 1994) demarca quatro momentos fundamentais para a história da comunicação humana: '[...] o da exteriorização, o da transposição, o da amplificação e o da individualização.' (p.19). Essa história se dá por acumulação, isto é, as linguagens desenvolvidas em uma fase não substituem aquelas utilizadas na anterior, mas convivem juntas. Assim, fomos incluindo aos processos de comunicação gestos, sons, desenhos, pinturas, esculturas, escrita, livros, jornais, rádios, filmes, vídeos etc. O quarto momento, da individualização, é marcado pela ampliação do acesso pessoal às informações e aos recursos tecnológicos para receber, produzir e transmitir mensagens (ALVES, 2013).
Como um dos elementos desse último momento, temos a popularização da fotografia, permitida pela difusão do uso dos aparelhos de telefonia móvel com tecnologia de câmera digital. É comum encontrarmos pessoas com seus aparelhos se fotografando em todo lugar, e a escola não é exceção. Por não precisarmos mais revelar as fotos, elas se acumulam indefinidamente nos aparelhos e nas redes sociais onde são transmitidas.
A fotografia apresenta algumas características que a difere de outros tipos de imagens, como, o desenho, a pintura e a escultura. Ela é '[...] obrigatoriamente o resultado de um encontro, de uma co-presença entre aquele que tira a fotografia e aquele que é fotografado e, ademais, esse encontro ocorre em um momento único e instantâneo' (JOLY, 2007, p. 126). Por ser um registro mecânico, há os que a consideram como uma cópia do real, sem levar em conta escolhas e técnicas em seu processo de produção, dando-lhe um estatuto de prova de que algo ocorreu exatamente como expresso na imagem. Entretanto, reflexões sobre a fotografia como objeto cultural, construído e transmitido a partir de preferências para se comunicar determinadas mensagens a públicos específicos, vêm sendo realizadas.
Algumas pesquisas têm discutido sobre a produção, utilização e leitura de fotografias em materiais e práticas educativas de diversas áreas do conhecimento e níveis de ensino. Mauad (2015) analisou a utilização de fotografias públicas em livros didáticos de História contemporâneos destinados aos ensinos fundamental e médio. Discursos sobre concepções de saúde em livros didáticos de Ciências para o ensino fundamental foram investigados através do exame de fotografias por Pralon (2011). Santos et al (2014) utilizaram a fotografia como meio para pesquisar as leituras de licenciandos de Biologia e de Física sobre questões socioambientais. Em estudo anterior, verificamos que a fotografia era um dos tipos de imagens mais presentes em três obras didáticas para o ensino de Física (REGO, 2016).
- O presente trabalho buscou identificar funções desempenhadas pela fotografia em livros didáticos para o ensino de Física dos níveis médio e superior. Para isso, utilizamos a classificação de funções da imagem proposta por Calado (1994). Por continuar sendo um dos materiais didáticos mais disponíveis e utilizados por um número considerável de professores, pensamos que o uso da fotografia nesses materiais pode indicar a forma como professores, geralmente, tendem a utilizá-la em sala de aula.
## Funções da imagem
Considerando que a imagem é uma forma de linguagem, Joly (2007) apresenta dois métodos para identificar a função da imagem. O primeiro, que tem origem na análise de textos verbais, situa as imagens no esquema da comunicação, isto é, na relação entre o produtor da imagem, a mensagem e o leitor. Nesse sentido, a mensagem visual pode ter como função principal expressar as ideias, as escolhas e a personalidade do seu criador (função expressiva ou emotiva), estar mais direcionada a uma resposta do leitor (função conativa), e, remeter ao seu próprio conteúdo, ou seja, sobre o que está sendo mostrado visualmente (função denotativa).
- O segundo método consiste em 'comparar os usos da mensagem visual com os das principais produções humanas destinadas a estabelecer uma relação entre o homem e o mundo' (JOLY, 2007, p.55). Nesse caso a imagem pode adquirir a função de símbolo do Divino, do Sagrado, da Morte, da Maldição etc. A função epistêmica fornece à imagem o aspecto de instrumento de conhecimento uma vez que, através dela, pode-se ter informações sobre pessoas, lugares e objetos. Além disso, a mensagem visual também admite a função estética, que diz respeito às sensações que pode originar no leitor.
Mais especificamente voltada para a área do ensino, Calado (1994) realizou um estudo em que um dos seus objetivos era investigar quais as funções que professores associavam à utilização das imagens na comunicação com seus estudantes. Para sua análise contou com 358 professores do ensino médio de Portugal que responderam a um questionário de perguntas fechadas. Foram consideradas 12 funções da imagem na comunicação, que chamaremos pelos códigos apresentados no Quadro 1.
