ENSINO DE FÍSICA NO NAZISMO COMO FORMA DE CONTROLE
Felipe Lopez, José Luis Ortega, Cristiano Mattos
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVII
- Ano
- 2018
- Data
- 30/08/2018
- Linha de pesquisa
- Co-20 Formação E Prática Profissional Do Professor De Física / Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física / Políticas Públicas Em Educação E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## ENSINO DE FÍSICA NO NAZISMO COMO FORMA DE CONTROLE PHYSICS EDUCATION IN NAZI GERMANY AS A CONTROL TOOL
Felipe Lopez 1 , José Luis Ortega 2 , Cristiano Mattos 3
- 1 Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências, USP, fsanches@if.usp.br
2 Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências, USP, ortega@if.usp.br 3 Instituto de Física, USP, mattos@if.usp.br
## Resumo
Durante sua campanha eleitoral, Adolf Hitler propôs realizar mudanças profundas na educação da Alemanha. Esse discurso, alinhado com outras promessas, que fez sua popularidade crescer entre os professores e ganhar o apoio de diversos estratos sociais, transformou as escolas em ferramentas de produção e transmissão de uma nova cultura baseada nas ideologias do Partido Nazista. Mas marcas desse direcionamento podem ser encontradas no novo currículo escolar, especificamente o voltado para as ciências, que fora dividido entre currículo masculino, sinteticamente caracterizado como Ciência da Guerra, no qual se aprendia sobre tópicos de logística, armas químicas, lançamento de mísseis e bombas, como se proteger de ataques; e o currículo feminino, baseado em uma ciência voltada ao uso doméstico, como a química e biologia dos alimentos, a física eletrodomésticos etc. Em suma, conflitos históricos do Nazismo permitem-nos evidenciar relações entre as esferas educacionais e política, e estabelecer determinações nos produtos da atividade educacional, em particular no ensino de ciências.
Palavras-chave : currículo, ensino de ciências, nazismo.
## Abstract
During his election campaign, Adolf Hitler proposed to make profound changes in the education of Germany. In line with other promises, Hitler's speech made his popularity increase among teachers and gain support from different parts of society. Hitler's changes has transformed schools into tools of production and transmission of a new culture based on the ideologies of the Nazi Party. But traces of this direction can be found in the new school curriculum, specifically the scienceoriented curriculum, which was divided between a male curriculum, synthetically characterized as War Science, in which one learned about topics of logistics, chemical weapons, missile launchings and bombs, how to protect yourself from attacks; and the feminine curriculum, based on a science focused on domestic use, such as food chemistry and biology, physical appliances, and so on. In sum, historical conflicts in Nazism allow us to evidence relations between educational and political spheres, and to establish determinations in the products of educational activity, particularly in science education.
Keywords: curriculum, science teaching, Nazism.
## Introdução
Neste trabalho, estudamos um caso de extremo controle social por meio da escola, exercido pela educação nazista, olhando em particular o ensino de ciências. No contexto de ascensão do nazismo na Alemanha, a escola deixa de ser um centro de formação para o mercado de trabalho e passa a ser, explicitamente, um local para determinar modos de comportamento e valor ligados a uma doutrina nazista. Essa transformação se fez por meio de políticas que modificaram aspectos da escola, que vão desde o acesso até a diferenciação do currículo para meninos e meninas. Além da ênfase em armas, condicionamento físico e ideais nazistas, as disciplinas eram, para as garotas, todas voltadas à formação de futuras mães e esposas que seriam obedientes ao governo e aos maridos, currículo que dificultava seu acesso à universidade. O historiador Carr (2001), em sua obra 20 Anos de Crise 1919-1939 , citando Engels, escreve em seu prefácio: 'Se a sociedade tem uma necessidade técnica isso serve como impulso maior ao progresso da ciência do que dez universidades.' (ENGELS apud CARR, 2001, p.5). Aqui, procuramos as necessidades técnicas da sociedade alemã nazista e como se expressaram na atividade educacional, em particular em como o ensino de física foi alterado para atingir esse objetivo. Para tal, temos, inicialmente, que refletir sobre a função social da escola e qual seu papel ao logo de sua história. Diversos autores ( p.e . FOUCAULT, 2008; YOUNG, 2008) ressaltam seu caráter de instrumento de controle social, como um artefato cultural de manutenção de status quo , permitindo a estratificação social e a alienação dos modos de produção de certas classes sociais. É partindo dessa perspectiva que estudamos um caso de extremo controle educacional na formação dos cidadãos, com o objetivo de entender como a ideologia das instituições governamentais se refletem na educação científica de uma sociedade. Para tal, estudamos a implementação do currículo escolar na Alemanha nazista no período de 1933 até 1939, em particular em como as ciências naturais (Física, Química, Biologia e Matemática) foram utilizadas no período anterior a II Guerra Mundial.
