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A REPRESENTAÇÃO DA CIÊNCIA NA MÍDIA: UMA ANÁLISE CRÍTICA DO FILME ELYSIUM

Celso Luiz Mattos, Alice Helena Campos Pierson

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XVII
Ano
2018
Data
28/08/2018
Linha de pesquisa
Co-09 Comunicação Em Práticas Educativas Formais, Informais E Não-Formais E O Ensino De Física / Ciência, Tecnologia, Sociedade E Ambiente No Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## A REPRESENTAÇÃO DA CIÊNCIA NA MÍDIA: UMA ANÁLISE CRÍTICA DO FILME ELYSIUM

## THE REPRESENTATION OF SCIENCE IN THE MEDIA: A CRITICAL REVIEW OF FILM ELYSIUM

Celso Luiz Mattos , Alice Helena de Campos Pierson 1 2

1 UFSCar/Programa de Pós Graduação em Educação, celsoluizmattos@gmail.com

2 UFSCar/DME/ Programa de Pós Graduação em Educação, apierson@ufscar.br

## Resumo

Muitas questões científicas são veiculadas nos mais diversos tipos de mídia, assim, também são veiculadas visões sobre o que é a ciência e como ela se relaciona com as esferas política, econômica e social. Desta forma, esse artigo surge da reflexão sobre a relevância em pensar as mídias no ensino de ciências para o novo cenário que está se moldando no séc. XXI. As mídias, cada vez mais presentes e invasivas, estão relacionadas com os processos de produção e manutenção de cultura, comportamento, ideias e valores. Sendo assim, entender as relações entre a mídia e educação pode ampliar os olhares sobre o papel da escola e do professor para a promoção de criticidade em relação as mídias, tendo em foco o ensino de ciências. Essa discussão, por sua vez, se faz necessária para que nós, pesquisadores e educadores, possamos refletir a prática docente tomando como referência o contexto no qual os nossos alunos estão inseridos. Neste trabalho será discutida a representação da ciência presente no filme de ficção científica Elysium (2013) a partir de seus elementos contrafactuais e de seus polos temáticos, conforme instrumento de análise proposto por Piassi (2006), buscando evidenciar as diversas relações entre ciência, tecnologia e sociedade.

Palavras-chave : Ensino de Ciências; Cultura da Mídia; Mídia Educação; Ficção Científica;

## Abstract

Many scientific questions are propagated in various types of media. Thus, visions are also propagated about what science is and how it relates to the political, economic and social spheres. In this way, this article comes from the reflection of the relevance in thinking the media in the science teaching for the new scenario that is shaping itself in the 21st century. The media, increasingly present and invasive, are related to the processes of production and maintenance of culture, behaviors, ideas and values. Therefore, understanding the relationship between the media and education can broaden the perception about the role of the school and the teacher to promote criticality in relation to the media, with a focus on science education. This discussion, in turn, is necessary so that we, researchers and educators, can reflect

the teaching practice taking as reference the context in which our students are inserted. This paper will discuss the representation of science present in the science fiction film Elysium (2013) from its counterfactual elements and its thematic poles, according to the analysis tool proposed by Piassi (2006), seeking to highlight the diverse relationships between science, technology and society.

Keywords : Science Teaching; Media Culture; Media Education; Science Fiction;

## Introdução

Ultimamente tem-se visto uma verdadeira revolução tecnológica, principalmente nos meios de comunicação. Com o aprimoramento dos aparelhos e das técnicas utilizados pelas mídias, somado ao surgimento de novos equipamentos e novos tipos de mídia, configurou-se um cenário em que estas se tornam onipresentes. Em todos os espaços da sociedade, como na economia, política e cultura, e a todo tempo as mídias estão presentes desenhando uma sociedade midiática. Evoluímos de mídias impressas como livros, jornais e revistas, para as mídias de radiodifusão como rádio e televisão e atualmente para as mídias chamadas digitais, que são marcadas principalmente pela chegada da internet. Como é notável, o surgimento de uma nova mídia não ocasiona, necessariamente, o desaparecimento de outra, as novas mídias não superam as já consolidadas, porém abrem novos caminhos para ambas. (SANTAELLA, 2003)