Quadro 1: Funções da imagem (CALADO, 1994)
Essas funções foram mencionadas por Dib, Mendes e Carneiro (2003) em seu estudo sobre a função de imagens de um livro didático de Química para o ensino médio. As autoras realizaram entrevistas semiestruturadas com quatro estudantes, em que lhes apresentavam fotografias e textos verbais do livro didático, a fim de investigar os significados que os entrevistados conferiam às imagens e quais as relações estabelecidas com a mensagem verbal. Embora o trabalho tenha admitido a utilização da classificação proposta por Calado (1994), a análise e apresentação dos seus resultados não pareceram se fundamentar na mesma. Mas as autoras mostraram que os estudantes tentavam relacionar a imagem ao texto verbal baseando-se na identificação dos objetos presentes nas duas mensagens, o que indica uma busca pela função representativa da fotografia.
## Metodologia
A análise das imagens efetuada neste trabalho é continuação de estudos anteriores realizados com as mesmas obras, onde buscou-se investigar como se dava a representação da realidade através de imagens em livros didaticos de Física (REGO, 2015) e o nível de iconicidade das mesmas (REGO, 2016). Agora, examinamos apenas as fotografias presentes na parte conceitual de apresentação do conteúdo e nos exercícios propostos aos estudantes referentes ao ensino da mecância clássica (MC) e da física moderna e contemporânea (FMC), tentando abordar os mesmos assuntos nas três obras.
Duas das obras foram escolhidas para a pesquisa por terem sido indicadas, anteriormente, em 10 sítios de livrarias brasileiras como as obras mais vendidas para o ensino de Física em níveis de escolaridade diferentes: Física I e IV, de Young (2008, 2009), destinada ao ensino superior, e Os Fundamentos da Física, de Ramalho Jr, Ferraro e Soares (2007a, 2007b), para o ensino médio. Além de ser recomendada pela avaliação do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) de 2012, a terceira obra, Física em Contextos - Pessoal - Social - Histórico, de Pietrocola et al (2011a, 2011b), foi selecionada por mostrar com frequência imagens
que apresentam 'boa qualidade gráfica e técnica e estão bem articuladas aos textos' (BRASIL, 2011, p. 81). Examinamos fotografias presentes nos capítulos a seguir:
- - obra A: Leis de Newton do movimento (YOUNG, 2008) e Fótons, elétrons e átomos (YOUNG, 2009);
- - obra B: Newton e suas leis (PIETROCOLA et al, 2011a) e A natureza da luz (PIETROCOLA et al, 2011b);
- - obra C: Os princípios fundamentais da dinâmica (RAMALHO JR; FERRARO; SOARES, 2007a) e Física quântica (RAMALHO JR; FERRARO; SOARES, 2007b).
## Resultados
Para a análise das funções da fotografia, levamos em conta sua relação com o texto verbal que a complementava, quer fossem legendas e/ou menções à imagem no corpo do texto principal. Apesar de as imagens poderem apresentar várias funções dentro do mesmo texto, procuramos identificar qual seria apenas sua função que se apresentava com maior destaque (Quadro 2).
Quadro 2: Função das fotografias
Foram analisadas 70 fotografias. Percebemos que, nos capítulos referentes à FMC, a fotografia não foi utilizada nos exercícios propostos aos estudantes, e, nos de MC, elas só apareceram timidamente nos exercícios da obra C. Na parte conceitual da MC, a maioria das fotografias presentes nas obras B e C são usadas com a FR. Já na obra A, essa função divide espaço com a FC. As únicas fotografias referentes aos exercícios também apresentam essa função.
A obra A, na parte conceitual da FMC, utiliza a fotografia com funções mais diversificadas, enquanto a obra B continua dando preferência à FR. Na obra C, surge com mais frequência a FDe.
Diferentemente do estudo de Calado (1994), que indicou a preferência dos professores pelo uso da imagem para motivar os estudantes (FP), as fotografias nos livros examinados parecem ser utilizadas com maior frequência para dar maior concretude ao conteúdo verbal (FR). Nesse sentido, nenhuma das imagens admitia a função substitutiva (FS), pois sempre estavam vinculadas a um texto verbal que fazia menção a elas. Por exemplo, a obra B apresenta a fotografia de uma lâmpada em que a legenda diz: 'Lâmpada de mercúrio' (PIETROCOLA et al, p. 377, 2011b).
Não se verificaram finalidades dialéticas (FD) nas relações entre as mensagens visuais e verbais. Assim, nenhuma mensagem pareceu ser usada para conduzir o aluno à necessidade do desenvolvimento de um pensamento crítico, que o levasse a novas compreensões diante de uma ambiguidade oferecida pelos textos. Talvez o papel dado ao texto didático de explicar, mostrar e comunicar conhecimentos não leve em conta a inclusão de imagens que tragam os questionamentos, as dúvidas e os rompimentos do trabalho científico.
