A PERCEPÇÃO DAS MULHERES DE UM CURSO DE FÍSICA SOBRE AS PERSPECTIVAS DAS MULHERES NA FÍSICA
Renan Da Silva Souza1, Carolina Rodrigues De Souza2
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVII
- Ano
- 2018
- Data
- 28/08/2018
- Linha de pesquisa
- Co-10 Questões Teórico-Metodológicas E Novas Demandas Na Pesquisa Em Ensino De Física / Equidade, Inclusão, Diversidade E Estudos Culturais E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## A PERCEP,ÌO DAS MULHERES DE UM CURSO DE FêSICA SOBRE AS PERSPECTIVAS DAS MULHERES NA FêSICA.
## WOMENÕS PERCEPTION OF A PHYSICS COURSE ON THE
## Renan da Silva Souza1 , Carolina Rodrigues de Souza2
1 UFSCar/Departamento de F'sica, renan@df.ufscar.br
2 UFSCar/Departamento de Metodologia de Ensino, carolinasouza@ufscar.br
## Resumo
Estudos atuais das relaGLYPH<141>›es entre gGLYPH<144>nero e ciGLYPH<144>ncia, tGLYPH<144>m mostrado uma realidade de desaparecimento de mulheres ao longo de todo o percurso profissional na ‡rea de f'sica. As mulheres, que j‡ s‹o poucas nos primeiros est‡gios da carreira, representam quantidades ainda menores nas etapas mais avanGLYPH<141>adas dessa atividade. Frente ˆ situaGLYPH<141>‹o de baixa representatividade de mulheres na carreira de f'sica no Brasil e considerando a universidade como ambiente importante na formaGLYPH<141>‹o e atuaGLYPH<141>‹o de cientistas no pa's, esse trabalho objetivou investigar qual a concepGLYPH<141>‹o das mulheres que comp›em o ambiente acadGLYPH<144>mico nos cursos de f'sica, sobre as perspectivas das mulheres na f'sica. Utilizou-se a metodologia de grupo focal, em que participaram alunas e ex-alunas do curso de f'sica oferecido pela Universidade Federal de S‹o Carlos, campus S‹o Carlos. A an‡lise etnogr‡fica e de conteœdos dos dados qualitativos, gerados a partir do encontro com o grupo, permitiram categorizar as respostas e identificar como principal argumento presente no discurso das participantes a existGLYPH<144>ncia de um ambiente acadGLYPH<144>mico desestimulador para as mulheres da f'sica. Debates sobre a cultura sexista, a naturalizaGLYPH<141>‹o das desigualdades entre os sexos e a ausGLYPH<144>ncia de representatividade na ‡rea, foram apontados como fatores que impactam o ambiente e o profissionalismo presente nos espaGLYPH<141>os acadGLYPH<144>micos.
Palavras-chave : Mulheres na f'sica. Mulheres. Representatividade.
## Abstract
Recent studies show a reality of disappearance of women throughout the professional career in the field of physics. Women, who are already few in the early stages, represent an even smaller percentage in more advanced stages of this activity. Faced with the situation of low representation of women in the career of physics in Brazil and considering the university as an important environment in the path of scientists in this country, this work aimed to investigate the conception of the women who make up the academic environment on the causes and particularities of this problem. A focus group methodology was used in which participated students and former students of the physics course offered by the Federal University of S‹o Carlos. A content analysis and an ethnographic method applied to the qualitative data generated from the group interview allowed us to categorize the answers and to identify as the main argument present in the discourse of the participants the existence of an unsupportive academic environment. Debates about the sexist culture, the naturalization of the inequalities between the sexes and the lack of
representativity in the area, were pointed out as factors that impact the environment and the professionalism present in the academic spaces.
Keywords : Women in physics. Women. Women representation.
