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PRÁTICAS DISCURSIVAS DO ENSINO DE FÍSICA: Uma Análise do Discurso dos Alunos Concluintes do Curso de Licenciatura Plena em Ciências Naturais da UEPA

Maria Josevett Almeida Miranda, Odete Pacubi Baierl Teixeira

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XVII
Ano
2018
Data
30/08/2018
Linha de pesquisa
Co-19 Ensino, Aprendizagem E Avaliação Em Física / Linguagem E Cognição No Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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XVII Encontro de Pesquisa em Ensino de Física - 2018

PRÁTICAS DISCURSIVAS DO ENSINO DE FÍSICA: Uma Análise do Discurso dos Alunos Concluintes do Curso de Licenciatura Plena em Ciências Naturais da UEPA

## DISCURSIVE PRACTICES OF PHYSICAL EDUCATION: A Discourse Analysis of the Final Pupils of UEPA's Full Degree in Natural Sciences

## Maria Josevett Almeida Miranda 1 , Odete Pacubi Baierl Teixeira 2

1 UNESP/Programa de Pós-graduação em Educação para a Ciência/almeida.josevett@gmail

2 UNESP/ Programa de Pós-graduação em Educação para a Ciência/opbt@terra.com.br

## Resumo

Este artigo faz parte de uma pesquisa científica sobre práticas discursivas do Ensino de Física no Curso de Licenciatura Plena em Ciências Naturais da UEPA. Em virtude de ser uma pesquisa em andamento, os resultados aqui apresentados, devem ser entendidos como provisórios, muito embora já expressem a perspectiva de um dos pólos construtores dessas práticas, ou seja, dos acadêmicos-concluintes do referido Curso. Este estudo, inspira-se em um referencial teórico que dá suporte a análise de discurso (AD), de autores clássicos e contemporâneos, tais como Marx, Bakhtin, Foucault, Pechêux e, Orlandi, entre outros, que apresentam uma análise dialética e histórica do discurso no interior de seu contexto social, histórico, político e social, sem perder de vista, as condições materiais de existência dos sujeitos sociais diretamente envolvidos nas práticas discursivas estudadas. Os resultados aqui obtidos, revelam uma perspectiva contraditória entre os sujeitos entrevistados, mas pôde-se observar, uma certa preponderância de práticas discursivas abstratas, difíceis de serem compreendidas pelos alunos porque não partem do cotidiano de vida desses sujeitos sociais.

Palavras-Chave : Práticas Discursivas. Ensino de Física. Licenciandos.

## Abstract

This article is part of a scientific research on the discursive practices of Physics Teaching in UEPA's Full Degree in Natural Sciences. Due to being a research in progress, the results presented here should be understood as provisional, even though they already express the perspective of one of the poles constructing these practices, that is, of the academic-finalists of said Course. This study is inspired by a theoretical framework that supports discourse analysis (AD), by classical and contemporary authors, such as Marx, Bakhtin, Foucault, Pechêux and, Orlandi, among others, who present a dialectical and historical analysis of the discourse within its social, historical, political and social context, without losing sight of the material conditions of existence of the social subjects directly involved in the studied discursive practices. The results obtained here reveal a contradictory perspective among the subjects interviewed, but it was possible to observe a certain preponderance of abstract discursive practices that are difficult for students to understand because they do not depart from the daily lives of these social subjects.

Keywords: Discursive Practices. Teaching Physics. Licenciandoos

## Introdução

Este artigo visa comunicar os resultados provisórios de uma pesquisa mais abrangente que estamos realizando sobre os discursos apresentados por alunos concluintes do Curso de Licenciatura Plena em Ciências Naturais da Universidade Estadual do Pará (UEPA) envolvendo o ensino de física.

A perspectiva dialógica que procuramos estabelecer entre a teoria e os 'achados' na pesquisa está embasada no referencial teórico da análise de discurso (AD), de autores clássicos e contemporâneos, tais como Marx, Bakhtin, Foucault, Pechêux e, Orlandi, entre outros, que apresentam uma análise dialética e histórica do discurso no interior de seu contexto social, histórico, político e social, sem perder de vista, as condições materiais de existência dos sujeitos sociais diretamente envolvidos nas práticas discursivas estudadas.

