SENTIDOS DE AULA DE FÍSICA PRESENTES NO DISCURSO DE ALUNOS DE PRIMEIRA SÉRIE DO ENSINO MÉDIO E SUA RELAÇÃO COM A METODOLOGIA DE AULA
Dayvid Bruno Fernandes Da Silva, Fernanda Cátia Bozelli
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVII
- Ano
- 2018
- Data
- 31/08/2018
- Linha de pesquisa
- Co-30 Linguagem E Cognição No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## SENTIDOS DE AULA DE FÍSICA PRESENTES NO DISCURSO DE ALUNOS DE PRIMEIRA SÉRIE DO ENSINO MÉDIO E SUA RELAÇÃO COM A METODOLOGIA DE AULA
## SENSES OF PHYSICS CLASS PRESENT IN FRESHMAN STUDENTS' DISCOURSE AND ITS RELATIONS WITH CLASS METHODOLOGY
1 Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Programa de Pós Graduação Multiunidades em Ensino de Ciências e Matemática, Campinas, São Paulo, Brasil, f\_dayvid@yahoo.com.
2 Universidade Estadual Paulista (UNESP), Faculdade de Engenharia, Departamento de Física e Química, Ilha Solteira, São Paulo, Brasil, fernandaboz@gmail.com.
## Resumo
A experiência de observação de aulas de Física em uma escola de Ensino Médio do interior do estado de São Paulo indicou que estas aulas seguiam modelos que primavam principalmente pelo conteudismo e pela memorização de equações, regras e leis da Física. Dessa forma, este trabalho teve por objetivo questionar quais eram os sentidos de aula de Física presentes nos discursos dos alunos e, além disso, também nos perguntamos de que forma estes sentidos se relacionavam com as metodologias de aulas dos professores. De natureza qualitativa, a pesquisa foi realizada por meio de grupos focais com alunos de diferentes turmas de primeira série do Ensino Médio. Os grupos focais promoveram oportunidades para que os alunos debatessem sobre o tema aula de Física. O registro ocorreu por meio de gravação de áudios, que foram posteriormente transcritos para análise. A análise dos dados foi guiada pelo referencial da teoria de Análise de Discurso francesa. Os resultados evidenciaram que os sentidos de aula de Física dos alunos estão altamente relacionados à metodologia de aula utilizada pelos professores. O uso excessivo e até único de metodologias que se restringem à memorização de fórmulas e resolução mecanizada de exercícios proporciona sentidos de aula de Física restritos e/ou equivocados, o qual se distancia de um ensino voltado para a cidadania, focando habilidades e competências.
Palavras-chave : Sentidos. Metodologia. Aula de Física. Ensino Médio.
## Abstract
The experience of observing physics classes in a high school in the interior of the state of São Paulo indicated that these classes followed models mainly supported by the memorization of content, equations, rules and Physics laws. Thus, this research had as objective the questioning of what were the senses of physics classroom present in the students 'discourses and, besides, we also asked how these meanings were related to the methodologies of teachers' classes. Of a qualitative nature, the research was carried out through focus groups with students from different high school classes. The focus groups provided opportunities for students to discuss the topic of Physics class. The recording occurred by means of audio recording, which were later transcribed for analysis. Data analysis was guided by the French Discourse Analysis theory. The results pointed that the students' Physics class senses are highly related to the methodology used by the teachers. Excessive and even limited use of methodologies that are restricted to the memorization of formulas and mechanized resolution of exercises provides restricted and/or mistaken physics
classroom directions, which distances itself from a teaching focused on citizenship, focusing on skills and competences.
Keywords : Senses. Methodology. Physics class. High school.
## Introdução
Observando aulas de Física em turmas do Ensino Médio de uma escola estadual do interior paulista, notou-se que os alunos ocupavam uma posição passiva e tais aulas fundavam-se na memorização de conteúdos, regras, 'fórmulas' e equações. Posteriormente às observações de aulas, em intervenção didática, os alunos foram expostos a metodologias de aula que utilizavam diferentes tipos de textos, como histórias em quadrinhos e poesias. Todavia, os alunos foram relutantes a essas aulas, alegando que se tratavam de aulas de Língua Portuguesa e não de Física.
