Analisando as fontes de dados históricos das pesquisas na interface entre história da ciência e ensino de ciências: um estudo de caso
Victor Alexandre Alves De Carvalho, Valéria Silva Dias
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVII
- Ano
- 2018
- Data
- 28/08/2018
- Linha de pesquisa
- Co-08 Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## ANALISANDO AS FONTES DE DADOS HISTÓRICOS DAS PESQUISAS NA INTERFACE ENTRE HISTÓRIA DA CIÊNCIA E ENSINO DE CIÊNCIAS: UM ESTUDO DE CASO
## ANALYZING HISTORICAL DATA SOURCES OF THE RESEARCH ABOUT INTERFACE BETWEEN SCIENTE HISTORY AND SCIENCE TEACHING: A CASE STUDY
Victor Alexandre Alves de Carvalho 1 , Valéria Silva Dias 2
1 Programa Interunidades em Ensino de Ciências, v.carvalho@usp.br
2 Universidade de São Paulo, mfedias@uol.com.br
## Resumo
Este trabalho representa uma parte de uma pesquisa maior em andamento, a qual visa discutir alguns aspectos relacionados às fontes de dados históricos na produção de trabalhos na interface entre história da ciência e ensino de ciências num programa de pós-graduação em ensino de ciências. Em específico, buscamos entender quais são essas fontes, discutir o acesso a elas, categorizá-las em primárias e secundárias e os papéis que elas assumem na produção do programa escolhido. Esse trabalho, por sua vez, visa apresentar a metodologia de pesquisa utilizada conjuntamente com uma análise baseada nos gêneros discursivos, que permite o processo de construção textual das fontes analisadas, pressupondo a associação entre linguagem e atividade humana. Os resultados preliminares mostram tendências de utilização de determinadas fontes, além da valorização de certos aspectos em convergência com uma opção historiográfica feita pelo autor. Ademais, o referencial teórico utilizado permite a compreensão das especificidades de cada fonte e o papel desempenhado na escrita historiográfica.
Palavras-chave : História da ciência; ensino; gêneros de discurso.
## Abstract
This work represents a minor part inside a major research in progress, which wants to discuss some aspects related to historical data sources in production of works at the interface between history of science in a post-graduate program about science teaching. We aims to understand what these sources are; we also want to discuss the access to them and to categorize in primary or secondary and the roles that they assume in the production of chosen program. This work, specifically, aims to show the research methodology together with a speech genre analysis based, which allows understanding the process of textual structure of sources. We presuppose an association between language and human acts. The preliminary results show some tendencies of use of some sources, besides the valorization of some aspects, converging with a historiographical option made by the author. The
theoretical framework also allows the comprehension of specificities of each source and its role in historiographical writing.
Keywords : History of science, teaching, speech genres.
## Introdução
Este trabalho se localiza numa pesquisa maior ainda em andamento que visa discutir a presença de fontes de dados históricos nos trabalhos de história da ciência (HC) produzido no âmbito do Programa Interunidades em Ensino de Ciências da Universidade de São Paulo (PIEC/USP). A análise desse trabalho objetiva explicitar quais são as fontes utilizadas, categorizá-las em primárias e secundárias, discutir o acesso às fontes e discutir o uso feito delas no caso proposto. A seleção dessa temática se baseia na importância que a HC tem ao longo da institucionalização da área, mediante constante presença nos programas de pósgraduação, nos periódicos e nos eventos da área (DIAS, 2008).
A análise da produção desse programa revela, até agosto de 2017, a defesa de 600 teses e dissertações, das quais 75 são trabalhos que fazem essa interface entre HC e ensino de ciências (EC).
Como estudo de caso, então, esse trabalho fará a análise de um dos dados que compõe o conjunto total das teses e dissertações, a fim de apresentar a metodologia de análise em conjunto com um referencial teórico proposto (gêneros dos discursos).