A alta tecnologia para a produção e difusão de informação traz um grande aprimoramento das mídias, tendo como consequência maior alcance, maior flexibilidade para atender os diversos públicos e meios cada vez mais individualizados e invasivos. O sujeito se torna um usuário e passa a existir em diferentes meios. O que o diferencia de um simples espectador é que o usuário consome e reproduz mídia nas mais variadas formas e nos mais diversos meios. Seja a partir de um podcast, blog, vlog, ou em perfis de redes sociais, os usuários estão fomentando discussões sobre diversos temas de relevância social, inclusive sobre ciência e tecnologia.

A mídia está ligada aos processos de produção, reprodução e transmissão de cultura. A cultura das mídias, ou cultura midiática, junto com a escola, família e trabalho, participa na construção de valores e na constituição do indivíduo (KELLNER, 2001). A socialização, entendida como a assimilação de comportamentos, normas e condutas de um determinado grupo social, modula o comportamento individual, de forma que no processo de socialização a sociedade, ou grupo social, pode condicionar e controlar o indivíduo. Os meios de comunicação de massa que se dedicam, em geral, ao entretenimento, lazer e informação mantêm fortes relações com o processo de socialização do indivíduo. Dessa forma, são entendidas como instituições socializadoras as mídias, a escola, a família e outras instituições que geram cultura, participam da formação humana, na construção de ideias, valores e condutas. Setton (2010) defende que a mídia é uma matriz de cultura afirmando que

Ela produz significados, veicula sentidos e símbolos morais e sociais. Ela, ao oferecer uma carga informativa, tem a capacidade também de propor e impor significados. A cultura aqui é concebida como a capacidade de integrar, manter a comunicação, e, ao mesmo tempo, oferecer um corpo de categorias de pensamento e julgamento. (SETTON, 2010, p. 25)

## Complementando essa ideia, Belloni destaca que

Enquanto a família, a classe social, o bairro e, às vezes, a religião são fatores de diferenciação das crianças, a escola e a mídia funcionam como fatores de unificação - o objetivo é o consenso - difundindo os valores e as normas consideradas comuns a todos em uma sociedade. (BELLONI, 2009, p.33)

Mas sabemos que as mídias não são neutras, que são feitas por pessoas/instituições com desejos e interesses próprios. Dessa forma, as mensagens transmitidas incorporam valores, comportamentos e visões de mundo que atendem a esses interesses. A partir dessas questões surge o movimento de mídia-educação, ou educação para as mídias preocupado em preparar o indivíduo para um olhar crítico diante do universo que se descortina. Este é um campo que vem crescendo, relacionado com os processos de socialização, principalmente das novas gerações, mas também em uma perspectiva de formação ao longo da vida.

As autoras Bevórt e Belloni (2009, p.1082) refletem sobre a educação partindo da 'ideia de que não pode haver cidadania sem a apropriação crítica e criativa, por todos os cidadãos, das mídias que o progresso técnico coloca à disposição da sociedade'. As mídias, enquanto veículos responsáveis por produzir e a difundir conhecimentos e informações, fornecem modos de perceber a realidade, ou representações da realidade e, nesse sentido, atuam como formadores paralelamente à escola, utilizando formas mais interessantes e atrativas, concorrendo diretamente com a instituição escolar e com a família. Hoje se fala em mídia educação como educação para as mídias, com as mídias, sobre as mídias e pelas mídias (BELLONI, 2009). Dessa forma, é importante desenvolver no ambiente formal de aprendizagem habilidades relacionadas com a alfabetização crítica da mídia. (KELLNER, 2001; KELLNER e SHARE, 2008).

Como a mídia educação objetiva que os alunos possam se apropriar dos diferentes tipos de mídias e dos diferentes tipos de linguagem para a tomada de decisão crítica e criativa nos diversos assuntos que permeiam sua vida, entendemos ser pertinente combinar esses objetivos com a educação em ciência construindo assim uma perspectiva mais crítica sobre ciência, a natureza do conhecimento científico, a construção do conhecimento científico e as relações entre a ciência e a sociedade.