A partir disso, levantamos alguns questionamentos sobre as representações de aula de Física dos alunos. As Orientações Educacionais Complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN+) (BRASIL, 2002) elencam competências básicas, que não se restringem a resoluções mecanizadas de exercícios e que são fundamentais de serem desenvolvidas nas aulas de Física, devido à sua importância para a vida dos alunos. Somando-se à isso, este mesmo documento aconselha que haja uma integração cultural e social nas aulas, com o objetivo de desenvolver competências e habilidades para o exercício da cidadania, uma vez que, a escola também é local do desenvolvimento de valores éticos e humanistas (JUNIOR, 2002). Lemke (1990) concorda, nesse mesmo sentido, que a sala de aula não é isolada das atitudes, valores e interesses sociais que estão presentes na sociedade. Além disso, usando o termo 'falar ciência' como uma habilidade a ser desenvolvida nas aulas de cunho científico, explica que, para que os alunos possam se apropriar dos conceitos ensinados em nessas aulas, eles precisam falar, ler e escrever sobre os conceitos científicos em diferentes contextos.
Ricardo e Freire (2007) apontam que, devido a falsas prioridades, divergências de interesses, falta de material didático e deficiência na formação de professores, esse tipo de abordagem nas aulas de Física acaba sendo desprestigiado e não compreendido. Ainda, no que se refere às metodologias de aula no Ensino Médio, os mesmos autores indicam que a maioria dos alunos, tidos como receptores de conhecimentos, não consegue perceber diferenças significativas entre Física e Matemática.
Com base no que foi apresentado, afirma-se que, os entendimentos sobre aula de Física, presentes nos documentos oficiais e nas salas de aula, divergem. Isso se dá pois,
[...] se uma palavra, expressão, proposição podem receber sentidos diferentes [...] conforme refiram a tal ou tal formação discursiva, [...] elas não têm um sentido que lhes seria 'próprio' enquanto ligado à sua literalidade, mas seu sentido se constitui em cada formação discursiva, nas relações que entretêm com outras palavras, expressões proposições da mesma formação discursiva. (PECHÊUX, 1975 apud BRANDÃO, 2002, p. 145).
A teoria da Análise de Discurso (AD) francesa, iniciada por Michel Pêcheux, concebe o discurso como sendo a linguagem produzindo significados entre sujeitos, isto é, os sentidos (ORLANDI, 1999). Lemke (1990) enfatiza que a metodologia de aula de uma ciência afeta diretamente em como os alunos percebem essa ciência e
sua aula. Isto quer dizer que, a metodologia de aula produz efeitos diretamente nos sentidos de aula de Física nos discursos dos alunos.
Assim, levantamos o seguinte questionamento: Quais os sentidos de aula de Física nos discursos de alunos do Ensino Médio de uma escola estadual paulista? Foram organizados grupos focais com alunos do Ensino Médio e seus discursos foram analisados sob a égide da AD. Nos resultados obtidos, foram feitas relações com diversos aspectos da aula de Física tais como: a formação docente, a influência dos estagiários, a metodologia de aula, entre outras. Devido à extensão da pesquisa, será discutido aqui aspectos relacionados à compreensão dos sentidos produzidos pelos alunos em relação à metodologia utilizada pelo professor nas aulas de Física.
## A metodologia de aula de Física sob a perspectiva da AD
Para Orlandi (1999), o discurso se configura como a linguagem em funcionamento entre sujeitos e gerando sentidos, que são mediados pela ideologia, a qual intermedia a relação entre os sujeitos e o meio externo. Consequentemente, ainda, segundo a mesma autora, a linguagem não é transparente e nem possui sentidos literários. Os sentidos estão em função do discurso como acontecimento histórico, social e ideológico. Dessa forma, uma mesma palavra pode significar diferente em distintas situações. Nessa linha de raciocínio, um fator importante no estudo de discursos são as condições de produção, que são
[...] fundamentalmente os sujeitos e a situação. [...] Podemos considerar as condições de produção em sentido estrito e temos as circunstâncias de enunciação: é o contexto imediato. E se as considerarmos em sentido amplo, as condições de produção incluem o contexto sócio-histórico, ideológico. (p.30).