A opção por olhar questões relacionadas às fontes em HC, nesse contexto, leva por alguns caminhos onde o entendimento do uso desses materiais na escrita historiográfica se faz importante: o que são as fontes de dados em história da ciência? Para que servem e como podem ser utilizadas?
De modo geral, as fontes em história da ciência são formadas pelos trabalhos utilizados pelos historiadores na compreensão e escrita dos fatos históricos. O contato com esses materiais permitem, ao historiador, uma certa multiplicidade de interpretações, a partir da qual a escrita historiográfica é feita.
A depender do contexto de produção de um determinado material, é possível a classificação de tal fonte como 'primária' ou 'secundária' (KRAGH, 1989): num estudo sobre algum cientista, as fontes primárias são aqueles trabalhos consultados produzidos por esse cientista ou por outros cientistas com os quais o referido cientista manteve contato; as fontes secundárias se referem aos trabalhos historiográficos já produzidos sobre algum episódio.
Tais materiais existem cercados de um contexto e são transformados em fontes históricas pelo trabalho do historiador (KRAGH, 1989). Assim, uma multiplicidade muito grande de tipos de materiais podem ser consultados na composição historiográfica, a depender do enfoque do historiador e de suas intenções. Kragh (1989) exemplifica que essas fontes podem variar desde artigos e manuais técnicos (que compõe textos para análise) até formas não textuais de fontes históricas, como bibliotecas, imagens e várias outras.
De forma semelhante, o autor em história da ciência também tem um posicionamento próprio nessa cadeia comunicativa que são as fontes. Batista, Drummond e Freitas (2015) indicam que, para a escola positivista, as fontes forneciam a exposição dos fatos, sendo tomadas, assim, como fonte da verdade histórica. Uma interpretação possível para essa relação do historiador com as fontes de dados é a possibilidade de uma interpretação , em que o historiador assume uma atitude responsiva ativa, tal como os outros elos da corrente.
Além da análise da construção historiográfica, na qual se inclui a caracterização das fontes de dados históricos, olharemos para os gêneros discursivos presentes nas fontes textuais. A classificação por gêneros discursivos, tal como proposta por Bakhtin, visa o agrupamento de tipos relativamente estáveis de enunciados, estudando sua formação a partir da construção composicional, do estilo e do conteúdo temático.
- A escolha por esse referencial teórico nos permite compreender a construção desses textos. A possibilidade principal contida nessa escolha é a da vinculação desses gêneros discursivos às esferas de atividades. A nosso ver, é uma maneira de se entender cada composição textual vinculada a condições específicas nas quais o autor está imerso.
- O trabalho escolhido para a análise foi obtido aleatoriamente dentre o conjunto de dados previamente selecionados na pesquisa em andamento. Esse conjunto mais amplo de dados se referem àquelas pesquisas que promovem a interface entre história da ciência e ensino de ciências no PIEC/USP. Desse modo, o trabalho a ser analisado é de Luiz (2015), acerca de aspectos da linguagem dos pensamentos narrativo e matemático na gestação da Teoria da Relatividade Geral (TRG). O relato historiográfico aparece no capítulo 3, cujas fontes serão analisadas.
## A construção historiográfica
Em termos historiográficos, o autor revela uma intenção predominantemente internalista. Diferente de um ponto de vista externalista , que prioriza as condições 'não-intelectuais' de desenvolvimento da ciência, a predominância do ponto de vista internalista valoriza muito mais o desenvolvimento e evolução dos conceitos. Dessa forma, o autor cita esse aspecto de seu trabalho explicitamente:
Nossa pesquisa tomará como enfoque o interesse por características mais internas sobre o funcionamento da ciência, em particular, como o pensamento de um cientista se consolida para interpretar os fenômenos da Natureza. Tomaremos como objeto de análise a gestação de ideias da TRG de Einstein. (1)
Esse trecho revela que o autor fez uma opção historiográfica visando a compreensão do desenvolvimento de um conceito, analisando, posteriormente, diversos conceitos internos relacionados com a teoria da relatividade geral (como, por exemplo, o espaço e a geometria). Por causa dessa mesma opção, pouco se diz sobre o contexto externo (por exemplo, as condições econômicas e sociais) do desenvolvimento dessa teoria.