Questões científicas estão presentes em diversos tipos de mídias como, por exemplo: as histórias em quadrinhos (HQ) com temas de super-heróis gerados a partir de experimentos científicos (Capitão América, Homem Aranha, Dr. Lagarto, O Incrível Hulk) que surgem na década de 1950; programas televisivos como 'O Mundo de Beakman', levado ao ar na década de 1990, em que um 'cientista maluco' realiza diversas experiências e demonstrações junto com seus ajudantes Rosie/Liza/Phoebe e Lester; ou ainda As Aventuras de Jimmy Neutron, O Menino Gênio que conta as mais diversas aventuras que Jimmy e seus amigos enfrentam, para isso sempre recorrem à ciência e tecnologia cujo primeiro episódio foi ao ar em 2002. Atualmente, é fácil encontrar em redes sociais diversas páginas e perfis dedicados a temas científicos, como, por exemplo, o Manual do Mundo (Youtube), Física da Depressão (Facebook) e Ciência em Show (Instagram).

Nesse trabalho discutiremos sobre como a ciência é representada na mídia, colocando nosso foco no cinema como meio de comunicação e olhando, particularmente, para a obra de ficção científica Elysium (2013). A nossa intenção

aqui é apresentar novas possibilidades, ou pelo menos começar a pensar em novos caminhos, novos temas, novas discussões que envolvam a ciência no contexto social, tecnológico, cultural, artístico, político e econômico.

## A ciência na mídia - o filme de ficção científica em destaque

A ficção científica é um subgênero literário da ficção de prosa que surgiu no início do séc. XIX. Embora seja atribuída ao romance Frankenstein (1818) de Mary Shelley a inauguração desse gênero, na época sua obra era classificada como contos góticos ou histórias fantásticas (ALLEN, 1976; ROBERTS, 2000). Segundo Roberts (idem) a ficção científica resiste a uma definição, mesmo que ela seja facilmente reconhecida entre outros gêneros. Trata-se de um gênero distinto da literatura fantástica e imaginativa, pois é uma ficção de imaginação baseada em postulados da descoberta científica ou em mudanças no meio ambiente. Elementos que compõem uma obra de ficção científica são viagens no tempo, naves espaciais (espaçonave), homens e mulheres em cidades futurísticas ou seres extraterrestres. Suas narrativas envolvem sociedades futuras, encontros com criaturas de outros mundos, viagens entre planetas ou no tempo. A ficção científica, diferente da literatura fantástica, requer uma racionalização física e material, em vez de uma relação sobrenatural ou mágica, para que os seus elementos próprios do gênero sejam plausíveis na estrutura da obra.

A escolha por filmes de ficção científica se dá pela proximidade desse tipo de obra com temas científicos, que aparecem dentro de um contexto e de uma história. Cunha e Giordan (2009) evidenciam como temáticas que aparecem com frequência em filmes de ficção científica: ciência e medicina, ciência como ameaça à humanidade, ciência e poder, ciência e as questões ambientais, ciência fantástica e divertida, ciência e engenharia genética, a mulher na ciência e ciência e a inteligência artificial.

Pensar nos elementos próprios da ficção científica e de suas temáticas enquanto se aprecia uma obra de ficção científica pode fazer com que o espectador saia de alegrias simples, vivenciadas pelo simples ato de consumir uma obra, para alegrias ambiciosas (SNYDERS, 1988), experimentadas pela reflexão sobre as relações que a obra mantém com a sociedade contemporânea.

Piassi (2007), em sua tese de doutorado, faz uma análise de obras de ficção científica utilizando-se de duas ideias organizadoras: seus elementos contrafactuais , ou seja, aqueles que nos causam estranheza por não atenderem às nossas expectativas, e os polos temáticos presentes, para que assim sejam feitas relações mais profundas entre o social, cultural e científico contidos na obra.