## IntroduGLYPH<141>‹o
Atualmente, busca-se compreender novas formas para atuar frente a uma maior representatividade de mulheres nas carreiras cient'ficas no Brasil. A quantidade de mulheres, que chega a ultrapassar a de homens em diferentes ‡reas do conhecimento, n‹o apresenta os mesmos 'ndices no campo das ciGLYPH<144>ncias da natureza. Em particular, no campo da F'sica, a participaGLYPH<141>‹o feminina Ž pequena e tende a diminuir para os est‡gios mais avanGLYPH<141>ados da carreira, como mostram Agrello e Garg (2009) e Barbosa e Lima (2013). Esse padr‹o de baixa representatividade ocorre em diversos pa'ses, nos diferentes continentes do mundo (SAITOVITCH et al., 2015). Tal cen‡rio traz ˆ tona importantes quest›es para o estudo das relaGLYPH<141>›es entre gGLYPH<144>nero e ciGLYPH<144>ncia.
Assumindo o gGLYPH<144>nero como Òum elemento constitutivo de relaGLYPH<141>›es sociais fundadas sobre as diferenGLYPH<141>as percebidas entre os sexosÓ (SCOTT 1990 apud LOURO, 1994), portanto, um conceito constru'do dentro da sociedade, pode-se apontar que poss'veis causas para os problemas enfrentados por mulheres na f'sica, ocorrem antes do in'cio da vida acadGLYPH<144>mica. De fato, historicamente a educaGLYPH<141>‹o de mulheres foi feita de forma diferente da dos homens no Brasil, como mostra Guacira Lopes Louro (2004). Segundo a autora, em 1827 quando foram regulamentadas as primeiras escolas no pa's, a educaGLYPH<141>‹o de mulheres era pensada para alŽm delas, ou seja, justificava-se em sua funGLYPH<141>‹o social de m‹e e esposa. Assim, essa educaGLYPH<141>‹o baseava-se apenas na leitura e escrita, no ensino religioso e no cuidado domŽstico, em distinGLYPH<141>‹o a educaGLYPH<141>‹o de meninos que permitia o acesso aos estudos de geometria (OLIVEIRA, 2009). Como o processo educativo Ž naturalmente a forma pela qual os indiv'duos tGLYPH<144>m contato com as ciGLYPH<144>ncias e sendo esse processo fundamental na formaGLYPH<141>‹o social, podemos afirmar que a pouca presenGLYPH<141>a de mulheres na f'sica est‡ associada ˆs diferenGLYPH<141>as na formaGLYPH<141>‹o de meninos e meninas (BITENCOURT, 2010).
Outro aspecto que aparece como originador do problema Ž a masculinidade associada ˆs ciGLYPH<144>ncias ditas duras, como Ž o caso da f'sica. Defende-se na pesquisa sobre a produGLYPH<141>‹o do conhecimento cient'fico que esse tem sido historicamente apreendido como um dom'nio reservado aos homens (BANDEIRA, 2008). A construGLYPH<141>‹o e internalizaGLYPH<141>‹o da masculinidade, que se estabelece por meio da m'dia, da fam'lia e da sociedade desde a inf%ncia, reflete privilŽgios masculinos, colocando meninos e rapazes nas mais elevadas posiGLYPH<141>›es de desempenho, particularmente em disciplinas escolares consideradas de alto prest'gio, como s‹o a f'sica e a matem‡tica (JULIO; VAZ, 2009). Existe, portanto, um estere-tipo masculino, socialmente constru'do, que est‡ atrelado a f'sica de forma geral, provocando a concepGLYPH<141>‹o desse campo do conhecimento como atividade a ser executada por homens e para homens.
Considerando-se a universidade como parte da sociedade, que Ž, portanto, influenciada pelas forGLYPH<141>as sociais que atuam sobre os indiv'duos, e tambŽm como
ambiente onde se localiza parte fundamental da formaGLYPH<141>‹o e atuaGLYPH<141>‹o de cientistas, esse trabalho objetivou compreender o que pensam mulheres que comp›em o ambiente acadGLYPH<144>mico sobre a situaGLYPH<141>‹o de baixa representatividade feminina na carreira de f'sica. Para tanto, foi utilizada a metodologia de grupo focal, num encontro realizado com alunas e ex-alunas de um curso de f'sica oferecido por uma Universidade Federal do Estado de S‹o Paulo. O encontro balizou-se em uma discuss‹o em que foi poss'vel categorizar, segundo a bibliografia escolhida, as principais caracter'sticas presentes no discurso das participantes. Com a pesquisa realizada, pretende-se contribuir para o debate entre gGLYPH<144>nero e ciGLYPH<144>ncia dentro dos cursos de graduaGLYPH<141>‹o, e assim dentro das instituiGLYPH<141>›es de ensino.