## As diferentes funções sociais da escola
Em sociedades diferentes e em outras épocas, a escola apresentou funções bem distintas, até a que conhecemos hoje, nas sociedades capitalistas, dedicadas à formação de grande massa de indivíduos. Num breve panorama histórico, podemos dizer que nas comunidades ditas primitivas, a educação se fundamenta numa estrutura informal, que opera imergindo os aprendizes nas atividades corriqueiras necessárias à vida coletiva (caçar, colher, cantar, ritualizar). Não há uma educação comandada por uma instituição específica, a não ser nos casos de conhecimentos circunscrito a um âmbito de poder como a prática da pajelança, que requer um controle mais restritos dos conhecimentos. O termo grego para escola ( scholé ) tem sentido de nomear as atividades do homem livre, dirigente da sociedade, que se torna apto a governar a pólis pelo domínio da filosofia, da retórica, da política, das artes e da aritmética (LIBÂNEO et. al ., 2009). Notemos que não era um ensino dedicado ao trabalho ou à formação profissional. Na idade Média, a escola estava circunscrita apenas aos espaços religiosos e a transmissão das escrituras e passava longe dos nobres ou camponeses. Já no período mais recente, com o estabelecimento de relações produtivas e distributivas capitalistas, cresce a demanda por pessoas alfabetizadas, que lograssem identificar, diferenciar e
contabilizar mercadorias, valorizando a instituição escolar como o lugar em que se preparam as pessoas para o mundo da produção e do consumo. Nessa medida houve a necessidade de uma maior institucionalização da escola, que se estabelece nos formatos atuais já a partir do século XVII. Além da função educadora, tinha a função de socializar a classe trabalhadora, moldando valores, hábitos, normas e ideologias de acordo com a das classes dominantes dos modos de produção das políticas escolares ou do currículo escolar. Por fim, a escola passa a ser entendida como o local em que os cidadãos aprendiam qual era seu lugar na sociedade (COIMBRA, 1989). Ou seja, se tomarmos uma perspectiva materialista dialética, o papel da escola acompanha, desde seu início, o desenvolvimento econômico, determinando consciências em função dos processos produtivos já reproduzidos no ambiente e currículo escolares. Poucos são os que questionam a estrutura de poder já estabelecida dentro das salas de aula. Os costumes são criados desde cedo nas escolas, como o modo de falar, o modo de escrever, o modo de se portar em sala de aula, a quem se submeter, o que estudar etc. Todas atitudes que expressam modosde-ser esperados por quem detém os modos de produção da cultura escolar, logo do seu currículo. O processo de aprendizado desses modos-de-ser estabelece relações de controle que, muitas vezes, não são percebidas por quem as realiza ou por quem é submetido a elas (YOUNG, 2008).
