A REPRESENTAÇÃO DE STEPHEN HAWKING NO CINEMA: ESTEREÓTIPOS E MITIFICAÇÃO DO CIENTISTA
João Fernandes, Guilherme Lima
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVII
- Ano
- 2018
- Data
- 28/08/2018
- Linha de pesquisa
- Co-09 Comunicação Em Práticas Educativas Formais, Informais E Não-Formais E O Ensino De Física / Ciência, Tecnologia, Sociedade E Ambiente No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## A REPRESENTAÇÃO DE STEPHEN HAWKING NO CINEMA: ESTEREÓTIPOS E MITIFICAÇÃO DO CIENTISTA
## The representation of Stephen Hawking in the movies: stereotypes and mythification of the scientist
## João Fernandes 1 , Guilherme Lima 2
1 Universidade Federal de Ouro Preto/Departamento de Física, ofjoao37@gmail.com
- 2 Universidade Federal de Ouro Preto/Departamento de Física, glima@ufop.edu.br
## Resumo
A ciência é um empreendimento humano que influencia a sociedade e pode dialogar com outras produções, como o cinema que por meio de obras ficcionais ou biográficas interage com a ciência. Este artigo tem como objetivo analisar dois filmes biográficos de Stephen Hawking com o intuito de identificar os estereótipos e a mitificação do cientista presente em obras cinematográficas. A identificação dessas características é de extrema importância para desmistificar a imagem que o cinema apresenta do cientista. Para isso, a investigação contou com a análise de conteúdo e os filmes foram categorizados seguindo as propostas de Douglas Allchin. A análise consiste em identificar os estereótipos mais comuns e como eles se relacionam com o imaginário científico. Estas características foram identificadas e selecionadas seguindo a linha de pesquisa da Teoria das Representações Sociais, de Moscovici. Louco, gênio e arrogantes são apenas alguns dos estereótipos encontrados que fortalecem a mitificação do cientista e, por consequência, da Ciência.
Palavras-chave : Stephen Hawking; mitificação; estereótipos; Cinema; representação do cientista.
## Abstract
Science is a human development that influences the society and can dialog with other productions like the movies that by fiction or biographical works interacts with the Science. This article aims to analyze two biographical films of Stephen Hawking in order to identify stereotypes and the mythologizing of the scientist present in cinematographic works. The identification of these features is extreme important to demystify the scientist image the movies present us. To this end, the research included the analysis of content and films were categorized according to the proposals of Douglas Allchin. The analysis is to identify the most common stereotypes and how they relate to the scientific imagination. These features were identified and selected using the papers of Moscovici about the Social Representation Theory. Mad, genius and arrogant are just a few of the stereotypes found that strengthen the mythologizing of the scientist and, consequently, of science.
Keywords : Stephen Hawking; mythification; stereotypes; movies; scientist representation.
## Introdução
A Ciência possui diversas interfaces com outras esferas da cultura humana, é possível encontrar obras literárias, plásticas, cênicas e cinematográficas, que fazem referência ao universo científico. Tais referências não se pautam exclusivamente em questões específicas da cultura científica, muito pelo contrário, elas são capazes de se apropriar de temas, processos, linguagens, histórias, dentre outros elementos científicos e tecnológicos.
As interfaces entre a cultura científica e a arte ocorrem por diversos motivos, dos quais destacamos tanto os interesses da sociedade quanto a apropriação da temática pela indústria cultural. Atualmente, podemos acompanhar diversas assuntos científicos e tecnológicos que despertaram e despertam interesse da sociedade, por exemplo, as ondas gravitacionais e aquecimento global. As relações entre a Ciência e a indústria cultural, por sua vez, produzem uma série de coerções na produção humana, de modo que tanto a produção artística quanto a produção de bens transformam a Ciência e a Tecnologia em mercadoria passível ao consumo (LIMA; GIORDAN, 2014).
- O cinema desde o início possui muitas relações com a cultura científica, visto que além de abordar suas temáticas e práticas, depende do desenvolvimento científico e tecnológico para a produção de obras cinematográficas, bem como de novas ferramentas e técnicas para a produção de filmes.