## Metodologia
A aplicaGLYPH<141>‹o da tŽcnica de grupo focal consistiu em uma espŽcie de entrevista em grupo que teve como essGLYPH<144>ncia a interaGLYPH<141>‹o entre as participantes, para que estas pudessem explorar pontos de vista, partindo de pensamentos reflexivos, construindo suas pr-prias indagaGLYPH<141>›es e procurando respostas coerentes com as quest›es sob investigaGLYPH<141>‹o (BAKES et al., 2011). Foram convidadas a participar do processo mulheres regularmente matriculadas ou recŽm formadas no curso de f'sica, nas habilitaGLYPH<141>›es de bacharelado e licenciatura, da universidade analisada. O convite foi divulgado por meio das redes sociais e tambŽm pela abordagem direta. Se voluntariaram a participar da pesquisa, cinco mulheres, as quais constitu'ram um grupo de alunas que se encontravam entre o terceiro e o sŽtimo ano de graduaGLYPH<141>‹o, tanto do bacharelado quanto da licenciatura, e ex-alunas formadas h‡ pelo menos um anos, tambŽm entre as duas habilitaGLYPH<141>›es.
O encontro com o grupo de participantes foi pensado a partir de uma entrevista semiestruturada, que foi gravada em ‡udio e v'deo, tendo duraGLYPH<141>‹o de aproximadamente duas horas. No mesmo, inicialmente foram apresentados alguns dados de pesquisas j‡ realizadas sobre o cen‡rio nacional e mundial das mulheres na f'sica (BARBOSA; LIMA, 2013; IVIE; WHITE, 2015), alŽm de dados j‡ publicados, pelo recorte desta pesquisa, que analisou e comparou os percentuais de homens e mulheres nos ingressos e egressos de estudantes do curso de f'sica da UFSCar entre os anos de 2005 a 2015, da Universidade analisada (SOUZA; SOUZA, 2017). A apresentaGLYPH<141>‹o inicial teve car‡ter informativo, sem conter discuss›es detalhadas sobre as quest›es que permeiam o tema, entendendo-se que isto poderia influenciar as repostas do grupo.
Ap-s apresentados os dados, foi dado in'cio a entrevista que se baseou em um roteiro dividido em trGLYPH<144>s blocos: o primeiro envolvia quest›es voltadas a expor a concepGLYPH<141>‹o das participantes sobre o porquGLYPH<144> de poucas mulheres na f'sica e tambŽm sobre a relev%ncia da discuss‹o; o segundo era composto por quest›es direcionadas a dar luz as particularidades do caminho trilhado por cada participante, tanto na educaGLYPH<141>‹o b‡sica quanto superior, com enfoque na quest‹o de gGLYPH<144>nero; o terceiro se constitu'a de quest›es que visavam perceber quais as ideias das participantes sobre possibilidades de aGLYPH<141>›es que possam promover mudanGLYPH<141>as no cen‡rio apresentado posteriormente. O roteiro organizado serviu apenas como guia da argumentaGLYPH<141>‹o e n‹o foi seguido de forma restrita.
Para uma an‡lise mais completa dos dados produzidos pelo encontro com o grupo focal foram utilizados, em conjunto, o mŽtodo etnogr‡fico e a an‡lise de conteœdos.
## ApresentaGLYPH<141>‹o e an‡lise dos resultados
Com base na participaGLYPH<141>‹o das entrevistadas no desenvolvimento do grupo focal, foi poss'vel identificar a presenGLYPH<141>a de temas que foram recorrentes nas discuss›es, caracterizando assim dados importantes para as an‡lises.
As concepGLYPH<141>›es das participantes revelaram caminhos pelos quais se p™de interpretar o debate sobre as perspectivas das mulheres na f'sica. Para melhor compreender as repostas, as agrupamos em trGLYPH<144>s categorias :
- ∞ Categoria I -Representatividade, pertencimento e identidades: Aqui incorporam-se os argumentos que se relacionam ˆ presenGLYPH<141>a de mulheres na ciGLYPH<144>ncia, aos exemplos e modelos de mulheres que possam gerar processos criadores de identidade e ˆ apariGLYPH<141>‹o/divulgaGLYPH<141>‹o das pesquisas e o fazer ciGLYPH<144>ncia das mulheres em todos os ambientes.