Além dessa discussão sobre o objetivo da abordagem internalista, há também trechos em que o autor centraliza o relato em um personagem específico, explicando o uso de fontes primárias e secundárias:
- [...] pretendemos apresentar os trabalhos analisados: artigos, cartas e trabalhos de divulgação de Einstein (que contêm reflexões epistemológicas sobre sua própria produção (2)
Tomaremos, essencialmente, textos originais de Einstein como fonte a nossa investigação (principalmente os artigos e cartas, mas também alguns textos de divulgação). Eventualmente, trabalhos de comentadores da TRG e da obra de Einstein, de maneira geral, serão utilizados (3)
A análise será embasada, sobretudo, em artigos acadêmicos de Einstein (4)
Dessa forma, ao centralizar a análise em um determinado personagem (no caso, Einstein), a opção feita pelo autor de buscar trabalhos criados por ele se justifica pela intenção de entender a evolução de seu pensamento. As fontes primárias, nesse trabalho, desempenham papel importante na aproximação com a gestação da TRG.
Há uma lista de fontes primárias utilizadas, às quais o autor recorre constantemente durante o texto. Uma delas é a autobiografia de Einstein, a qual o autor consultou para uma colocação acerca do posicionamento filosófico do cientista, além de questões referentes à trajetória pessoal de Einstein.
Em uma passagem de suas notas autobiográficas, Einstein comenta sobre sua influência filosófica para a formulação da TRE: 'O tipo de raciocínio crítico necessário para a descoberta desse pronto central [...] foi, no meu caso, enriquecido especialmente com a leitura das obras filosóficas de David Hume e Ernst Mach'. (5)
- O entendimento de que essas teorias [mecânica, eletrodinâmica e termodinâmica, além de suas intersecções] apresentam incongruências coincide com a busca pela resposta da primeira questão apresentada por Einstein, sobre suas influências na busca da TER [Teoria da Relatividade Restrita] . De acordo com ele próprio, em suas notas autobiográficas, isso teve início com um experimento de pensamento elaborado ainda em sua adolescência. (6)
Além da autobiografia de Einstein, há uma citação importante, referente a uma palestra proferida por esse cientista em Kyoto. Apesar da fala estar localizada numa fonte secundária, o autor optou por explicitar a fala específica do cientista em questão, identificando a fala como uma palestra (para tanto, utiliza-se da terminologia apud ).
- O desenvolvimento do primeiro princípio tem relação próxima com o desenvolvimento da física do século XVIII e XIX, particularmente o problema da óptica dos corpos em movimento. Esta influência foi declarada por Einstein em uma palestra em Kyoto, em 1922. (7)
A fala de Einstein em Quioto, em 1922, demonstra as dificuldades por ele enfrentadas, no que diz respeito à validade da Geometria Euclidiana, e a ajuda empreendida por seu amigo matemático (8)
Um caso semelhante é referente ao artigo científico de Einstein publicado no periódico alemão Jahrbuch der Radioaktivität und Elektronik em 1907. Segundo o autor, o acesso ao texto específico não foi possível. Dessa forma, uma fonte secundária foi a responsável por permitir que o autor pudesse, ao menos em parte, consultar o texto original:
Não tivemos acesso direto a este trabalho. Consideramo-lo a partir de importantes fontes secundárias, como John Stachel e Abraham Pais. (9)
- O físico alemão não vai além destas considerações em um primeiro momento. Avalia que o Jahrbuch não é adequado para uma abordagem
completa das questões que lhe surgiram, especialmente por se tratar de um trabalho de revisão da TRE. (10)
Esse artigo científico, de modo geral, apresenta uma síntese dos resultados de Einstein acerca da Teoria da Relatividade Especial.