As categorias de elementos contrafactuais, definidas por Piassi, são seres, objetos/artefatos, instituição e ambiente. Para cada elemento contrafactual são atribuídas características específicas, por exemplo, os seres possuem poderes, os objetos possuem propriedades, as instituições possuem leis e procedimentos e o ambiente manifesta fenômenos. Os polos temáticos são compostos por dois eixos: em um deles encontram-se o polo eufórico e o polo disfórico, que dizem respectivamente sobre uma visão otimista/entusiasta/confiança e pessimista/receosa/desconfiança em relação à ciência e tecnologia; no outro eixo encontram-se o polo material-econômico e o polo filosófico-existencial, o primeiro diz

respeito a uma visão da ciência que está diretamente ligada com o desenvolvimento de tecnologias que atingem as esferas política, econômica e social, e o segundo diz respeito a uma visão da ciência ligada a questões filosóficas e existenciais sobre o homem e o universo.

A análise que será desenvolvida aqui será feita a partir exclusivamente do conteúdo do filme, uma análise interna ao filme, ou como nos coloca Manuela Penafria (2009, p.7), a partir de uma discussão na qual 'centra-se no filme em si enquanto obra individual e possuidora de singularidades que apenas a si dizem respeito".

## Elysium: uma leitura crítica

Para ilustrar essa discussão, apresentaremos uma breve análise da obra Elysium (2013, 109 minutos), direção de Neil Blomkamp. Esta obra de ação e ficção científica está contextualizada no ano de 2154, período em que há na Terra duas classes sociais bastante distintas: uma formada por pessoas que vivem em uma estação espacial chamada Elysium e uma classe marginalizada, que vive em uma superpopulada e arruinada Terra. Se tomarmos como referência o trabalho de Cunha e Giordan (2009) é possível identificar as temáticas dessa ficção científica como: ciência e medicina; ciência como ameaça à humanidade; e ciência e poder.

O filme narra os acontecimentos do personagem Max, funcionário de uma fábrica de robôs usados para substituir humanos em postos de trabalho como, policiais, enfermeiros, agentes de condicional, garçons, entre outros serviços. A quebra da situação inicial, da estrutura narrativa, acontece quando Max sofre um acidente químico/radioativo em seu local de trabalho, o que lhe confere apenas 5 dias de vida. O conflito se estabelece no filme pela existência de uma máquina médica de altíssima tecnologia que faz uma atomização do paciente que o cura de qualquer enfermidade. Tal máquina é acessível a Max apenas se ele conseguir entrar em Elysium. Para isso só há duas possibilidades: conseguir um greencard , algo impossível no contexto da história, ou entrar de forma ilegal. No clímax da estrutura narrativa, o herói Max se vê como a peça central para que todos os cidadãos da Terra tenham passe livre para Elysium. Isso acontece em meio a cenas de ação, de combates entre rebeldes da Terra e agentes de Elysium. O epílogo é marcado com a população terrestre sendo salva graças aos feitos heroicos e de resistência de Max.

No grupo do que Piassi (2007) chama de artefatos contrafactuais se destacam nesse filme a base Elysium, que possuí uma geometria curiosa e que tem uma explicação científica interessante por ela ser daquele jeito. Ela possui uma grande repercussão narrativa e o enredo se estrutura a partir do que a base Elysium representa. A máquina médica que é capaz de curar todos os tipos de enfermidades também é um artefato contrafactual, possuí uma grande repercussão narrativa, porém, baixa cientificidade. O mesmo acontece com o exoesqueleto mecânico implantado em Max, que lhe confere aumento de força e resistência, e as naves voadoras que transportam as pessoas da Terra até Elysium. Nenhum destes elementos é explicado cientificamente, o que acontece é a associação das qualidades desses objetos com a evolução lógico-causal do filme, o que lhe confere maior dinamicidade.

Nesta obra também está presente a imagem de robôs, que podem ser classificados como seres contrafactuais (PIASSI, 2007). São seres que possuem determinada autonomia, mesmo que esta seja programada por terceiros. Os diversos robôs da obra, embora não participem diretamente do enredo, têm um papel importante na história, tanto para dar um caráter futurista como para tornar plausível a não existência de humanos trabalhando no setor de serviços em Elysium. Para os habitantes da Terra esses robôs representam a força hegemônica e truculenta dos governantes de Elysium, para os cidadãos da base espacial os robôs representam conforto, comodidade e segurança e são vistos como a salvação para os habitantes de Elysium, que assim não precisam conviver com os habitantes da Terra.