- ∞ Categoria II Ambiente acadGLYPH<144>mico desestimulador: Essa categoria se define a partir das quest›es relacionadas ao conjunto de pr‡ticas, aGLYPH<141>›es, princ'pios e valores que atribuem estere-tipos ao gGLYPH<144>nero dentro do espaGLYPH<141>o acadGLYPH<144>mico.
- ∞ Categoria IIIProcessos de formaGLYPH<141>‹o social dados fora da universidade: Nessa categoria ir‹o caber os coment‡rios e falas vinculados ˆs relaGLYPH<141>›es entre a quest‹o de gGLYPH<144>nero e ciGLYPH<144>ncia e o processo de formaGLYPH<141>‹o social de cada participante, ocorridos fora do ambiente acadGLYPH<144>mico.
ƒ evidente que esta divis‹o em categorias n‹o esgota a complexidade e potencialidade produzida no debate, esse Ž o viŽs pelo qual entendemos interpretar os dados gerados pelo encontro. H‡ de se destacar tambŽm que as categorias aqui propostas n‹o s‹o excludentes nem completamente desassociadas, de maneira que cada argumento pode apresentar caracter'sticas de uma ou mais delas. Contudo, pretendeu-se observar onde e de que forma estas categorias tomam lugar nas falas das participantes. Apresentaremos aqui algumas das repostas que surgiram no debate.
No in'cio da entrevista, quando se discutiam quest›es sobre a relev%ncia do debate sobre mulheres na f'sica e sobre a situaGLYPH<141>‹o de baixa representatividade, surgiram as seguintes respostas:
Eu acho que as coisas comeGLYPH<141>am desde quando a gente Ž crianGLYPH<141>a... somos ensinadas a s- pensar em bonecas, cuidar da casa, cuidar dos filhos... a n‹o pode ter brinquedos masculinos... vamos propagando desde de a inf%ncia, atŽ chegarem e dizerem: Nossa! Mas esse curso Ž dif'cil. [Part. 1]
Tem poucas mulheres, ent‹o temos poucos espelhos. [Part. 4]
L‡ (no Departamento de F'sica), a maioria dos professores s‹o homens, j‡ na educaGLYPH<141>‹o a maioria s‹o mulheres. [Part. 3]
Na primeira fala, a participante aponta como causa da baixa representatividade de mulheres na ciGLYPH<144>ncia o professo de formaGLYPH<141>‹o social, indicando ainda fatores pertencentes aos processos educativos. Ela, ao expressar que existem diferenGLYPH<141>as determinantes atŽ mesmo nos brinquedos considerados masculinos ou femininos, remete que meninas s‹o educadas com base em valores que determinam expectativas, usualmente atribu'das ˆ feminilidade, para o seu comportamento e funGLYPH<141>‹o social. Portanto, encontra-se resson%ncia com a categoria III. Nas respostas seguintes se identificam quest›es de representatividade e pertencimento, o que se
enquadra na categoria I. Faz-se referGLYPH<144>ncia ao problema enfrentado por mulheres que procuram a carreira de f'sica na falta de modelos que possam gerar processos criadores de identidade. A terceira fala coloca ainda que haveria uma maior representatividade feminina nas carreiras de licenciatura, ou seja, no ensino de f'sica. O estudo da hist-ria de educaGLYPH<141>‹o nacional na perspectiva de gGLYPH<144>nero mostra que houve uma naturalizaGLYPH<141>‹o da mulher como cuidadora de crianGLYPH<141>as e formadora dos futuros cidad‹os estando, portanto, mais adequada a profiss‹o da docGLYPH<144>ncia (LOURO, 2004). O ato de cuidar, inerente ˆ docGLYPH<144>ncia, vincula-se ˆ mulher e se naturaliza como exclusivo e constitutivo da condiGLYPH<141>‹o feminina.
