POR QUE ENSINAR FÍSICA NO ENSINO MÉDIO? UMA BREVE ANÁLISE DOS POSICIONAMENTOS DE PROFESSORES DA EDUCAÇÃO BÁSICA
Rafael Figueira, Alice Helena Campos Pierson
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVII
- Ano
- 2018
- Data
- 30/08/2018
- Linha de pesquisa
- Co-20 Formação E Prática Profissional Do Professor De Física / Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física / Políticas Públicas Em Educação E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## POR QUE ENSINAR FÍSICA NO ENSINO MÉDIO? UMA BREVE ANÁLISE DOS POSICIONAMENTOS DE PROFESSORES DA EDUCAÇÃO BÁSICA
## WHY TEACH PHYSICS ON HIGH SCHOOL? A BRIEF ANALYSIS OF THE POSITIONING OF TEACHERS OF BASIC EDUCATION
Rafael Figueira , Alice Helena Campos Pierson 1 2
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Programa de Pós-Graduação em Educação/UFSCar, rafaelfigueirajau@gmail.com 2 Departamento de Metodologia de Ensino/UFSCar, apierson@ufscar.br
## Resumo
Ainda que haja uma pluralidade de entendimentos sobre o papel do professor em sala de aula, não podemos deixar de reconhecer a sua importância no desenvolvimento das práticas educativas. Nessa direção, entendemos que os docentes apresentam um papel central para a efetivação das mudanças curriculares propostas nas últimas décadas, ressignificando-as ao reinterpretá-las, adaptá-las e até mesmo ao obstaculizar o seu desenvolvimento. Disponibilizamos um questionário on-line, como parte de uma pesquisa mais ampla, para professores de física de escolas públicas e privadas. Nesta produção direcionamos os nossos olhares para duas questões com o objetivo de investigar em que medida os posicionamentos apresentados pelos professores participantes sobre o papel do ensino médio e, particularmente, sobre o papel do ensino de física contemplam elementos presentes nas últimas Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio. Em relação ao papel do ensino médio, identificamos que a grande parte dos posicionamentos destaca como objetivos o aprimoramento do estudante como pessoa humana, principalmente enfatizando a formação de cidadãos críticos. Já em relação ao papel do ensino de física, os argumentos apresentados pelos docentes focalizam, principalmente, a possibilidade de compreensão dos fenômenos naturais presentes na vivência dos estudantes. Desta maneira, percebemos que ao discorrerem sobre o ensino desta ciência natural não são evocados diretamente argumentos sobre as contribuições deste componente curricular para o aprimoramento do estudante como pessoa humana, principalmente em relação ao seu desenvolvimento como um cidadão crítico.
Palavras-chave : Ensino Médio; Ensino de Física; Professores; Objetivos.
## Abstract
Although there is a plurality of understandings about the role of the teacher in the classroom, we cannot fail to recognize their importance in the development of educational practices. In this direction, we understand that teachers have a central role in the effectiveness of the curricular changes proposed in the last decades, remeaning them by reinterpreting them, adapting them and even hampering their development. We provide an online questionnaire, as part of a broader survey, for public and private school physics teachers. In this production, we turn our attention to two questions in order to investigate the extent to which the positions presented by
the participating teachers about the goals of secondary education and, particularly, about the goals of physics teaching contemplate elements present in the last Brazilian National Curricular Guidelines for the High School. Regarding the objectives of high school, we identified that most of the arguments emphasizes as objectives of this formative stage the improvement of the student as a human person, mainly emphasizing the formation of critical citizens. Regarding the objectives of physics teaching, the arguments presented by the teachers focus mainly on the possibility of understanding the natural phenomena present in the students' lives. In this way, we realize that when teachers present arguments about the goals of teaching this natural science, there are no direct arguments about the contributions of this curricular component to the improvement of the student as a human person, especially in relation to his development as a critical citizen.
Keywords : High school; Physics Teaching; Teachers; Goals.
## Introdução
O contexto educacional brasileiro foi marcado nas últimas três décadas pela proposição de diversas mudanças, ainda que no âmbito legislativo, para a educação básica. Neste cenário, as regulamentações oficiais têm atribuído à formação básica dos estudantes uma perspectiva que focaliza a atuação destes jovens no meio social e não somente ao prosseguimento dos seus estudos. Nessa direção, Krasilchik (2000, p. 87), ao fazer uma análise retrospectiva ressalta que o ensino médio, no cenário que se inicia no final da década de 1980, passa a ter a função de consolidação dos conhecimentos e a preparação para o mundo do trabalho e para a possibilidade de continuar aprendendo.