Na obra existem dois ambientes contrafactuais distintos, a Terra e a base espacial Elysium. Contextualizado na cidade de Los Angeles de 2154, o ambiente da Terra é marcado por construções precárias e baixa qualidade de vida para as pessoas que ali vivem. Meios de transportes que voam marcam um cenário futurista em que a ciência e a tecnologia promoveram mudanças radicais na sociedade. Por outro lado, Elysium é uma base espacial com atmosfera própria e com aparência de não ser poluída, as pessoas que ali vivem são felizes, sorridentes e vivem em harmonia. Temos, portanto, a Terra com baixa qualidade de vida devido a dominação que os governadores de Elysium exerce sobre ela por meio da ciência e da tecnologia e, temos a base Elysium, com alta qualidade de vida em função da alta tecnologia que dispõe, habitada por uma população alienada dos problemas sociais presentes na Terra. O ambiente em Elysium evidencia uma alta tecnologia, com computadores e sistemas de inteligência artificial, naves voadoras que viabilizam a viagem da Terra à base, entre outros objetos futurísticos que cumprem a função de pontuar esse caráter futurista da obra. É interessante notar que essas características também estão presentes na Terra, porém em Elysium, aparecem em harmonia com a sociedade, enquanto que na Terra essas mesmas características aparecem de maneira violenta contra a sociedade.

Os governantes de Elysium, que atuam como a instituição interna do enredo, detém um forte poder político e econômico sobre os habitantes da Terra, que lhe permite, por exemplo, decidir quem é cidadão de Elysium e quem é habitante da Terra. Para isso, controlam o sistema tecnológico de monitoramento da Terra, assim como a sua programação. Ou seja, existe um sistema em Elysium que funciona como uma catraca para decidir quem pode entrar ou não. Cada pessoa, da Terra ou de Elysium, possuí um sistema de identificação gravado na pele que a identifica como cidadão, ou não, de Elysium. No filme esse poder que a base mantém sobre a Terra é materializado na personagem da Secretária Rhodes, um oficial responsável por impedir que imigrantes ilegais da Terra entrem em Elysium.

Nesta obra, o polo eufórico está bem presente. O filme retrata o desejo e nas pessoas que buscam alcançar Elysium e a máquina médica que cura todo tipo de enfermidade, mostrando uma esperança e um otimismo com a ciência e tecnologia. Ou seja, as pessoas acreditam e confiam na ciência e tecnologia e no progresso gerado por elas. Por outro lado, o polo disfórico da obra fica marcado, principalmente, pelo cenário caótico da Terra: pobreza, qualidade de vida baixa, uma situação de inferioridade frente aos mecanismos de controle (tecnológicos) de Elysium sobre a Terra.

O polo filosófico-existencial está presente durante toda a temática do filme, uma vez que ele nos mostra um possível futuro para a humanidade. Com os altos índices de poluição na Terra, a pergunta existencial e filosófica 'Qual o futuro da humanidade?' se faz presente. O filme tenta nos trazer uma possível resposta para essa pergunta. Além disso, uma outra questão que também está presente e que não é evidenciada é a do artefato da máquina médica que cura tudo. Se temos uma sociedade rica que controla essa tecnologia que prolonga a vida das pessoas, o que isso representa para a sociedade? Ou melhor, o que o filme quer nos contar com isso? Essa pergunta ganha mais sentido ao acrescentar que quem detém o controle dessa máquina são as pessoas da classe social mais favorecida que habita a base Elysium.

O polo material-econômico fica bem evidente, primeiro com a aventura de ir em busca da máquina que realiza a atomização, o que nos mostra que a tecnologia está associada ao conforto das pessoas e a uma melhor qualidade de vida, é uma máquina pela qual vale o risco de viagens em espaçonaves clandestinas. Principalmente para os habitantes de Elysium, a ciência e tecnologia estão associadas com o conforto, com o progresso, com o poder econômico e político Na Terra também existe uma alta tecnologia, porém esta é que torna possível a dominação de Elysium sobre a Terra. Além disso, as instituições políticas e econômicas, por meio da tecnologia, fazem a manutenção da relação de dominação entre a base Elysium e a Terra.