A discuss‹o prosseguiu para um momento em que se priorizou conhecer particularidades da escolha de cada uma das integrantes do grupo pela carreira em f'sica. Todas associaram a escolha profissional a influGLYPH<144>ncia de seus professores do ensino mŽdio, todos homens, em conjunto a uma aptid‹o natural para as ciGLYPH<144>ncias da natureza e matem‡tica. Identificou-se a quest‹o de representatividade (categoria I) na medida em que os ambientes escolares descritos pelo grupo n‹o tinham em sua composiGLYPH<141>‹o mulheres professoras de f'sica. Isso nos leva a refletir tambŽm sobre as relaGLYPH<141>›es de pertencimento para mulheres nas ciGLYPH<144>ncias exatas j‡ na educaGLYPH<141>‹o b‡sica. Contudo, surgiram ainda coment‡rios a respeito de experiGLYPH<144>ncias vividas por elas dentro da universidade:
Queria fazer bacharelado... em v‡rios momentos do curso eu fui desestimulada a isso, por professores e por colegas no geral... ouvi v‡rios professores mandando eu desistir do curso... que Ž f‡cil de entrar, mas dif'cil de sair (palavras dos professores) ... Òo seu lugar n‹o Ž aquiÓ (palavras dos professores) ... Nunca ninguŽm virou para mim e falou: ÒvocGLYPH<144> Ž mulher e n‹o pertence a esse lugarÓ. Mas eu tenho dœvidas do quanto esse discurso do Òseu lugar n‹o Ž esseÓ n‹o Ž por eu ser mulher. [Part. 2]
Ocorre aqui a descriGLYPH<141>‹o de atitudes tomadas por professores e alunos que influenciaram a escolha da participante pela habilitaGLYPH<141>‹o de licenciatura em detrimento do bacharelado, o que se pode associar ˆ categoria II. Essas s‹o as imposiGLYPH<141>›es e forGLYPH<141>as atuantes no ambiente acadGLYPH<144>mico que propagam percepGLYPH<141>›es prejudicando o pertencimento de mulheres ˆquele lugar. Ainda sobre as dificuldades encontradas dentro da universidade houve a seguinte fala:
VocGLYPH<144> est‡ na sala, tem vinte alunos e vocGLYPH<144> Ž a œnica mulher... o professor fala: Òmulher n‹o sabe c‡lculo, mas n‹o Ž nada pessoalÓ. Como n‹o Ž nada pessoal? Eu sou a œnica mulher ali.[Part. 4]
A fala do professor citada pela participante coloca as mulheres como incapazes de entender c‡lculo, ferramenta matem‡tica de extrema import%ncia para compreender os estudos em f'sica. Quando se fala que mulher n‹o sabe c‡lculo, generalizando a situaGLYPH<141>‹o de que toda mulher n‹o saberia c‡lculo e desconsiderando todo o trabalho cient'fico desenvolvido por mulheres na hist-ria da construGLYPH<141>‹o dos conhecimentos dentro das ciGLYPH<144>ncias exatas, est‡ se reproduzindo um conjunto de princ'pios que visam incutir, tanto em mulheres quanto em homens (alunas e alunos), que a f'sica n‹o pode ser produzida, entendida e executada por mulheres. Sobre essa vis‹o, Lourdes Bandeira (2004), discute que a dominaGLYPH<141>‹o masculina presente nas ciGLYPH<144>ncias exatas coloca as mulheres como n‹o pertencentes as atividades cient'ficas. Isso reforGLYPH<141>a a masculinidade dominante nessa ‡rea e coloca diferentes ideias para os estudantes: para mulheres os fatores do n‹o pertencimento aquele espaGLYPH<141>o, da inferioridade e incapacidade; para os homens uma relaGLYPH<141>‹o de incentivo e superioridade, j‡ que eles seriam os œnicos capazes de compreender em sua totalidade aquele conhecimento. O argumento se enquadra na categoria II.
