Possibilidades do uso de vídeo e videoaulas para ensinar Física no Ensino Médio
Magda Moreira Nunes, Eliane Ferreira De Sá
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVII
- Ano
- 2018
- Data
- 30/08/2018
- Linha de pesquisa
- Co-22 Tecnologias Da Informação E Comunicação E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do EPEF 2018
Texto completo
## POSSIBILIDADES DO USO DE VÍDEO E VIDEOAULAS PARA ENSINAR FÍSICA NO ENSINO MÉDIO
## POSSIBILITIES OF VIDEO AND VIDEO LESSONS USE FOR TEACHING PHYSICS IN HIGH SCHOOL
1 Magda Moreira Nunes, 2 Eliane Ferreira de Sá
- 1 Colégio Militar de Belo Horizonte/NICT, magdamnunes@gmail.com
2 Universidade Estadual de Minas Gerais/DECH, elianefs@gmail.com
## Resumo
Este trabalho investigou as contribuições da inserção de vídeos e videoaulas em planejamentos didáticos de Física do 1º ano do Ensino Médio como recursos mediacionais. Para isso, foram desenvolvidas e aplicadas quatro sequências de atividades que utilizavam vídeos e videoaulas em diferentes fases do planejamento de ensino. Os dados analisados foram construídos a partir de gravação em áudio das discussões geradas em aulas e registro em caderno de campo feito pela pesquisadora. Por meio das análises foi percebido que para estudar a mediação e a ação mediada, o foco não pode ficar apenas no recurso mediacional, mas no conjunto, na interação agente atuando com recursos mediacionais, como sinaliza Wertsch (1998). Embora cada um desses recursos tenha sido selecionado por meio de critérios que pareceram satisfatórios para os resultados almejados, apenas sua utilização revelou seus efeitos de fato. Foi a partir da interação que o recurso mediacional teve impacto. Além dessa tensão, ainda por meio da análise dos dados, também foram identificadas as demais propriedades da ação mediada, como ampliação e constrangimento da ação, alterações nas relações de poder e autoridade, domínio e apropriação.
Palavras-chave : Mediação. Ação mediada. Vídeo e videoaulas.
## Abstract
The present work had investigated the contributions of video and video lessons insertion on Physics didactic plannings, in High School. In this regard, four activity sequences using video and video lessons were developed and applied in different stages of the teaching planning. The analyzed data resulted from the audio recording of the discussions during the classes and from the field notes registered by the researcher. Basing on the analysis it was noted that, to study the mediational means and mediated action, the focus should be not only on the mediational resource but also on the set, on the interaction acting with the mediational means, as pointed out by Wertsch (1998). Even selecting each one of these resources considering criteria that seemed to be satisfactory for the aimed results, only their use revealed their effects, in fact. The mediational means had impact from the interaction. Besides this tension, through the data analysis still, the other properties of the mediational action were identified, such as the extension and reduction of the action, changes on the power and authority relations, domain and ownership.
Keywords : Mediation. Mediational means. Video and video lessons.
## Introdução
Os estudantes de hoje são a primeira geração que cresceu com a nova tecnologia. Prensky (2001a) destaca que 'eles passaram toda a sua vida cercados por e usando computadores, videogames, tocadores digitais de músicas, vídeo câmeras, telefones celulares e outros brinquedos e ferramentas da era digital'. É a geração conhecida como nativos digitais. Além de ser ainda uma geração multitarefas. Simultaneamente jogam, escutam música, conversam com os amigos, realizam as tarefas de casa, além de utilizarem as tecnologias como prática social. Por simples observação dos comportamentos dos adolescentes, podemos constatar essa multiplicidade simultânea de tarefas. Prensky (2001b), amparado pelas últimas pesquisas em neurobiologia, afirma que não há dúvidas de que estímulos de vários tipos realmente mudam estruturas do cérebro e que isso afeta a maneira de pensar.