A condição de produção dos discursos dos alunos inclui a aula que está sendo desenvolvida, a metodologia, os recursos utilizados, o conteúdo abordado, o professor, os alunos, a escola de tal cidade, entre outros fatores. Ao mesmo tempo, existem regras do que pode ou não pode ser dito em um discurso, isto é, uma formação discursiva na qual se inserem os discursos dessas aulas, que incluem o interdiscurso, que é '[...] o já-dito que está na base do dizível, sustentando cada tomada de palavra. O interdiscurso disponibiliza dizeres que afetam o modo como o sujeito significa em uma situação dada.' (ORLANDI, 1999, p. 31). Assim, o que é dito em uma aula, pode ter sido dito em outros lugares e épocas por meio da paráfrase, por sujeitos que apresentam a mesma formação discursiva.
As metodologias abordadas nas aulas de Física configuram, então, condições de produção que abarcam formações discursivas diversas. Dessa forma, são inúmeras as incógnitas a serem consideradas no estudo de discursos de alunos. Nesse artigo, das noções de AD, será dada ênfase aos conceitos de condições de produção, formações discursivas, discurso e sentidos de aula de Física.
As diferentes metodologias de aula de Física também se configuram em formações discursivas e interdiscursos inseridos na condição de produção de sentidos de uma aula de Física. No que se refere ao tema metodologia de aula de Física, Nardi e Castiblanco (2014) entendem que, a Didática da Física auxilia o docente a definir a extensão do conteúdo que ensina, os objetivos, a metodologia e motivações de sua aula. É importante compreender que
Ensinar Ciências é algo mais amplo do que ensinar conceitos e teorias; dessa forma, é preciso pesquisar processos didáticos que respondam a novos objetivos de ensino, por exemplo, ensinar a interpretação de fenômenos, indo além de ensinar verdades estabelecidas. (NARDI; CASTIBLANCO, 2014, p. 18).
Entendemos que as metodologias de aula de Física devem promover um ensino que compreenda a Física como um tipo de discurso. A aula de Física deve se configurar como uma condição de produção que propicie a oportunidade de interação e interpretação de tal discurso. No âmbito da sala de aula isso é possível por meio da interação com o professor e com os alunos, em condições de produção que envolvam atividades que vão além da resolução mecânica e decorada de exercícios, como atividades de escrita e leitura, resolução de problemas, principalmente que envolvam atividades práticas e experiências do cotidiano. Não é suficiente contemplar metodologias que primem somente por resoluções matemáticas, mas além disso, é necessário que se discuta Física, que haja interpretações e relações com a própria vida dos alunos para uma construção de sentidos mais significativos de Física e de Ciência, como um todo.
## Encaminhamento Metodológico
A pesquisa, de natureza qualitativa, contou com a participação de alunos de primeira e de terceira séries do Ensino Médio, de uma escola estadual do interior do estado de São Paulo. Essa escolha foi feita baseada na diferente quantidade de aulas de Física que ambas as seriações já tiveram. Foi utilizado como instrumento de constituição de dados a técnica de Grupos Focais (GATTI, 2005). Foram realizados três encontros (em finais de semana distintos), em uma sala de reuniões, de uma universidade estadual na mesma cidade. Para este trabalho, optamos por apresentar um recorte do trabalho que contempla algumas análises feitas de dois grupos focais, os que foram realizados com alunos de primeira série.
Para todos os grupos focais o roteiro foi o mesmo, o qual foi pautado pelo tema Aula de Física . Os dois encontros com alunos da primeira série do Ensino Médio contaram com a participação de dois e três participantes, respectivamente, de duas turmas de primeira série diferentes. Todos os alunos receberam nomes fictícios com o intuito de resguardar suas identidades. O moderador dos grupos focais seguiu o princípio da não diretividade (GATTI, 2005). Os registros dos encontros foram feitos por meio de áudios transcritos posteriormente para a análise que seguiu o referencial teórico da Análise de Discurso Francesa.