Assim, a função da escola como instituição disciplinadora se torna clara quando consideramos aspectos como a rigidez com relação à horários, à homogeneização da avaliação dos estudantes ou à submissão aos professores. Todas ações que fortalecem uma perspectiva homogeneizadora dos estudantes, determinando moldes de certos aspectos dos modos-de-ser valorizado pela sociedade que precisa manter certas relações de poder. As ideias de controle social por meio da escola (FOUCAULT, 2008; YOUNG, 2008) parecem, para muitos, um pouco inusitadas, frente as concepções ingênuas sobre a neutralidade da escola. Porém, numa perceptiva mais ampla, o currículo é um artefato cujo objetivo é descrever o curso da vida acadêmica do estudante, explicitando seus conteúdos, a organização, quais dificuldades devem ser superadas e em qual ordem (SACRISTÁN, 2013). Podemos perceber que por trás das escolhas sobre quais são os conteúdos e sua sequência, estão relações de poder que se referem, neste instrumento, à determinação do tipo de pessoa que a nação gostaria de formar como cidadão. As decisões curriculares não são tomadas exclusivamente pela escola, poderiam ser tomadas-de-decisão que incluíssem posições dos diferentes atores escolares, incluindo professores, alunos e suas famílias. Porém, sabemos que, em sua maioria, as alterações curriculares se estabelecem em níveis sociais cujas relações de força são desproporcionais. Assim, o controle educacional é introduzido no currículo, que por sua vez determina, na escola, os caminhos a serem seguidos na educação de uma sociedade (MUSGROVE, 1968; FORQUIN, 1992).
A partir dessas reflexões, estudamos o ensino de ciências, em particular o ensino de física, em um caso extremo de controle social, por meio da Educação Nazista escolar. No período estudado, a escola nazista deixa de ser um centro de formação para o mercado de trabalho e passa a ser, explicitamente, um local para determinar modos de comportamento e valores ligados à doutrina nazista. Essa transformação se deu por meio de políticas que modificaram aspectos da escola, que vão desde o acesso até a diferenciação do currículo para meninos e meninas. Além da ênfase em armas, condicionamento físico e ideais nazistas, as disciplinas eram, para as meninas, todas voltadas à formação de futuras mães e esposas que
seriam obedientes ao governo e aos maridos, currículo que dificultava seu acesso à universidade.
## Metodologia
Esta pesquisa tem o caráter qualitativo de cunho histórico e linguístico. Com ela pretendemos resgatar as formas típicas enunciativas expressas nos materiais educacionais no ensino de ciências, que circulavam no período do nazismo. A pesquisa não está fundamentada em dados primários, mas em fragmentos já selecionado por autores que estudaram o período, tanto em material literário, como cinematográfico (romanceado e documental), o que implica um levantamento crítico do material em função de nossos referenciais metodológicos. A partir do levantamento, duas referências se tornaram centrais no estudo. A primeira foi o trabalho da historiadora Lisa Pine (2010) que serviram de referência na elaboração deste trabalho. E a segunda referência o texto de Erika Mann (1938), baseado na sua experiência da vivência pessoal na escola nazista, cujo objetivo era alertar o resto do mundo sobre os malefícios que aquele tipo de educação estava fazendo aos jovens. Outra fonte secundária utilizada foi Blackburn (1985), que nos permitiu cruzar as informações obtidas com as de outras fontes, validando os dados obtidos. Além disso, como pano de fundo, utilizamos textos de historiadores como Hobsbawm (2005) e Carr (2001), de caráter mais geral, Shirer (1963) e Lutz (1922), mais centrados no processo de ascensão de Hitler.