Frente a isso, os professores tem diante de si o desafio de, como imigrantes digitais, serem capazes de elaborar estratégias em seus planejamentos que sejam coerentes com o modo de pensar mais ativo, plural e conectado dessa nova geração. Os planejamentos que foram pensados para contextos e sujeitos de outros tempos, não mais atendem à demanda atual. Bennett et al. (2008) afirmam que as mudanças vivenciadas por esta geração demandam uma urgente reforma educacional. Os imigrantes digitais tem posto, atualmente, o desafio de aprender a planejar para essa demanda específica: os nativos digitais. Prensky (2001a) sinaliza ainda que essas novas formas de aprendizagem nascerão a partir da integração das novas tecnologias da informação e comunicação (TIC) com a educação.
Ao discorrer sobre planejamento de ensino, Aguiar Jr. (2005) reforça a necessidade de um planejamento apurado, no qual as estratégias sejam desenvolvidas a fim de assinalar caminhos para a aprendizagem. Nesse ínterim, o planejamento de ensino a ser elaborado pelo professor e proposto aos estudantes se tornaria mais eficaz se levasse em conta 'a necessidade de a escola tomar a seu cargo os novos letramentos emergentes na sociedade contemporânea, em grande parte - mas não somente - devida às novas TIC' (ROJO, 2012, p. 12).
Nessa direção, acaba sendo natural pensar em estratégias para a sala de aula que envolvam as TIC. Toda aprendizagem, em todos os tempos, é mediada pelas tecnologias disponíveis (Kenski, 2003). A compreensão da necessidade e incorporação dessas tecnologias ao currículo escolar, bem como a forma como ela acontece (ou acontecerá) fulgura entre os tópicos a serem pensados quando da elaboração do planejamento. Valente (2014) ressalta que as atividades curriculares ainda são baseadas no lápis e no papel, enquanto as tecnologias digitais da informação e comunicação (TDIC) têm alterado visivelmente os meios de comunicação e a forma como as pessoas se comunicam. Dentro deste contexto, esta pesquisa pretende lançar um olhar sobre como a inclusão de um desses elementos tecnológicos ao planejamento didático pode agregar valor e significado a esse planejamento. As videoaulas (VA) disponíveis na internet serão o recurso aqui avaliado. Elas são fortemente utilizadas pelos estudantes, além de apresentar relativamente fácil acesso, relacionado à difusão via internet e ao seu grande número de canais que disponibilizam essa ferramenta. Com isso, elaboramos, aplicamos e analisamos sequências didáticas em que foram inseridos vídeos e VA.
## Mediação e ação mediada
Para Vigotski (1991), todo conhecimento é construído socialmente, no âmbito das relações humanas. Para ele, quem aprende e quem ensina fazem parte de um mesmo processo. Além dessa relação eu - outro, estaríamos em constante interação com símbolos, signos culturais e objetos. A abordagem dialética do pensamento de Vigotski admite a influência da natureza sobre o homem que, por sua vez, também age sobre a natureza e a recria. Ou seja, o indivíduo é um ser ativo, capaz de modificar a si e ao meio em que vive. Por meio dessas mudanças, novas condições naturais são garantidas para a sua existência. Desta forma, o indivíduo aprende e, então, se desenvolve. Isso denota que as funções mentais superiores (dentre elas a formação de conceitos e a memória lógica) são primeiramente externas e depois internalizadas. Os processos mentais superiores têm, portanto, origem em processos sociais e essa internalização é alcançada a partir da mediação pelo uso de instrumentos e signos. Para internalizar signos, o sujeito deve compreender os significados que já sejam aceitos pelo seu grupo social. Ou seja, essa aquisição de significados está diretamente relacionada à interação social. Assim, como todo o processo começa na interação social, também é desejável, para fins de aprendizagem, que o estudante se relacione com pessoas mais competentes no uso desse sistema simbólico.