Os objetivos da pesquisa que realizamos, não é apenas descrever factualmente tais práticas, mas desvelar os processos sociais contraditórios subjacentes aos discursos dos 'sujeitos-falantes', mas que, ao mesmo tempo, passivos ou ativos, também são sujeitos-construtores dessas práticas, seja em salade-aula, ou em outros ambientes não-escolares, em que essas práticas mediatizam relações de ensino-aprendizagem entre os atores sociais diretamente envolvidos no processo educativo do ensino de Física do referido Curso

## Procedimentos Metodológicos

- O estudo se caracteriza como uma pesquisa qualitativa, na medida em que, fizemos uso de um conjunto de técnicas qualitativas de pesquisa, por meio das quais, analisamos as práticas discursivas do ensino de Física do Curso de Ciências Naturais da UEPA. Realizamos também uma pesquisa documental, a partir entre outros, os seguintes documentos: projeto político-pedagógico do Curso de Ciências Naturais da UEPA; Relatórios Semestrais e Anuais das Atividades do Curso mencionado, elaborados pela Assessoria Pedagógica e; os 'Textos-Fonte' adotados pelos professores do Curso. Executamos uma pesquisa exploratória com os alunos , concluintes do Curso de Licenciatura Plena em Ciências Naturais da UEPA com ênfase em Física aplicando a técnica da conversação informal replicada durante 10 (dez) conversações no início do semestre. Considerando que esta investigação científica, é de cunho, essencialmente qualitativo, aplicamos ainda, a técnica da entrevista semi-estruturada com o total dos alunos concluíntes, ou seja, cinco alunos do Curso de Licenciatura Plena de Ciências Naturais da UEPA, com ênfase em Física .
- O referencial teórico-metodológico adotado, foi o da vertente francesa da Análise do Discurso, envolvendo os estudos de Michel Pêcheux e Eni Orlandi, visando enfocar os discursos viabilizados e construídos no processo educativo do Curso.

Desta forma, o lugar que os sujeitos ocupam e o contexto sócio-histórico e cultural são condicionantes nos dizeres e nos seus sentidos, onde o discurso e a ideologia se interpenetram dialeticamente, determinando o que pode e deve ser dito.

## Análise e Discussão

Iniciamos a análise a partir do que foi constatado pelas 'falas' dos alunos entrevistados. A unanimidade dos respondentes, afirmaram que as práticas discursivas do ensino de Física no Curso de Ciências Naturais da UEPA, foram

construídas pelos cientistas já consagrados no campo da Física e, ao mesmo tempo, pelos professores de Física, mas que tais professores, são pesquisadores de outras universidades, quase sempre, doutores considerados renomados, vindos do continente europeu, norte-americano e das regiões sul/sudeste do Brasil, como podemos constatar pela 'fala' dos alunos, quando dizem:

Tudo que é ensinado em Física no Curso, tanto teórico como prático sobre o conhecimento desta Ciência que devemos aprender nas aulas, são extraídos dos livros, dos artigos e das pesquisas dos grandes cientistas já consagrados no campo da Física internacionalmente, Galileu, Copérnico, Newton, Einstein e etc..., bem como dos professores de Física das Universidades de Excelência no país, USP, UNICAMP, UNESP e etc. (ENTREVISTADOS Nº S 1, 2, 3, 4, 5, 1º Sem/2017)

Os 'textos-fonte' adotados no Curso, são extraídos dos livros de Física, traduzidos do estrangeiro, enquanto outros, são produtos de pesquisa dos professores do centro sul/sudeste do país, o que nos leva a induzir que, os alunos entrevistados, não se veem como 'sujeitos-construtores' dessas práticas, como podemos verificar na citação abaixo dos alunos concluíntes entrevistados:

As Leitura de 'textos-fontes' sobre o conhecimento de Física ensinado nas aulas, são por ordem de prioridade os livros mais adotados pelos professores: 'Fundamentos da Física', Vol. 2 e 3 de HALLIDAY; 'Curso de Física Básica' Vol. 1, 2, 3: Moysés NUSSENZVEIG; 'Mecânica Clássica': SYMON; 'Física Moderna': TIPLLER e mais 18 artigos comunicados em Eventos de Física. (ENTREVISTADOS Nº S 1, 2, 3, 4, 5, 1º Sem/2017)

Os licenciandos não se consideram potencialmente preparados ainda, para participarem das pesquisas nesta área de conhecimento, seja porque seus professores fazem pouca pesquisa na área, seja porque a própria UEPA, ainda não privilegia esta atividade como prioritária, dando mais importância ao ensino, o que nos leva a crer, que muito embora os dois argumentos sejam verossímeis, para explicar a pouca influência da pesquisa como fonte de produção dessas práticas discursivas no ensino de Física, no caso da UEPA, ambas justificativas fornecidas pelos alunos não são mutuamente excludentes, mas se implicam reciprocamente como podemos ratificar pelas 'falas' dos alunos quando expressão que :