A seguir, o autor se utiliza de mais algumas fontes primárias. Uma delas é uma carta de Einstein para Sommerfeld (escrita em 1909), localizada numa fonte secundária. Outra, um artigo científico publicado por Einstein em 1911, através da qual o autor cita termos como 'previsão', além de tecnicidades específicas da física:
A primeira evidência que se conhece sobre a necessidade e importância de tratar os referenciais em rotação na TRG encontra-se em uma carta de Einstein a Arnold Sommerfeld, datada de 29 de setembro de 1909. (11)
A previsão da deflexão do raio de Luz próximo à região do campo gravitacional do sol, no artigo de 1911, foi de 0,83 segundo de arco (12)
Como já adiantado, uma das coisas que chama a atenção neste artigo de 1911 é que Einstein propõe uma maneira de fazer experiências que poderiam testar a teoria que estava sendo desenvolvida: observar a luz de uma estrela que passa rasante ao sol em direção à terra (13)
Finalmente, o autor cita duas obras mais recentes, ambas publicadas por Einstein, sendo que as duas são artigos científicos: um publicado em 1912 na revista Annalen der Physik; outro, publicado em 1916. De modo geral, as duas também captam aspectos específicos da física em questão.
Somente em 1912 Einstein publicou oficialmente (artigo acadêmico) a ideia do disco rígido em rotação, no artigo The Speed of Light and the Statics of the Gravitational Field, publicado na revista Annalen der Physik (14)
Existem muitas referências ao disco rígido em rotação nos artigos de Einstein, bem como em suas correspondências, em especial no artigo de revisão de 1916, em que Einstein apresentou a versão final da TRG. (15)
A última fonte primária utilizada por esse autor na construção desse relato em específico se refere a um trabalho de Einstein de divulgação científica junto com Infeld, publicada em 1938.
De modo geral, o autor se utiliza também de uma diversidade de fontes secundárias, que desempenham um papel claro na narrativa histórica. Uma delas expõe alguns materiais produzidos por Einstein cujo acesso não possível pelo autor (a palestra em Kyoto e o artigo de 1907).
Seguindo a tendência internalista do relato do autor, as fontes secundárias também desempenham um papel importante de estruturação do pensamento historiográfico, já que esse tipo de material se constitui de outros relatos. Dessa forma, trazem diversos aspectos mais amplos que o autor não pôde apreender diretamente das fontes primárias:
Jürge Renn [...] e John Stachel [...] referem-se ao desenvolvimento da TRG como um drama em três atos. Esta analogia é baseada em uma lista, escrita em 1920, em que Einstein aponta suas ideias científicas mais importantes. [...] Stachel [...] descreve essas três ideias como 'três atos de um drama clássico' (16)
Algumas vezes esse caráter mais amplo se manifesta também no agrupamento de certos formalismos e conceitos específicos presentes no pensamento de Einstein:
De acordo com Pais [...], Einstein já tinha em mente, desde 1912 [...] que precisava da teoria das invariantes e covariantes associada ao elemento diferencial de linha ds²=gµνdx µ dx ν (17)
De modo geral, conclui-se, nessa primeira parte, que o autor utilizou fontes destinadas ao fim de construir um relato específico internalista, se valendo de trechos e construções textuais que valorizassem a exposição dos conteúdos internos e técnicos. Há uma mudança interessante do modo como tais aspectos mais formais aparecem no momento em que a construção já estava em seu final, expondo, assim, o corpo teórico mais semelhante com o que temos hoje.
## Os gêneros discursivos de Bakhtin
Nota-se uma tendência do uso de fontes textuais no trabalho analisado. Nesta última sessão, analisaremos a construção dessas fontes sob a ótica dos gêneros discursivos de Bakhtin. Partiremos do pressuposto básico de que há uma associação entre o uso da linguagem e as atividades humanas (BAKHTIN, 2016).