Essa abordagem dialética de Vigotski, na qual o meio favorece a aprendizagem, que modifica o meio e esse processo continua vida afora, nos remete à Pedagogia do Oprimido, na qual Freire (2014) diz que existir, humanamente, é pronunciar o mundo, é modificá-lo. O mundo pronunciado, por sua vez, se volta problematizado aos sujeitos pronunciantes, a exigir deles um novo pronunciar. Com isso, reitera a estrutura de mediação proposta por Vigotski, ao mostrar a indissociabilidade dos processos de interação social, mediação e internalização.
Entendendo a mediação como um tipo particular de interação e um processo veiculador de sentidos, essa se torna um conceito central para a compreensão do desenvolvimento humano como fenômeno sócio histórico. Enquanto sujeito do conhecimento, o homem não tem acesso direto aos objetos, mas um acesso mediado pelos sistemas simbólicos de que dispõe (VIGOTSKI, 1991).
Wertsch (1998) considera a ação mediada como unidade de análise da pesquisa sócio cultural uma vez que provê uma conexão entre a ação do sujeito (incluindo a ação mental) e o contexto sócio cultural, histórico e institucional em que esta ação se desenvolve. A ação mediada é moldada pela relação do sujeito com as ferramentas culturais, que nós temos chamado, como Paula e Moreira (2014), de recursos mediacionais. Nesta ação, o sujeito é o agente ativo e os recursos representam o meio mediacional disponível naquele determinado momento histórico e naquele local. Contudo, fazer essa distinção tem função apenas para compreensão da ideia defendida por Wertsch de que, somente em conjunto, os agentes e os recursos mediacionais podem causar impacto.
No estudo da mediação e da ação mediada não podemos enfocar somente nos recursos mediacionais envolvidos. Em vez disso, podemos caracterizar a mediação como um processo envolvendo o potencial desses recursos para modelar a ação. A ação mediada é uma unidade de análise que envolve o sujeito atuando com os recursos mediacionais. Wertsch (1998), portanto, concentra sua análise na relação agente - ferramenta cultural e, para isso, faz 10 afirmações básicas que
caracterizam a ação mediada. Paula e Moreira (2014), inspirados pelas 10 propriedades, compilaram 9 delas em um quadro reproduzido a seguir (Quadro 1). Dele os autores fizeram opção por omitir a segunda propriedade e os recursos mediacionais são tratados por RM.
Quadro 1 - Propriedades da ação mediada
<!-- image -->
Fonte: (PAULA e MOREIRA, 2014)
## Descrição metodológica
Para selecionarmos os vídeos e as VA consideramos os seguintes critérios: 1 - Veracidade: Elegemos, como costumeiramente é feito nas escolas, a visão científica para embasar nossa escolha. Logo, um critério primordial, que talvez sequer devesse ser elencado como tal, mas como condição eliminatória, é a veracidade (mediante os conceitos da ciência) das informações contidas nos vídeos e VA. Além da importância de os professores introduzirem mídias em seus planejamentos (como dialogar com uma ferramenta de uso corriqueiro do estudante e inserir a escola no mundo virtual do qual o jovem é nativo digital), acrescente-se a necessidade de ajudar o estudante a filtrar a informação adquirida. 2 - Performance do professor: Como sinalizado por Capecchi (2013), as relações pedagógicas inevitavelmente perpassam pela dimensão afetiva. Sendo assim, para nós, foi desejável que o professor, além de domínio do conteúdo e destreza vocabular, tivesse empatia com seus espectadores. As VA em que o professor apresentava postura arrogante e/ou irônica em níveis de constrangimento pessoal foram desconsideradas, uma vez que defendemos o fazer educação embasado em conhecimento permeado por afetividade e respeito. 3 - Tempo de duração: O relatório do Ministério da Educação e da Unesco - Juventudes: outros olhares sobre a diversidade (2004) sinaliza a rapidez nas mudanças cotidianas como exigência de um tempo também diferente dos jovens para acompanhar os diversos e novos saberes construídos. O excesso de estímulos a que o estudante é submetido (e foi submetido durante toda sua vida) nesse mundo tecnológico em que nasceu imerso, relativizou sua noção de tempo. Existe uma demanda de que as atividades a que se dedicam sejam ágeis e rápidas como são os processos que vivencia, refletindo seu cotidiano. Limitamos as VA desse estudo a um tempo máximo de 15 minutos.