Nós não somos construtores do conhecimento de Física ensinado no Curso porque não somos pesquisadores, mas como alunos, estamos nos formando nesta área de conhecimento para termos domínio neste campo e sabermos repassar o conhecimento aos nossos futuros alunos. (ENTREVISTADOS Nº S 1, 2, 3, 4, 5, 1º Sem/2017)

Segundo os alunos respondentes, as tendências que orientam as práticas discursivas do ensino de Física no Curso de Ciências Naturais da UEPA, são basicamente duas: a positivista/funcionalista e a estruturalista-reprodutivista. As justificativas fornecidas pelos entrevistados são que as diferentes práticas veiculam discursos altamente abstratos através de aulas expositivas que, tomam por base a Ciência já construída sobre a natureza física do universo e seus fatos naturais, por isso, grande parte desse conteúdo, sobretudo aqueles ministrados no início do Curso, são facilmente esquecidos, pois geralmente, não fazem muito sentido em sua vida social cotidiana, como foram relatados pelos alunos, segundo os quais:

Os discursos sobre o conhecimento de Física ensinados no Curso são diversificados, mas veiculados através de aulas expositivas e teóricas que tomam por base os fatos naturais do universo, que retirados dos livros dos autores já consagrados no campo da Física, precisam ser memorizados para se dar conta das Provas, já que esse conteúdo é cobrado nestas avaliações.

Temos que estudar as regularidades das relações entre tais fatos, pois é através destas relações que o universo evoluem baseadas nestas leis físicas positivistas , a fim de se verificar suas funções na natureza.(ENTREVISTADOS Nº S 1, 2, 3, 4, 5, 1º Sem/2017)

Conforme assinalou a matriz analítica de sistematização das 'falas' dos alunos entrevistados, as principais dificuldades que enfrentam atualmente no Curso, são entre outros problemas, a não entrega das avaliações por parte dos professores, no Serviço de Registro e Controle Acadêmico da UEPA, o que dificulta a rematrícula dos alunos e, se os mesmos, foram ou não, aprovados naquelas disciplinas, o que muito prejudica, o planejamento das atividades do próprio aluno e da Coordenação do SERCA(Serviço de Registro e Controle Acadêmico). Assim, para tais sujeitos da informação:

Na nossa turma atual, com cerca de 16 alunos, apenas 5 estão mais ou menos cientes que vão concluir o Curso ainda este ano (2º Sem/2017), pois a não entrega das notas do semestre anterior na Secretaria do SERCA/UEPA, dificulta a nossa matrícula no 8º semestre do Curso, além de prejudicar a composição das turmas e o próprio planejamento de nossas atividades acadêmicas, enquanto alunos e, a própria lotação de quem serão nossos professores por parte do departamento de Ciências Naturais da UEPA. Além disso, somos alunos que trabalhamos e é difícil conciliar estudo com a necessidade do trabalho, já que não temos bolsa de estudo da UEPA. (ENTREVISTADOS Nº S 1, 2, 3, 4, 5, 1º Sem/2017).

Outra dificuldade apontada, é que, as aulas são fundamentalmente teóricas, já que o Curso não possui um laboratório específico para aulas práticas; além de terem optado pelo Curso porque este em relação ao Curso de Medicina que alguns deles almejavam, apresentava uma baixa relação candidato x vaga, por isso havia uma maior probabilidade de serem aprovados como podemos verificar nas 'falas' desses acadêmicos quando afirmam que:

Não há no Curso uma cultura de um ensino por investigação científica. Sobre isto, só estudamos no início do Curso uma disciplina de 60h/a chamada 'Metodologia Científica', por isso quando temos que elaborar o TCC, não sabemos como construí-lo. De todo modo, estou no Curso para ter base para me candidatar ao vestibular de Medicina ou Engenharias. (ENTREVISTADOS Nº S 1, 2, 3, 4, 5, 1º Sem/2017).