- A indústria cultural tem se aproveitado das noções que os aspirantes a cientistas e mesmo os leigos tem sobre a prática científica para construir seus produtos. Essas 'noções científicas' constituem, em parte, o chamado imaginário científico, com isso, além de se apropriar, a indústria cultural promove um caminho de mão dupla que também contribui para a modificação deste imaginário.
Tendo em vista que a produção do imaginário científico é produzida coletivamente, as obras cinematográficas tanto produzem, quanto reproduzem estereótipos e mitificações que compõem o imaginário científico. Nesse sentido, a análise de obras cinematográficas pode nos indicar aspectos relevantes do imaginário científico apropriados pelo cinema. Com o intuito de abordar essas questões este artigo tem como objetivo analisar dois filmes biográficos de Stephen Hawking visando evidenciar os processos de mitificação do cientista e da ciência. Para isso, utilizamos como referencial teórico os processos de mitificação propostos por Douglas Allchin (2003). Visando o delineamento de orientações claras para a investigação proposta, questionamos: como as obras representam os cientistas e, em especial, Stephen Hawking?
## Representações sociais e a mitificação do(a) cientista
A teoria das Representações Sociais de Serge Moscovici nos permite visualizar o senso comum com outros olhos. Esta teoria está fundamentada na dinâmica entre o senso comum e o conhecimento científico. De acordo com Crusoé (2004), Durkheim foi o primeiro pensador a tocar no âmbito das representações coletivas apontando severas distinções entre estas e as representações individuais. Segundo ele, a primeira deve ser analisada pela sociologia enquanto a segunda,
pela psicologia. Tal distinção se dá pelo fato do autor pensar que as relações coletivas passam por processos psíquicos diferentes das relações individuais.
As ideias de Durkheim foram essenciais, segundo Crusoé (2004), para que Moscovici pudesse desenvolver sua teoria, baseando-se simultaneamente na psicologia e na sociologia. Alves-Mazzotti (2008) também aprofunda a discussão e foca em aspectos relacionados à Educação. De acordo com ela, as representações sociais estão no limiar entre as dimensões: individual e social, uma vez que
parte-se da premissa de que não existe separação entre o universo externo e o universo interno do sujeito: em sua atividade representativa, ele não reproduz passivamente um objeto dado, mas, de certa forma, o reconstrói e, ao fazê-lo, se constitui como sujeito, pois, ao apreendê-lo de uma dada maneira, ele próprio se situa no universo social e material (ALVESMAZZOTTI, 2008, p. 22-23)
Tendo em vista que a teoria das representações sociais está situada na linha tênue entre sujeito e sociedade, podemos utilizá-la para analisar as representações que são projetadas nas diversas obras da cultura humana, inclusive aquelas que têm como referência a cultura científica. Destacamos neste trabalho a representação do cientista no cinema. Desde o início da produção cinematográfica, o labor científico e seus agentes são alvos de representações. A partir daí, independentemente do veículo utilizado para a representação do cientista, esta está impregnada de estereótipos e pode conter mitificações do personagem.
Douglas Allchin contribui significativamente para esse debate. Embora Allchin (2003) não se fundamente na teoria das representações sociais de Moscovici, em seu trabalho interpreta as representações sociais quando analisa a mitificação do cientista. Nesse sentido, o autor destaca quatro processos que contribuem para a construção equivocada da história científica:
- 1. Monumentalização: caracterizado pela supressão de características indesejadas do sujeito responsável pela pesquisa científica, como a possibilidade de erro; associada a supervalorização de conquistas, bem como o enaltecimento das atividades em momentos individuais em detrimento dos contextos históricos e coletivos do labor científico. Desse modo o público alvo tem a tendência de enxergar o personagem como uma espécie de heroi.
- 2. Idealização: baseada no ofuscamento das características dos personagens e na emergência dos elementos extremos. Nessa categoria os detalhes são tidos como menos importantes e, por sua vez, suprimidos ou 'nivelados' em prol de uma trama simplificada. A simplificação da narrativa reduz 'as múltiplas linhas de pensamento e ação que caracterizam a teia da história são reduzidas a uma simples linha do tempo' (ALLCHIN, 2003, p. 344).