Após o estabelecimento dos critérios de escolha dos vídeos e das VA passamos para o planejamento das sequências de ensino. Elaboramos quatro
sequências de ensino inserindo vídeos e VA em fases distintas delas, com propósitos diferentes. Essas sequências foram desenvolvidas em quatro turmas do 1º ano do EM, de uma escola pública federal, totalizando 100 estudantes participantes. As discussões realizadas durante as aulas, entre a professora e os estudantes foram gravadas em áudio e o conteúdo das gravações foi transcrito e analisado pelas duas autoras desse trabalho. Além disso, as impressões da professora sobre a participação, as contribuições e os multimodos de comunicação dos estudantes foram registrados em um caderno de campo.
## Apresentação e análise dos dados
## Visão geral dos vídeos e VA distribuídos nas sequências didáticas
Desenvolvemos quatro sequências de ensino que utilizavam vídeos e VA em momentos diversos do processo ensino aprendizagem. O Quadro 1 apresenta a distribuição dos vídeos e VA planejadas nas sequências de ensino.
Quadro 1 - Distribuição dos vídeos e VA nas sequências de ensino
A 1ª Sequência de ensino foi desenvolvida em três aulas. Na primeira aula a exibição de dois vídeos foi planejada para a fase de problematização do conteúdo e uma videoaula como atividade de para casa, para a fase de desenvolvimento da narrativa. Na segunda e na terceira aulas, as atividades planejadas apresentavam desdobramentos a partir da primeira e foram desenvolvidas visando às fases, 'Aplicação dos novos conhecimentos' e 'Reflexão sobre o que foi aprendido'.
- A 2ª Sequência de ensino também foi desenvolvida em três aulas. Na primeira aula a fase de problematização foi iniciada com uma preleção da professora e em seguida complementada pelo professor da videoaula exibida. Também foi utilizado o Software Socrative para o desenvolvimento da narrativa. Na segunda aula, os estudantes aplicaram o que aprenderam durante instrução por pares a partir de resolução de exercícios em grupos. Então, na 3ª aula, a professora fez uma sistematização do conteúdo no quadro numa aula expositiva interativa.
- A 3ª Sequência de ensino foi desenvolvida em duas aulas e foi proposta a utilização de uma videoaula. Sua finalidade foi consolidar características qualitativas já discutidas durante a exposição e lidar com algumas características quantitativas do movimento de Queda livre dos corpos, que já haviam sido discutidas.
- A 4ª Sequência de ensino foi desenvolvida em três aulas e foram utilizados dois vídeos. O primeiro dos vídeos com a finalidade apresentar a definição da grandeza física momento de força. O segundo vídeo, já na fase de sistematização do conteúdo, reforça uma característica própria do conteúdo.
## Análise das Ações Mediadas com o uso dos vídeos e VA
No desenvolvimento das atividades deste trabalho utilizamos recursos que mediaram nossas ações. Recursos dos mais diversos tipos como a linguagem, o livro didático, o quadro, computadores, dentre inúmeros outros. Contudo, neste trabalho, decidimos lançar luz sobre os recursos vídeos e VA. Embora tenhamos escolhido cada um desses recursos, embasando nossas escolhas em critérios que nos pareceram satisfatórios para os resultados que almejávamos, apenas sua utilização revelou seus efeitos de fato. Foi a partir da interação que o recurso mediacional teve impacto.