## Interpretação dos Discursos dos Alunos
Por meio da escuta discursiva feita sobre o corpus de análise , interpretamos os sentidos de aula de Física dos alunos em função de diferentes condições de produção. Para este texto, selecionamos uma parte da análise feita de alguns discursos de alunos de primeira série do Ensino Médio, focando os sentidos em função da metodologia de aula adotada pelos professores.
Na unidade de sentidos a seguir, as alunas Aine e Diana comentam sobre as aulas de Física ministradas por sua professora, que possui formação em Química e Biologia, mas não em Física:
Diana: Então, ela fala, fala, fala, fala, fala e não para, entendeu? Não tem como, mesmo se a sala estiver quieta; ela mesma já confessou isso. Ela fala demais.
[...] Aine: Debate não. Conversar não. Ela só passa matéria e passa umas contas na lousa, umas contas, né, só isso. Diana: E se falar que não 'tá' entendendo, aí... é pior ainda!
Nessa unidade, o moderador interroga as alunas se em suas aulas de Física há metodologias que envolvem debates e discussões. Diana afirma que, nas aulas, é a professora quem domina as falas e que, não há muita abertura para que os alunos dialoguem. Como explica Lemke (1990), professores geralmente usam um padrão organizacional de aula que os permite exercer controle sobre as relações discursivas da sala de aula, mesmo que inconscientemente. Surgem, por esses discursos, sentidos de uma aula de Física em que, quem possui o poder de fala em sala de aula é, deveras, o professor. Nos termos da AD, estamos falando de posições imaginárias que denotam relação de poder.
No que se refere à essa relação de poder, os professores acabam inibindo que os alunos realmente falem Física, isto é, que se apropriem do discurso científico da Física nos contextos apropriados. Ainda, de acordo Lemke (1990), existem concepções de aula enraizadas nos inconscientes dos professores, isto é, sentidos de aula de Física na materialidade de seus discursos. São aulas de Física autoritárias, que não permitem que os alunos, de fato, se apropriem dessa linguagem, o que lhes permitiria uma participação mais ativa.
Aine assinala, em seu dito, que não há debates nas aulas de Física mas, sim, que a professora apenas passa matéria e umas contas na lousa . É descrita uma aula de Física em que o agente principal é o professor e sua metodologia se restringe à apresentação de conteúdos no quadro, manipulações algébricas principalmente. Segundo Ricardo e Freire (2007), nesses tipos de aula, os alunos não conseguem diferenciar Matemática de Física. Esse discurso perpassa pela formação discursiva de professores do século passado (JÚNIOR, 2002) e, também, dos dias de hoje, em disciplinas ditas exatas, que possuem uma visão que enfatiza, principalmente, a apresentação e o acúmulo de conteúdos em suas aulas (TSAI, 2002).
Todavia, Pereira et al. (2007) explicam que é papel do professor não transferir conteúdos, mas, sim, '[...] estimular o diálogo entre o espaço escolar e o mundo.' (p. 5). Nesse sentido, são importantes as escolhas metodológicas dos professores no que, no porquê, no como e a quem ensinar (NARDI e CASTIBLANDO, 2014).
Levando isso em consideração é interessante pensar nas diversidades metodológicas a serem utilizadas a fim de propiciar aos alunos a apropriação da linguagem da Física, oportunizando a formação de sentidos adequados com essa perspectiva, considerando a realidade dos alunos fora da escola. Na unidade de sentidos a seguir, Aine chama atenção para isso:
Aine: Tipo, mostrar, sei lá, ir em um laboratório, mostrar como que, exemplo, a consistência dos outros planetas, como que conseguiram chegar à lua. Ah, sei lá! Coisas diferentes pra gente, chamar atenção, sabe? Sair um pouco, assim, sei lá, ir em algum lugar. Não ficar sempre na sala de aula. Não sei, entendeu? Explicar mais pra gente mesmo. Ir lá, ver o céu, explicar pra gente, explicar as contas também, como surgiu as contas de Física, como... entendeu? Essas coisas, eu acho que seria mais legal.