- 3. Drama Afetivo: consiste numa técnica narrativa cujo único propósito é entreter e persuadir. Os autores podem incrementar, modificar e/ou dramatizar as situações para que estas se tornem memoráveis. Allchin (2003, p. 345) lista os seguintes dispositivos da retórica utilizados neste processo: a adrenalina no momento da descoberta; reivindicações; chance da surpresa; a recompensa da integridade (lealdade às evidências, resistências ao prejuízo social); vergonha; ironia trágica.
- 4. Narrativa explicativa e justificativa: Este elemento se baseia na premissa de que a história da ciência se desenrola independentemente das variáveis, resultando então num produto que, para nós, é uma nova teoria ou descoberta. As características deste processo são: todos os experimentos são bem projetados e a prova de erros; interpretar evidências não é um problema, elas são conduzidas a respostas simples do tipo sim ou não; as conquistas dependem de um intelecto superior; a ciência encaminha para a verdade absoluta vedada de erros.
## Como analisar Hawking e as teorias de tudo?
- O primeiro filme analisado foi 'A história de Stephen Hawking' (MARTIN, 2004). Este longa-metragem foi produzido pela empresa inglesa BBC, com o intuito de divulgar a passagem de Stephen Hawking pela Universidade de Cambridge. O filme, que retrata a passagem do físico pela Universidade de Cambridge durante o processo de doutoramento, foi baseado em relatos reais e documentados, embora algumas cenas foram inventadas para conseguir unir os eventos da história do Cosmólogo.
- O segundo, 'A teoria de tudo' (MARSH, 2014), foi produzido pela Universal Studios. Com o intuito de retratar parte da vida de Hawking, o longa foi baseado no livro que sua primeira esposa, Jane, escreveu - Travelling to infinity: My life with Stephen. Embora baseado neste livro, o filme foi produzido por uma empresa na qual uma das finalidades é ganhar prêmios, nesse sentido reconhecemos que a obra contém elementos incluídos devido às pressões da indústrial cultural.
As análises foram feitas a partir da separação das cenas que evidenciaram as características de mitificação do cientista, em seguida foram destacados quais processos estão presentes nestas cenas. Para a análise nos baseamos em categorias frequentes na literatura para classificar os estereótipos científicos, dentre eles: louco, gênio, atrapalhado, confuso, alienado do mundo real, etc. (BARCA, 2005).
Para a pesquisa contamos como ferramenta metodológica a análise de conteúdos dos filmes, que nos permitirá categorizar os estereótipos e mitificações do cientista presente nas obras analisadas. Segundo o trabalho de Penafria (2009), a análise de conteúdo quando aplicada para a investigação de obras cinematográficas consiste em distinguir o tema central do filme, e a partir dele realizar as decomposições tendo em conta o que o filme diz sobre o tema.
Conduzidos por essa orientação metodológica analisamos a dinâmica narrativa, os pontos de vista expressos no filme e as cenas principais. Para a análise, seguimos o seguinte percurso: 1. análises das cenas, com base a Teoria das Representações Sociais visando identificar os estereótipos presentes nos filmes; 2. análise da obra de acordo com as categorias de Allchin - entendemos que as categorias devem ser utilizadas somente para a análise da obra em sua totalidade, uma vez que as cenas isoladas podem subverter determinados sentidos relacionados à mitificação do cientista.
## A história de Stephen Hawking
- O filme 'A história de Stephen Hawking' tem início em uma festa de aniversário de Stephen, no qual sua futura primeira esposa, Jane Wilde, está
presente. Podemos perceber que o físico está inserido num evento bem diferente dos estereótipos clássicos de cientistas, que destaca estes sujeitos como antissociais e introvertidos (BARCA, 2005). Ressaltamos, porém, que Stephen é apresentado pelo filme como representante e mantenedor do discurso científico. Da mesma forma, durante a sua primeira ida ao médico, que futuramente diagnosticaria a sua doença, o personagem não é capaz de manter um discurso longo que não acabe retomando à ciência.