As atuais diretrizes curriculares para o ensino médio (DCNEM) definidas pelo Conselho Nacional de Educação por meio da resolução n° 02 de janeiro de 2012, reúnem princípios, fundamentos e procedimentos que objetivam orientar as políticas públicas educacionais voltadas para o ensino médio (BRASIL, 2012). Em seu referencial legal e conceitual esta regulamentação oficial se embasa na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) que no artigo 4° destaca que o ensino médio tem como finalidades: a consolidação e o aprofundamento de conhecimentos adquiridos no ensino fundamental, tendo em vista a possibilidade de o estudante prosseguir nos estudos; a preparação básica para o trabalho, conceituado como realização inerente ao ser humano em uma perspectiva de transformação da natureza; contribuir para o desenvolvimento do estudante como pessoa humana, focalizando o desenvolvimento da autonomia intelectual, do pensamento crítico e de uma formação ética e; possibilitar ao estudante compreender fundamentos científico-tecnológicos de processos produtivos, podendo associar a teoria com a prática.
Quando buscamos articular estas expectativas com o ensino de ciências, podemos nos alinhar a uma perspectiva de ensino de ciências para todos, que procura relacioná-lo com as experiências e vida dos estudantes, tendo em vista instrumentalizá-los para viverem e atuarem num mundo interligado por sistemas de comunicação e novas tecnologias cada vez mais complexas com benefícios e riscos no globalizado mundo atual (KRASILCHIK, 2000, p. 89).
No caso específico do ensino de Física, como já nos indicavam as antigas orientações complementares aos PCN, ao alinhar seus objetivos com as novas
demandas implica 'construir uma visão da Física que esteja voltada para a formação de um cidadão contemporâneo, atuante e solidário, com instrumentos para compreender, intervir e participar na realidade.' (BRASIL, 2002, p. 59).
Por outro lado, ainda que haja documentos oficiais regulamentando a educação básica, Sacristán (1998), ao discorrer sobre o currículo, destaca que há vários níveis de objetivação curricular e mesmo frente a um conjunto de pressupostos curriculares para um sistema de ensino, efetivamente aqueles que são desenvolvidos em sala de aula podem apresentar aspectos dissonantes ao estabelecido oficialmente. Nessa direção, este autor argumenta que o texto curricular tem importância por tornar público o que deve compor a cultura escolar, mas que ao ser interpretado é traduzido pelos leitores, podendo ser desenvolvido, enriquecido ou inclusive subvertido por estes (SACRISTÁN, 2013, p. 27).
A partir destes elementos, entendemos que o professor desempenha um papel central ao interpretar as proposições que lhes são apresentadas, ressignificando-as ao desenvolvê-las de fato. Então, diante dos desafios que têm sido colocados para o ensino médio, cujos objetivos foram redefinidos nas últimas décadas atribuindo-lhe uma nova identidade, é fundamental conhecermos a forma como o professor percebe e se coloca diante deste novo cenário. Reconhecemos que esta visão é um importante elemento na forma como este profissional configura a sua prática, seja ao desenvolver os pressupostos curriculares propostos, seja adaptando-os ou até mesmo negando-os ao transferi-los para o seu contexto escolar.
Considerando estes elementos, esta produção tem como objetivo investigar em que medida os professores incorporam o discurso oficial ao serem questionados sobre o papel da educação e mais especificamente do ensino de Física. Estas questões foram propostas para professores de física da educação básica, de escolas públicas e privadas, como parte de um questionário inicial de um projeto de pesquisa mais amplo ainda em andamento.
## Sobre a seleção e a descrição dos participantes da pesquisa
A seleção dos participantes considerou a indicação de professores de física do ensino médio feita por professores que conhecíamos, tanto de física quanto de outros componentes curriculares. Uma preocupação que tivemos foi formar um conjunto amplo de docentes por meio das indicações de nossos colegas, por isso também solicitamos àqueles professores que participavam da pesquisa a indicação de outros nomes para participarem.
Os participantes da pesquisa deveriam estar atuando como professores de física e se identificarem como tal, independente de sua formação inicial. Considerando estes aspectos, encaminhamos o questionário para um grupo de 162 professores e obtivemos uma participação de 35 docentes (pouco mais de 21%), que predominantemente atuam nos estados de São Paulo (18 professores) ou Minas Gerais (10 professores). Houve também a participação de dois professores do Mato Grosso do Sul, do Paraná e do Rio de Janeiro, respectivamente e um da Paraíba. A maioria dos docentes apresenta a formação inicial na área de física (totalizando 28 participantes), enquanto outros quatro provêm área da matemática e outros três com formação inicial nas áreas de construção naval, engenharia civil e química. É importante destacar que apenas dez participantes não apresentam cursos de pósgraduação.