## Considerações finais

Tendo em vista a discussão teórica sobre a importância em se pensar as mídias para um ensino de ciências com uma perspectiva crítica em relação a ciência nas suas relações com a tecnologia e sociedade, esse texto objetivou refletir sobre a imagem da ciência veiculada na obra Elysium (2013).

Com instrumento de análise desenvolvido por Piassi (2007) foi possível entender a dinâmica da obra, tendo como foco a ciência e tecnologia. A análise evidenciou como a ciência é utilizada para contextualizar uma narrativa e como a ciência foi representada nela. Foi possível identificar que a ciência e tecnologia aparecem intimamente relacionadas com as relações de poder entre as classes sociais e como a classe marginalizada utiliza dessa ciência e tecnologia para se rebelar contra o sistema que lhes é imposto.

A desigualdade social retratada na obra acontece, exclusivamente, pela relação que essas duas classes sociais mantêm com a ciência e tecnologia. Foi possível perceber que o avanço da ciência e tecnologia tornou capaz a construção de uma base espacial, Elysium, para que as pessoas pudessem viver em um ambiente com melhores condições de vida, vegetação e atmosfera. Assim, a ciência e tecnologia são associadas ao bem-estar social e material. Por outro lado, essa mesma ciência e tecnologia, são utilizadas para a dominação da população da Terra. O uso da ciência e tecnologia atende aos interesses dos governantes de Elysium, o que também indica as relações entre ciência e tecnologia com a esfera política e de tomadas de decisão que afetam toda uma nação.

Desta forma, a análise feita aqui contribui para a construção de relações entre a ciência, tecnologia e sociedade, tendo como plano de fundo a obra

cinematográfica, sendo possível trabalhar com ela em aulas de ciências para promover a criticidade em relação à ciência e tecnologia. Assim, sendo possível discutir a não neutralidade do conhecimento científico, as relações de poder mantidas através da ciência e tecnologia e questionar a visão de que o progresso científico traz, exclusivamente, melhorias nas condições de vida, trabalho e saúde.

## Referências

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BELLONI, M. L. O que é mídia educação? 3. ed. rev. Campinas - SP: Autores Associados, 2009. (Coleção polêmicas do nosso tempo).

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CUNHA, M. B.; GIORDAN, M. . A imagem da Ciência no Cinema. Química Nova na Escola, v. 31, p. 09-17, 2009.

KELLNER, Douglas. A cultura da mídia: estudos culturais: identidade e política entre o moderno e o pós-moderno. Bauru: Edusc, 2001

KELLNER, D.; SHARE, J. EDUCAÇÃO PARA A LEITURA CRÍTICA DA MÍDIA, DEMOCRACIA RADICAL E A RECONSTRUÇÃO DA EDUCAÇÃO. Tradução Márcia Barroso. Educ. Soc., Campinas, vol. 29, n. 104 - Especial, p. 687-715, out. 2008

PENAFRIA, M.. Análise de Filmes - conceitos e metodologia(s). In: VI Congresso SOPCOM, Lisboa, 2009. Anais eletrônicos... Lisboa, SOPCOM, 2009. Disponível em: http://www.bocc.uff.br/pag/bocc-penafria-analise.pdf. Acesso em: 18 de agost. de 2017.

PIASSI, L. P. de C.. Contatos: a ficção científica no ensino de ciências em um contexto sociocultural. São Paulo/SP, Universidade de São Paulo, USP, 2007. 462p. Tese de Doutorado. (Orientador: Mauricio Pietrocola Pinto de Oliveira)

ROBERTS, Adam. Science Fiction. New York: Routledge, 2000.

SANTAELLA, Lucia. Culturas e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura. São Paulo: Paulus, 2003

SETTON, M. da G. J. Mídia e educação. São Paulo: Contexto, 2010

SNYDERS, Georges. A alegria na escola. São Paulo: Manole, 1988.

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