Aos 37 minutos, após assistirem uma entrevista com Hoyle (cosmólogo da época), Stephen e Dennis Sciama, seu orientador, estão discutindo possíveis temas para a sua pesquisa e falam sobre a teoria do Estado Estacionário. Embora ela estivesse sendo amplamente aceita pela comunidade acadêmica, Stephen não concordava e quando o autor da teoria ouve isso, acaba ridicularizando o cosmólogo alegando que a Teoria do Big Bang seria algo dos desenhos animados. Podemos perceber como o filme representa a arrogância de ambos os cientistas, uma vez que ao invés de utilizarem de argumentos físicos e matemáticos para debaterem a validade, ou não, de tal teoria, utilizam de argumentos sem bases científicas, como por exemplo a aceitação do Papa pela Teoria do Big Bang. Consideramos que a arrogância também é uma caracterítica de representações clássicas do cientista.
Aos 40 minutos de filme, Stephen é novamente imerso em um almoço, no qual ele deve apenas tratar sobre ciência. É durante esta refeição que ele, inesperadamente descobre o equívoco da teoria que explicava a origem e o funcionamento do universo de Hoyle, Estado Estacionário. Aos 45 minutos, Stephen é retratado, investigando o trabalho do cosmólogo, a fim de encontrar imprecisões que possam fundamentar a sua pesquisa, este processo, no entanto, dura apenas uma noite. Esta representação iria confirmar o estereótipo de que cientistas são gênios.
Logo em seguida, o cientista participa de uma palestra sobre o artigo que estava verificando. Após a apresentação, ele faz uma crítica dizendo que a matemática do trabalho de Hoyle estava errada, o que implicaria em erros científicos. Podemos ver que apesar dos fundamentos, a crítica é feita de modo arrogante, evidenciando que o cientista detém a verdade e poder.
Aos 63 minutos, vemos uma nova representação de Halwking. Durante uma noite em um bar de Jazz, o cientista tem um surto no qual menospreza outros conceitos científicos que diferem daquele que considera importante ou relevante para a sua pesquisa. Feito isso, sai e vai dançar sozinho, abandonando sua esposa e seu amigo. Esta representação não é incomum, cientista louco.
## A teoria de tudo
- O filme "A teoria de tudo" retrata um período mais longo da vida do cosmólogo - desde sua passagem pela Universidade de Cambridge até a rejeição do título de Cavaleiro concedido pela Rainha Elizabeth.
- O longa-metragem começa com uma festa da Universidade de Cambridge, a primeira fala da amiga de Jane Wilde demonstra o estereótipo mais comum dos cientistas: 'Eu conheço todos aqui... Brilhante! Minha nossa! Cientistas. Não precisamos ficar muito tempo, parece chato. Maçantes'; de que são chatos e entediantes. Stephen, entretanto, é representado rodeado de amigos, isto é sociável, o que rompe com a representação tradicional dos cientistas. A ideia de se ver um
cientista que quebrasse com os estereótipos já instaurados na sociedade é deixada de lado, quando aos 9 minutos, o seu colega de quarto Brian lembra o protagonista que ele deveria realizar um exercício que continha 'Dez perguntas impossíveis'. Em algumas horas, Stephen responde 9 delas, enquanto seus colegas de turma não responderam uma sequer em uma semana, trazendo então o primeiro sinal de que Hawking seria representado como um gênio.
Quando o filme volta a tratar sobre a carreira do cosmólogo - aos 21 minutos, este se vê numa palestra do matemático Robert Penrose, que falava sobre a primeira Teoria de Buracos Negros. Logo ao fim dessa palestra, o físico descobre o seu tema de doutorado, num momento em que estava completamente perdido e prestes a ser expulso do programa de doutorado da Universidade. Ao discutir sua ideia com o seu futuro orientador, Stephen é orientado a desenvolver a matemática. Tal procedimento é realizado em apenas uma noite de trabalho, fato que evidencia a representação de Hawking como alguém que não erra, um cientista perfeito e genial.
Após descobrir a sua doença, Stephen é representado tendo surtos na tentativa de afastar as pessoas que o querem perto, trazendo, assim pela primeira vez a ideia do cientista solitário que não precisa de ajuda.