Por fim, em relação ao tempo de atuação como professores da educação básica, 25 professores atuam há menos de 10 anos neste nível de ensino, dos quais 17 tem menos de 5 anos de docência. Já em relação ao tipo de instituição em que lecionam atualmente, 11 professores lecionam somente em escolas particulares,10 atuam somente em escolas públicas e 14 atuam em instituições públicas e privadas.
## Sobre a coleta de dados e as análises
Foi disponibilizado para o conjunto dos professores participantes um questionário em duas plataformas distintas, uma on-line e outra off-line 1 . Este questionário foi composto por dez questões abertas que procuravam instigar os professores a refletirem sobre por que ensinar a física na educação básica, sobre o que deve ser ensinado deste componente curricular e como estes conteúdos devem ser estruturados e desenvolvidos ao longo do ensino médio. Como destacamos anteriormente, para esta produção nos limitaremos a apresentar os resultados das análises das duas primeiras questões, a saber:
- i. Em sua visão, qual deve ser o papel da educação básica, particularmente, do ensino médio?
- ii. Qual o papel que você atribui ao ensino da física na educação básica, quais devem ser seus objetivos? Discuta
Foi utilizada para a análise destas questões a Análise de Conteúdo de Bardin, visando 'obter por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) dessas mensagens.' (BARDIN, 2011, p. 48). Nesta produção as contribuições da Análise de Conteúdo se relacionam com a possibilidade de compreender em que medida os posicionamentos expostos pelos professores sobre o papel do ensino médio e do ensino de Física nesta etapa da educação básica, dialogam com a perspectiva de ensino proposta pelas atuais DCNEM.
## O papel da educação básica, particularmente do ensino médio
Ao focalizarmos os objetivos a que nos propusemos nesta produção, inicialmente realizamos uma leitura flutuante das respostas apresentadas pelos professores, o que nos possibilitou uma primeira percepção dos posicionamentos apresentados em ambas as questões. Em um segundo momento, quando retomamos a leitura destas respostas, estas percepções iniciais contribuíram para que pudéssemos identificar aspectos de similaridade entre elas. É importante ressaltar que em uma mesma resposta os participantes podem ter discorrido sobre diferentes aspectos referentes às temáticas propostas.
A partir destes movimentos de leitura e de reflexão sobre os posicionamentos apresentados pelos docentes, foram identificados aspectos coincidentes entre as diferentes respostas. Ainda que não tenhamos tomado como categorias a priori os objetivos presentes nas DCNEM, a análise das respostas dadas pelos participantes nos levou aos elementos presentes nessas diretrizes.
Nesse sentido, consideramos as quatro finalidades apresentadas pelas Diretrizes, quando tomam por referência às LDBEN, e obtivemos a seguinte uma distribuição dos posicionamentos apresentados pelos participantes (Tabela 1).
Tabela 1 - Frequência dos posicionamentos dos professores sobre o ensino médio considerando os objetivos presentes nas DCNEM
No conjunto de respostas obtidas, observamos que 23 argumentos se alinham com a possibilidade de o ensino médio contribuir para o aprimoramento do estudante como pessoa humana, contemplando a formação ética, o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico. Entre os posicionamentos incorporados nesse grupo, a ideia recorrente é aquela que identifica como papel do ensino médio a formação do cidadão, em boa parte das vezes cidadão crítico. Como, por exemplo, em:
P07: Desenvolver nos jovens a capacidade de atuarem criticamente na sociedade. Seja mobilizando seus conhecimentos históricos, sociopolíticos, científicos etc. O papel seria o de formar cidadãos críticos frente aos diversos problemas enfrentados durante a vida, ou seja, que ele seja capaz de refletir, planejar e tomar decisões críticas.
- O adjetivo 'crítico' aparece de forma também frequente ainda que em determinadas respostas como formação do pensamento crítico, ou de uma visão crítica.
P32: Garantir aos estudantes o desenvolvimento de pensamento crítico para que sejam sujeitos autônomos, através do conhecimento.
P19: Dar a visão crítica do mundo que o cerca, trazendo conceitos, ideias, histórico, para que o aluno possa conhecer a realidade, e levantar sua posição, frente ao que já se conhece, e o que se deseja objetivar na sociedade. Isso para qualquer disciplina/área de atuação do professor.