Uma das participantes, ao tentar explicar as causas para a realidade vivida por elas, observou:
Tem poucas meninas (no curso de F'sica) ... e mesmo as meninas que tem s‹o dispersas. A gente n‹o se relaciona muito... as vezes as dificuldades, os problemas que elas passaram, que eu tambŽm passei, e a gente n‹o sabe, porque n‹o conversa... e fica tudo por isso mesmo. Acabam atŽ achando normal coisas que n‹o s‹o normais. [Part. 4]
Essa resposta exp›e uma situaGLYPH<141>‹o de desencontro entre essas mulheres. A quest‹o do distanciamento entre as mulheres do curso parece ser colocada como um problema n‹o s- para a discuss‹o das dificuldades enfrentadas por elas, mas tambŽm para a busca por soluGLYPH<141>›es. Esse pensamento da participante, possui resson%ncia com as categorias I e II. A princ'pio, a resposta apresenta que s‹o poucas mulheres, implicando na baixa representatividade, e depois aparece a quest‹o de internalizaGLYPH<141>‹o de situaGLYPH<141>›es e comportamentos que s‹o apresentados como quase que naturais daquele ambiente. Foi dito ainda, sobre a interiorizaGLYPH<141>‹o de comportamentos e situaGLYPH<141>›es como naturais ou normais:
N‹o Ž normal ter depress‹o no curso de F'sica. N‹o Ž normal se sentir exclu'da dentro de uma disciplina. [Part. 3]
Atenta-se, nesta fala e na anterior, para um cen‡rio onde s‹o banalizados um conjunto de aGLYPH<141>›es, medidas e consequGLYPH<144>ncias, prejudicando o reconhecimento da existGLYPH<144>ncia de situaGLYPH<141>›es problem‡ticas ligadas ˆ quest‹o de gGLYPH<144>nero. H‡ um ambiente de complicaGLYPH<141>›es em que n‹o se revelam preocupaGLYPH<141>›es com as adversidades enfrentadas pelas estudantes, e muitas vezes, n‹o reconhecidas pelas pr-prias estudantes.
Como ponto de encerramento do encontro, pedimos as participantes que sugerissem o que poderia ser feito para caminhar sentido a equidade de gGLYPH<144>nero na f'sica, o que caberia a sociedade e a comunidade acadGLYPH<144>mica fazer para promover essas melhorias. Destacaram-se as seguintes falas:
Jogar luz nas meninas... alŽm de ter um espaGLYPH<141>o de conversa, a gente pretende ter uma programaGLYPH<141>‹o onde meninos e professores possam ser convidados e possam ver onde eles est‹o sendo o nosso problema e talvez mudar suas atitudes... dar luz ao debate... a conscientizaGLYPH<141>‹o Ž sempre o melhor caminho. [Part. 4]
O professor deveria, em determinados per'odos, fazer uma reciclagem do que ele j‡ aprendeu... sua did‡tica... tem que ser mudada porque hoje vocGLYPH<144> vai lidar com alunos diferentes... uma reciclagem social. [Part. 1]
Eu acho que alŽm das discuss›es que tem que ter nas disciplinas com os alunos e com as alunas... de alguma forma, para vocGLYPH<144> ter um espelho no departamento, elas precisam passar num concurso. Precisam passar pela bancada deles (professores do departamento de F'sica) e serem aceitas... s‹o os mesmos professores que te falam que vocGLYPH<144> n‹o tem capacidade, que vocGLYPH<144> Ž mulher... eles que v‹o estar l‡ na banca. [Part. 5]
Na primeira e na segunda fala vemos estratŽgias voltadas a melhorar o ambiente de trabalho e o relacionamento entre a comunidade, o que se enquadra na categoria II. Essas falas enfatizam a import%ncia da discuss‹o sobre a situaGLYPH<141>‹o das mulheres no curso e na carreira de f'sica junto a todo o corpo acadGLYPH<144>mico, para entender quais atitudes e aGLYPH<141>›es podem ser tomadas visando a busca por melhorias. Nessa perspectiva, a pesquisa realizada por Hazari et al. (2013) com mais de 7000 estudantes, de 40 universidades dos Estados Unidos, apontou que o di‡logo sobre a
quest‹o de gGLYPH<144>nero e ciGLYPH<144>ncia na comunidade, tem grande influGLYPH<144>ncia para a escolha e permanGLYPH<144>ncia de mulheres pela carreira cient'fica. J‡ a terceira fala aborda a necessidade de pol'ticas transparentes nos processos seletivos para cargos de pesquisadores em f'sica, visando ampliar a participaGLYPH<141>‹o das mulheres nessa ‡rea.