Aqui não realizamos um estudo histórico extensivo, mas um recorte necessário para a compreensão das relações que permitiram a ascensão e a manutenção do poder de Hitler e as transformações sofridas no ensino de ciências. Além disso, complementamos com uma investigação iconográfica e filmográfica sobre o nazismo, que por retratarem cenas da educação de crianças e jovens daquele período, permitem-nos ilustrar e caracterizar certas dinâmicas sociais daquele período. Quando propusemos caracterizar conflitos históricos do Nazismo, como situação limite, nossa intenção era a de evidenciar relações entre as esferas educacionais e política, e estabelecer determinações nos produtos da atividade educacional, em particular no ensino das ciências. Estabelecendo relações entre atividades dominantes nestas esferas e os gêneros educacionais ali produzidos (BAKHTIN, 2006), teremos condições de apresentar o estudo de um caso extremo do controle educacional na formação dos cidadãos, com o objetivo de entender como a ideologia das instituições governamentais se refletem na educação científica de uma sociedade. Segundo Choppin (2002), a criação dos livros didáticos reflete a ideologia de uma nação e é o instrumento que permite a modificação de uma cultura já existente. Indica o tipo de cidadão que a sociedade quer produzir em um determinado momento histórico. Por isso, fazemos uso de problemas, trazidos pelos livros didáticos do período estudado, para entender qual o tipo de indivíduo que essa sociedade pretendia produzir. Em nossa perspectiva de análise, a forma enunciativa, estabilizada socialmente, que aparece nos registros enunciativos levantados, é a forma aparente da atividade social que produz/reproduz a existência daquela sociedade. (VOLOCHINOV, 2017). Para tal, estudamos a implementação do currículo escolar na Alemanha nazista, no período de 1933 até 1939, dando especial atenção à como as ciências naturais foram utilizadas nesse período escolar anterior a segunda guerra mundial.
## Princípios da educação nazista
No livro Minha Luta , escrito por Hitler (1925) quando estava preso, estão as definições do Movimento Nacional-Socialista que viriam a se concretizar quando chegasse ao poder em 1933. Na obra, Hitler (1925) propõe que o Estado não possua finalidade, mas seja o caminho para alcançar um objetivo. Este era o de preservar e promover o desenvolvimento da população para que tenham a mesma natureza, tanto física quanto espiritualmente, o que se daria a partir de uma weltanshauung (visão de mundo) única, definitiva e uniformemente aceita. Nessa perspectiva, o Estado deveria classificar as pessoas em três categorias: cidadãos, sujeitos do Estado, e alienígenas. Sujeitos do Estado seriam pessoas nascidas no Reich, mas que não possuíam as mesmas garantias de um cidadão, como o direito ao voto e participação na vida política. Alienígenas possuíam os mesmos direitos que sujeitos do Estado, com a diferença de não terem nascido no Reich. Um garoto se tornaria um cidadão ao final de sua vida escolar e após seu alistamento no exército, quando obteria um diploma que garantiria seus direitos de cidadão. As garotas, no entanto, só se tornariam cidadãs quando se casassem com um cidadão. No texto, Hitler (1925) atribui muitos dos problemas existentes na Alemanha a um sistema de ensino falho que, segundo ele estimulava o medo de assumir responsabilidades e possuía um foco limitado à produção de conhecimento puro e não às habilidades práticas. Dessa forma, o ensino resultava em uma falta de devoção aos ideais nacionais, pois formava cidadãos que eram apreciados por outras nações, pois poderiam ser usados por seus conhecimentos. A importância da educação nazista não se apoiava somente sobre a escola, os meios de comunicação tinham um papel fundamental na doutrinação da sociedade, 'pois a imprensa continua o trabalho da educação mesmo na vida adulta' (HITLER, 1925, p. 202). Hitler defendia que o governo deveria filtrar as informações midiáticas para garantir que as pessoas não fossem manipuladas. O conhecimento privilegiado, na educação nazista, era o saber relacionado ao condicionamento físico e o conhecimento racial, como revelado nas palavras de Hitler:
Instrução formal nas ciências deve ser considerada última em importância. Por conseguinte, o Estado que é baseado na ideia racial deve começar com o princípio que uma pessoa cuja educação formal em ciências é relativamente pequena, mas é fisicamente sã e robusta, de um caráter firme e honesto, pronta e hábil a tomar decisões e dotada de força de vontade, é um membro mais útil da comunidade nacional do que fracos que são sábios e refinados. Uma nação composta de homens instruídos que são fisicamente fracos, hesitantes sobre decisões de vontade, e timidamente pacifistas, não é capaz de assegurar sua própria existência nessa Terra. (HITLER, 1925, p.337).