Identificamos apenas dois professores que, quando se posicionam sobre o ensino médio estar voltado à formação dos cidadãos, não associam a ele características como criticidade, responsabilidade, consciência. Nesses casos as respostas se limitam a: 'Formar o cidadão' ou 'Formar o cidadão para a sociedade' .
A autonomia intelectual aparece em sete das respostas como preocupação de formar um cidadão consciente, responsável, capaz de tomar decisões. A preocupação com uma formação ética foi identificada em apenas dois posicionamentos.
A segunda perspectiva que apresentou maior incidência de posicionamentos focaliza a possibilidade de o estudante consolidar os conhecimentos das etapas formativas anteriores e prosseguir em seus estudos. Nesta perspectiva, observamos um equilíbrio entre os posicionamentos que diretamente mencionam a possibilidade de o estudante prosseguir em seus estudos e aqueles que destacam apenas a
importância do ensino médio como etapa formativa, como exemplos a seguir, respectivamente:
P28: De maneira resumida o ensino médio deve prepara os jovens para seguir nos seus estudos [...]
P21: Promover o contato com o conhecimento historicamente produzido pela humanidade [...]
Praticamente com a mesma incidência de posicionamentos da categoria anterior estão os posicionamentos associados com a preparação para o mundo do trabalho.
P04: [...] e que esteja preparado para o mundo do trabalho, com formação em alguma área técnica.
P18: Mostrar o conhecimento humano aos alunos de forma atrativa e que permita a eles conhecerem o mundo ao qual irão atuar profissionalmente [...]
Por fim, na categoria compreensão de fundamentos científico-tecnológicos dos processos produtivos associamos os argumentos nos quais os docentes se referiam à possibilidade de os estudantes utilizarem os conhecimentos apreendidos na compreensão do mundo, mas sem apresentarem menções a posicionamentos críticos pelos estudantes. Assim, entendemos que neste conjunto os argumentos se relacionam a possibilidade de os estudantes tomarem decisões fundamentadas, como no exemplo que se segue:
P03: Levar o estudante a conhecer diversas formas de linguagem e poder aplicá-las em sua vida cotidiana. É necessário que o mesmo possa ver significado em suas aprendizagens e, assim, utilizá-las nas suas tomadas de decisão.
Entendemos que ao serem questionados sobre o papel do ensino médio, este grupo de professores incorpora em seus argumentos elementos muito próximos aos objetivos apresentados nas atuais diretrizes curriculares nacionais, principalmente no que se refere ao desenvolvimento do estudante como pessoa humana e a possibilidade de formação de um cidadão contemporâneo.
## Afinal, por que ensinar física na educação básica?
A segunda questão proposta para a reflexão dos professores objetivava conhecer o papel que eles atribuem ao ensino de Física na educação básica e se este papel vem sendo cumprido. Após realizarmos os procedimentos analíticos destacados anteriormente, identificamos que havia quatro perspectivas gerais em torno das quais os argumentos poderiam ser agrupados.
Tabela 2 - Frequência dos posicionamentos dos professores sobre o ensino de física em cada categoria proposta
A partir das análises dos posicionamentos apresentados pelos professores, identificamos que a maioria dos argumentos está associada à Física como um elemento de compreensão do mundo (22 posicionamentos). Estes argumentos consideram que por meio do aprendizado de tópicos da física o estudante tem a possibilidade de compreender o mundo que o cerca em diferentes perspectivas, como observamos nos exemplos a seguir:
P1: Pensando em um cidadão critico em todo o contexto em que viva, o ensino de física deve estar voltado para trazer aos alunos a compreensão da ciência dentro da sociedade, como ela molda o comportamento humano a partir da tecnologia, como funciona o sistema de energia em seu país e como ele é distribuído nas diversas regiões. [...]
P13: A física, assim como todas as ciências, fornece elementos para a compreensão do mundo em que vivemos. Assim, o papel da física é ajudar a compreender os fenômenos que nos cercam, bem como os modelos utilizados para descrever nossas observações [...]
Como podemos perceber nos exemplos anteriores, há duas perspectivas presentes nos argumentos que focalizam a física como compreensão do mundo. A primeira delas apresenta argumentos em uma dimensão mais ampla, o que estabelece relações da física, como área do conhecimento, com a possibilidade de compreender, não somente os fenômenos naturais, mas estabelecendo relações com diversos elementos da sociedade. Por outro lado, a segunda perspectiva desta categoria, nos parece relacionar a física com a compreensão do mundo natural, não explicitando argumentos que relacionam a física com outras dimensões.