- O uso da língua se faz por meio dos vários enunciados, que compõe a unidade básica da comunicação. Se, por um lado, há uma variedade desses enunciados, eles podem ser agrupados em tipos relativamente estáveis, que constituem os gêneros discursivos: cada enunciação da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, os quais denominados gêneros do discurso (BAKHTIN, 2016).
Segundo Bakhtin, o uso da linguagem através dos enunciados se dá, principalmente, por três características textuais que são reflexos da especificidade de cada campo de atividade humana - a forma textual depende das condições específicas e das finalidades de cada campo.
Segundo Bakhtin, essas três características das construções textuais são o conteúdo temático, o estilo da linguagem e a construção composicional. De modo geral, segundo Fioran (2006), o conteúdo temático se refere ao domínio sentido da construção textual, enquanto o estilo se refere às opções linguísticas (ao 'modo de escrita') e a construção composicional se relaciona com a organização textual.
A nossa análise visa, agora, compreender esses aspectos da composição textuais das fontes utilizadas por Luiz (2015), entendendo quais aspectos permitiram a utilização delas como fontes de dados históricos.
## Análise das fontes
Sucintamente, as fontes utilizadas por Luiz (2015) são:
- O artigo 'Os fundamentos da Teoria da Relatividade Geral', publicado por Einstein em 1916 na Annalen der Physics;
- A autobiografia de Einstein, publicada em 1949 ('Notas autobiográficas').
- A carta de Einstein enviada a Sommerfeld em 1909 ('To Arnold Sommerfeld')
- O artigo 'Sobre a Influência da Gravidade na Propagação da Luz', publicado por Einstein em 1911;
- O artigo publicado em 1912;
- O livro de divulgação publicado em 1938.
## Fontes secundárias textuais diversas.
De acordo com a tendência historiográfica internalista do autor, o uso de artigos é mais frequente em relação às outras fontes primárias, uma vez que, através deles, é possível a compreensão dos conceitos internos por meio dos formalismos matemáticos e conceitos físicos mais específicos. Isso se manifesta, por exemplo, nas referências (14) e (15), onde há a citação sobre o disco rígido em rotação. No artigo de 1916, então, Einstein apresenta a versão final de sua TRG, como um corpo de uma teoria já completa. No Jahrbuch, em 1907, são abordados aspectos específicos da TRE em forma de um artigo de revisão (referência 10). Além disso, os artigos também são citados, ainda que em menor frequência para esse fim em específico, para considerações metodológicas do trabalho de Einstein (referência 13).
Dentro de uma perspectiva discursiva, os artigos científicos utilizados como fontes primárias apresentam um conteúdo temático que expõe as teorias físicas (TRE e TRG). Em especial no artigo de 1916 e no de 1907 (que salientamos o acesso através de uma fonte secundária), o autor estuda as teorias como um corpo completo, captando os principais elementos a fim de construir o relato historiográfico baseado na evolução das ideias. Os artigos científicos, em geral, apresentam um estilo baseado no formalismo matemático (principalmente no uso de letras e símbolos para a representação de entidades físicas) - o que, se tratando da evolução das ideias , é um aspecto importante para a escrita do autor, conforme a referência (12). Por último, a construção composicional dos artigos, em geral, são de texto corrido (ao que indica o autor) com breves interrupções para a exposição matemática de alguns conceitos. Pode-se dizer que, de modo geral, os artigos são utilizados para a análise específica dos conceitos físicos, algo que também acontece com a obra de divulgação citada (e o uso feito dessa obra revela aproximadamente as mesmas características de um artigo, em especial a de uma teoria já fechada e completa).
A carta que Einstein enviou para Sommerfeld apresenta questões importantes em sua utilização no relato. A primeira delas é referente à construção composicional, que apresenta uma data muito bem localizada no tempo (29 de setembro de 1909), além de identificar um remetente (Albert Einstein) e um destinatário (Arnold Sommerfeld) (referência 11). Presume-se aí um relacionamento entre os dois cientistas, uma vez que o escrito de Einstein para Sommerfeld traz uma referência a um trabalho já feito (publicado em 1907). O estilo e o conteúdo temático, nesse caso, ainda em convergência com a tendência internalista do autor, traz aspectos diretos da teoria científica, mas com a utilização de termos mais pessoais ('parece-me', 'meu', etc.).