Mesmo com o avanço da sua doença, Stephen nunca desistiu de lutar e de se dedicar às suas pesquisas. Sua representação no filme é frequentemente relacionada a de um gênio. Aos 48 minutos, Stephen, tenta vestir uma blusa sozinho e ela se prende em sua cabeça possibilitando que ele veja apenas a sua lareira. A partir da visão do fogo, ele tem uma ideia que futuramente seria comprovada: a Radiação Hawking. Vemos novamente o estereótipo de genialidade.
Logo após, durante a apresentação da sua nova teoria, Stephen é representado sendo arrogante ao zombar de cientistas que discordaram da sua ideia. Em contrapartida, é novamente idolatrado quando um dos grandes nomes do estudo dos buracos negros Isaak Khalatnikov o reconhece na frente de inúmeros outros cientistas. A partir desse momento, o filme foca na luta do físico contra a sua doença, explorando o lado familiar e o apoio dos seus amigos. Pouco se fala sobre a rotina de trabalho que ele tinha, mas sempre se exalta os seus feitos.
- O desfecho do filme se dá aos 103 minutos, quando Stephen conta para Jane que iria para os Estados Unidos para receber 'mais um prêmio'. Ao utilizar esta expressão ele se mostra novamente arrogante, reforçando o estereótipo de que cientistas bem-sucedidos e que devem mesmo ser reconhecidos pela sua grandeza.
## Mitificação do cientista
Em ambas as produções, Stephen Hawking é frequentemente exaltado. Embora não questionamos a capacidade intelectual do cientista, temos que frisar que nem tudo que se passa na tela é real. É evidente a construção de um herói a partir da mitificação do cientista, que se baseia em estereótipos usados pelo cinema. Nas obras analisadas Hawking é idealizado como o cientista perfeito, que não erra e faz suas descobertas graças a sua genialidade.
Classificamos a primeira obra, 'A história de Stephen Hawking' como predominantemente baseado na Monumentalização. O filme mantém em segundo plano as características sociais, filosóficas, garantindo ao espectador a ideia de que a ciência é produto de gênios e que estes não precisam se esforçar para alcançar seus objetivos. Além disso, as características indesejadas de Stephen são
suprimidas, ao mesmo tempo em que seus grandes feitos são exaltados. Um exemplo da Monumentalização de Hawking: o cosmólogo encontra falhas na teoria de Hoyle em uma noite, processo em que não são produzidos equivocos e evidencia a genialidade de Hawking, transformando-o em uma espécie de heroi.
Também conseguimos distinguir traços de Narrativas Explicativas e Justificativas, quando o enredo é irrelevante para o avanço da ciência, os experimentos são a prova de erros, as descobertas dependem única e meramente de um intelecto superior. Nossas evidencias se baseiam no fato de que Hawking desenvolveu seu doutorado a partir do primeiro tema escolhido, sem qualquer escorregão ou desvio no seu caminho. Embora ele tenha demorado para definir o tema da sua tese, assim que este foi definido, não houveram complicações que o fizesse mudar de rumo ou se adaptar para algo inexperado.
- O segundo filme nós classificamos, também, como predominantemente Monumentalista. Podemos verificar vários pontos em que isso acontece, como por exemplo quando Stephen, logo no início do filme resolve 9 das 10 'Questões impossíveis' do Sciamma em pouquíssimo tempo. Além disso, após defender sua tese de doutorado, seus amigos ficam vangloriando como Hawking não precisa estudar, nem se dedicar tanto quanto as outras pessoas, porque ele é um gênio.
Percebemos também, muitos aspectos de Drama Afetivo, técnica narrativa que cria cenas para entreter e persuadir o público, independentemente da fidedignidade entre a história real do cientista e sua representação, por exemplo na descoberta da doença. Quando comparamos os filmes, podemos perceber como que em 'A teoria de tudo' há a produção de um espetáculo para que ele descubra a doença. No primeiro filme, Stephen descobre sua doença logo após se deitar para observar as estrelas com sua futura primeira esposa Jane Wilde, pois não consegue se levantar. No segundo filme, no entanto, Stephen estava no meio de um processo de desenvolvimento positivo da sua tese, e quando ele estava saindo da Universidade ele tropeça no meio de um pátio cheio de pessoas.