Além, em seus depoimentos, disseram ainda que:

... o que dificulta nossa aprendizagem é que as aulas são essencialmente teóricas. O Curso não tem uma biblioteca setorial específica e nem um laboratório especificamente para o ensino de Física. O existente é de Biologia e não está equipado e nem adaptado para o ensino de Física. (ENTREVISTADOS Nº S 1, 2, 3, 4, 5, 1º Sem/2017)

Dando continuidade a análise das entrevistas, observamos também, segundo os alunos-concluintes que:

Os conteúdos do conhecimento no ensino de Física é muito abstrato e por isso difícil de ser explicado pelas fórmulas matemáticas que devem ser memorizadas para que as estruturas dos fatos físicos possam ser reproduzidos nas aulas práticas que são poucas no Curso, mas não vejo muito sentido aprender essas fórmulas e, até me pergunto o que isto vai me ajudar na minha vida do 'dia-a-dia. (ENTREVISTADOS Nº S 1, 2, 3, 4, 5, 1º Sem/2017)

Outro problema apontado, é a baixa carga horária das disciplinas, por isso, o professor não dá conta de ministrar todo o conteúdo programático da ementa; além do número excessivo de disciplina, que são obrigados a cursar durante cada semestre, que variam entre 7 a 11 disciplinas, perfazendo anualmente mais de 14 a 22 disciplinas durante o ano letivo, pois embora a média de disciplina por semestre seja 7, entretanto pela falta de professores suficientes, não são ofertadas determinadas disciplinas obrigando o aluno do próximo semestre cursá-la em outro período letivo e em outra turma diferente da sua original, o que sobrecarrega determinado semestre letivo.

Quase todos os alunos entrevistados, assinalaram ainda, como uma grande dificuldade enfrentada por eles, a impossibilidade de conciliar o estudo com a necessidade do trabalho como já fora citado em 'falas' anteriores pelos alunos concluíntes.

## Considerações finais

Um ponto a ser destacado é que uma das autoras do artigo, também faz parte do universo observado, enquanto professora de Didática no Curso estudado, e no seu entendimento, seria mais pedagogicamente recomendável, que o professor desta disciplina, fosse um Licenciado Pleno em Física para ministrá-la e, não simplesmente um pedagogo de formação. Todavia, por intermédio, da técnica da 'Observação Pedagógica' realizada nas aulas do Curso mencionado, os professores, em sua grande maioria, não são licenciados plenos, não tendo, portanto, formação pedagógica para o magistério. Por outro lado, o estatuto da UEPA permite que qualquer graduado com especialização, mestrado ou doutorado, desde que tenha a disciplina em seu histórico escolar, para qual o edital do concurso torna público, pode se candidatar, legalmente, pelo menos na UEPA, não havendo a exigência de formação pedagógica, o que de certa forma, explica o porquê dos alunos entrevistados afirmarem que seus professores dominam o conhecimento científico já consolidado no campo da Física, porém não tem didática para socializar este conhecimento no contexto da sala de aula, com os seus alunos.

Outro ponto observado foi que quando recebi, por parte da monitora da turma, uma das alunas concluintes, cerca de 18 textos em forma de artigos científicos, que seus professores trabalharam em sala-de-aula, grande parte dos entrevistados, consideraram muito difíceis. Estes textos abordavam teorias pedagógicas, tais como as de Vigotsky, Habermas, Ausubel, Piaget, dentre outras, foram considerados de difícil entendimento por parte dos alunos, que seus professores reproduzem do Curso de doutorado que fizeram ou estão cursando.

Assim, com base no exposto, conclui-se que, pela perspectiva dos alunosconcluintes do Curso, as práticas discursivas do ensino de Física, estão expressando ações reprodutivistas da ordem social vigente. Envolve um ensino conteudístico positivista, ultrapassado e bastante distante do mundo de vida de seus alunos, razão pela qual, não tem ressonância significativa, para que esses sujeitos sociais possam ressignificá-los, de forma socialmente transformadora, em prol de uma educação autoemancipadora.

Os alunos em nenhum momento se viram como 'sujeitos-construtores' destas práticas discursivas, pois não se dão conta, de que não basta um enunciador, uma vez que, os 'atos da fala', e os discursos, envolvem ações e reações e, portanto, processos de alteridade. Mesmo que não sejam contestadores-ativos em sala-de-

ão de certa forma, aceitando, ou seja, legitimando o discurso em suas práticas autoritárias e, aparentemente unilateral, que se deixam dominar de forma inconsciente pelo discurso competente de base eurocêntrica, e inferiorizando seus saberes e práticas que trazem de seu cotidiano sócio-cultural de vida.

## Referências

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