A propriedade 1 - A ação mediada instaura uma tensão irredutível entre agente e recursos mediacionais. Propriedade fundamental da ação mediada que lida com a relação do agente com o recurso. O sucesso da manipulação de um recurso não depende apenas do recurso em si, bem como a habilidade do agente não está apenas nele. É na interação que se estabelecem. Na nossa pesquisa, vimos que não foi garantia de sucesso a escolha de determinados vídeos e VA. Embora tenhamos buscado esmero nos critérios e efetuado exaustivas buscas, só pudemos dizer de sua efetividade quando da interação na sala de aula. A videoaula da 3ª Sequência de ensino, por exemplo, em que um jovem professor sistematiza as ideias de Galileu acerca da queda dos corpos não foi capaz de induzir o grau de motivação que esperávamos dos estudantes. Acreditávamos na juventude do professor, linguagem semelhante a dos estudantes e agilidade de apresentação do conteúdo como elementos de afinidade, para despertar interesse. Contudo, apenas o recurso não foi suficiente e a interação não ocorreu satisfatoriamente como planejado inicialmente. Ou ainda a situação mais extrema, na qual, também a despeito da qualidade do recurso, a interação dos estudantes com ele sequer existiu, como na atividade de para casa da primeira sequência. Na outra vertente, o primeiro vídeo da 4ª sequência de ensino. Ficamos ansiosas pelo fato de ele apresentar uma atividade experimental de fácil reprodução na sala de aula, sendo exibida virtualmente. Entretanto, foi a inserção que mais nos rendeu bons resultados. Ou ainda quando um vídeo extra foi inserido na 1ª sequência de ensino, já que a dinâmica na sala nos levou a isso.
Propriedade 2 -A ação mediada costuma ser dirigida por múltiplos propósitos que podem estar em conflito. Cada recurso tem sua própria história cultural e normalmente sua utilização acontece em contextos diferentes do proposto na sua gênese. Um protótipo dos planejamentos discutidos neste trabalho foi visto por olhos mais experientes que, imediatamente, sugeriram a subtração de uma videoaula da 3ª Sequência de ensino. Nossa intenção era utilizá-la como atividade de Para Casa. Nela, um professor bastante irreverente faz uma excelente revisão acerca do movimento de queda livre, apresentando exemplos numéricos com utilização das equações. Contudo, sua irreverência estava transmitindo uma representação equivocada do professor de Física. Propositalmente ele investia naquele estereótipo do professor de Física meio louco, inclusive batendo com a cabeça na mesa. Realmente, esta não é uma imagem a ser perpetuada e este conflito de concepções nos fez excluir a videoaula do nosso planejamento. Inúmeras VA disponíveis na internet são destinadas a estudantes de pré-vestibular. Ou seja, para aqueles que tiveram contato com o conteúdo em algum momento por serem egressos do Ensino Médio. Nosso trabalho aconteceu com estudantes do 1º ano do ensino médio. Para eles, que estão começando a formar e consolidar seus conceitos é interessante que a forma de dizer seja diferente nesse processo de construção.
Propriedade 3 -Os recursos mediacionais tanto possibilitam quanto constrangem a ação. A videoaula indicada como atividade de Para Casa na 1ª Sequência de ensino era o eixo estruturador das demais atividades planejadas. Devido ao fato de os estudantes não terem assistido e de não haver possibilidades para sua exibição antes da próxima atividade, colocou em risco toda a estrutura pensada. Em uma das exibições do vídeo Project Gorilla as caixas de som não funcionaram. Não fosse o fato de existirem legendas, a criação daquele ambiente favorável que conseguimos para iniciar as atividades também ficaria comprometida. Quando apresentamos os vídeos de experimentos na 4ª sequência de ensino, nos privamos da execução ao vivo da própria atividade experimental.
Propriedade 4 - Novos recursos mediacionais transformam a ação mediada. Dois exemplos emergem deste trabalho a luz desta propriedade. O primeiro, quando na 2ª Sequência de ensino introduzimos o aplicativo Socrative à atividade com videoaula. Realmente a interação nos trouxe resultados bastante satisfatórios que, como salientamos anteriormente, fica impossível conhecer o limite da influência da videoaula ou do aplicativo isoladamente nestes resultados. O segundo exemplo diz respeito ao momento em que ocorre a percepção de que apenas a videoaula (com características de exposição) não estavam sendo suficientes para sustentar o engajamento e isso levou à inserção das pausas e questionamentos no vídeo experimental, tendo sido obtidos os melhores resultados em termos de engajamento de todas as aulas estudadas.