A categoria idealização não possui grande representatividade nos filmes, visto que as características consideradas positivas não são suprimidas, mas evidenciadas. Ademais, por se tratar de biografias existe a tendência de focar na história do sujeito, fato que pode parecer com uma simplificação da trama. Entretanto, tal característica é própria de biografias.
## Considerações finais
Este artigo teve o objetivo identificar essas imagens deturpadas que acabam caracterizando o que Douglas Allchin (2003) chama de Mitificação do cientista, analisamos dois filmes de caráter biográfico sobre o cosmólogo Stephen Hawking. As análises se basearam na análise de conteúdo, que contou com: análise descritiva das cenas e análise das mitificações do cientista.
Na análise descritiva foram identificados diversos estereótipos do cientista, dentre eles os mais comuns: louco, arrogante, solitário, genial, metódico e mantenedor do discurso científico. A partir dessa demarcação, pudemos encontrar as formas com que os filmes mitificaram os cientistas.
Ressaltamos que em ambos filmes a mitificação de Hawking baseia-se na monumentalização do cientista, que determina a supressão das características indesejadas e contextos que são considerados secundários. Além disso, o filme 'A
história de Stephen Hawking' contem elementos de narrativas explicativas e justificada que denotam a irrelevância das condições concretas de produção científica para o avanço da Ciência, uma vez que o principal motor da Ciência é o intelecto superior. Em seu turno, o filme 'A teoria de tudo' contem elementos de Drama Afetivo, que tem como objetivo, entreter e persuadir o espectador.
Embora as biografias tenham o intuito de descrever a vida de determinada pessoa, os resultados apontam que as obras analisadas mitificaram e estereotiparam Stephen Hawking, fato que contribui para a produção de uma imagem destorcida do cientista e, consequentemente, da Ciência.
A partir desta pesquisa é possível pensar em futuros desdobramentos, como a análise de outras obras, de outros gêneros como documentários, ficção científica e seriados para tentar identificar os processos de mitificação utilizados nessas obras.
Por fim, ressaltamos que nem mesmo as biografias estão livres da estereotipação do cientista. Uma das formas de lutar contra essa mitificação está na formação para a interpretação crítica das obras cinematográficas, que pode ser realizada na educação científica. Para tanto, o uso de biografias no contexto da educação formal deveria contemplar: os contextos históricos e culturais do cientista; as condições para a produção científica; os valores atribuidos aos cientistas presentes no imaginário social; bem como, os interesses que permeiam as produções cinematográficas.
## Referências
ALVES-MAZZOTI, A. J. Representações sociais: aspectos teóricos e aplicações à Educação . Revista Múltiplas Leituras , 1(1), 18-43. 2008.
ALLCHIN, D. Scientific myth-conceptions. Science Education , 87(3), 329-351, 2003.
BARCA, L. As múltiplas imagens do cientista no cinema. Comunicação & Educação , X(1). 2005.
CRUSOÉ, N. A teoria das representações sociais em Moscovici. e sua importância para a pesquisa em educação. Aprender - Caderno de Filosofia e Psicologia da Educação , 2, 105-114. 2004.
LIMA, G. S.; GIORDAN, M. Entre o Esclarecimento e a Indústria Cultural: reflexões sobre a divulgação do conhecimento científico. In: TAVARES, D.; REZENDE, R. (Org.). Mídias e Divulgação Científica . 1ed.Rio de Janeiro: Ciências e Cognição, 2014, p. 12-32.
MARSH, J. A teoria de tudo . Produção: Antony McCarten. Universal Studios, Reino Unido. 2014. 1 DVD
MARTIN, P. A história de Stephen Hawking . Produção: Jessica Pope. BBC Two. Reino Unido. 2004. 1 DVD
PENAFRIA, M. Análise de Filmes - conceitos e metodologia(s) . VI Congresso SOPCOM. 2009.
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