Analisando as informaGLYPH<141>›es produzidas, na utilizaGLYPH<141>‹o da metodologia do grupo focal, sob uma -tica baseada nas categorias enunciadas anteriormente, pudemos atentar para a GLYPH<144>nfase com a qual cada categoria apareceu no debate. Essa an‡lise Ž importante para Ð no estudo de identificaGLYPH<141>‹o de argumentos no debate que se possam enquadrar em uma ou mais das categorias escolhidas Ð perceber quais informaGLYPH<141>›es s‹o importantes para fazer consideraGLYPH<141>›es sobre o discutido atravŽs das concepGLYPH<141>›es das participantes. Ocorre, que houve maior GLYPH<144>nfase de argumentos que se enquadrassem na categoria II, seguida pela categoria I, e por œltimo pela categoria III.
A categoria II, que chamamos de ambiente acadGLYPH<144>mico desestimulador, se comp›e por fatores que se relacionam de maneira mais imediata com a situaGLYPH<141>‹o das participantes, pois todas elas se encontram dentro do espaGLYPH<141>o universit‡rio, ou deixaram de fazer parte dele h‡ pouco tempo. Assim, n‹o surpreende que esse tema tenha aparecido com mais frequGLYPH<144>ncia. Mesmo com isso, se reconhece a import%ncia das quest›es que constroem essa categoria.
Em inglGLYPH<144>s, se utilizam os termos unsupportive classroom enviroments e implicit bias (HILL; COBETT; ST. ROSE, 2010), para tratar dos assuntos contidos pela segunda categoria Ð que aqui estendemos para todo o ambiente universit‡rio, mesmo fora das salas de aula. Nesse sentido, s‹o colocadas aqui as atitudes e costumes que s‹o reproduzidos, sem serem questionados, no ambiente universit‡rio e que manifestam tendGLYPH<144>ncias preconceituosas, nesse caso, sexistas. Todo esse conjunto de aGLYPH<141>›es Ð as quais tGLYPH<144>m como atores toda a comunidade acadGLYPH<144>mica: professores, professoras, alunos e alunas Ð implica o desestimulo massificado do interesse, da presenGLYPH<141>a e do sucesso de mulheres no meio acadGLYPH<144>mico. As estudantes que participaram do encontro mostraram-se incomodadas com essa situaGLYPH<141>‹o.
## ConsideraGLYPH<141>›es finais
Pensando nas situaGLYPH<141>›es descritas pelas participantes, na GLYPH<144>nfase aos processos desestimuladores do ambiente acadGLYPH<144>mico percebida em suas falas, nos dados apresentados e considerando a universidade como parte da sociedade e impactada pelos seus comportamentos, podemos dizer que a cultura sexista, a naturalizaGLYPH<141>‹o das desigualdades entre os sexos e a ausGLYPH<144>ncia de representatividade em ‡reas consideradas masculinas podem estar impactando o ambiente e o profissionalismo presente nos espaGLYPH<141>os acadGLYPH<144>micos.
Sabemos que caracter'sticas como a curiosidade, objetividade e competitividade entre outras, que s‹o normalmente colocadas como necess‡rias para a execuGLYPH<141>‹o da atividade cient'fica, n‹o s‹o particulares aos homens ou ˆs mulheres e que a ciGLYPH<144>ncia s- iria se beneficiar com presenGLYPH<141>a da diversidade e da diferenGLYPH<141>a. A produGLYPH<141>‹o do conhecimento cient'fico, e, portanto, f'sico, nos dias de hoje, se d‡ por meio da complexidade e se faz em grandes grupos. Compreendemos que negar ˆs mulheres, condiGLYPH<141>›es de equidade na atividade cient'fica pode prejudicar o avanGLYPH<141>o e a evoluGLYPH<141>‹o do conhecimento. A f'sica, como ciGLYPH<144>ncia e como produto das aGLYPH<141>›es e realizaGLYPH<141>›es humanas, deve prestar-se ˆs
mulheres assim como aos homens. Ent‹o, valorizar e se preocupar com as diferenGLYPH<141>as dentro do ambiente acadGLYPH<144>mico dever‡ contribuir, n‹o s- para as mulheres, mas para a pr-pria f'sica.
## ReferGLYPH<144>ncias
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