A escola não era o único lugar local de aprendizagem. Para Hitler (1925) os alunos deviam participar de atividades extraescolares de treinamento físico, as quais não deveriam somente focar na melhoria do condicionamento físico, mas ser uma preparação para o alistamento no exército. Para isso, foram utilizados grupos já organizados como o grupo Juventude Hitlerista e a Liga das Garotas Alemãs , todos constituídos de jovens entre 15 a 18 anos. Para Hitler a educação dos diferentes sexos se baseava em 'uma ênfase em treinamento físico; anti-intelectualismo; e o significado de raça' (PINE, 2010, p.47). Segundo Mann (1938), as crianças eram o grupo mais afetado pelas mudanças propostas nazistas, pois um adulto ainda poderia ter sua vida relativamente normal, desde que fosse adepto ao Partido. Já a criança é 'uma criança nazista e nada mais', pois 'frequenta uma escola nazista;
participa de uma organização da juventude nazista; os filmes que ele é permitido assistir são filmes nazistas. Toda sua vida, sem nenhuma restrição, pertence ao Estado Nazista.' (MANN, 1938, p.19).
Na Escola Nazista, os alunos não só viviam em constante vigilância dos professores, mas também os próprios professores eram observados pelos alunos (HOLLAND, 1990). Obrigados a participar da Juventude Hitlerista , os jovens eram incentivados a delatar seus professores caso ensinassem algo distinto dos preceitos nazistas (EVANS, 2016). Mann (1938, p. 54) testemunha, com sua vivência, uma 'escala de valores, em ordem de importância' dos tópicos escolares determinados por Hitler: ( ) Tendências hereditárias; quadro geral de raças; ( i ii ) O caráter; ( iii ) A constituição física ou 'corpo'; ( iv ) Conhecimento, conhecimento este que não se referia ao conhecimento científico da época. A ciência passou a ser referida como Ciência das Armas ( Wehrwissenschaft ), pois todas as áreas das ciências naturais tratavam temas relacionados com armas e guerras (MANN, 1938).
## Objeto de análise: fragmentos enunciativos na escola Nazista
Nesta primeira etapa da pesquisa, impôs-se a tarefa de realizar o extensivo levantamento desse material enunciativo que revela a intencionalidade do estado nazista e de sua máquina propagandística. Na Matemática nazista, por exemplo, os livros didáticos contavam com os seguintes tipos de exercício:
- 1. A Alemanha teve, de acordo com o Tratado de Versalhes, que entregar todas as suas colônias. (Uma enumeração de colônias e delegações, com estimativa de população e área é dada)
- A. Qual foi a perda total de população e território da Alemanha?
- B. Quanto cada potência de mandato recebeu em termos de população e território?
- C. Quantas vezes o território entregado é maior do que a área da Alemanha?
- 2. Um avião de bombardeamento pode ser carregado com uma bomba explosiva de 35 quilogramas, três bombas de 100 quilogramas, quatro bombas de gás de 150 quilogramas, e 200 bombas incendiárias de um quilograma.
- A. Qual é a capacidade de carga?
- B. Qual a porcentagem de cada tipo de bomba?
- C. Quantas bombas incendiárias de 0,5 quilogramas poderiam ser adicionadas se a capacidade de carga fosse aumentada em 50%?
Esta citação das questões foi retirada do livro Prática Política Nacional em Lições de Aritmética utilizado no ensino secundário (MANN, 1938, 68). No livro Física da Defesa: um manual para professores de Erich Günther, aparece a questão:
Um canhão da artilharia da costa está atirando em um navio que possui uma velocidade de 30 nós diagonalmente na direção de onde o canhão está apontado. Quão rápida é a aproximação? A velocidade média de um projétil pode ser tomada como 600 m/s. (MANN, 1938, p 96)
Outros títulos também eram usados com o mesmo princípio, militarizar a Matemática. Alguns citados por Mann (1938) são: Defensa Aérea em Números e A Ascensão e Queda da Alemanha - Ilustrações Retiradas de Instruções Aritméticas em Graus Elevados da Escola Elementar . Este último, um grande best-seller que, em 1936, possuía 715.000 cópias em circulação. Nele está um dos exemplos impressionantes do uso da matemática na doutrinação ideológica:
Os judeus são alienígenas na Alemanha - Em 1933 existiam 66.060.000 habitantes no Reich Alemão, dos quais 499.682 eram judeus. Qual a porcentagem de alienígenas? (MANN, 1938, p 68).