A segunda categoria que apresentou maior número de posicionamentos relaciona-se com a possibilidade de o estudante utilizar os conhecimentos apreendidos da física escolar em situações cotidianas (8 posicionamentos). Nessa direção, a compreensão destes conteúdos de física deve auxiliar na tomada de decisão dos estudantes diante das situações que vivencia.
P2: A Física está presente a todo momento. Saber reconhecer os fenômenos físicos é essencial para o aprendizado no sentido de utiliza-lo em seu benefício. Ao entender sobre energia por exemplo, é possível reeducar o consumo e reduzir gastos desnecessários. [...]
A terceira categoria com maior incidência (7 posicionamentos) corresponde a dos argumentos que focalizam a compreensão de conteúdos conceituais da física, sem, necessariamente, estabelecer relações da física com aspectos vivenciais do estudante, ou mesmo com outras áreas do conhecimento, tal como no exemplo a seguir.
P29: Compreensão dos principais conceitos físicos elaborados pela humanidade ao longo dos anos.
Diferentemente do que identificamos nos argumentos sobre o ensino médio, em relação ao ensino de física localizamos apenas dois argumentos que relacionam o ensino de física com a possibilidade de o estudante continuar em seus estudos.
P4: O papel é fornecer conhecimentos científicos básicos para lidar com situações do dia a dia e também se preparar para ingressar na área de exatas em um possível curso superior.
Neste cenário, observamos que os posicionamentos apresentados pelos docentes direcionam o ensino da física para uma perspectiva na qual os estudantes, a partir do aprendizado destes conteúdos, devem poder compreender o mundo em que vivem e, para alguns os docentes desse grupo esse 'compreender o mundo'
envolve utilizar o conhecimento de Física para fundamentar as suas decisões. Ainda que esta perspectiva tenha sido aquela com menor incidência quando questionados sobre o ensino médio em geral, ocasião na qual o objetivo mais citado relacionavase com o aprimoramento do estudante como pessoa humana, ao passarmos para o conteúdo específico da física chamou-nos a atenção ser aquela com maior número de posicionamentos.
## Considerações Finais
Ao analisarmos os argumentos de um grupo de professores de física da educação básica sobre os objetivos propostos para o ensino médio, observamos que os posicionamentos apresentados, em grande parte, contemplam aspectos que relacionam a possibilidade de o ensino médio contribuir para o aprimoramento do estudante como pessoa humana. Neste conjunto, é importante ressaltar o destaque feito pelos professores sobre o ensino médio ter como objetivo a formação do cidadão, atribuindo-lhes em sua maioria uma perspectiva de criticidade. Tal perspectiva, entretanto, não aparece de forma tão clara quando questionados sobre os objetivos do ensino de Física. Nesse caso, há uma maior concentração de argumentos no sentido de reconhecê-lo como importante para a compreensão, pelo aluno, do mundo a sua volta (tanto fenômenos naturais como o universo tecnológico). Entretanto são poucos professores que acrescentam, para além da compreensão, a possibilidade de uma ação sobre esse mundo no sentido da sua transformação.
Quando focalizamos os nossos olhares para os argumentos sobre os objetivos para o ensino de física percebemos que os professores apresentam posicionamentos que consideram a possibilidade de compreensão do mundo por meio da física, embora seja dado pouco destaque a relações da física com a sociedade. Por outro lado, parece-nos não estar incorporada a relação entre a aprendizagem da física e a atuação no meio social, diferentemente do que as DCNEM apresentam sobre o papel do ensino médio.
## Referências
BARDIN, L. Análise de Conteúdo . São Paulo: Edições 70, 2011.
BRASIL. PCNs+ Ensino Médio: Orientações Educacionais Complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais. Ciências da Natureza, : MEC , p. 1-141, 2002.
BRASIL. Resolução N 2, De 30 De Janeiro 2012 o . . [S.l: s.n.], 2012
KRASILCHIK, M. Reformas e realidade: o caso do ensino das ciências. São Paulo em Perspectiva , v. 14, n. 1, p. 85-93, 2000.
SACRISTÁN, J. G. O Currículo: Uma reflexão sobre a prática . 3. ed. Porto Alegre: ArtMed, 1998.
SACRISTÁN, J. G. O que significa o currículo? In: SACRISTÁN, J. G. (Org.) . Saberes e incertezas sobre o currículo . Porto Alegre: Penso, 2013. p. 542.
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