Fotografias que trouxessem aspectos preponderantemente emotivos (FE) e contemplativos (FPo) não foram encontradas. Isso indica a ausência de fotografias de cunho artístico e que sirvam para manifestar sentimentos e ideias do autor. Apesar de existirem movimentos de pesquisadores brasileiros na busca de relacionar a Física com a Arte, os textos didáticos analisados não contemplaram essa dimensão, pelo menos, por meio da fotografia. Isso pode indicar uma ausência da dimensão afetiva-emocional no ensino dessa parte do conteúdo da Física.
Era esperado que a FC fosse mais frequente nos exercícios, uma vez que se refere à apresentação de novos casos, de modo a acrescentar conhecimentos aos já desenvolvidos. Como as obras apresentam uma quantidade maior de imagens nos exercícios do que as fotografias verificadas (REGO, 2016), talvez haja a preferência por exercer essa função através de outros tipos de imagens, menos icônicas que as fotografias. Da mesma forma, pode-se não ter verificado as FT, FM e FO na apresentação conceitual por poderem estar relacionadas a imagens complexas, isto é, com níveis elevados de abstração próprios do conteúdo escolar da Física.
## Considerações finais
A finalidade da análise desenvolvida neste trabalho foi verificar as funções que as fotografias desempenhavam em livros didáticos de Física. Embora consideremos que uma interpretação a respeito das imagens realizada coletivamente, por vários leitores, pudesse trazer resultados mais consistentes (JOLY, 2007), buscamos proporcionar reflexões sobre o papel da imagem no ensino. Para além de identificar a quantidade e o tipo de imagens utilizadas no âmbito educacional, precisamos pensar no porquê usamos as imagens, de que forma e para que nos servimos delas.
Muitas das funções que poderiam ser exercidas pelas imagens nos textos didáticos não foram atribuídas às fotografias analisadas, como a função substitutiva (FS). As fotografias estavam de alguma forma vinculadas a um texto verbal que lhes fazia referência. Nesse sentido, embora com alto grau de iconicidade, nenhuma foi usada de modo independente. Isso pode revelar a importância e/ou dependência que temos da linguagem verbal na comunicação, mas também a complementaridade entre a palavra e a imagem.
As funções interpretativa (FI) e persuasiva (FP) apareceram com pouca frequência. A primeira foi verificada na apresentação conceitual do conteúdo de FMC talvez pela necessidade de esclarecer conceitos com alto nível de abstração. Buscando uma reação do leitor, a segunda foi utilizada no âmbito da motivação e do convencimento. Geralmente, usando-se imagens de cientistas mencionados pelo texto verbal, a função decorativa (FDe) apareceu mais na parte de FMC, provavelmente, por se tratar do desenvolvimento da Física que ocorreu numa época em que já existia a fotografia, o que permitia registrar momentos dessa história.
Enfim, a função representativa foi a mais frequente em nossa análise, mostrando que a mensagem imagética por meio da fotografia é mais usada para reforçar as informações contidas no texto verbal, repetindo os elementos contidos neste último de forma visual.
Tendo em vista a multiplicidade de funções que a imagem pode exercer, a análise indicou uma falta de diversidade em seus usos através da fotografia. Se o livro didático for o material em que o professor fundamenta suas aulas, é provável que repita esse uso da fotografia nas atividades didáticas, que seria, geralmente, de mostrar o que está sendo dito verbalmente. Entretanto, é necessário verificar quais os papéis das outras imagens que compõem as obras examinadas, e também as fotografias presentes nos outros capítulos.
Consideramos que diante da escassez de uso de determinadas funções da fotografia nos textos didáticos, o papel do professor no ensino da leitura de imagens se torna ainda mais relevante. Numa sociedade em que, desde cedo, aprendemos a registrar pessoas, situações e objetos por meio da fotografia, faz-se necessário refletir sobre seus usos para documentar a realidade, comprovar acontecimentos, manipular informações, assim como, para expressar questionamentos, emoções, interesses, valores e pontos de vista.
Além disso, a fotografia, como imagem fixa, permite desenvolver nos estudantes a atitude contemplativa, tão esquecida nos dias atuais em que recebemos novas informações a cada instante, sem termos muito tempo para refletir sobre as mensagens e respondê-las. Estamos em constante atitude de visualização, principalmente das imagens, mas talvez precisemos nos voltar para a contemplação de modo a nos permitir refletir, analisar, questionar e nos expressar por meio das imagens.
## Referências
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