Na área da Química, também referenciada como 'a ciência das armas', um dos livros didáticos utilizados era o Experimentos da Química de Materiais de Luta Um Livro sobre Proteção contra Gás Venenoso e Ataques Aéreos , de Walter Kintoff. Este autor afirmava que os jovens deveriam ir às frentes de batalha caso um ataque acontecesse e, por isso, deveriam saber se defender de ataques com de gases. Os capítulos incluíam lições sobre diversos gases, dentre eles gases que irritavam os olhos, causavam problemas nos pulmões, na pele, etc (MANN, 1938). A disciplina de Física foi transformada em propriedade do nazismo, cujo nome passou a ser o de 'Física das Armas' ( Wehrphysik ) (PINE, 2010; MANN, 1938).
Figura 1: Imagem do livro chamado Física da Guerra: um manual para professor ( Wehrphysik: Ein Handbuch für Lehrer ), tratando do tópico: máscara de gás.
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A militarização da Ciência, refletia o que acontecia na própria ciência, como ficou explícito com a Física. Nem tudo produzido na atividade científica da pesquisa em Física seria considerado pertencente a essa 'nova' Física. A 'Física Alemã' se tornou um movimento muito amplo entre os cientistas alemães, assim, as ideias de parte dos cientistas do início do século XX, não apareciam, por exemplo, nos quatro livros escritos pelo já Nobel Phillip Lenard (LENARD,1936), que afirmou.
'Física Alemã? Estas palavras vão levantar questões, e é verdade que eu poderia ter dito Física Ariana - ou a Física dos homens nórdicos, ou a física daqueles que têm sondado as profundezas da realidade. 'Mas', eu devo ouvir, 'Ciência é e permanece internacional.' Isso é um erro. Ciência é e permanece, como tudo criado pela mente humana, racialmente ligada e um resultado de sangue. ' (LENARD apud MANN, 2014, p. 95).
Por outro lado, o currículo feminino de física foi alterado, apesar de ensinar tópicos como mecânica, termodinâmica, ótica e eletricidade, o foco estava nas relações práticas da física com aparatos domésticos e com a saúde. A mesma tendência se observou na química, que sempre estava contextualizada nos alimentos, e a biologia focada no ensino sobre o instinto maternal, o papel de mãe e esposa e nos primeiros-socorros, e na genética e estudos raciais estavam incluídos, como no currículo masculino, na perspectiva da distinção racial.
## Conclusões
As relações entre educação e o estado se manifestam de diversas formas, seja por meio da formação dos professores, pela síntese dos conteúdos a serem
ensinados, pelos investimentos feitos pelos órgãos públicos, entre outros. Somente analisando como a escola é estruturada numa determinada situação social, podemos chegar à conclusão de que a Alemanha, de 1933 a 1939, se utiliza da escola para criar uma nova cultura baseada nos princípios nazistas. Nesse caso, o currículo de ciências não tem o objetivo de atrair crianças para os estudos científicos, mas é utilizado como uma ferramenta de incentivo aos estudos da guerra, em particular os estudos sobre bombas em Física e sobre gases em Química. Enquanto isso, o currículo de Matemática procura ensinar que aqueles que são rejeitados pelo governo produzem mais gastos e sutilmente propõe que essas pessoas que, segundo eles, possuem diversos tipos de doença, sejam eliminadas para diminuir os gastos públicos.
## Referências
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CHOPPIN, A. O historiador e o livro escolar. História da Educ. , n.11, p.5-24, 2002.
COIMBRA, C. M. B. As funções da instituição escolar: análise e reflexões. Psicologia : Ciência e Profissão, v.9, n.3, p.14-16, 1989.
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