A autobiografia de Einstein, citada das referências (5) e (6), apesar de apresentarem um conteúdo estritamente científico como tema, traz também algumas preocupações filosóficas de Einstein, como a leitura de Hume e Mach, além de breves preocupações metodológicas, como o experimento de pensamento. O estilo, novamente, traz alguns aspectos pessoais (como o uso do 'eu' em referência própria) e a construção composicional se dá, basicamente, em texto corrido. Ao perceber que o conteúdo temático se volta estritamente às questões científicas e, quando muito, filosóficas, entendemos a opção do autor por essas fontes na escrita de uma história da ciência predominantemente internalista. A nosso ver, o autor tende a utilizar as fontes como um meio de interpretação dos conteúdos científicos,
levando em consideração, em sua escolha, todo um contexto de objetivos específicos de cada tipo de fonte como, por exemplo, a especificidade de um artigo científico em relação às outras formas de escrita. Tende a utilizar, então, as fontes como um meio interpretativo, e não como revelador da verdade.
As fontes secundárias utilizadas pelo autor seguem uma tendência bastante semelhante umas às outras: o conteúdo temático é uma construção historiográfica já pronta, à qual o autor recorre para algumas ligações mais amplas já feitas (referência 16). Por outro lado, também recorre a elas quando há a necessidade de acessar algum material indisponível por outro meio, como o artigo publicado no Jahrbuch (referência 9). O estilo, além de recorrer para a focalização em um personagem e em fatos históricos (verbos se referindo ao passado e termos utilizados em uma determinada época), também incorpora as fontes citadas (como a fala de Einstein em Kyoto, refs. 7 e 8), já que as utiliza. Um último ponto é que a construção composicional, em algumas dessas fontes secundárias, apresenta algumas expressões matemáticas (como tensores e matrizes), algo que deve ser incluído na análise do estilo desses materiais (referência 17).
## Conclusão
Esse trabalho discutiu e analisou o uso das fontes de dados históricos em um trabalho envolvendo história da ciência e ensino de ciências. Baseado nos gêneros discursivos de Bakhtin, entendemos como se deu a seleção das fontes utilizadas numa perspectiva historiográfica internalista: foram escolhidas fontes e trechos de textos que valorizassem a discussão dos conceitos em diferentes épocas, aparecendo menos fontes com enfoque externo (ou seja, as condições de produção da ciência não foi levada em conta nesse trabalho).
As discussões aqui apresentadas têm grande relevância para a pesquisa em andamento, uma vez que permitiu a apresentação de uma metodologia de análise que leva em conta a concepção historiográfica do autor e, inclusive, seu objetivo com a escrita da história da ciência, levando em consideração a interface com a história da ciência e ensino de ciências.
## Referências
BAKHTIN, M. Os gêneros do discurso. 1ª ed. São Paulo: Editora 34, 2016.
DIAS, V. S. História e Filosofia da Ciência na pesquisa em Ensino de Ciências no Brasil: manutenção de um mito? 123f. Tese - Universidade Estadual de São Paulo, Bauru, 2008.
FIORIN, J. L. Introdução ao pensamento de Bakhtin. 1ª ed. São Paulo: Ática, 2006.
KRAGH, H. Introducción a la historia de la ciencia. Barcelona: Editorial Crítica, 1989.
LUIZ, D. C. R. A Complementaridade dos Pensamentos Narrativo e Matemático na Gestação da Teoria da Relatividade Geral. 138f. Dissertação de Mestrado Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015.
BATISTA, G. L. F.; DRUMMOND, J. M. H. F.; FREITAS, D. B. . Fontes primárias no ensino de física: considerações e exemplos de propostas. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , v. 32, p. 663-702, 2015
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