Aine ressaltou a necessidade de metodologias diversificadas nas aulas de Física, a dizer, aulas fora do ambiente comum da sala de aula e experimentos no laboratório (vale lembrar que o laboratório de Física da escola veio a ser reativado,
no ano de 2017, por estagiários de licenciatura em Física e é majoritariamente utilizado pelos mesmos). Esse discurso também é marcado pela importância de metodologias que tenham também uma contribuição de História da Ciência. A aluna exemplifica o caso da história de ida à Lua e de como as contas da Física surgiram , isto é, ressalta a importância do contexto histórico, social e cultural no qual o corpo de conhecimentos da Física se desenvolve.
Pelo entendimento da AD, as palavras não são transparentes. Nas entrelinhas pode ser dito muito que não está explícito, mas que, mesmo assim, ainda está significando no discurso. A esse fenômeno dá-se o nome de dito no nãodito. Há um não-dito no discurso de Aine que chama a atenção para o fato de que apenas a manipulação de contas não leva à compreensão do que elas significam na Física, quer dizer, conceitualmente. É entendido, nesse discurso, a importância dos como's da Física, não somente os o quê's , ou seja, o aprendizado dos processos da Física, o aprendizado de diferentes habilidades e competências na construção do conhecimento, a formação acima da informação, já que, '[...] no ensino de cada disciplina científica, esse desenvolvimento não está somente a serviço dessa determinada ciência ou das ciências' (BRASIL, 2002, p. 24).
Em outro episódio, que é apresentado na unidade de sentido a seguir, a importância de atividades que fogem do tradicional, copiar da lousa e resolver exercícios, é comentado por alunos de outro grupo focal. Salientamos que esses alunos possuem aulas com uma professora em formação inicial em seu processo de estágio supervisionado de regência:
Iris: [...] a gente vai pra outra sala, explica direitinho, slide, é mais interessante do que aula normal no quadro.
Selene: E ela faz experiência, assim, fez experiência com vela, com figuras geométricas, com secador de cabelo. Que tipo, coloca a vela acesa, aí atrás tem... [interrompida por Dionísio].
Dionísio: É 'pra' explicar a aerodinâmica do avião.
Iris: É!
Dionísio: Você pega um negócio retangular e pega o secador, vai apagar a vela?
Selene:
Não vai apagar a vela!
Dionísio: Não vai apagar a vela porque a forma é muito grande.
Selene: É! Não vai apagar a vela.
Dionísio: Aí o retangular meio que dá uma turbulência. Ele se espalha ao redor tudo.
Iris: Se espalha pro lado.
Dionísio: O do triângulo ele contorna...
Iris: É, é isso.
Nesse episódio, os alunos comentam sobre aulas utilizadas por sua professora de Física, uma estagiária, cursando licenciatura em Física. É citado que os alunos vão para outros espaços onde também desenvolvem as aulas, saindo assim do ambiente tradicional da sala. Citam que a professora utiliza slides, faz boas explicações e proporciona experimentos variados. De acordo com os alunos, essas aulas chamam a atenção e são mais interessantes do que as aulas tradicionais.
Na unidade referida, os alunos por si só fazem uma breve discussão sobre fenômenos de aerodinâmica, tema que estudaram em uma aula de Física com a
estagiária. Essa atitude demonstra que existe um envolvimento desses alunos com o assunto, com a Física, com as aulas de Física, com habilidades de argumentação, entre outras. Isso pode demonstrar que, as aulas da estagiária estão propiciando também possiblidades de desenvolvimentos de diferentes habilidades e competências que não só as que primam pela memorização de regras e equações para resolução de exercícios mecanizados. Percebeu-se, pelo envolvimento desses alunos na discussão, que seus sentidos em relação à aula de Física se colocam em um interdiscurso que se opõe àqueles que consideram as aulas de Física enfadonhas e desinteressantes, distantes de serem apropriadas de maneira positiva pelos discentes.