Propriedade 5 - A relação entre agentes e recursos mediacionais pode ser caracterizada em termos de domínio e apropriação. O domínio aqui descrito referese à competência para realização de uma ação mediada pelo recurso. A apropriação, por sua vez, vai além da competência. Ela diz de uma transformação do próprio sujeito por meio dos desdobramentos da ação. O diálogo desta propriedade com o nosso trabalho dar-se-á a partir da análise e compilação dos dados que fizemos das impressões deixadas pelos estudantes nos questionários virtuais aplicados: no Socrative e através de um formulário Google. Os estudantes demonstraram uma preocupação real em ter bons critérios de escolha de um vídeo ou videoaula na internet para evitar construções equivocadas. Segundo disseram, a
partir de uma boa videoaula, são capazes de compreender, ficando mais motivados para estudar, participar das aulas e realizar as tarefas.
Propriedade 6 - Os recursos mediacionais interferem nas relações de poder e autoridade. O poder não está no agente, mas nas ações que demandam domínio e/ou apropriação dos recursos mediacionais. A autoridade, por sua vez, é mais uma construção que provém de valores culturais. A escola perdeu a exclusividade na oferta de uma de suas melhores obras: o conhecimento (ou a construção dele). É certo que um filtro é necessário, pois muito do que se lê não passa de informação rasa. Contudo, boas construções podem emergir a partir, por exemplo, da exibição de VA. A autoinstrução é uma realidade. A descentralização da atuação do professor e a emergência do protagonismo do estudante é um reflexo desse comportamento social. Professor como um agente mediador, auxiliando o estudante na sua própria construção do conhecimento.
## Considerações finais
Para Wertsch (1998), trabalhando numa perspectiva vigotskiana, os recursos utilizados para mediar são inócuos se não estiverem a serviço de alguma ação. Eles dentro deles mesmos não têm o poder de realizar nada. Apenas terão impacto quando utilizados pelos agentes. Bem como é impossível ao agente reconhecer-se sujeito de qualquer ação, se não pela mediação dos recursos. Este trabalho nos trouxe evidências, por meio da utilização de vídeos e VA como recursos mediacionais, de que o planejamento didático é, realmente, peça fundamental no ensino de Física e ainda que ele estará consolidado apenas no momento de sua aplicação, com os 'agentes-atuando-com-os-recursos-mediacionais'.
## Referências bibliográficas
AGUIAR JR., O. G. O Planejamento do Ensino . Governo do Estado de Minas Gerais. Secretaria de Estado da Educação. PDP, 2005.
BENNETT, S. J.; MATON, K. A.; KERVIN, L. K. The 'digital natives' debate: a critical review of the evidence. British Journal of Educational Technology , v. 39, n. 5, p. 775-786, 2008.
FREIRE, P. Pedagogia do oprimido . Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014
KENSKI, V. M. Aprendizagem mediada pela tecnologia. Revista Diálogo Educacional . Curitiba, v. 4, n. 10, p. 47-56, 2003
PAULA, H. F.; MOREIRA, A. F. Atividade, ação mediada e avaliação escolar. Educação em Revista . Belo Horizonte, v.30, n.01, p. 17 - 36, 2014.
PRENSKY, M. Digital natives, digital immigrants. On The Orizon - Estados Unidos - NCB. University Press , v.9, n.5, 2001a.
PRENSKY, M. Digital natives, digital immigrants: Do they really think differently - Estados Unidos - NCB. University Press , v.9, n.6, 2001b.
ROJO, R. H. R.; MOURA, E. (org.) Multiletramentos na escola . São Paulo: Parábola Editorial, 2012.
VIGOTSKI, L. S. A formação social da mente . São Paulo: M. Fontes, 1991.
WERSTCH, J. Mind as action . New York: Oxford University Press, 1998.
Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.