Essa professora, em formação inicial, que está localizada em uma formação discursiva diferente da outra professora (a formada em licenciaturas em Química e em Biologia), utiliza metodologias de aula mais diversificadas e, isso pode ser justificado pelo contato com referenciais teóricos de ensino mais atualizados, além de outros aspectos em sua formação inicial. Somando-se a isso, cremos que sua formação específica, em oposição à formação da outra professora, constitui elemento importante nos discursos interpretados. Suas aulas possibilitam condições de produção díspares daquelas dos alunos que se queixam das aulas em que a professora é a protagonista reforçando o conteudismo e a resolução de exercícios repetitivos. Por isso, o discurso dos alunos passa a ser outro e seus sentidos de aula de Física sofrem um deslocamento polissêmico.
## Considerações Finais
Trazendo ênfase para a questão da metodologia de aula, apresentamos a investigação dos sentidos de aula de Física, dos discursos de alunos de primeira série do Ensino Médio, de uma escola estadual do interior do estado de São Paulo, que participaram de dois grupos focais. As interpretações foram pautadas na Análise de Discurso francesa como aporte teórico e analítico.
Nas metodologias de aula de Física adotadas por uma professora formada em Química e Biologia, o conhecimento segue uma direção unilateral: da professora para os alunos. Por conseguinte, discussões e debates não são favorecidos em suas aulas: os alunos devem ouvir, copiar, memorizar e resolver exercícios. Em contrapartida, as aulas de Física ministradas por uma professora de Física em formação inicial (em período de estágio) se configuram como uma condição de produção, em que há uma diversidade de metodologias. Isso possibilita maior envolvimento dos alunos.
Interpretamos que os sentidos de aula de Física dos alunos estão altamente relacionados às metodologias de aula adotada pelos professores. Reiteramos que o ensino de Física não se restrinja à memorização de fórmulas e resolução mecanizada de exercícios, mas que seja um ensino voltado à cidadania, focando habilidades e competências. Isso não significa negligenciar a matemática.
No que se refere à importância da formação inicial dos professores, para as aulas de Física, entendemos que, outros fatores da realidade escolar também afetam as aulas e que, a formação inicial não é a condição necessária e suficiente que garantirá que as metodologias de aula sejam mais diversificadas ou, grosso modo, melhores . Por outro lado, adotando uma posição otimista, consideramos que, a formação inicial é um momento em que os licenciandos podem entrar em contato com novos discursos com potencial enriquecedor de suas futuras práticas docentes.
Sabemos que nem sempre a formação inicial dá conta dessas e de outras expectativas mais inovadoras para o ensino de Física e, é por isso que, cabe buscar cada vez mais compreender o que de fato está relacionado
## Referências
BRANDÃO, H. H. N. Introdução à Análise do Discurso. 1 ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2002.
BRASIL, Ministério da Educação. Secretaria da Educação Média e Tecnológica.
Orientações Educacionais Complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN+). Brasília: MEC, 2002.
GATTI, B. A. Grupo focal na pesquisa em ciências sociais e humanas. Brasília: Líber Livro, 2005.
JÚNIOR, G. D. C. As concepções do ensino de Física e a construção da cidadania. Caderno Catarinense de Ensino de Física , v. 19, n. 1, p. 53-66, abr. 2002.
LEMKE, J. L. Talking science : language, learning and values. Norwood, NJ: Ablex, 1990.
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NARDI, R.; CASTIBLANCO, O. Didática da Física. São Paulo: Cultura Acadêmica Editora, 2014.
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PEREIRA, A. S.; COELHO, M.F.F.; SILVA, M. M.; COSTA, I. F.; RICARDO, E.C. Um estudo exploratório da concepção de alunos sobre Física no Ensino Médio. XVII Simpósio Nacional de Ensino de Física, 17., 2007. São Luiz - MA. Anais... Disponível em: http://www.sbf1.sbfisica.org.br/eventos/snef/xvii/sys/resumos/T05651.pdf. Acesso em 22 de mar. de 2017.
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